Vão quatro ou seis artilheiros

Cavalgar-lhe a artilharia,

Porque em sendo noite dá

Fogo a toda cousa viva.

Fira com balas hervadas,

A que não ha medicina,

Porque as traz sempre na bocca

Com venenosa saliva.

O caso é monstruosidade,

Porém não é maravilha,

Que haja cobras e lagartos

Entre tanta sevandija.

Só digo que é boa peça,

Porque na peça escondida,

Vella na peça de noite,

Dorme na peça de dia.

Á BRITES

UMA PARDA DAMA, VULGARMENTE CHAMADA BETICA, PEDINDO-LHE CEM MIL RÉIS

ROMANCE

Betica, a bom matto vens

Com teu dá cá, com teu toma,

O diabo te enganou,

Não póde ser outra cousa.

Viste-me acaso com geito

De commissario de frotas,

Que faz roupa de Francezes

Dos brocados de Lisboa?

Sou eu acaso o Masullo,

Que do que tem de outras contas

Dá sem conta em cada um anno

Cem mil cruzados á Rola?

Sou matachim por ventura,

Que vim ante-hontem da Angola,

Que dos escravos alheios

Faço mercancia propria?

Menina, eu bato moeda?

Eu sou um pobre idiota,

Que para um tostão ganhar

Estudo uma noite toda.

Cem mil réis me vens pedir?

A mim cem mil réis, demonia?

Si eu algum dia os vi junctos,

Deus m’os dê e tu m’os comas.

Si eu nascêra Genovez,

Ou fôra Viz-Rei de Goa

Vinte e quatro de Sevilha,

Ou quarent’oito de Roma:

Dera-te, minha Betica,

Pela graça com que tomas,

Mais ouro que vinte minas,

Mais seda que trinta frotas.

Mas um pobre estudantão,

Que vive á pura tramoia,

E sendo leigo se finge

Cleriguissimo corona:

Que póde, Betica, dar-te

Sinão que versos, nem prosas?

Eu não dou sinão conselhos,

Si m’os paga quem m’os toma.

Si me ha de custar tão caro

Erguer-te uma vez a roupa,

Com outra antes de barrete,

Do que comtigo de gorra.

Para que sendo tão rica

Pedes como pobretona,

Si esses teus dentes de prata

Estorvam dar-se-te esmola?

Que mais cabedal deseja,

Si és tão rica de perolas,

Que com varios chistes pedes

Todo um dia a mesma cousa?

Tu pedindo, e eu negando,

Que cousa mais preciosa,

Que val mais do que desejas,

E a ti nada te consola.

Cem mil réis de uma só vez!

Pois, pobreta, á outra porta:

Deus te favoreça, irmã,

Não ha trocado, perdoa.

Não ha real em palacio:

Ando baldo; perdi a bolsa,

Que são os modos com que

Se despede uma pidona.

Á ANNICA

OUTRA SIMILHANTE PARDA PEDINDO-LHE UM CRUZADO PARA PAGAR UNS SAPATOS

ROMANCE

Um cruzado pede o homem,

Annica, pelos sapatos,

Mas eu ponho isso á viola

Na postura do cruzado.

Diz que são de sete pontos,

Mas como eu tanjo rasgado,

Nem nesses pontos me metto

Nem me tiro d’esses trastos:

Inda assim si eu não soubera

O como tens trastejado

Na banza dos meus sentidos,

Pondo-me a viola em cacos:

O cruzado pagaria,

Já que fui tão desgraçado,

Que boli co’ a escaravelha,

E toquei sôbre o buraco.

Porém como já conheço

Que o teu instrumento é baixo,

E são tão falsas as cordas,

Que quebram a cada passo:

Não te rasgo, nem ponteio,

Não te ato, nem desato,

Que pelo tom que me tanges,

Pelo mesmo tom te danço.

Busca outros temperilhos,

Que eu já estou destemperado,

E estou na quinta do Pegas

Minhas cousas cachimbando.

Si tens o cruzado, Annica,

Manda tirar os sapatos,

E sinão lembre-te o tempo,

Que andaste de pé rapado.

E andavas mais bem segura,

Que isto de pizar em saltos

É susto para quem piza,

E a quem paga é sobresalto.

Quem te curte o cordavão

Porque não te dá sapatos?

Mas eu que te rôo o osso

É que hei de pagar o pato?

Que diria quem te visse

No meu dinheiro pizando?

Diria que quem t’o deu

Ou era besta, ou cavallo.

Pois porque não digam isso,

Leve-me a mim São Fernando,

Si os der, e si tu os calçares,

Leve-te, Annica, o diabo.

De mais, que estou de caminho,

E seria mui grande asno

Estar para dar a sola,

E a ti deixar-te os sapatos.

Agora si eu cá tornar,

Trarei pelles de veado

Para dar-te umas chinelas

Duraveis, que é mais barato.

Fica-te na paz de Deus,

Saudades até quando,

Vem-te despedir de mim,

Porque de hoje a oito parto.

A UMAS MOÇAS

QUE COSTUMAVAM IR A UMA ROÇA

ROMANCE

Vamos cada dia á roça,

Si é que vai a camarada,

Que ri e folga á franceza,

E pinta á italiana.

Vamos, e fiquemos lá

Um dia ou uma semana,

Que emquanto as gaitas se tocam

Sabe a roça como gaitas.

Vamos á roça inda que

Nos fique em tantas jornadas

Cada meia sem palmilha,

E sem sola cada alparca.

Vá Mané, e vá Marcella,

Vá toda a nossa prosapia,

Excepto a que por casar

Não põe pé fóra de casa.

Case e tão casada fique,

Que nem para fazer caca

Jamais o marido a deixe,

Nem se lhe tire da ilharga.

Case, e depois de casar-se

Tanto gema, e tanto paira,

Que caia em meio das dores

Na razão das minhas pragas.

Case, e tanto se arrependa,

Como faz toda a que casa,

Que nem para descasar-se

A via da egreja saiba.

E nós vamos para a roça

Co’nosso feixe de gaitas,

Até ver-me descasada,

Para me rir de quem casa.

Á MULATA JOANNA GAFEIRA

ESTANDO QUEIXOSA DO POETA A HAVER SATYRISADO

ROMANCE

Não posso cobrar-lhes medo,

Joanna, a vossos focinhos,

Que como sois tão formosa,

Cede á verdade o fingido.

Tanta olhadura a travez,

Tanto focinho torcido,

Tanto pescoço empinado,

Tanto esguelhado beicinho,

São modos tão extrangeiros,

Alheios e peregrinos

Das perfeições naturaes

Do vosso rosto divino,

Que jámais podem fazer

No meu peito amante e fino

Retroceder as tenções,

Nem arribar os designios.

Sempre caminhando ávante,

Nunca deixando o caminho,

Ando atraz de ver si posso

Chegar a vosso captivo.

Si me ferraes esta cara

Co’um favorzinho de riso,

Me hei de rir de farto então

Do mundo e seus regosijos.

Hei de pôr-me a rir então

De sorte que a riso fito

Me hão de ter em todo o orbe

Por Democrito dos risos.

Olharei para a Beleta,

E me rirei dos meninos,

Que andam sempre a belisca-la

Qual mono com seus bugios.

Olharei para Apollonia,

E de a ver entre os corrilhos

De tanta canastra honrada,

Que é a nobreza do sitio.

Rirei de ver cada um

Ir-se d’aqui despedido,

Entonces mais carregado,

Porque entonces mais vazio.

A elles pelas estradas

Suspirando pelo sitio,

A ella pelos oiteiros

Zombando de taes suspiros.

A elles tomando o tolle

Para o sertão fugitivos,

Tanto fugindo dos amos,

Como da conta fugindo.

A ella por capoeiras

Estreando co’ os meninos

A baetinha dos pobres,

A serafina dos ricos.

Para a Ursula olharei,

E rirei de a ver no Sitio

Parafuzando pivetes

Pela tarracha do embigo.

Rirei de ver os amantes,

Rirei de ver os queridos,

Que tendo-se por ditosos,

São em seus gostos mofinos.

E só feliz eu serei,

Si lógro os vossos carinhos,

E me impingis nesta cara

Da vossa bocca um beijinho.

Tende-me na vossa graça,

E a queixa se torne em riso,

A malquerença em amor,

E o desfavor em carinho.

Á DAMAZIA

OUTRA MULATA QUE CHAMAVA SEU UM VESTIDO QUE TRAZIA DE SUA SENHORA

ROMANCE

Muito mentes, mulatinha!

Valha-te Deus por Damazia,

Não sei quem, sendo tu escura,

Te ensina a mentir ás claras.

Tal vestido, e com tal pressa!

Não vi mais ligeira saia:

Mas como a seda é ligeira,

Foi a mentira apressada.

Tal vestido não é teu,

Nem tu tens, Damazia, cara

Para ganhar um vestido,

Que custa tantas patacas.

Tu ganhas dous, tres tostões

Por duas ou tres topadas,

Não chegam as galaduras

Para deitar uma gala.

Nem para os feitios chegam

Os troquinhos que tu ganhas,

Pois não vale o teu feitio

Mais que até meia pataca.

De soldado até sargento,

Ou até cabo de esquadra,

Não passa o teu roçagante,

Não te chega a triste alçada.

Estes que te podem dar

Mais que uma vara de cassa,

Uma cinta de baeta

E saia de persiana;

Collete de chamalote,

E de vara e meia a fralda,

Que fazem oito mil réis,

Que é valor da pobre farda.

Todos sabem que o vestido,

Que em verdes campos se esmalta,

É verdura de algum besta,

Que em tua senhora pasta.

Mas o que é d’ella teu é,

Que é outra que tal jangada,

E talvez por t’o emprestar

Se ficaria ella em fraldas.

Apostemos que não vestes

Outra vez a verde saia!

E nem de a vestires mais

Te ficam as esperanças.

Ora toma o meu conselho,

E vive desenganada,

Que emquanto fores faceira

Não has de ganhar pataca.

Á UMA DAMA

POR NOME IGNACIA PAREDES

ROMANCE

Quiz ir a festa da Cruz

Ignacia, e faltou-lhe a rede,

Como que foi força ficar

Paredes entre paredes.

Outros dizem que uma amiga

Lhe pediu o manto adrede,

Pela ter emparedada

Todo o dia, em que lhe peze.

Não sei a verdade d’isto,

Sei que eu paguei a patente,

Tendo um dia de trabalho,

Porque de festa lh’o désse.

A saber que estava em casa,

Visitara-a como sempre,

E fizera o que costumam

Casados _in facie Ecclesiæ_.

Fôra-me pôr á janella,

Porque o calor me refresque,

Fallára co’as Guapas sujas,

Que são limpas guapamente.

Marianna se agastára,

Que tudo escuta e attende,

Por isso diz o adagio:

Manso, que ouvem as paredes.

Sabendo d’este ciume

Foram as Guapas contentes,

Que inda que mulheres feias,

São feias, porém mulheres.

Ignacia se socegára,

Que é moça mansa e alegre,

E com dous mimos se põe,

Sendo Ignacia, uma clemente.

Da sua amiga me queixo,

Que cão de horta me parece,

Pois em todo o dia nunca

Comeu, nem deixou comer-me.

Com Ignacia já não quero

Lançar mais barro á parede,

Que de mui sêcca receio

Que alli meu barro não pegue.

Uma mãe com duas filhas

Na verdade é pouca gente,

Para que eu possa cantar

Prêso entre quatro paredes.

Tres só não fazem prisão,

Porque um triangulo breve,

Que um sino Salmão figura,

Mais enfeitiça que prende.

Mas a parede de Ignacia,

Com ser uma tão sómente,

Como é tão forte e tão rija,

Bastou só para prender-me.

Perdi o ganho essa tarde,

E cuido que para sempre,

Quem m’a pegou uma vez,

Não quero que outra me pegue.

Da Sancta Cruz era a festa,

E a maldicta da Paredes,

Com cruz e sem cruz receio

Me faça calvarios sempre.

Eu perdi moça que agrade,

Ella velho que aconselhe,

Ambos ficámos perdidos,

Quem o vê que o remedeie.

Á UMA MOÇA POR NOME BARBARA

ROMANCE

Babú, como ha de ser isto?

Eu me sinto já acabar,

E estou tão intercadente,

Que não chego té amanha.

Morro da vossa belleza,

E si ella me ha de matar,

Como eu creio que me mata,

Formosa morte será.

Mas seja formosa ou feia,

Si o Deão me ha de enterrar,

Por mais formosa que seja,

Sempre caveira será.

Todos já aqui desconfiam,

Tudo é já desconfiar,

Da minha vida os doutores,

E eu de vosso natural.

Desconfio de que abrande

Vosso rigor pertinaz;

E a minha vida sem cura

Sem duvida acabará;

Porque si estaes incuravel,

E tão sem remedio está

O achaque de não querer-me,

E o mal de querer-me mal:

Que esperança posso eu ter,

Ou que remedio ha capaz,

Si vós sois a minha vida,

E morreis por me matar?

Amor é união das almas

Em conformidade tal,

Que porque estaes sem remedio,

Por contagio me mataes.

Curai-vos de mal querer-me,

E do fastio em que estaes

A minha triste figura,

Que ao demo enfastiará.

Comei, e seja o bocado,

Que com gosto se vos dá,

Porque em vós convalescendo,

Hei de eu também melhorar.

Assim sararemos ambos,

Porque si vós me enfermaes

Pelo contagio, o remedio

Por sympathia será.

Vós, Babú, viraes-me as costas,

Pois eu faço outro por tal:

Estou ás portas da morte,

A falla me falta já.

Quero fazer testamento,

Mas já não posso fallar,

Que vós por costume antigo

Sempre a falla me quitaes.

Mas testarei por acenos,

Que tudo em direito ha,

E si por louco o não posso,

Posso por louco em amar.

Todos meus bens, si os tivera,

Os deixára a vós não mais;

Mas deixo-vos para outrem,

Que é o mais que posso deixar

Si hei de deixar-vos a vós

Quantos bens no mundo ha,

Em vos deixar a vós mesma,

Arto herdada assim ficaes.

Em suffragios da minha alma

Não gasteis o cabedal,

Que aos vossos rigores feita

Penas não ha de extranhar.

Mas si por minhas virtudes,

E si por vos jejuar,

E si por tantas novenas,

Que á vossa imagem fiz já,

Vos mereço algum perdão

Dos peccados que fiz cá,

Assim em vos perseguir,

Como em vos desagradar:

Com as mãos postas vos peço

Que no vosso universal

Juizo mandeis minha alma

Ao vosso Céu descançar

Não a mandeis ao Inferno,

Que arto inferno passou cá:

Adeus, e apertae-me a mão,

Que eu me vou a enterrar.

SATYRISA

ALLEGORICAMENTE A VARIOS LADRÕES DA REPUBLICA

ROMANCE

Hontem, Nise, á prima noite

Vi sôbre o vosso telhado,

Assentados em cabido,

Cinco ou seis formosos gatos.

Estava a noite mui clara,

Fazia um luar galhardo,

E porque tudo vos diga,

Estava eu em vós cuidando.

O presidente ou deão,

Na cumieira assentado,

Era um gato macilento,

Barbirruço e carichato.

Os demais em boa ordem,

Pela cumieira abaixo,

Lavandeiros de si mesmos,

Lavavam punhos e rabos.

Tão profundo era o silencio,

Que não se ouvia um miau,

E o deão interrompeu

Dando um mio acatarrado.

Tossiu, tossiu, e não pôde

Articular um miau,

Que de puro penitente

Traz sempre o peito cerrado.

Eis que um gatinho Reinol,

Muito estitico e mui magro,

Relambido de feições,

E de tono afalcetado,

Quiz por primeiro fallar,

E fallára em todo o caso,

Si outro gato casquiduro

Lhe não sahira aos embargos.

«Eu sou gato de um meirinho,

Disse, que pelos telhados

Vim fugindo a todo o trote

Do poder de um saibam quantos.

Com que venho a concluir

Que servindo a taes dous amos,

Hei de fallar por primeiro,

Porque sou gato de gatos.

Falle, disse o Presidente,

Pois lhe toca por anciano,

E elle tomando-lhe a venia

Foi o seu conto contando.

Em casa d’este escrivão

Me criei com tal regalo,

Que os demais gatos de casa

Eram commigo uns bichanos.

Mas cresci e aborreci,

Porque se cumprisse o adagio

Que official de teu officio

Teu inimigo declarado.

Foi-me tomando tal odio

Porque foi vendo e notando,

Que era eu capaz de dar-lhe

Até no officio um gatazio.

Topou-me em uns entreforros,

E tirando-me porraços,

Eu lhe miava os narizes,

Quando elle me enchia os quartos.

Fugi, como tenho dito,

E me acolhi ao sagrado

De uma vara de justiça,

Que é valhacouto de gatos.

Sahe meu amo aos prendimentos,

E eu fico em casa encerrado

Por caçador de balcões,

Onde jejuo o trespasso.

Porque em casa de um meirinho,

Nas suas arcas e armarios,

É quaresma toda a vida,

E temporas todo o anno.

Não posso comer ratinhos,

Porque cuido, e não me engano,

Que de meu amo são todos

Ou parentes ou paisanos.

Porque os ratinhos do Douro

São grandissimos velhacos:

Em Portugal são ratinhos,

E cá no Brazil são gatos.

Eu sou gato virtuoso,

Que a puro jejum sou magro:

Não como por não ter que,

Não furto por não ter quando.

E como sobra isto hoje

Para me terem por sancto,

Venho a pedir que me ponham

No calendario dos gatos.»

Acabada esta parlanda,

Muito ethico de espinhaço

Sôbre as moletas das pernas

Se levantou outro gato,

Dizendo: ha annos que sirvo

Na casa de um boticario,

Que a recipe de pancadas

Me tem os bofes purgados.

Queixa-se que lhe comi

Um boião de unguento branco,

E lhe bebi nessa noite

Um cangirão de rhuibarbo.

Diz bem, porque assim passou,

Mas eu fiquei tão passado,

Como de tal solutivo

Dirá qualquer matasanos.

Fiquei de humores exangue,

Tão escorrido e exhausto,

Que não sou gato de humor,

Porque nem bom, nem máu gato.

Supplico ao Senhor Cabido

Que de um homem tão malvado

Me vingue com ter saude,

Por não gastar-lhe os emplastos.»

Apenas este acabou,

Quando se ergueu outro gato,

E entoando o _jube domine_,

Disse humilde e mesurado:

«Meu amo é um alfaiate

Gerado sobre um telhado

Na maior força do inverno,

Alcoviteiro dos gatos.

É pardo rajado em preto,

Ou preto embutido em pardo,

Malhado ou já malhadiço

Do tempo em que fôra escravo:

Tão caçador das ourellas,

Tão murador dos retalhos,

Que com onças de retroz

Brinca qual gato com rato.

E porque com fio e meio

Joguei o sapateado,

Houve de haver por tão pouco

Uma de todo’ os diabos.

Estrugiu-me a puros gritos

E plantou-me no pedrado,

Que elle pelo cato é cão,

E eu fiquei gato por cabo.

Que de verdades dissera,

A estar menos indignado!

Que para fallar de um cão

É mui suspeitoso um gato.

Pelo menos quando eu corto,

Nunca dobro a téla em quatro,

Por dar um córte a seu dono

E outro a mim pelo trabalho.

Nem menos peço dinheiro

Para retroz, e o não gasto,

Porque o gavetão do cisco

Me dá o retroz necessario.

Não sizo covado e meio

Por dar um collete ao diabo,

Nem vendo de téla fina

Retalhinhos de tres palmos.

Tudo emfim se ha de saber

No universal cadafalso,

Que no tribunal de Deus

Não se estylam Secretarios.

Requeiro a vossas mercês

Que me ponham com outro amo,

Porque com este hei de estar

Sempre como cão com gato.»

«Á vista d’este alfaiate,

Disse o Cabido espantado,

«Somos nós gatos mirins,

Que inda agora engatinhamos.

O gato tome amo novo

Em qualquer convento honrado,

Seja fundador Barbonio,

Ou Sacristão mór do Carmo.»

A proposito do que

Se foi erguendo outro gato,

E amortalhado de mãos

Armou os hombros em arco.

E dizendo o _jube domine_,

Se poz em terra prostrado,

E eu disse logo: «me matem,

Si não é dos Franciscanos.»

«Sou gato de refeitorio,

Disse, ha tres ou quatro annos

Pagem do refeitoreiro,

Do despenseiro criado.

Fui custodio da cozinha,

E dei má conta do cargo,

Porque sizando rações

Fui guardião de tassalhos.

Era eu em outro tempo

Mui gordo e mui anafado,

Porque os da esmola então vinham

Despejar em casa os saccos.

Mas hoje que já da rua

Vêm os bolsos despejados,

Veiu a ser o refeitorio

Uma Thebaida de gatos.

Não póde o pão das esmolas

Manter tantos remendados,

Que em lhe manter as amigas

Sendo infinitas, faz arto.

Dei com isto em tizicar-me

E esburgar-se-me o espinhaço,

Não tanto já de faminto,

Quanto de escandalisado.

Não posso viver entre homens,

Que, si remendam uns pannos,

É mais por nos enganar

Que porque lhes dure o anno.

E hoje que na Casa Nova

Gastam tantos mil cruzados,

São gatos de maior dura,

Pois de pedra e cal são gatos.»

Palavras não eram ditas,

Quando zunindo e silvando

Sentiram pelas orelhas

Um chuveiro de bastardos.

E logo atraz d’isso o tiro

De um bacamarte atacado,

Que disparou de um quintal

Um malfazejo soldado.

Descompoz-se-lhe a audiencia,

E cada qual por seu cabo

Pela campanha dos ares

Foram de telha em telhado.

E depois que legua e meia

Tinha cada qual andado,

Parando olharam atraz

Attonitos e assustados.

E vendo-se desunidos,

Confusos, desarranchados,

Usaram da contra senha,

Miáu aqui, alli miáu.

E depois que se ajunctaram,

Disse um gato castelhano:

«Cada qual a sua cabana,

Que hoje de boa escapámos.»

Choviscou naquelle instante,

E safaram-se de um salto,

Porque sempre de agua fria

Ha mêdo o gato escaldado.

AO PADRE DAMASO DA SILVA

ROMANCE

Damaso, aquelle madraço,

Que em pés, mãos e mais miudos,

Pode bem dar seis e az

Ao maior Frizão de Hamburgo:

Cuja bocca é mentideira,

Onde acode todo o vulgo,

A escutar lá sobre a tarde

As mentiras como punhos:

Mentideiro frequentado

De quantos Senhores burros

Perdem o nome de limpos,

Pela amizade de um sujo:

Cuja lingua é Relação,

Onde acham os mais puros

Para accusar um fiscal,

Para cortar um verdugo.

Zote muito parecido

Aos vicios todos do mundo,

Pois nunca os alheios corta

Sem dar no seu proprio escudo.

Sancto Antonio de baeta,

Que em toda a parte do mundo

Os casos, que succederam,

Viu e foi presente a tudo.

O padre papa-jantares,

Hospede tão importuno,

Que para todo o banquete

Traz sempre de trote o buxo.

Professo da Providencia,

Que sem logar bazaruco

Para passar todo um anno

Nem dous vintens faz de custo.

Que os amigos o sustentam,

E lhe dão como de juro

O jantar, quando lhes cabe

A cada qual por seu turno.

E essa vez que tem dinheiro,

Que é de sete em sete lustros,

Tres vintens com um tostão,

Ou dois tostões quando muito:

Com um vintem de bananas,

E de farinha dois punhos,

Para passar dia e meio,

Tem certo o pão e o conducto.

Lisonjeiro sem recato,

Adulador sem rebuço,

Que por papar um jantar

De um sacristão faz um Nuncio,

De um tambor um general,

Um branco de um mameluco,

De uma sanzala um palacio,

E um galeão de um pantufo.

E em passando a occasião,

Tendo já repleto o buxo,

Desanda cu’a taramella,

E a todos despe de tudo.

Outro Satyro de Esopo,

Que co’o mesmo bafo astuto

Esfriava o caldo quente,

E aquentava o frio punho.

O Zote que tudo sabe,

O grande jurisconsulto

Dos litigios fedorentos

D’esta cidade monturo.

O Bartolo de improviso,

O subitaneo Lycurgo,

Que anoitece um sabe nada

E amanhece um sabe tudo.

O lettrado gratis dato,

E o que com saber infuso

Quer ser legista sem mestre,

Canonista sem estudo.

O graduado de douto

Na Academia dos burros,

Que é brava Universidade

Para doutorar brunduzios.

Magano sem repugnancia,

Desaforado sem susto,

Intromettido sem risco,

E sem desar abelhudo.

Fraquissimo pelas mãos,

E valentão pelo vulto,

No corpo um grande de Hespanha,

No sangue escoria do mundo.

Este tal, de quem falamos,

Como tem grandes impulsos

De ser baptiza-crianças

Para ser soca-defunctos;

E a Magestade de El-Rei

Tem já com mil esconjuros

Ordenado que o não collem,

Nem a uma egreja de junco:

Elle por manter desejos

Foi-se ao adro devoluto

Da Senhora do Loreto,

Onde está parocho intruso.

Ouvir é um grande prazer,

E ver é um gosto summo,

Quando diz: os meus Freguezes--,

Sem temor de um abrenuncio.

Item é um gosto grande,

Nas manhãs em que madrugo,

Vê-lo repicar o sino

Para congregar o vulgo.

E como ninguem acode,

Se fica o triste mazullo

Em solitaria estação

Dizendo missa aos defunctos.

Quando o Frizão considero,

O menos que d’elle cuido

É ser parocho boneco,

Feito de trapos immundos.

Isto sois, minha Bahia,

Isto passa em vosso burgo,

Toda sois, burgo rural,

Cidade nobre até os muros.

Á BENTO PEREIRA

ROMANCE

Amigo Bento Pereira,

Que em todo o nosso Brazil

Sois homem de muitas prendas,

Tendo tão pouco quatrim.

Assim agradára eu

A quatro villões ruins,

A quem nesta terra enfado,

Como me agradais a mim.

Vós sois um homem honrado

De generosa raiz,

Nobre com ventosidade,

Honrado com retintins.

Sois galan com artificio,

Aceiado com ardil,

Só vós sois homem honrado,

Os de mais homens gentis.

Todo o mundo vos quer bem,

Porque tendes, e é assim,

Cara de ter mil amigos.

Mil amigos? mais de mil.

Sois muito leal com todos,

Cousa que não se usa aqui,

Por isso sois mal servido

De quantos sabem servir.

Empeçou-vos a fortuna,

Que a fortuna é villão ruim,

Para os seus sempre a chegar-se,

E de vós sempre a fugir.

Agradais-me dentro d’alma,

Que como eu tambem cahi,

E os similhantes se amam,

Por similhante vos quiz.

Tende-me em conta de amigo,

E tereis sempre de mim

Excessos de par em par,

Finezas de mil em mil.

AOS CAVALLEIROS

QUE CORRERAM NA FESTA DAS VIRGENS NO ANNO DE 1685, PRIMEIRO DO GOVERNO

DO MARQUEZ DAS MINAS

Clori, nas Festas passadas,

Que ás virgens são off’recidas,

Houve quadrilhas corridas

Parentas de envergonhadas:

Porém estas realçadas

Vi neste anno derradeiro;

Pois na esphera do Terreiro

Apparecia um Brandão,

Que correndo exhalação,

Acabava cavalleiro.

Com estas apparições

De cometas tão luzidos

Nos Mirões espavoridos

Eram tudo admirações:

Em maximas conjuncções

De ouro, de prata e mil côres,

Notei que os festejadores

Faziam com graças summas,

No ar um jardim de plumas,

E na terra um mar de flôres.

Sua Excellencia[3] assistia,

O Conde[4] e toda a nobreza,

E os padres por natureza

Lhes faziam companhia:

Estava sereno o dia,

A esphera toda anilada,

A agua do mar estanhada,

Brando o vento e lisongeiro;

E com tudo no Terreiro

Houve grande carneirada.

[3] Marquez das Minas.

[4] Conde do Prado.

Emfim, que a festa passada

Tão cheia de cavalleiros

Si a fizessem de barbeiros

Não seria mais sangrada:

Alli vi dar cutilada,

Que todo o ventre dissipa

Do bruto que a participa,

E eu disse pasmado e absorto

Que a Catana era do Porto,

Por rilhar sempre na tripa.

Logo na primeira entrada

Houve jogo de manilha,

Que para isso a quadrilha

Pelo Lindo era pintada:

Quem lhe dava uma encontrada,

E quem na ponta a levava,

Tudo então nos agradava,

Pois conforme ouvi julgar

Alli entre dar e levar

Pouca vantagem se dava.

Cada qual sem mais tardança

Á dama, a quem mais se applica,

Levou na ponta da ...

O que ganhou pela lança.

Até o padre Hortalança,

Digo, o conego Gonçalo,

Se logrou d’este regalo:

E eu só na baralha ingrata

Não vi manilha de prata,

Que na de ouro já não fallo.

Ao Marinho generoso

O dia franco e escasso

Concedeu-lhe o galanaço,

Recatando-lhe o ditoso;

E visto que por airoso

É o Adonis da quadrilha,

Zundú se lhe rende e humilha,

Dando-lhe, porque o conforte,

No cravo a primeira sorte

E a segunda na manilha.

Barreto alheio de susto,

Que não implica ha mostrado

Nem ao forte o asseado,

Nem ao galante o robusto;

Luzimento á pouco custo,

Bom ar sem affectação,

Foi julgado em conclusão

Que a destreza o não desvela,

Pois sem cuidado na sella

Cahia no caprazão.

Muito Euzebio se desvella

Em correr mais que ninguem,

E por correr sempre bem

Nunca se assentou na sella;

Como ha de assentar-se nella,

Si correr só pretendia?

Tão propriamente o fazia

Que porque estar e correr

Não podem junctos caber,

Não se assentava, corria.

O valeroso Moniz

Em gala, cavallo e arreio

Quanto ganhou pelo asseio,

O perdeu pelo infeliz;

O que eu vi e a terra diz

É que de muito adestrado

Andou tão avantajado,

Que a voz do povo levou:

Com que desde então ficou

O povo mudo e pasmado.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 8 / 11 段