Um cazaquim trazias sobre o coiro,

Qual odre, a quem o toiro

Uma e outra cornada deu traidora,

E lhe deitou de todo o vento fóra;

Tal vinha o teu vestido de enrugado,

Que o tive por um odre esfuracado.

O que te vir ser todo rabadilha

Dirá que te perfilha

Uma quaresma, chato percevejo,

Por arenque de fumo ou por badejo;

Sem carne e osso, quem ha ahi que creia

Sinão que és descendente de lampreia?

Livre-te Deus de um sapateiro ou xastre,

Que te temo um desastre;

E é que por sovéla ou por agulha

Armem sobre levar-te alguma bulha,

Porque, depositando-te a justiça,

Será num agulheiro ou em cortiça.

Na esquerda mão trazias a bengala,

E, ou por força ou por gala,

No sovaco por vezes a mettias,

Só por fazer infindas cortezias,

Tirando ao povo, quando te destapas,

Entonces o chapéu, agora as capas.

Fundia-se a cidade em carcajadas,

Vendo as duas entradas

Que fizeste do mar a Sancto Ignacio,

E depois do Collegio a teu palacio,

O rabo erguido em cortezias mudas,

Como quem pelo .. tomava ajudas.

Ao teu palacio te acolheste, e logo

Casa armaste de jogo,

Ordenando as merendas por tal geito,

Que a cada jogador se dá um confeito:

Dos tafues um confeito era um boccado,

Sendo tu pela cara o enforcado.

Depois déste em fazer tanta parvoice,

Que ainda que o povo risse

A principio, cresceu depois a tanto

Que chegou a chorar com triste pranto:

Chora-se nú de um roubador de falso,

E vendo-te eu de riso me descalço.

Chinga-te o negro, o branco te pragueja,

E a ti nada te aleja;

E por teu sem-sabor e pouca graça

És fabula do lar, riso da praça,

Té que a bala, que o braço te levára,

Venha segunda vez levar-te a cara!

AO CONFESSOR

DO ARCEBISPO D. FREI JOÃO DA MADRE DE DEUS

Eu, que me não sei calar,

Mas antes tenho por mingua,

Não purgar-se qualquer lingua,

A risco de arrebentar:

Vos quero, amigo, contar

(Pois sois o meu secretario)

Um successo extraordinario,

Um caso tremendo e atroz:

Porém fique aqui entre nós.

Do confessor jesuita,

Que ao ladrão do confessado

Não só absolve o peccado,

Mas os fructos lhe alcovita:

Do precursor da visita,

Que na vanguarda marchando,

Vai pedindo e vai tirando,

O demo ha de ser algoz:

Porém fique aqui entre nós.

O ladronaço em rigor

Não tem para que dizer

Furtos, que antes de os fazer

Já os sabe o confessor:

Cala-os, para ouvir melhor,

Pois, com officio alternado,

Confessor e confessado

Alli se barbeam sós:

Porém fique aqui entre nós.

Aqui o ladrão se consente

Sem castigo e com escusa,

Porque do mesmo se accusa

O confessor delinquente:

Ambos alternadamente,

Um a outro e outro a um,

O peccado, que é commum,

Confessa em commua voz:

Porém fique aqui entre nós.

Um e outro, á mór cautela,

Vem a ser neste incidente

Confessor e penitente;

Porém fique ella por ella.

O demo em tanta mazella

Diz: faço, porque façais;

Absolvo, porque absolvais;

Pacto inopinado poz:

Porém fique aqui entre nós.

Não se dá a este ladrão

Penitencia em caso algum;

E sómente em um jejum

Se tira a consolação:

Elle estará como um cão

De levar a bofetada;

Mas na cara ladrilhada

Emenda o pejo não poz:

Porém fique aqui entre nós.

Mechanica disciplina

Vem a impor por derradeiro

O confessor marceneiro

Ao peccador carapina:

E como qualquer se inclina

A furtar e mais furtar,

Se conjura a escavacar

As bolças co’ um par de enxós:

Porém fique aqui entre nós.

O tal confessor me abysma,

Que revele, e não se offenda,

Que um frade sagrado venda

O sagrado oleo da Chrisma.

Por dinheiro a gente chrisma,

E por cera, havendo queixa,

Que nem a da orelha deixa

Onde chrismando a mão poz:

Porém fique aqui entre nós.

Que em toda a franciscania

Não achasse um mau ladrão,

Que lhe ouvisse a confissão,

Mais que um padre da _Apanhia_!

Nisto, amigo, ha sympathia;

E é que lhe veiu a pêllo

Que um vá atando no orello

O que o outro mette no coz:

Porém fique aqui entre nós.

Que tanta culpa mortal

Se absolva? eu perco o tino;

Pois absolve um theatino

Peccados de pedra e cal:

Quem em vida monacal

Quer dar á filha um debate

Condemnando em dote ou date,

Vem a dar-lhe o pão e a noz:

Porém fique aqui entre nós.

As freiras com sanctas sêdes

Saem condemnadas em pedra,

Quando o ladronaço medra,

Roubando pedra e paredes.

Vós, amigo, que isto vêdes,

Deveis a Deus graças dar

Por nos fazer secular,

E não zote de albernoz:

Porém fique aqui entre nós.

EM 1686 DIMINUIRAM

AQUELLE VALOR A QUE SE HAVIA ERGUIDO A MOEDA QUANDO O P. ESTAVA NA

CÔRTE, ONDE ENTÃO COM SEU ALTO JUIZO SENTIU MAL DO ARBITRISTA QUE ASSIM

O ACONSELHÁRA A EL-REI, COMO SE ENTENDE NAQUELLES VERSOS CONTRA ELLE

FEITOS:

Sendo pois o alterar da moeda

O assopro, o arbitrio, o ponto e ardil,

De justiça a meu ver se lhe devem

As honras que teve Ferraz e Soliz.

E agora com experiencia dos malos que padocia a Republica nestas

alterações so jacta de o haver extranhado então, julgando estos malos

por incentivo de outros maiores.

Tractam de diminuir

O dinheiro a meu pezar,

Que para a cousa baixar

O melhor meio é subir:

Quem via tão alto ir,

Como eu vi ir a moeda,

Lhe prognosticou a queda,

Como eu lh’a prognostiquei:

Dizem que o mandou El-Rei,

Quer creais, quer não creiais,

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Mandam a força do fado,

Por ser justo que o dinheiro

Baixe a seu valor primeiro

Depois de tão levantado:

O que se vir sublimado

Por ter mais quatro mangabas,

Hão de peza-lo ás oitavas,

E por leve hão de engeita-lo:

E si com todo este abalo

Por descontentes vos dais,

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

As pessoas de quem rezo

Hão de ser como o ferrollho:

Val pouco tomado a olho,

Val menos tomado a pezo.

Os que prézo, e que desprézo,

Todos serão de uma casta,

E só moços de canasta,

Entre veras e entre chanças

Com pezos e com balanças

Vão á justiça os mais:

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Porque como em Maranhão

Mandam novelos á praça,

Assim vós por esta traça

Mandareis o algodão:

Haverá permutação,

Como ao principio das gentes,

E todos os contrahentes

Trocarão droga por droga,

Pão por sal, lenha por soga,

Vinhas por cannaviaes:

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Virá a frota para o anno,

E que leve vos agouro,

Si não tudo a pezo de ouro,

A pezo tudo de engano:

Não é o valor deshumano,

Que a cada oitava se dá,

Da prata, que corre cá,

Pelo meu fraco conceito;

Mas o cobrar fiel direito,

E obliquo quando pagais:

Não vos espanteis, que inda lá vem mais.

Bem merece esta cidade

Esta afflicção, que a assalta,

Pois os dinheiros exalta

Sem real auctoridade:

Eu si hei de fallar verdade,

O aggressor do delicto

Devia ser só afflicto:

Mas si estão tão descançados,

Talvez que sejam chamados

Nesta frota que esperais:

Não vos espanteis, que ainda lá vem mais.

RETRATO

DO PADRE DAMASO DA SILVA

Pois me enfada o teu feitio,

Quero, Frizão, neste dia

Retratar-te em quatro versos

Ás maravi, maravi, maravilhas.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

A cara é um fardo de arroz,

Que, por larga e por comprida,

É ração de um elephante

Vindo da India.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

A bocca desempedrada

É a ponte de Coimbra,

Onde não entram nem sahem

Mais que mentiras.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

Não é a lingua de vacca

Pelo maldizente e maldicta,

Mas pelo muito que corta

De tiririca.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

No corpazil torreão

A natureza prevista

Formou a fresta da bocca

Para guarita.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

Quizera as mãos comparar-lhe

Ás do gigante Golias,

Si as do gigante não foram

Tão pequeninas.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

Os ossos de cada pé

Encher podem de reliquias

Para toda a christandade

As sacristias.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

É grande Conimbricense

Sem jámais pôr pé em Coimbra,

E sendo ignorante sabe

Mais que gallinha.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

Como na lei de Mafoma

Não se argumenta, e se briga,

Elle, que nada argumenta,

Tudo porfia.

Ouçam e olhem,

Venham, venham, verão

O Frizão da Bahia,

Que está retratado

Ás maravi, maravi, maravilhas.

MARINICOLAS

Marinicolas todos os dias

O vejo na sege passar por aqui,

Cavalheiro de tão lindas partes,

Como, verbi gratia, Londres e Pariz.

Mais fidalgo que as mesmas estrellas,

Que as doze do dia viu sempre luzir,

Que seu pae por não sei que desastre

Tudo o que comia vinha pelo giz.

Peneirando-lhe os seus avelorios,

É tal a farinha do nympho gentil,

Que por machos é sangue Tudesco,

Porém pelas femeas humor meretriz.

Um avô, que rodou esta côrte

Num coche de quatro de um Dom Beleaniz,

Sôbre mulas foi tão attractivo,

Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.

Foi um grande verdugo de bestas,

Pois co’um azorrague e dois borzeguins,

Ao compás dos maus passos que davam

Lhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.

Marinicolas era muchacho

Tão gran’ rabaceiro de escumas de rins,

Que jámais para as toucas olhava,

Por achar nas calças melhor fraldelim.

Sendo já sumilher de cortina

De um xastre de barbas, saiu d’aprendiz

Dado só ás lições de canudo,

Rapante de especie de .. viril.

Cabrestilhos tecendo em arames,

Tão pouco lucrava no patrio paiz,

Que se foi dando velas ao vento

Ao reino dos Servos, não mais que a servir.

Lá me dizem que fez carambola

Com certo Cupido, que fôra d’aqui

Empurrado por uma Sodoma,

No anno de tantos em cima de mil.

Por signal que no sitio nefando

Lhe poz a ramella do olho servil

Um travesso, porque de cadeira

A seus .. servisse aquelle ambar gris.

Mordeduras de perro raivoso

Có o pello se curam do mesmo mastim,

E aos mordidos do rabo não póde

O sumo do rabo de cura servir.

Tanto em fim semeou pela terra,

Que havendo colhido bastante quatrim,

Resolvendo a ser Perotangas

Cruzou o Salobre, partiu o Zenith.

Avistando este nosso hemispherio,

Calou pela barra em um bergantim,

Poz em terra os maiores joanetes

Que viram meus olhos desde que nasci.

Pretendendo com recancanilhas

Roubar as guaritas de um salto subtil,

Embolçava com alma de gato,

A risco de sape, dinheiro de miz.

Sinão quando na horta do Duque

Andando de ronda um certo malsim,

Estumando-lhe um cão pechelingue

O demo do gato botou o seitil.

Marinicolas vendo-se entonces

De todo expurgado sem maravedi,

Alugava rapazes ao povo,

Por ter de caminho de quem se servir.

Exercendo-os em jogos de mãos

Tão lestos os tinha o destro arlequim,

Que si não lhes tirára a peçonha

Ganhára com elles dois mil potosis.

A tendeiro se poz de.....

E na taboleta mandou esculpir

Dois cachopos, e a lettra dizia:

Os ordenhadores se alquilam aqui.

Tem por mestre do terço......

Um pagem de lança, que Marcos se diz,

Que si em casa anda ao rabo d’elle,

O traz pela rua ao rabo de si.

Uma tarde em que o perro celeste

Do sol acossado se poz a latir,

Marinicola estava com Marcos

Limpando-lhe os moncos de certo nariz.

Mas sentindo ruido na porta,

Aonde batia um Gorra civil,

Um e outro se poz em fugida,

Temiendo los dientes de algun javali.

Era pois o baeta travesso:

Si um pouco de antes aportára alli,

Como sabe latim o baeta,

Pudiera cogerlos en un má latin.

Ao depois dando d’elle uma força

As alcoviteiras do nosso confim,

Lhe valeu no sagrado da egreja

O nó indissoluvel de um rico mongil.

Empossado da simples consorte

Cresceu de maneira naquelles chapins,

Que inda hoje dá graças infindas

Aos falsos informes de _quis_, _quid_ e _quid_.

Não obstante pagar de vazio

O sancto hymeneu um picaro vil,

Se regala á ufa do sogro,

Comendo e bebendo como mochachim.

Com chamar-se prudente com todos,

Que muitos babosos o têm para si,

Elle certo é o meu desenfado,

Que um tolo prudente dá muito que rir.

É dotado de um entendimento

Tão vivo e esperto, que fôra um Beliz,

Si lhe houvera o juizo illustrado

Um dedo de grego, outro de latim.

Entre gabos o triste idiota

Tão pago se mostra dos seus gorgotis,

Que nascendo sendeiro de gemma,

Quer á fina força metter-se a rossim.

Deu agora em famoso arbitrista,

E quer por arbitrios o triste malsim

Que o vejamos subir á Excellencia,

Como diz que vimos Montalvão subir.

Sendo pois o alterar a moeda

O assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,

De justiça, a meu ver, se lhe devem

As honras que teve Ferraz e Soliz.

Dêm com elle no alto da forca,

Adonde o fidalgo terá para si

Que é o mais estirado de quantos

Beberam no Douro, mijaram no Rim.

Si o intento é bater-se moeda,

Correrem-lhe gages e ser mandarim,

Porque andando a moeda na forja

Se ri de Cuama, de Sena e de Ophir?

Sempre foi da moeda privado,

Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,

Condemnando em portaes a moeda,

Abriu ás unhadas portas para si.

Muito mais lhe rendeu cada palmo

D’aquella portada que dois potosis;

Muito mais lhe valeu cada pedra

Que vale un ochavo de Valladolid.

Pés de puas com topes de seda,

Cabellos de cabra com pós de marfim,

Pés e puas de riso motivo,

Cabellos e topes motivo de rir.

Uma tia, que abaixo do muro

Lacões esquarteja, me dizem que diz:

Sua Alteza sem ir meu sobrinho

A nada responde de não ou de sim.

Pois a prima da rua do Saco

Tambem se reputa de todos alli,

Que a furaram como velador

Para o garavato de certo candil.

Outras tias me dizem que foram

Tão fortes gallegas, e tão varonis,

Que sobre ellas foi muito mais gente

Do que sobre Hespanha em tempo do Cid.

Catharina conigibus era

Uma das avôas da parte viril,

D’onde vem conixarem-se todas

As conigibundas do tal genesis.

Despachou-se com habito e tença

Por grandes serviços, que fez ao Sofi,

Em matar nos fieis Portuguezes

De puro enfadonho tres ou quatro mil.

E porque de mechanica tanta

Não foi dispensado, tenho para mim

Que em usar da mechanica falsa

Se soube livrar da mechanica vil.

É possível que calce tão alto

A baixa vileza de um sujo escarpim,

Para o qual não é a agua bastante

Da grossa corrente do Gualdaquibir?

Marinicolas é finalmente

Sugeito de prendas de tanto matiz,

Que está hoje batendo moeda,

Sendo ainda hontem um vilão ruim.

AO BRAÇO FORTE

ESTANDO PRÊSO POR ORDEM DO GOVERNADOR BRAÇO DE PRATA

ROMANCE

Prêso entre quatro paredes

Me tem Sua Senhoria,

Por regatão de despachos,

Por fundidor de mentiras.

Dizem que eu era um velhaco,

E mentem por vida minha,

Que o velhaco era o Governo,

E eu a velhacaria.

Quem dissera, quem pensára,

Quem cuidára, e quem diria,

Que um braço de prata velha,

Pouca prata, e muita liga;

Tanto mais que o braço forte

Fosse forte, que poria

Um Cabo de calabouço,

E um soldado de golilha?

Porém eu de que me espanto,

Si nesta terra maldicta

Póde uma ovelha de prata

Mais que dez onças de alquima?

Quem me chama de ladrão

Erra o trinco á minha vida;

Fui assassino de furtos,

Mandavam-me, obedecia.

Despachavam-me a furtar,

E eu furtava, e abrangia:

Serão boas testemunhas

Inventarios e partilhas.

E eu era o ninho de guincho,

Que sustentava e mantinha

Co’o suor das minhas unhas

Mais de dez aves rapinas.

O povo era quem comprava,

O General quem vendia,

E eu triste era o corrector

De tão torpes mercancias.

Vim depois a aborrecer,

Que sempre no mundo fica

Aborrecido o traidor,

E a traição muito bemquista.

Plantar o ladrão de fóra

Quando a ladroice fica,

Será limpeza de mãos,

Mas de mãos mui pouco limpas.

Elles guardaram o seu

Dinheiro, assucar, farinhas,

E até a mim me embolsaram

Nesta hedionda enxovia.

Si foi bem feito, ou mal feito,

O sabe toda a Bahia;

Mas si á traição me fizeram,

Com elles a traição fica.

Eu sou sempre o Braço forte,

E nesta prisão me anima

Que si é casa de peccados,

Os meus foram ninharias.

Todo este mundo é prisão,

Todo penas e agonias,

Até o dinheiro está prêso

Em um sacco que o opprima.

A pipa é prisão do vinho;

E da agua fugitiva,

Sendo tão livre e ligeira,

É prisão qualquer quartinha.

Os muros de pedra e cal

São prisão de qualquer villa,

Da alma é prisão o corpo,

Do corpo é qualquer almilha.

A casca é prisão da fructa,

Da rosa é prisão a espinha,

O mar é prisão da terra,

A terra é prisão das minas.

Do ar é carcere um odre,

Do fogo é qualquer pedrinha,

E até de um céu outro céu

É uma prisão crystallina.

Na formosura e donaire

De uma muchacha divina

Está presa a liberdade,

E na paz a valentia.

Pois si todos estão presos,

Que me cansa ou me fadiga,

Vendo-me em casa de El-Rei,

Juncto a Sua Senhoria?

Chovam prisões sobre mim,

Pois foi tal minha mofina,

Que a quem dei cadêas de ouro,

De ferro m’as gratifica.

Á D. JOÃO DE ALENCASTRE

QUE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLA POR ESCALA A BAHIA, E ESTANDO NELLA

HOSPEDE DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO, SEU

CUNHADO, EM CUJO DESAGRADO SE ACHAVA O P., SE QUEIXOU DE QUE ESTE O NÃO

HOUVESSE VISITADO, PEDINDO-LHE QUE AO MENOS LHE FIZESSE UMA SATYRA POR

OBSEQUIO

A quem não dá aos fieis,

Perdão se lhe ha de outorgar,

E eu hoje vo-lo hei de dar,

Pedindo me perdoeis:

Dou-vos o que mais quereis,

E o que pedis por favor,

Que quando chega um senhor

A pedir por não mandar,

Mal lhe podia eu faltar

Co’ uma satyra em louvor.

Não fui beijar-vos a mão,

E dar-vos a bem chegada,

Porque nessa alta morada

Nunca tive introducção:

Até agora a indignação

Não quiz tão altivo tracto,

Mas hoje é quasi distracto,

Porque em todo o mundo inteiro

De fidalgo e de escudeiro

São brincos de cão com gato.

Os fidalgos e os senhores

Fartos de jurisdicção

Fazem tudo e tudo dão

Á amigos e servidores:

Os que jogam de maiores

Por sangue, e não por poder,

Fazem jogo de entreter,

Porque o sangue desegual

Sempre bota ao natural,

E o mando bota a perder.

Perdoae a digressão,

Porque esta preluxidade

É boa luz da verdade

E excusa satyra então:

Quando se offereça occasião,

Meu senhor, de que vos veja

(Na egreja ou na rua seja)

Hei de prender-vos os pés,

E estai certo, que essa vez

Vos não valerá a Egreja.

Estou na minha quintinha,

Que é chacara soberana,

Ora comendo a banana,

Jogando ora a laranginha:

Nem vizinho, nem vizinha

Tenho, porque sempre cança,

Quem tudo vê e nada alcança,

E na cidade são raros

Os olhos, que não são claros,

Si olhos são de vizinhança.

Mas inda que desterrado

Me tem o fado e a sorte

Por um Juiz de má morte,

De quem não tenho appellado:

É hoje, que sois chegado,

Senhor, o tempo em que appelle,

Fazei, que el-rei o desvele

Pagar o serviço meu,

Pois é bizarro, e só eu

Não vim muito pago d’elle.

A JOÃO GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO

FILHO DO DITO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA, TOMANDO

POSSE DE UMA COMPANHIA DE INFANTES EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA,

ASSISTINDO-LHE DE SARGENTO SEU TIO DOM JOÃO DE ALENCASTRE

No culto que a terra dava,

Equivocava-se a vista,

Si celebrava ao Baptista,

Si a Coutinho celebrava:

Um e outro João estava

Arrojando a sua planta

Tanto applauso e festa tanta;

Mas viu-se, que ao mesmo dia

Em que o Baptista cahia,

O Coutinho se levanta.

Viu-se que um João Baptista

Na terça feira cahira,

E que o outro João subira

A imperar nesta Conquista:

Mas não se enganou a vista

Por desacerto ou desgraça,

Antes com divina traça

Se notou e se advertiu,

Que si um com graça cahiu,

Outro nos cahiu em graça.

Brava occurrencia se achou

No Martyrologio então,

O dia era de um João,

E outro João lh’o levou:

Toda a cidade assentou

Por razão e por carinho,

Ser mais acerto e alinho

Preferir entre dous grandes

Como um Silva a um Fernandes,

A um Baptista um Coutinho.

Mais concurrencias se deram

Porque pasmasse a Bahia,

Dous num dia ha cada dia,

Mas tres nunca concorreram:

Tres de um nome então vieram,

E qual mais para applaudido;

E assim confuso o sentido,

Ficou, com tão nova traça,

Restaurada a nossa Praça

E o Kalendario aturdido.

Si de um só João no dia

Se abalára a Christandade,

Por tres de tal qualidade

Quem se não abalaria?

Tudo quanto então se via,

Se via com grande abalo,

Um mar de fogo a cavallo,

A pé um Etna de flores,

E por ver tantos primores

O céu dava tanto estalo.

A ver o grande Lencastro

Quem não fez do aperto graça?

Si sahiu o Sol á Praça

Fazer Praça á tanto astro?

O bronze pois e alabastro,

Por solemnisar a gloria,

Consentiram que esta historia

Fique, por mais segurança,

Nos archivos da lembrança,

Nos volumes da memoria.

A PEDRO ALVRES DA NEIVA

QUANDO EMBARCOU PARA PORTUGAL

ROMANCE

Adeus, amigo Pedro Alvres,

Que vos partistes d’aqui

Para geral desconsolo

D’este povo do Brazil.

Partiste-vos, e oxalá

Que então vos vira eu partir,

Que sempre um quarto tomára

A libra por dous seitis.

Puzera o quarto em salmoura

E no fumeiro o pernil,

O pé não, porque me dizem

Que vos fede o escarpim.

Guardára o quarto de sorte,

Que se vos podera unir

Na surreição dos auzentes

Quando tornasseis aqui.

Mas vós não fostes partido,

Mente quem tal cousa diz;

Antes fostes muito inteiro,

E sem se vos dar de mim.

Saudades não as levastes,

Deixaste-las isso sim,

Porque de todo este povo

Ereis o folgar e rir.

Desenfado dos rapazes,

Das moças o perrixil,

O burro da vossa casa,

E da cidade o rossim.

Lá ides por esses mares,

Que são vidraças do anil,

Semeando de asnidades

Toda a vargem zaphir.

O piloto e a companha

Apostarei que já diz

Que vai muito arrependido

De ires no seu camarim.

O homem se vê e deseja,

E desesperado emfim,

Acceita que a nau se perca,

Por vos ver fóra de si.

Deseja ver-vos luctando

Sôbre o elemento subtil,

Onde um tubarão vos parta,

Vos morda um darimdarim.

Deseja que os peixes todos

Tomem accôrdo entre si

De vos darem nos seus buchos

Sepultura portatil.

Sente que em amanhecendo

A fina força ha de ouvir

Os bons dias de uma bocca,

Cujo bafo é tão ruim.

Sente que não empregando

Nem um só maravedí

Em queijos frescos, a elles

Vos trezande o chambaril.

Mas vós heis de ir a Lisboa

Apezar de villão ruim,

E el-rei vos ha de fazer,

Com mil mercês, honras mil.

Os cavalheiros da côrte,

Trazendo-vos juncto a si,

Vos hão de dar como uns doidos

Piparotes no nariz.

E como vós sois doente

De fidalgos phrenesis,

Por ficar afidalgado

Toda a mofa heis de rustir.

O que trazeis de vestidos,

Uns assim, outros assim,

Sereis o moda dos modas,

E o modelo dos Torins.

A conta d’isto me lembro,

Quando em Marapé vos vi

Vestido de pimentão,

Com fundos de flor de liz.

Em verdade vos affirmo

Que então vos suppuz e cri

Surrada tapeçaria,

Tisnado guadamecim.

O que dizeis de mentiras,

Quando tomardes aqui,

Amizades de um visconde,

Favores de um conde vis.

Valído de um tal ministro,

Cabido de um tal juiz,

E até do mesmo Cabido

Leiguissimo mandarim.

El-rei me fez mil favores,

Mil favores, mais de mil,

Bem fez com que eu lá ficasse,

Mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei,

Com mulher tão senhoril,

É captivo de um ferreiro,

Não me posso dividir

De el-rei é a minha cabeça,

Porém o corpo gentil

Todo é de minha mulher,

Não tem remedio, hei de me ir.

Achou-me razão el-rei,

E na hora de partir,

Pondo-me a mão na cabeça,

Medisse: Perico, adi.

Ide-vos Perico embora,

Ide-vos para o Brazil,

Que quem vos tirou da côrte

Não vos tirará d’aqui.

E pondo em seu peito a mão,

Eu que a fineza entendi

Chorei por agradece-la

Lagrimas de mil em mil.

Botei pelo paço fóra,

Metti-me no bergantim,

Cheguei a bordo, embarquei-me,

Levámos ferro, e parti.

Os cavalleiros da côrte

Choraram tanto por mim,

Como por uma commenda

De Sanctiago ou de Aviz.

Hontem avistámos terra,

E quando na barra vi

Coqueiros e bananeiras,

Disse comigo: Brazil!

NO BOQUEIRÃO

DE S. ANTONIO DO CARMO, DENTRO DE UMA PEÇA DE ARTILHARIA DESCAVALGADA

ESTEVE MUITOS DIAS UMA COBRA SURUCUCÚ ASSALTANDO AOS QUE PASSAVAM COM

MORTE DE VARIAS PESSOAS, SENDO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA

CAMARA (É ESTE O ASSUMPTO DA POESIA QUE SE LÊ EM SEGUIDA)

ROMANCE

Acabou-se esta cidade,

Senhor, já não é Bahia.

Já não ha temor de Deus,

Nem d’El-Rei, nem da Justiça.

Lembra-me que ha poucos annos,

Inda não ha muitos dias,

Que para qualquer funcção

De um crime a prisão se urdia.

Iam por esse sertão

Ao centro da Jacobina

Prender algum matador,

Inda que fosse á espadilha.

Mas hoje dentro na praça,

Nas barbas da infantaria,

Nas bochechas das Granachas,

Com polé e forca á vista:

Que esteja um surucucú

Com soberana ousadia

Feito Parca da cidade,

Cortando os fios ás vidas!

Com tantas mortes ás costas,

E que não haja uma rifa

De paus, que ao tal matador

Lhe sacuda o basto em cima.

É mui barbaro rigor

O d’esta cobra atrevida,

Que esteja na estrada posta

Fazendo assaltos á vista.

Onde está Gaspar Soares,

Que não vai á espora fita

No lazão lançar-lhe a garra,

E mette-la na enxovia?

Si está no matto emboscada,

No seu mocambo mettida,

Mandem-lhe um terço ligeiro

De infantes de Henrique Dias.

Si dizem que está na peça,

Dem-lhe fogo á colubrina,

Já que faz peças tão caras,

Custe-lhe esta peça a vida.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 7 / 11 段