Pequei, senhor: mas não, porque hei peccado,

Da vossa alta piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Si basta a vos irar tanto peccado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos ha offendido,

Vos tem para o perdão lisongeado.

Si uma ovelha perdida, já cobrada,

Gloria tal e prazer tão repentino

Vos deu, como affirmais na Sacra Historia:

Eu sou, senhor, ovelha desgarrada;

Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa gloria.

Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi

levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos

Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração

do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria,

pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro. Mas é em

vão busca-lo em Pitta, auctor moderno que d’isto tracta como si não

tractára. E mais me escandalisa que passasse em sua mesma patria por

um poeta de tal nome seu contemporaneo, com quem devia gastar parte

d’aquelles elogios. Morreu finalmente no anno de 1696 com edade de

setenta e tres annos.

Este é o mais abreviado resumo que posso dar da vida do meu suspirado,

quão dilectissimo poeta lyrico; e oxalá podéra eu publicar os

prodigiosos fundamentos do meu amor, derramando entre as gentes o

manancial thesouro de suas graças! Singular foi a estrella que dominou

em seu engenho; porque a toda a circumferencia das luzes apolineas

brilhou com egualdade senhoril; e não menos prodigioso aquelle não

sei que de sua guarda, porque offendendo ás claras muitas pessoas, de

quem o menor movimento seria sem duvida uma tyranna morte, sempre se

atreveu, e nunca de seu motu proprio cautelou perigos; morrendo intacto

de tão prolongados mezes.

Muitos eram os feridos do seu ferro que consultaram o remedio no mesmo

instrumento da chaga, beijando a Achilles a lança que os traspassára.

Raro testimunho d’esta fatalidade foi a resposta que deu a um queixoso

certo governador severamente resoluto: «Não faça V. Mᶜᵉ. caso (disse),

porque isso tambem passa por mim, sem que por mim passe a minima tenção

de o castigar.»

Testimunho d’esta fatalidade são as duas quartas de um soneto, que se

fez em sua morte; o qual não escrevo por inteiro em razão de que si

os seus principios professam a verdade pura, os fins todavia contém

temeraria petulancia:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

D’esses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os Romanos, Gregos, Persas, Godos,

Que comtigo mereça ter apodos

Nos applausos, que assim has adquirido.

Muitas vezes quiz elle refrear o genio, que conhecia prejudialmente

peccaminoso, fazendo os actos de christão que em seu logar veremos, mas

debalde o intentava, porque o seu furor intrepido imperava dominante

na massa sanguinaria contra os desacertos d’aquella edade, castigados

por Deus com tão horrorosa peste e tão repetidas fomes: como tambem

veremos pelo decurso d’estas obras. E não é de admirar que disparadas

do throno da divina justiça aquellas duas lanças de sua via, seguisse

a terceira com tão exquisito genero de guerra em um homem, que de sua

mãe unicamente tomou este appellido entre outros partos: ella o deu

appelidando-se--da Guerra--, e elle o foi sem aquella proposição _da_,

por ser a mesma guerra, e não o instrumento d’ella. Isto parece que

prophetizou corto inimigo seu, respondendo-lhe a uma satyra com outra

na seguinte fórma:

Porém si em nada és guerreiro,

Para que te chamas guerra,

E a fazes a toda a terra

Com a lingua, que é mor damno, &.

Deixou o dr. Gregorio de Mattos um filho de sua mulher Maria de Povos,

chamado Gonçalo de Mattos, cujo amor publica em várias obras este

livro, que em seus logares se verão sem enfadosas citas.

o quente da cama

Com Gonçalo, e com sua ama,

Dizendo estava comei-me, &.

Por vida do meu Gonçalo,

Custodia formosa e linda, &.

Madrasta do Gonçalinho,

Que é lindo enteado a fé, &.

Sim, por vida de Gonçalo, &.

Mas por vida de Gonçalo, &.

D’este moço, que com sua mãe ficou em summa pobreza e desamparo,

correm noticias muito geraes que totalmente degenerára d’aquella

massa scientifica de seus estupendos progenitores. Bem pudera eu

duvida-lo em uma terra, onde sempre se hão de tomar os echos da fama

pelo contrario; pois nunca vi nella abonar um sujeito que não mereça

ser desterrado por máu, nem vituperar outro que ao contrario desmereça

elogios de bom.

Mas para cumprir com os relativos d’esta historia consultei dous

sujeitos que se criaram com Gonçalo de Mattos, ambos de instincto capaz

para uma informação, e entre elles achei a contradicção, que póde

servir de exemplo a quem se informa: um affirma com juramento que era

poeta natural, o outro jurando nega que tal fosse, dizendo que elle

nem o Padre Nosso era capaz de repetir. A este seguem muitos, e nenhum

áquelle: mas o primeiro chamado Christovão Rodrigues diz que em sua

adolescencia lhe dera o seguinte mote:

Com que, porque, para que.

Defendia-se o Gonçalo temeroso de uma maldição condicional de sua mãe,

em respeito da qual não queria pegar na penna para fazer versos, posto

que no animo lhe pulsavam as Musas (tal foi o escarmento que deixaram

ellas naquelles cadaveres da paciencia lastimosa). Mas como a condição

do preceito tinha sua clausula, em que fundar-se uma heresia graciosa,

respondeu importunado: «Pegae vós na penna, porque a maldição de minha

mãe parece que não me prohibe fazer versos, mas sim pegar na penna para

elles.»

Repetiu-me então esta decima, que tanto ella como a resposta, si são

verdadeiras, vem a ser uns relampagos da esphera do fogo:

GLOSA.

Disse Clori que me amava

Para o intento que tem,

O qual não disse a ninguem,

Nem o porque declarava:

Eu então lhe perguntava

Com que genero de fé!

Suspensa a dama se vê;

Como nada respondeu,

Não pude saber o seu

Com que, porque, para que.

Persuado a crer o caso pelas suas circumstancias, e muito mais quando

vejo aqui umas reliquias mais separadas d’aquelle humor, ou ramas

menos fortes do enxerto do doutor Pedro de Mattos seu tio, onde não ha

resposta sem equivoco sem substancia do genero mais nobre.

Foi o doutor Gregorio de Mattos de boa estatura, secco do corpo,

membros delicados, poucos cabellos e crespos, testa espaçosa,

sobrancelhas arqueadas, olhos garços, nariz aguilenho, bocca pequena e

engraçada, barba sem demasia, e no tracto cortezão. Trajava commummente

seu collete de pelles de ambar, volta de fina renda, e era finalmente

um composto de perfeições como poeta portuguez, que são Esopos os

de outras nações. Tinha phantasia natural no passeio, e quando

algumas vezes por recreação sulcava os quietos mares da Bahia a remo

compassado, com tão bizarra confiança interpunha os oculos, examinando

as janellas da sua cidade, que muitos curiosos iam de proposito a vê-lo.

Fiz tirar d’elle a presente cópia, por um antigo pintor, que foi seu

familiar, e conferindo-a com as memorias que d’elle têm algumas pessoas

antigas, tenho-a por mui conforme a seu original. Naquelle tempo era

pouco versado o uso das cabelleiras, e elle a trajava: mas pareceu-me

copia-lo sem ella, porque os homens de talento devem patentear-nos as

officinas capitaes que o produzem para informação dos judiciosos.

SATYRICAS

OBRAS POETICAS

DE

GREGORIO DE MATTOS GUERRA

AOS VICIOS

TERCETOS

Eu sou aquelle que os passados annos

Cantei na minha lyra maldizente

Torpezas do Brazil, vicios e enganos.

E bem que os descantei bastantemente,

Canto segunda vez na mesma lyra

O mesmo assumpto em plectro differente.

Já sinto que me inflamma e que me inspira

Thalia, que anjo é da minha guarda

Des’ que Apollo mandou que me assistira.

Arda Bayona, e todo o mundo arda,

Que a quem de profissão falta á verdade

Nunca a dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo exceptua a christandade

Ao pobre pegureiro do Parnaso

Para fallar em sua liberdade.

A narração ha de egualar ao caso,

E si talvez ao caso não eguala,

Não tenho por poeta o que é Pegaso.

De que póde servir calar quem cala?

Nunca se ha de fallar o que se sente?!

Sempre se ha de sentir o que se falla.

Qual homem póde haver tão paciente,

Que, vendo o triste estado da Bahia,

Não chore, não suspire e não lamente?

Isto faz a discreta phantasia:

Discorre em um e outro desconcerto,

Condemna o roubo, increpa a hypocrisia.

O nescio, o ignorante, o inexperto,

Que não elege o bom, nem mau reprova,

Por tudo passa deslumbrado e incerto.

E quando vê talvez na doce trova

Louvado o bem, e o mal vituperado,

A tudo faz focinho, e nada approva.

Diz logo prudentaço e repousado:

--Fulano é um satyrico, é um louco,

De lingua má, de coração damnado.

Nescio, si d’isso entendes nada ou pouco,

Como mofas com riso e algazarras

Musas, que estimo ter, quando as invoco.

Si souberas fallar, tambem falláras,

Tambem satyrisáras, si souberas,

E si fôras poeta, poetisáras.

A ignorancia dos homens d’estas eras

Sizudos faz ser uns, outros prudentes,

Que a mudez canoniza bestas feras.

Ha bons, por não poder ser insolentes,

Outros ha comedidos de medrosos,

Não mordem outros não--por não ter dentes.

Quantos ha que os telhados têm vidrosos,

E deixam de atirar sua pedrada,

De sua mesma telha receiosos?

Uma só natureza nos foi dada;

Não creou Deus os naturaes diversos;

Um só Adão creou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,

Só nos distingue o vicio e a virtude,

De que uns são comensaes, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,

Esse só me censure, esse me note,

Calem-se os mais, chiton, e haja saude.

BENZE-SE

O P. DE VARIAS ACÇÕES QUE OBSERVAVA NA SUA PATRIA

D’estes que campam no mundo

Sem ter engenho profundo,

E, entre gabos dos amigos,

Os vemos em papafigos

Sem tempestade, nem vento:

Anjo bento!

De quem com lettras secretas

Tudo o que alcança é por tretas,

Baculejando sem pejo,

Por matar o seu desejo,

Desde a manhãa té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,

Muito presado de amante,

Por fóra luvas, galões,

Insignias, armas, bastões.

Por dentro pão bolorento:

Anjo bento!

D’estes beatos fingidos,

Cabisbaixos, encolhidos,

Por dentro fataes maganos,

Sendo nas caras uns Janos,

Que fazem do vicio alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar

Quem mal sabe engatinhar,

Muito inteiro e presumido,

Ficando o outro abatido

Com maior merecimento:

Anjo bento!

D’estes avaros mofinos,

Que põem na meza pepinos,

De toda a iguaria isenta,

Com seu limão e pimenta,

Porque diz que queima e arde:

Deus me guarde!

Que pregue um douto sermão

Um alarve, um asneirão;

E que esgrima em demasia

Quem nunca lá na Sophia[1]

Soube pôr um argumento:

Anjo bento!

[1] Rua principal de Coimbra: allusão á Universidade.

D’esse sancto emmascarado,

Que falla do meu peccado,

E se tem por Sancto Antonio,

Mas em luctas com o demonio

Se mostra sempre cobarde:

Deus me guarde!

Que atropellando a justiça,

Só com virtude postiça,

Se premeie o delinquente,

Castigando o innocente

Por um leve pensamento:

Anjo bento!

REPROVAÇÕES

Si sois homem valoroso,

Dizem que sois temerario,

Si valente--espadanchim,

E atrevido si esforçado.

Si resoluto--arrogante,

Si pacifico, sois fraco,

Si precatado--medroso,

E si o não sois--confiado.

Si usaes justiça, um Herodes,

Si favoravel, sois brando,

Si condemnaes, sois injusto,

Si absolveis, estaes peitado.

Si vos dão, sois um covarde,

E si daes sois deshumano,

Si vos rendeis, sois traidor,

Si rendeis--afortunado.

Si sois plebeu, sois humilde,

Soberbo, si sois fidalgo,

Si sois segundo sois pobre,

E tolo si sois morgado.

Si galeaes, sois fachada,

E si não--não sois bizarro,

Si vestis bem, sois gram moda,

Si mal vestis sois um trapo.

Si comeis muito, guloso,

E faminto, si sois parco,

Si comeis bem, regalão,

E si mal, nunca sois farto.

Si não soffreis, imprudente,

Si soffreis sois um coitado,

Si perdoaes, sois bom homem,

E si não sois--um tyranno.

Si brioso, tendes fumos,

E si não, sois homem baixo,

Si sois serio, descortez,

Si cortez, afidalgado.

Si defendeis, sois amigo,

Si o não fazeis sois contrario,

Si sois amigo, suspeito,

Si o não sois--affeiçoado.

Si obraes mal, sois ignorante,

Si bem obraes, foi acaso,

Si não servis, sois isento,

E si servis, sois criado.

Si virtuoso, fingido,

E hypocrita si beato,

Si zeloso, impertinente,

E si não, sois um patrano.

Si sois sisudo, intractavel,

Si sois devoto, sois falso,

Pertinaz, si deffendente,

Si arguinte, porfiado.

Si discreto, prevenido,

E si não, sois insensato,

Si sois modesto, sois simples,

E si o não sois, sois um diabo.

Si sois gracioso, sois fatuo,

E si não sois, um marmanjo,

Si sois agudo tresledes,

E si o não sois, sois um asno.

Si não compondes, sois nescio,

Si escreveis, sois censurado,

Si fazeis versos sois louco,

E si o não fazeis, sois parvo.

Si previsto, feiticeiro,

E si não, desmazelado,

Si verdadeiro, bom homem,

Muito humilde, si sois lhano.

Si robusto, sois grosseiro,

Si delicado, sois brando,

Si descansado, ocioso,

Si para pouco, sois tranco.

Si sois gordo, sois balôfo,

Sois phthisico, si sois magro,

Si pequeno, sois anão,

E gigante, si sois alto.

Si sois nobre, sois pelão,

E si official, sois baixo,

Si solteiro--extravagante,

Si noivo sois namorado.

Si corado, figadal,

Descorado, si sois alvo,

Si grande nariz--judeu,

Si trigueiro, sois mulato.

Si liberal sois perdido,

E si o não sois, sois escasso,

Si sois prodigo, vicioso,

E avarento, si poupado.

Si não despendeis--mesquinho,

Si despendeis, sois mui largo,

Si não gastaes--miseravel,

Si gastaes--esperdiçado.

Si honesto sois, não sois homem,

... si sois casto,

Si não namoraes, .....

Si o fazeis, sois estragado.

Si não luzis, não sois gente,

Si luzis, sois mui presado,

Si pedis, sois pobretão,

E si não, fazeis Calvarios.

Si andaes devagar--mimoso,

Si depressa sois cavallo,

Mal encarado, si feio,

Si gentil--affeminado.

Si fallaes muito, palreiro,

Si fallaes pouco, sois tardo,

Si em pé, não tendes assento,

Preguiçoso, si assentado.

E assim não póde viver

Neste Brazil infestado,

Segundo o que vos refiro

Quem não seja reprovado.

VERDADES

Ouve, ó amigo João,

Esta verdade que canto,

Si a verdade causa espanto

Esta causa admiração:

É certo, sem remissão,

E contra isto não ha nada,

Que a outra verdade usada

Com rebuços, mais enganos,

É verdade de maganos,

Mas esta é de gente honrada.

Domingos e dias sanctos

Nos manda a egreja guardar,

Nos mais dias trabalhar:

As mulheres trazem mantos:

Os doutos estão nos cantos,

Os ignorantes na praça,

Os cachorros vão á caça,

Os gatos furtam as ceias,

Os barbeiros rasgam veias

E as padeiras fazem massa.

Os homens fazem a guerra,

E as mulheres fazem renda,

Os tolos não têm emenda,

Os capos cavam a terra:

O bezerro sem mãe berra

Batem bandeiras alferes,

Os pobres buscam haveres,

Os peixes nadam no mar,

As purgas fazem purgar,

E os franciscanos colhéres.

Os cavallos comem herva,

Os despidos andam nús,

Come o Gentio cajús,

Os Tapuyas são caterva:

Não dorme de noite a cerva,

Os macacos fazem momos,

Os escripturarios tomos,

Os namorados passeiam,

As fragonas zombeteiam,

E as limas todas têm gomos.

Todos os ferrões têm ponta,

A agua do mar é salgada,

O hóspede logo enfada,

Todo o algarismo é conta:

A nau sem vela não monta,

O badalo dá no sino,

Chorar muito é desatino,

Muito comer enche a pança,

_Bum-bum_ é agua em criança

E ter em pé, _pino-pino_.

Os caranguejos têm pernas,

Tocado o tambor faz bulha,

O _arrelá_ desempulha,

O navio tem cavernas;

O fogo accende as lucernas

Os ... fedem á ..,

Quem degenera não herda,

O carvão todo é de lenha,

É só de lã a estamenha,

E a cabelleira tem cerda.

As hervas são todas folhas,

As larangeiras dão fructas,

Mulheres damas são .. ..,

Uma talha são dez polhas:

As botijas levam rolhas,

Toda a neve é branca e fria,

A irmãa de mãe é tia,

É o bronze todo duro,

Onde não ha luz, é escuro,

Quando não é noite é dia.

O sol e o fogo são quentes,

A chuva aonde cae molha,

Quem não tem vista não olha,

Ossos na boca são dentes:

É affronta dizer--mentes!

É ave grande a gallinha,

O cabello cae com tinha,

Quem é rouco tem catarrho,

Carregado canta o carro,

Mulher de rei é rainha.

Não ha barba sem cabello,

A arêa toda é de grãos,

Toca-se a harpa com as mãos,

É animal o camello:

Nenhuma calva tem pello,

Os ovos saem pelo ..

É marisco o sururú,

Todo o feijão é legume,

Coze-se o comer ao lume,

É abobora o gerumú.

Todo o unguento é mézinha

Não tem banha o bacalhau,

Papas ralas é mingau,

Trigo moido é farinha:

Couza alheia não é minha,

Não ha escada sem degraus,

Os picaros são maraus,

Tem aduellas a pipa,

Umbigo é ponto de tripa,

Sempre é loio o rei de paus.

Primeiro foi frango o gallo,

Palangana é prato fundo,

É redondo todo o mundo,

As luvas não fazem callo:

Tem quatro pés o cavallo,

Nunca mija o papagaio,

O chouriço grande é paio,

Não sabe ler a guariba,

Quem tem carcunda tem giba,

Antes de junho está maio.

Todo o chapeu é sombreiro,

As arvores são de pau,

Tudo o que não presta é mau,

E faz a barba o barbeiro:

O.. detraz é trazeiro,

É nervo a penna de pato,

Filho de parda, é mulato,

Mulheres todas são femeas,

Duas em um ventre são gemeas,

No pé se calça o sapato.

Toda a cousa negra é preta,

Papel é de trapos velhos,

Olhos do. são besbelhos,

Bordão de velho é moleta:

O mascarado é careta,

Tabaco é fumo pizado,

Peixe de moquem é assado,

O pirão duro é taipeiro,

Mareta em mar é carneiro,

Rapadura é mel coalhado.

Quem não tem juizo é tolo,

Quem morre fica sem vida,

Perna delgada é comprida,

Reposto de jogo é bôlo:

Negro ladino é creoulo,

Sebo de vacca é gordura,

Figado e bofes forçura,

Manteiga é nata de leite,

É oleo todo o azeite,

E todo o vigario é cura.

Sem a lingua não se falla,

Quem não come morre á fome,

A empinge toda come,

O surrão de couro é mala:

_Palalá_ é... rala,

O tatú tem casca dura,

O salgado faz secura,

Arroz sem casca é pilado,

As sôpas são pão molhado,

O ferrolho é fechadura.

Os bancos servem de assento,

Leicenço tem carnegão,

Homem de villa é villão,

As pennas voam com vento:

O adro da egreja é bento,

A camisa é roupa branca,

Pau que fecha a porta é tranca,

Tem ventas todo o nariz,

Toda a batata é raiz,

A cara feia é carranca.

A farinha do Brazil

Primeiro foi mandioca,

Milho estalado é pipoca,

O gato todo é subtil:

Tres barris e um barril

Enchem todos uma pipa,

Não se faz casa sem ripa,

Ou vara com seu sipó,

Quem não tem ninguem é só,

Todo o bom cavallo esquipa.

Sempre é boa a espada nova,

Mas a velha é saramago,

Homem que gagueja é gago,

Toda a banana é pacova:

Quem morreu vai para a cova,

Olho do .. é mataco:

Agua de flor do sovaco

Deu sempre vida a um morto,

O que tem um olho é torto,

_Guariba_ não é macaco.

Solimão e rozalgar

Matam, porque são veneno,

Grande doutor foi Galeno,

O fazer curso é purgar:

Fallar por solfa é cantar,

Na botica ha trementina,

Criança femea é menina,

.... ..... ..

Mascarado é papa-angú,

Oleo de pinha é resina.

Tabaco pobre é macaya.

Ave sem penna é morcego,

Toda a agua do Mondego

Desemboca pela praia:

Quem é mulher veste saia,

Os homens vestem calções,

Têm os negros seus bordões,

E cinco palmos a vara,

Tantas arrobas de tara

Tem cada um dos caixões.

Aguardente é geribita,

...dura é .....,

A ...... é pismam

E todo o listão é fita:

A colera logo irrita,

Ganhamú é caranguejo,

Não é sancto São Serejo,

Mas no ceu moram os sanctos;

Todas as casas têm cantos,

Do leite se faz o queijo.

Nos trunfos ha basto e sota,

Dará cartas quem foi mão,

A mulher tem seu pampam,

Pelo pé se calça a bota:

Quem não tem voto não vota,

O que deu cartas é pé,

O escrivão porta por fé,

Obra grosseira é do Porto,

Todo o defuncto está morto,

Vaza e mais enche a maré.

_Almorreimas_ é quentura,

As redes têm seus cadilhos,

Zebedeu foi pae de filhos,

Quem morreu, já não tem cura:

........................

.......................

Jogo de trez é a espadilha,

Ao de dous lhe chamam zanga,

Camisa tem sua manga,

Não ha navio sem quilha.

Faz pasteis o pasteleiro,

Toda a virgem é donzella,

No Brazil ha já cannella,

Todo o frade é redoleiro.

Bate no ferro o ferreiro

E o marido na mulher,

Porque um e mais outro quer,

E gostam da tal asneira,

E não ha mister peneira

Quem farinha não tiver

Todas as côres são tintas,

Duro pau é supipira,

Quem é manso não tem ira,

Do zengá se fazem cintas:

Portugal tem ricas quintas,

E cada uma tem seu dono,

O que quer dormir tem somno,

O que dorme está dormindo,

O que veio tem já vindo

E toda a solfa tem tono.

Ha pelo entrudo filhozes,

Não ha carne na quaresma,

É todo o fedelho--lesma,

No poder os reis são crozes:

Quem tem dente come nozes,

O que quebra está quebrando,

Quem come está manducando,

O que corre vai correndo,

O que bebe está bebendo

E quem joga está jogando.

_Dico vere veritates,

Crede mihi_, vou fallando,

E quanto mais for andando,

_Magis dicam asnitates_:

No Recife ha mil mascates

Sobreposse mercadores,

Geme quem padece dores,

É o ... todo vento,

Freiras moram no convento,

E quem quer tem seus amores.

As madrinhas são comadres,

Chocolate tem cacau

Passa dez não é pacau,

Clerigos todos são padres:

É cego não ver por grades,

O limão todo é azedo,

O que tem pavor tem medo,

É boa a mulher que ....,

Não é boa a ... mole,

A pedra grande é penedo.

Quem tem boca vai a Roma,

Quem tem sangue faz chouriços,

As abelhas têm cortiços,

A zabelê sua coma:

O ruim assucar é broma,

A canada tem quartilho,

Não tem pé a mão de milho,

Coruja não é canario,

Livro velho é calendario,

O maná não é quintilho.

É o memento lembrança

Das almas do outro mundo,

A panella tem seu fundo,

E quem herdou teve herança:

É zombar estar de chança,

Muitos filhos tem Antonio

Nunes, do seu matrimonio,

Que dos outros não sabemos;

Aposto que já entendemos

Em que é purga o antimonio.

Os sapatos levam sola,

A carne de boi é vacca,

A ... em criança é caca,

É redonda toda a bola:

Passarinho na gaiola

Está prezo na cadeia,

O gatinho bravo meia,

São frades os franciscanos,

O homem velho já tem annos,

A formosa não é feia.

Quem vai só--vai solitario,

Quem tem fome excusa môlho,

O ... tem no meio ôlho,

Tem a mulher ordinario:

Chama-se a pessa Calvario;

Cidades tem Portugal,

Ouro é o que ouro val,

Pratos de côr tem rabique,

Não se faz renda sem pique,

Todo o salgado tem sal.

Peccados mortaes são septe,

E dez são os mandamentos,

Septe são os Sacramentos,

O estojo tem canivete:

Os frades com seu topete

Não pagam luguel de cazas,

Os anjinhos levam azas,

Cães de fila todos mordem,

Sacramento sexto é ordem,

Ganhou o que fez mais vazas.

Estas pois e outras verdades,

Amigo, que aqui vos digo,

São as de que sou amigo;

.........................

O mais são só asnidades

D’esses que dizem rodeios,

Porque só por estes meios

Se falla bem portuguez;

Tudo o mais é ser francez,

E trazer na boca freios.

JUSTIÇA

QUE FAZ O P. NA HONRA HYPOCRITA PELOS ESTRAGOS QUE ANDA FAZENDO NA

VERDADEIRA HONRA

Uma cidade tão nobre[2],

Uma gente tão honrada,

Veja-se um dia louvada

Desde o mais rico ao mais pobre:

Cada pessoa o seu cobre;

Mas si o diabo me atiça,

Que indo a fazer-lhes justiça,

Algum saia a justiçar,

Não me poderão negar

Que por direito e por lei

Esta é a justiça que manda El-Rei.

[2] Lisboa.

O fidalgo de solar

Se dá por envergonhado

De um tostão pedir prestado

Para o ventre sustentar:

Diz que antes o quer furtar,

Por manter a negra honra,

Que passar pela deshonra

De que lh’o neguem talvez:

Mas si o vires nas galés

Com honras de vice-rei,

Esta é a justiça que manda El-Rei.

A donzella embiocada,

Mal trajada, peior comida,

Antes quer na sua vida

Ter saia que ser honrada:

É publica amancebada

Por manter a negra honrinha,

E si lh’o chama a visinha,

E lh’o ouve a clerizia,

Dão com ella na enxovia,

E paga a pena da lei:

Esta é a justiça que manda El-Rei.

A casada com adorno,

E o marido mal vestido,

Crêde que este tal marido

Pentêa monho de ...

Si disser pelo contorno

Que si soffre a frei Thomaz,

Por manter a honrinha o faz;

Esperae pela pancada,

Que com carocha pintada

De Angola ha de ser vis-rei:

Esta é a justiça que manda El-Rei.

Os lettrados peralvilhos,

Citando o mesmo doutor

A favor do réu e auctor,

Comem de ambos os carrilhos:

Si se diz pelos corrilhos

Sua prevaricação,

A desculpa que vos dão

É a honra de seus parentes;

E entonces os requerentes

Fogem d’esta infame grei:

Esta é a justiça que manda El-Rei.

O clerigo julgador,

Que’as causas julga sem pejo,

Não reparando que eu vejo

Que erra a lei e erra o doutor:

Quando vem do monsenhor

A sentença revogada,

Por saber que foi comprada

Pelo gimbo ou pelo abraço,

Responde o padre madraço:

Minha honra é minha lei;

Esta é a justiça que manda El-Rei.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 4 / 11 段