aborrecido de uns e temido de outros. Estes lhe fingiam amizade, pelo
que já sentiam: sendo o primeiro golpe da commum vingança fazerem-lhe
despir a murça capitular com desprezo, por sentença do arcebispo d. fr.
João da Madre de Deus, successor d’aquelle em cujo tempo a vestira;
si não é que elle de motu proprio abandonou o beneficio por se não
accommodar ás pensões da sua residencia.
Poucos dias antes pretendeu este prelado com piedosas mostras persuadir
ao poeta que tomasse ordens sacras, para conservar-lhe os cargos;
mas elle respondeu com inteira resolução que não podia votar a Deus
aquillo que era impossivel cumprir pela fragilidade de sua natureza;
e que a troco de não mentir a quem devia inteira verdade, perderia
todos os thesouros e dignidades do mundo: que o ser mau secular não era
tão culpavel e escandaloso, como ser mau sacerdote. E esta resposta
esperava sem duvida o arcebispo, conhecida a inteireza de Gregorio de
Mattos. Sendo certo que si o quizera conservar nos cargos não eram as
ordens condição necessaria, valentia foi sem duvida offender a um homem
que para despicar-se não respeitava caracter, nem potestade, trajando
por espada a mesma foice de Saturno amolada nas esquinas da eternidade.
D’esta segunda declinação da fortuna, que com os bens patrimoniaes
muito antes havia vacillado, nasceu o precipicio terceiro, que se
encadeam os males, casando com Maria de Povos, viuva honestissima,
quanto formosa; mas tão pobre que seu mesmo tio Vicente da Costa
Cordeiro, lastimado do seu abatimento, entendeu despersuadi-lo. Mas
vendo ser impossivel, fez da sua fazenda um donativo, para que a
sobrinha não fosse totalmente destituida. Era o gosto de Gregorio de
Mattos, e não se trocava pelos maiores interesses, que nunca o dinheiro
foi capaz de lhe apaixonar o animo. Vendeu já necessitado por tres mil
cruzados uma sorte de terras, e recebendo em um sacco aquelle dinheiro,
o mandou vasar no canto da casa, d’onde se distribuia para os gastos
sem regra, nem vigilancia.
Posto já na obrigação de sustentar encargos de matrimonio, e aberto as
portas o escriptorio da vocacia, poucos eram os defendidos, porque a
inteireza do seu animo patrocinava sómente a mesma razão em materias
civeis, sendo inimigo voraz d’aquelles advogados, que por junctarem
cabedal enredam as partes no labyrintho de incertas opiniões. Si
algumas vezes defendeu contra o que entendia, eram as causas crimes,
onde a summa justiça se reputa por summa iniquidade. Ninguem se acorda
que lhe rejeitassem embargos, e toda a materia d’elles se corporisava
em quatro palavras d’aquelle espirito laconico, que sem offender
gigantes fórmas conseguia a diminuição plausivel das materias, logrando
na curta esphera de qualquer laconismo alma substancial, visivel
graça, e intelligencia commum, como ninguem. Por exemplo contarei com
brevidade alguns casos.
Pleiteava Pedro o cabedal que havia dado com sua filha em dote a
Paulo, o qual depois de adornar a defuncta esposa com palma e capella,
publicava que havia fallecido intacta. Defendia por parte do auctor o
nosso jurista, e provada legalmente razoou o feito com ésta vulgaridade:
Gaita de folles não quiz tanger,
Olhe o diabo o que foi fazer.
Banhou-se em aguas de flor o patrono adverso accusando de ridicularia
indecente este razoado na extensa formalidade do seu: mas um e outro
Senado confirmando aquella sentença, veiu a conhecer o que realmente
passava; e foi que o doutor Mattos fallando pouco para merecer o menos,
dizia muito para conseguir o mais.
Outro laconismo se nos envolve na historia de um religioso, para cuja
intelligencia já dissemos o grande aborrecimento que tinha a todo o
fingido. Venerava os religiosos verdadeiros tanto quanto abominava os
que com este sancto titulo apenas merecem o nome de frades. Elle o diz
com graça nestes versos:
Se virdes um dom abbade
Sôbre o pulpito cioso,
Não lhe chameis religioso,
Chamae-lhe embora de frade.
Um d’estes frades pois se valeu do doutor Mattos, pedindo embargos para
seu sobrinho, sentenciado á morte natural por haver furtado a naveta
da sua sacristia. Mas elle absolutamente o desenganou que não estava
em hora de o servir. Instava o religioso por saber ao menos a razão da
difficuldade, e comtudo não poderei eu doirar a pilula da resposta. «É
(dizia elle) que neste instante se foi d’aqui Maria de S. Bento muito
agastada, e fez aquella cruz na minha porta em juramento de não entrar
mais por ella.» «Ila-hei buscar (tornou o religioso), si nisso está o
valer-me V Mᶜᵉ.» E logo foi representar á mulata quanta necessidade
tinha de leva-la a quebrar o seu juramento. Caprichosa era ella, mas
em tal caso caritativa accompanhou o triste pretendente, e posta já na
presença d’esse singular e exquisito genio, ouviu que lhe dizia assim:
«Não eras tu, ridicula, quem fez aquella cruz de aqui não tornar? Bem
se vê que morrias por esta introducção. Ora vae, que agora te mando
eu.» Foi-se a mulata exhalando veneno pelos olhos; e á vista dos autos
fez elle a seguinte trova por embargos:
A naveta, de que se trata,
Era de latão, e não de prata.
Á vista dos autos digo, porque o processo nelles estava em termos de
lhe valerem, como valeram, ganhando sempre applausos pela attenção com
que examinava os menores incidentes.
Com a folhinha do anno livrou a outro condemnado, contra quem as
testemunhas com verdade haviam jurado de vista sôbre um furto de noite
escura, a peditorio de seu amigo João dos Reis, mordomo então da
Misericordia.
Um homem de baixa esphera, que por aquella iniquidade a que no Brazil
chamam fortuna, subiu a desconhecer seu amo, comprando a vara de Juiz
Ordinario na villa de Igaraçú em Pernambuco, fez um auto criminal
contra este, por lhe haver chamado por Vós, como antes de o ver Juiz
costumava. Defendia o nosso jurista ao réu, e confessando a culpa,
mostrou que o não era, começando as razões com este argumento:
Si tractam a Deus por tu,
E chamam a El-Rei por vós,
Como chamaremos nós
Ao Juiz de Igaraçú?
Tu e vós e vós e tu.
Estas e outras obras de mais agigantado peso no seu officio canonizaram
o doutor Gregorio de Mattos pelo melhor jurista; de sorte que no dia de
sua morte disse o Ouvidor de Pernambuco, que lhe não era affeiçoado:
«Já morreu quem entendia o direito.» Mas si o dinheiro é inimigo
declarado da virtude, mal poderia Gregorio de Mattos adquiri-lo,
defendendo o justo, e aconselhando o verdadeiro, arrebatado maiormente
pelo furor das Musas, cuja condição totalmente se encontra com os
labyrinthos de Bardo e Bartolo. Conta-se que muitas vezes aconteceu
entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com
assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, por attender a
estes, passando lastimosas necessidades.
Era a esposa um pouco impaciente, talvez pelo pouco pão que via em
casa, e tal pelo distrahimento de seu marido, cujas desenvolturas claro
se patenteam d’estas obras: como veremos pelas rubricas de cada uma,
posto que nem a todas se deva dar inteiro credito; e enfadada de uma e
outra desesperação sahiu de casa, e entrou pela de seu tio, que depois
de a reprehender asperamente, veiu rogar ao poeta com razões de amigo
que a fosse buscar, ou consentisse ao menos que elle lh’a trouxesse:
e foi-lhe respondido que de nenhum modo admittiria sua mulher em casa
sem vir atada em cordas por um capitão do matto, como escrava fugitiva.
Assim se fez pelo mais decoroso modo, e elle a recebeu, paga a tomadia
do regimento; protestando chamar Gonçalos áquelles filhos que nascessem
de tal matrimonio; porque a sua casa se pudesse dizer de Gonçalo, com
mulher tão resoluta.
Acossado da pobreza, e sem esperança alguma de remedio em uma terra,
onde sómente o tem para triumphar da fortuna quem por estradas de
iniquidade caminha, se entregou o poeta a todo o furor da sua Musa,
ferindo a uma e outra parte como raio com edificios altos a materia
mais debilitada. E não achando a resistencia, que talvez desesperado
pretendia (negação fatal em tempos bellicosos), elegeu peregrinar pelas
casas dos amigos, e sahiu ao reconcavo povoado de pessoas generosas
pela multidão florentissima de engenhos d’assucar, preciosa droga,
que perdendo com o valor a estimação, levou comsigo a dos Magnates
Brazilienses.
Por este Paraiso de deleites estragava a cithara de Apollo suas
harmoniosas consonancias com assumptos menos dignos de tão relevante
estrondo. Lascivas mulatas e torpes negras se ufanizaram dos tropos
e figuras de tão delicada poesia. Mas que muito, si quando naufraga o
baixel quaesquer barbaros galeam a mais preciosa mercadoria! Não quero
persuadir que a desesperação lhe occasionou desenvolturas; mas direi
que do genio, que já tinha, tirou a mascara para manuzear obscenas e
petulantes obras em tanta quantidade, que das que tenho em meu poder
tão indignas do prélo, como merecedoras da melhor estimação, se póde
constituir um grande volume.
Mas a prodiga diffusão de mal applicados conceituosos dispendios
nascia das enchentes prodigiosas d’aquella Musa, que sem esperança de
que seus descuidos correriam na futura estimação, barateava versos á
conjuncção dos acasos, facilitando linguagem ao genio dos sujeitos. Da
mesma sorte que o celebrado pintor Raphael de Urbino, que disfarçado em
sua criminosa peregrinação pintava aos oleiros louça, e taboletas de
mezão aos estalajadeiros, sem prevenir que em sua posteridade seriam
resgatados por alto preço aquelles borrões milagrosos da sua malograda
idéa.
Assistia-lhe nestas desenvolturas com outros do mesmo genero aquelle
celebrado trovador de chistes, a quem uma titular lisonja proporcionou
Thalia por ama sêcca, que se prezava muito de ministrar-lhe assumptos,
apezar dos melhores amigos, que d’estas companhias lhe prognosticavam
sempre a fatal ruina.
Governava então d. João de Alencastre, secreto estimador das valentias
d’esta Musa, que a toda a diligencia lhe enthesourava as obras
desparcidas, fazendo-as copiar por elegantes lettras; quando de uma
náu de guerra desembarcou o filho de certa personagem da côrte com
animo vingativo contra o poeta, por dizer-se que havia satyrisado toda
a honra de seu pae: e bem que disfarçava sua maligna intenção, toda a
intenção maligna percebeu d. João dos mesmos disfarces d’ella. Era este
cavalheiro generosamente compadecido, e excogitando meios de livrar uma
vida em que a natureza depositára tão singulares prendas, achou traças
de segurar-lhe o perigo nos fingimentos de rigoroso justiceiro.
Ordenou aos officiaes de milicia que saindo fóra da cidade a toda a
cautela lhe trouxessem preso o dr. Gregorio de Mattos. Mas não pôde
effeituar a diligencia, porque suspeitoso d’ella o vigario da Madre de
Deus, Manuel Rodrigues, homem virtuoso que o hospedava, soube consumir
naquella ilha as mesmas presumpções de ser achado. Mas o governador
impaciente com ésta tyranna piedade, que lhe frustrava os meios da sua
piedosa tyrannia, communicou a intenção ao secretario d’Estado Gonçalo
Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, pessoa de bom entendimento, e como
tal estimador do poeta, e accordaram que o mesmo secretario fingisse
que o chamava para dar-lhe importantes avisos, que não poderiam ser
menos de pessoaes; e com carta de sua lettra se enviou portador
interessado nas melhoras do perseguido.
Conhecida a lettra pelo dr. Gregorio de Mattos, e confiado na muita
honra de Gonçalo Ravasco, promptamente veiu a fallar-lhe no logar
determinado, que era a casa de Antonio de Moura Rolim, tambem amigo,
para que se veja que quando os amigos grandes se junctam empenhados a
favorecer um desditado poeta, será para o prenderem e desterrarem por
modo de fineza. Sempre tenho que d’estas tres amizades, a primeira
arrastou com sagacidade as duas por temer em seu govêrno os atrevidos
córtes d’esta penna.
Alli pois o prenderam sem poder dar um desafôgo ao discursivo; e
mettido na casa que chamam Leoneira, na mesma portada de Palacio,
mandou que alli não deixassem chegar pessoa de qualidade nenhuma: e por
mãos de um confidente criado lhe remettia para sustentar-se os manjares
de sua meza particular: e d’esta particular prisão o trasladaram depois
á cadêa, mal seguros de seu perigo.
Trabalhou o infeliz Gregorio por justificar-se, lisongeando a um
tempo aquelle magistrado, cujas entranhas dominava pias; mas d. João
o desenganou, intimando-lhe que por sua conhecida culpa e necessario
remedio havia de embarcar-se para Angola em uma nau, que promptamente
carregava a tropa de cavallos de El-Rei para Benguella. Era o dr.
Gregorio de Mattos consummado solfista, e modulando as melhores
lettras d’aquelle tempo, em que a solfa portugueza se avantajava a
todas as de Europa, tangia graciosamente. A proposito do que me pareceu
escrever aqui esta decima, que por isso lhe fez Gonçalo Soares da
Franca, nobre engenho da Bahia:
Com tanto primor cantais,
Com tanta graça tangeis,
Que as potencias suspendeis,
E os sentidos elevais:
De ambas sortes admirais
Suspendido o bravo Eolo,
Mas eu vos digo sem dolo,
Que de mui pouco se admira
Pois tocais de Orpheu a lyra,
E a pluma tendes de Apollo.
Com estas prendas fazia apreço particular de uma viola, que por suas
curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado divertimento de seus
trabalhos, e nunca sem ella foi visto nas funcções a que seus amigos o
convidavam, recreando-se muito com a brandura suave de suas vozes. Por
esta viola, que havia deixado na Madre de Deus, fazia extremos taes,
receiando que sem ella o embarcassem, que o vigario Manuel Rodrigues,
a quem feriam na alma suas desgraças, promptamente lh’a mandou com um
liberal donativo para as cordas d’ella.
D. João, chegada a hora de embarcar, o mandou vir á sua presença,
e tractando-o com humanidade de principe lhe pediu que evitasse as
occasiões de sua perdição ultima; porque era lastima que uma pessoa,
a quem o céu enriquecêra de talento para melhor fama, comprasse o seu
discredito com o discredito irremediavel de tantos. Decorosamente
o fez embarcar, não se olvidando de recommenda-lo ao governador de
Angola Pedro Jacques de Magalhães, a quem com a causa d’aquelle degredo
insinuava os perigos que em qualquer parte corria sua pessoa.
Chovendo maldições e praguejando satyras peregrinou os mares aquelle
que por instantes naufragava nas tempestades da terra. Dizia elle
que com razão sobrada podia articular o _non possidebis ossa mea_ de
Scipião; e fallou com rigoroso acêrto: porque se houveram patrias no
mundo que desterraram seus benemeritos filhos, não consistiu talvez
essa desgraça tanto na malicia d’ellas, como no destino d’estes. Porém
a Bahia dos muitos habitos de desprezar seus naturaes fez natureza para
aborrece-los e persegui-los. A melhor pintura d’esta verdade se póde
ver nas vozes que sôbre ella declama o mesmo poeta, onde sem hyperbole
de Musas resplandece a propriedade tal, que eu com ser extrangeiro
acreditava a poesia com o juramento dos Sanctos Evangelhos.
As personagens de quem o poeta justamente se queixa em suas satyras
são comparadas a uma herva natural de Guiné, chamada aquelle terreno
Nhesiquè, e transplantada neste com o nome de Melão de S. Caetano, por
virem as primeiras a um sitio d’este nome; a qual de sorte se apoderou
do Brazil em toda parte, que não ha logar sem ella, nem planta que
prevaleça com sua inutil visinhança. As casas de religião enriquecidas
e illustradas pelos curiosos e liberaes mazombos, e sempre nellas
laborando petulantes opposições a parcialidade dos Reinóes admittidos
alli por com miseração. Ingratos hospedes! Mas si algum tivesse desejos
de padecer martyrio, fallar nesta materia queixoso causaria ao menos um
degredo similhante ao do doutor Gregorio de Mattos.
Não poderá negar-me a razão, que choro, quem sabe que no anno de 1740
mandou o provincial de S. Francisco conduzir do Porto uma chusma de
pobretões, em desprezo dos pacientissimos naturaes da terra, para
adorno da sua religião, e nunca o demonio acertou com esta destreza
para combater o animo de Job. Chegam finalmente a aborrecer os mesmos
filhos sem maior causa que haverem nascido no Brazil, onde receberam
cabedal, e inundando por toda a parte em que os brazileiros os honram e
estimam, em nenhuma d’ellas querem soffrer que haja honra nem estimação
nos brazileiros.
Fazendo porém verdadeira distincção nos nossos naturaes que são
comprehendidos nesta miseria, culparei sómente os das fecundissimas
provincias da Beira e Minho (salvando os nobres), e é de reparar que
sendo estes os que com maior necessidade se lançam a buscar dinheiro,
são estes mesmos aquelles cuja suberba é tão formidavel a quem os
remedeia. Vejamos ésta queixa allegorisada pela nossa aguia sôbre o
gato de um meirinho:
Não posso comer ratinhos,
Porque cuido, e não me engano,
Que de meu amo são todos
Ou parentes, ou paisanos:
Porque os ratinhos do Douro
São grandissimos velhacos;
Em Portugal são ratinhos,
E cá no Brazil são gatos.
Mas deixando esta materia por irremediavel, e não por temer as unhas
d’estes gatos, irei seguindo o meu infeliz poeta em sua fatal navegação.
Chegado ao reino de Angola, miseravel paradeiro de infelizes, a quem
com a propriedade costumada chamou armazem de pena e dor, e exercendo
na cidade de Loanda o officio de advogado, aconteceu que amotinada
a infantaria da guarnição d’aquella praça, e posta em armas fóra da
cidade, entrou uma chusma de soldados pela casa de Gregorio de Mattos,
forçando-o a que os fosse aconselhar sôbre as capitulações que tinham
com o governador seu general; e posto com effeito entre os amotinados
no campo, clamou que o levassem á casa para trazer certa cousa que lhe
esquecêra, sem a qual não podia obrar á medida de suas satisfações.
Entenderam os soldados que seria livro de direito, e não duvidaram
de romper segunda vez o perigo de entrar na praça; mas aquelle que
imaginavam instrumento de solido conselho, outra cousa não era mais
que a sonora cabaça do poeta; do que se infere o como chasqueou este
Democrito das alterações da fortuna.
Muito pago ficou o governador d’esta galantaria geralmente celebrada.
Serviu-se d’elle para adjuncto na condemnação dos cabeças d’aquelle
motim, que foram arcabuzados pelos ouvidos; e desempenhando a
recommendação de d. João de Alencastre deu-lhe liberdade para
embarcar-se a Pernambuco. Posto naquella capitania, governada então por
Caetano de Mello de Castro, com o semblante perturbado pela indecencia
do habito demandou a presença d’este fidalgo, que lastimando de ver o
miseravel estado a que chegára um homem tão mimoso da natureza, lhe
fez donativo de uma bolsa bem provida, e com palavras um pouco severas
lhe mandou que naquella capitania cuidasse muito em cortar os bicos á
penna, si o quizesse ter por amigo. Não sei si era zelo publico, si
particular temor. Gregorio de Mattos o prometteu fazer assim, e em
algumas occasiões mostrou quão violentado estava com aquelle preceito:
seja uma d’ellas o caso que refiro.
Picadas de ciumes se encontraram duas mulatas meretrizes juncto á porta
do poeta, e renovando suas paixões de uma e outra parte se descompunham
em vozes petulantes. Passaram de lingua a braços, e atracadas
tenazmente cahiram por terra em ridicula visão, a tempo que avisado da
grita sahiu a vê-las o poeta, e dando naquelle espectaculo deshonesto
começou a gritar: _ai que de El-Rei contra o senhor Caetano de Mello!_
Perguntaram-lhe os circumstantes que queixa tinha do governador: «Que
maior queixa (respondeu) que a de prohibir-me fazer versos quando se me
offerecem similhantes assumptos?» Notavel argumento do respeito d’este
fidalgo, si Gregorio de Mattos não tomára depois algumas licenças de
satyrisar.
Os nobres de Pernambuco contendiam ambiciosas demonstrações de
urbanidade com elle, venerando em sua pessoa prendas de que já os
havia a fama informado por escriptos. De uma em outra fazenda passava
Gregorio de Mattos uma regalada vida, e sem offender a nobreza d’este
paiz, me presuado a crer que o adoravam á maneira que os antigos
idolatras com politica religião faziam sacrificios ao gorgulho para não
destruir-lhe as sementeiras, e á peste para perdoar-lhe as vidas. Mas
sempre é digno de louvor quem sabe lisongear o damno porque o teme. Na
Bahia perdeu muitos amigos pelo meio de os ganhar; e em Pernambuco os
ganhava pelo meio de perde-los. Referirei dous casos, que sirvam de
exemplo a este ultimo reparo.
Certa pessoa muito principal em Pernambuco, de quem o poeta era
hospede, ouvia d’elle os encarecimentos com que relatava a desgraça em
que nascêra, e sua desterrada peregrinação com todos os acontecimentos
tristes, e como attribuia seus infortunios á rigorosa força de
estrella; e mal persuadido d’esta rhetorica triste lhe respondeu
atalhando nesta fórma: «Sñr. doutor, nós mesmos somos os auctores da
nossa fortuna, e cada um colhe o que semêa.»--«Não ha duvida (respondeu
o poeta), mas é desgraçado aquelle contra quem se conjurou a malicia,
que das mesmas virtudes lhe fazem dilictos: verbi gratia, alli vem
aquelle boi (e mostrou um da fazenda do mesmo sujeito); elle tem um só
corno, como estamos vendo, mas si eu lhe chamar boi de um corno, Deus
me livre da indignação de seu dono.» E sendo esta materia por toque
ou remoque muito melindrosa em Pernambuco, disfarçou este homem o
proposito, sendo certo que foi o maior amigo que teve naquella terra o
doutor Gregorio de Mattos.
O vigario da Muribeca Antonio Gomes Baracho, atravessado com o seu
coadjutor, não lhe podia soffrer as presumpções de solfista. Ordenou ao
seu trombeta que tocasse desesperadamente em ouvindo cantar como sempre
o coadjutor. Mas este que percebeu a burla, tambem se armou de um
caracol marinho, com que apupava a trombeta de seu inimigo. O vigario,
a quem o grande odio descompunha o entendimento, se foi querelar do
caso perante o vigario geral, com quem privava. Recebida a queréla,
e seguro o coadjutor, chegou o caso á noticia de Gregorio de Mattos,
e posto a caminho sobre a besta de um farinheiro entrou com seis
leguas de jornada por casa do criminoso, a quem pediu procuração para
defender-lhe a causa, asseverando que o não trouxera alli outro algum
negocio, e que de graça o queria servir. Ia o padre a agradecer-lhe
tanta fineza, mas o doutor lhe atalhou, dizendo: «Não, sñr. padre, não
m’o agradeça, que o meu interesse é saber d’este juiz qual é a lei que
condemna a quem toca um buzio.» Avisado o vigario do excesso que fizera
aquelle homem, a quem conhecia douto e respeitava poeta, logo o foi
buscar á casa do mesmo coadjutor, concedendo a este pazes, e ficando em
particular amizade com elle.
Honravam-no todos seriamente; mas arrebatado de seu fresco e esparcido
genio fugia dos homens circumspectos, e se inclinava (como na Bahia) a
musicos e folgazões. E sendo naturalmente aceiado e gentil, descompunha
a sua auctoridade vivendo entre estes ao philosopho: de sorte que
invejava aos barbaros gentios do Brazil a liberdade de andarem nus
pelo arvoredo, lastimando-se d’aquellas pensões a que nos obriga a
policia. Como outros costumam adornar seus escriptorios de odoriferos
pomos, que regalam a vista e olfacto, adornava elle o seu de bananas
que chamam do Maranhão, que mais servem ao sustento que ao gosto: e
isto em demasiada quantidade, que provocando riso a quem as via, dava
em razão:--_adornemo-nos de proveito, que em quanto as tenho, riu-me da
fome_.
Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que desenganados
os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigario do
Corpo Sancto Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais
auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como
este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar
nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as
chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso
á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo
prelado d. fr. Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho
se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que
suppunha desgarrada; e não foi assim, porque não só o achou disposto
a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o
entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com
caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos: