O mercador avarento

Quando a sua conta extende,

No que compra e no que vende

Tira duzentos por cento:

Não é elle tão jumento

Que não saiba que em Lisboa

Se lhe ha de dar na gamboa;

Mas comido já o dinheiro,

Diz que a honra está primeiro,

E que honrado a toda a lei.

Esta é a justiça que manda El-Rei.

A viuva auctorisada,

Que não possue vintem,

Porque o marido de bem

Deixou a casa empenhada:

Alli entra a fradalhada,

Qual formiga em correição,

Dizendo que á casa vão

Manter a honra da casa;

Si a vires arder em brasa,

Que ardeu a honra entendei.

Esta é a justiça que manda El-Rei.

O Adonis da manhãa,

O Cupido em todo o dia,

Que anda correndo a coxia

Com recadinhos á irmãa,

E si lhe cortam a lãa

Diz que anda naquelle andar

Pela honra conservar

Bem tractado e bem vestido;

Eu o verei tão despido,

Que até as costas lhe verei.

Esta é a justiça que manda El-Rei.

Si vires um dom abbade

Sôbre o pulpito cioso,

Não lhe chameis religioso,

Chamae-lhe embora de frade:

E si o tal Paternidade

Rouba as rendas do convento,

Para acudir ao sustento

Da ..., como da peita

Com que livra de suspeita

Do Geral, do Vice-Rei,

Esta é a justiça que manda El-Rei.

DIALOGO

ENTRE O DEMONIO E A ALMA

Cantavam naquelle tempo os chulos da Bahia certas cantigas por uma

toada triste que rematava, dizendo: «Banguê, que será de ti?» Mas

outros mais piedosos reduziam a mesma canção ao Divino finalizando

assim: «Meu Deus, que será de mim?» E o P. entre o temporal e o eterno

de uma o outra chularia introduziu uma alma christãa resistindo ás

tentações do demonio com a glosa de ambos os extremos:

Meu Deus, que será de mim?

Banguê, que será de ti?

_Alma_--Si o descuido do futuro

E a lembrança do presente

É em mim tão continente,

Como do mundo murmuro?

Será porque não procuro

Temer do principio o fim?

Será porque sigo assim

Cegamente o meu peccado?

Mas si me vir condemnado,

_Meu Deus, que será de mim?_

_Dem._--Si não segues meus enganos

E meus deleites não segues,

Temo que nunca socegues

No florido de teus annos:

Vê como vivem ufanos

Os descuidados de si:

Canta, baila, folga e ri;

Porque os que não se alegraram,

Dous infernos militaram:

_Banguê, que será de ti?_

_Alma_--Si para o céu me creastes,

Meu Deus, á imagem vossa,

Como é possivel que possa

Fugir-vos, pois me buscastes?

E si para mim tractastes

O melhor remedio e fim;

Eu, como ingrato Caim,

D’este bem tão esquecido,

Tendo-vos tão offendido,

_Meu Deus, que será de mim?_

_Dem._--Todo o cantar allivia

E todo o folgar alegra,

Toda a branca, parda e negra

Tem sua hora de folia:

Só tu na melancolia

Tens allivio? Canta aqui

E torna a cantar alli,

Que d’esse modo o practicam

Os que alegres prognosticam

_Banguê, que será de ti?_

_Alma_--Eu para vós--offensor,

Vós para mim--derretido?

Eu--de vós tão esquecido,

E vós de mim--Redemptor?

Ai como sinto, Senhor,

De tão mau principio o fim,

Si me não valeis assim,

Como áquelle que na cruz

Feristes com vossa luz?

_Meu Deus, que será de mim?_

_Dem._--Como assim na flor dos annos

Colhes o fructo amargoso?

Não vês que todo o penoso

É causa de muitos damnos?

Deixa, deixa desenganos,

Segue os deleites, que aqui

Te offereço, porque alli

Os mais que cantando vão,

Dizem na triste canção:

_Banguê, que será de ti?_

_Alma_--Quem vos offendeu, Senhor?

Uma creatura vossa?

Como é possivel que eu possa

Offender meu Creador?

Triste de mim peccador,

Si a gloria que daes sem fim,

Perdida num Serafim

Se perder em mim tambem?

Si eu perder tamanho bem,

_Meu Deus, que será de mim?_

_Dem._--Si a tua culpa merece

Do teu Deus toda a esquivança,

Folga no mundo e descança

Que o arrepender aborrece:

Si o peccado te entristece,

Como já em outros vi,

Te prometto desde aqui

Que os mais da tua facção

E tu no inferno dirão:

_Banguê, que será de ti?_

CONTRA

OS INGRATOS MURMURADORES DO BEM QUE ACTUALMENTE RECEBEM DA MÃE

UNIVERSAL, QUE OS AFFAGA, SE QUEIXA A BAHIA, CONFESSANDO-SE DAS CULPAS,

QUE LHE DÃO, PELOS PRECEITOS DO DECALOGO

ROMANCE

Já que me põem a tormento

Murmuradores noviços,

Carregando sobre mim

Suas culpas e delictos;

Por credito do meu nome,

E não por temer castigo,

Confessar quero os peccados

Que faço, e que patrocino.

E si alguem tiver a mal

Descobrir este sigillo,

Não me infame que eu serei

Pedra em poço, ou seixo em rio.

Sabei, céu, sabei estrellas,

Escutae, flores e lirios,

Montes, serras, peixes, aves,

Lua, sol, mortos e vivos,

Que não ha nem póde haver,

Desde o Sul ao Norte frio,

Cidade com mais maldades,

Nem provincia com mais vicios,

Do que sou eu, porque em mim

Recopilados e unidos

Estão junctos quantos têm

Mundos e reinos distinctos.

Tenho Turcos, tenho Persas,

Homens de nação impios,

Mogores, Armenios, Gregos,

Infieis e outros gentios.

Tenho ousados Mermidonios,

Tenho Judeus, tenho Assyrios,

E de quantas seitas ha

Muito tenho, e muito abrigo.

E sinão digam aquelles

Presados de vingativos,

Que sanctidade têm mais

Que um Turco e que um Mohabito!

Digam idolatras falsos,

Que estou vendo de continuo

Adorarem ao dinheiro,

Gula, ambição e amoricos!

Quantos com capa christãa

Professam o judaismo,

Mostrando hypocritamente

Devoção á Lei de Christo!

Quantos com pelle de ovelha

São lobos enfurecidos,

Ladrões, falsos, aleivosos,

Embusteiros e assassinos!

Estes por seu mau viver,

Sempre pessimo e nocivo,

São os que me accusam damnos,

E põem labéos inauditos.

Mas o que mais me atormenta

É ver que os contemplativos,

Sabendo a minha innocencia,

Dão a seu mentir ouvidos.

Até os mesmos culpados

Têm tomado por capricho,

Para mais me difamarem

Pôrem pela praça escriptos,

Onde escrevem sem vergonha,

Não só brancos, mas mestiços,

Que para os bons sou inferno,

E para os mais paraizo.

Oh velhacos insolentes,

Ingratos, mal procedidos!

Si eu sou essa que dizeis,

Porque não largais meu sitio?

Porque habitais em tal terra,

Podendo em melhor abrigo?

Eu pego em vós? eu vos rogo?

Respondei: dizei, maldictos?

Mandei acaso chamar-vos,

Ou por carta, ou por aviso?

Não viestes para aqui

Por vosso livre alvedrio?

A todos não dei entrada,

Tractando-vos como a filhos?

Que razão tendes agora

De difamar-me atrevidos?

Meus males de quem procedem?

Não é de vós? claro é isso:

Que eu não faço mal a nada

Por ser terra e matto arisco.

Si me lançais má semente

Como quereis fructo limpo?

Lançae-a boa, e vereis

Si vos dou cachos optimos.

Eu me lembro que algum tempo,

Isto foi no meu principio,

A semente que me davam

Era boa e de bom trigo.

Por cuja causa meus campos

Produziam pomos lindos,

De que ainda se conservam

Alguns remotos indicios.

Mas depois que vós viestes

Carregados, como ouriços,

De sementes invejosas

E legumes de maus vicios;

Logo declinei comvosco,

E tal volta tenho tido,

Que o que produzia rozas

Hoje só produz espinhos.

Mas para que se conheça

Si fallo verdade ou minto,

E quanto os vossos enganos

Têm difamado meu brio:

Confessar quero de plano

O que encubro por servir-vos,

E saiba quem me moteja

Os premios que ganho nisso.

Já que fui tão pouco attenta,

Que a luz da razão e o sizo

Não só quiz cegar por gosto,

Mas ser do mundo ludibrio.

Vós me ensinastes a ser

Das inconstancias archivo,

Pois nem as pedras que gero

Guardam fé aos edificios.

Por vosso respeito dei

Campo franco e grande auxilio

Para que se quebrantassem

Os mandamentos divinos.

Cada um por suas obras

Verá contra quem me explico,

Sem andar excogitando

Para quem se aponta o tiro.

PRECEITO I

Que de quilombos que tenho.

Com mestres superlativos,

Nos quaes se ensina de noite

Os calundús e feitiços!

Com devoção os frequentam

Mil sujeitos femininos,

E tambem muitos barbados,

Que se prezam de Narcisos.

Ventura dizem que buscam

(Não se viu maior delirio!)

Eu que os ouço e vejo, calo

Por não poder diverti-los.

O que sei é que em taes danças

Satanaz anda mettido,

E que só tal padre mestre

Póde ensinar taes delirios.

Não ha mulher desprezada,

Galan desfavorecido,

Que deixe de ir ao quilombo

Dançar o seu bocadinho.

E gastam bellas patacas

Com os mestres da Cachimbo,

Que são todos jubilados

Em depennar taes patinhos.

E quando vão confessar-se,

Encobrem aos padres isto,

Porque o tem por passatempo,

Por costume ou por estylo.

Em cumprir as penitencias

Rebeldes são e remissos,

E muito peior si as taes

São de jejuns ou cilicios.

A muitos ouço gemer

Com pezar muito excessivo,

Não pelo horror do peccado,

Mas sim por não consegui-lo.

PRECEITO II

No que toca aos juramentos

De mim para mim me admiro,

Por ver a facilidade

Com que os vão dar a juizo,

Ou porque ganham dinheiro,

Por vingança, ou pelo amigo,

E sempre juram conformes

Sem discreparem do artigo.

Dizem que fallam verdade,

Mas eu, pelo que imagino,

Nenhum creio que a conhece,

Nem sabe seus aphorismos.

Até nos confessionarios

Se justificam mentindo

Com pretextos enganosos

E com rodeios fingidos.

Tambem aquelles a quem

Dão cargos, e dão officios,

Supponho que juram falso,

Por consequencias que hei visto.

Promettem guardar direito,

Mas nenhum segue este fio,

E por seus rodeios tortos

São confusos labyrinthos.

Honras, vidas e fazendas

Vejo perder de continuo,

Por terem como em viveiro

Estes falsarios mettidos.

PRECEITO III

Pois no que toca a guardar

Dias sanctos e domingos,

Ninguem vejo em mim que os guarde,

Si tem em que ganhar gimbo.

Nem aos míseros escravos

Dão taes dias de vazio,

Porque nas leis do interesse

É preceito prohibido.

Quem os vê ir para o templo

Com as contas e os livrinhos

De devoção, julgará

Que vão por ver a Deus Trino;

Porém tudo é mero engano,

Porque si alguns escolhidos

Ouvem missa é perturbados

D’esses, que vão por ser vistos.

E para que não pareça

Aos que escutam o que digo

Que ha mentira no que fallo,

Com a verdade me explico:

Entra um d’estes pela egreja,

Sabe Deus com que sentido,

E faz um signal da cruz

Contrario ao do catechismo.

Logo se põe de joelhos,

Não como servo rendido,

Mas em fórma de bésteiro,

C’um pé no chão, outro erguido.

Para os altares não olha,

Nem para os Sanctos no nicho,

Mas para quantas pessoas

Vão entrando e vão saindo.

Gastam nisso o mais do tempo,

E o que resta, divertidos

Se põem em conversação

Com os que estão mais propinquos.

Não contam vidas de Sanctos,

Nem exemplos do Divino,

Mas sim muita patarata

Do que não ha, nem tem sido.

Pois si ha sermão, nunca o ouvem,

Porque ou se põem de improviso

A cuchilar como negros,

Ou se vão escapulindo.

As tardes passam nos jogos,

Ou no campo divertidos

Em murmurar dos governos,

Dando leis e dando arbitrios.

As mulheres são peiores,

Porque si lhes faltam brincos,

Manga avola, broche, troco,

Ou saia de labyrintho:

Não querem ir para a egreja,

Seja o dia mais festivo,

Mas em tendo estas alfaias,

Saltam mais do que cabritos.

E si no Carmo repica,

Ei-las lá vão rebolindo,

O mesmo para São Bento,

Ou Collegio, ou São Francisco.

Quem as vir muito devotas,

Julgará, sincero e liso,

Que vão na missa e sermão

A louvar a Deus com hymnos.

Não quero dizer que vão

Por dizer mal dos maridos,

Dos amantes, ou talvez

Cair em erros indignos.

Debaixo do parentesco,

Que fingem pelo appellido,

Mandando-lhes com dinheiro

Muitos e custosos mimos.

PRECEITO IV

Vejo que morrem de fome

Os paes d’aquelles e os tios,

Ou porque os veem lavradores,

Ou porque tractam de officios.

Pois que direi dos respeitos

Com que os taes meus mancebinhos

Tractam esses paes depois

Que deixam de ser meninos?

Digam-no quantos o veem,

Que eu não quero repeti-lo,

A seu tempo direi como

Criam estes morgadinhos.

Si algum em seu testamento

Cerrado ou nuncupativo,

A algum parente encarrega

Sua alma ou legados pios:

Tracta logo de enterra-lo

Com demonstrações de amigo,

Mas passando o requiescat,

Tudo se mette no olvido.

Da fazenda tomam posse,

Até do menor caquinho,

Mas para cumprir as deixas

Adoece de fastio.

E d’esta omissão não fazem

Escrupulo pequenino,

Nem se lhes dá que o defuncto

Arda ou pene em fogo activo.

E quando chega a apertal-os

O Tribunal dos residuos,

Ou mostram quitações falsas,

Ou movem pleitos renhidos.

Contados são os que dão

A seus escravos ensino,

E muitos nem de comer,

Sem lhe perdoar o serviço.

Oh quantas e quantos ha

De bigode fernandino,

Que até de noite ás escravas

Pedem salarios indignos!

Pois no modo de criar

Aos filhos, parecem simios,

Causa porque os não respeitam

Depois que se veem crescidos.

Criam-nos com liberdade

Nos jogos, como nos vicios,

Persuadindo-lhes que saibam

Tanger guitarra e machinho.

As mães por sua imprudencia

São das filhas desperdicio,

Por não haver refestella,

Onde as não levem comsigo.

E como os meus ares são

Muito coados e finos,

Si não ha grande recato

Têm as donzellas perigo.

Ou as quebranta de amores

O ar de algum recadinho,

Ou pelo frio da barra

Sahem co’ o ventre crescido.

Então vendo-se opiladas,

Si não é do sancto vinclo,

Para livrarem do achaque

Buscam certos abortivos.

Cada dia o estou vendo,

E com ser isto sabido,

Contadas são as que deixam

De amar estes precipicios.

Com o dedo a todas mostro

Quanto indica o vaticinio,

E si não querem guarda-lo.

Não culpem meu domicilio.

PRECEITO V

Vamos ao quinto preceito,

Sancto Antonio vá commigo,

E me depare algum meio

Para livrar do seu risco.

Porque, supposto que sejam

Quietos, mansos e benignos

Quantos pizam meus oiteiros,

Montes, valles, e sombrios:

Póde succeder que esteja

Algum aspide escondido

Entre as flores, como diz

Aquelle proverbio antigo.

Faltar não quero à verdade,

Nem dar ao mentir ouvidos,

O de Cezar dê-se a Cezar,

O de Deus à Jesu-Christo.

Não tenho brigas, nem mortes,

Pendencias, nem arruidos,

Tudo é paz, tranquillidade,

Cortejo com regosijo.

Era dourada parece,

Mas não é como eu a pinto,

Porque debaixo d’este ouro

Tem as fezes escondido.

Que importa não dar aos corpos

Golpes, catanadas, tiros,

E que só sirvam de ornato

Espadas e cotós limpos?

Que importa que não se enforquem

Nem ladrões, nem assassinos,

Falsarios e maldizentes,

E outros a este tonilho;

Si debaixo d’esta paz,

D’este amor falso e fingido,

Ha fezes tão venenosas

Que o ouro é chumbo mofino?

É o amor um mortal odio,

Sendo todo o incentivo

A cobiça do dinheiro

Ou a inveja dos officios.

Todos peccam no desejo

De querer ver seus patricios,

Ou da pobreza arrastados,

Ou do credito abatidos.

E sem outra causa mais

Se dão a dextra e sinistra,

Pela honra e pela fama

Golpes crueis e infinitos.

Nem ao sagrado perdoam,

Seja rei ou seja bispo,

Ou sacerdote ou donzella

Mettida no seu retiro.

A todos em fim dão golpes

De enredos e mexericos,

Tão crueis e tão nefandos,

Que os despedaçam em cisco.

Pelas mãos nada: porque

Não sabem obrar no quinto;

Mas pelas linguas não ha

Leões mais enfurecidos.

E d’estes valentes fracos

Nasce todo o meu martyrio,

Digam todos os que me ouvem

Si fallo verdade ou minto.

PRECEITO VI

Entremos pelos devotos

Do nefando rei Cupido,

Que tambem ésta semente

Não deixa logar vazio.

Não posso dizer quaes são

Por seu numero infinito,

Mas só digo que são mais

Do que as formigas que crio.

Seja solteiro ou casado,

É questão, é já sabido,

Não estar sem ter borracha,

Seja de bom ou mau vinho.

Em chegando a embebedar-se

De sorte perde os sentidos,

Que deixa a mulher em couros,

E traz os filhos famintos.

Mas a sua concubina

Ha de andar como um palmito,

Para cujo effeito empenham

As botas com seus atilhos.

Ellas, por não se occuparem

Com costuras, nem com bilros,

Antes de chegar aos doze

Vendem o signo de Virgo.

Ouço dizer vulgarmente

(Não sei si é certo este dicto)

Que fazem pouco reparo

Em ser caro ou baratinho.

O que sei é que em magotes

De duas, trez, quatro e cinco,

As vejo todas as noites

Sair de seus encondrijos.

E como ha tal abundancia

D’esta fruita no meu sitio,

Para ver si ha quem a compre

Dão pelas ruas mil gyros.

E é para sentir o quanto

Se dá Deus por offendido,

Não só por este peccado,

Mas pelos seus conjunctivos;

Como são cantigas torpes,

Bailes e toques lascivos,

Venturas e fervedouros,

Pau de forca e pucarinhos:

Quero entregar ao silencio

Outros excessos maldictos,

Como do pae Cazumbá,

Ambrosio e outros pretinhos.

Com os quaes estas formosas

Vão fazer infames brincos,

Governados por aquelles

Que as trazem num cabrestilho.

PRECEITO VII

Já pelo septimo entrando

Sem alterar o tonilho,

Digo que quantos o tocam

Sempre o tiveram por critico.

Eu sou a que mais padeço

De seus effeitos malignos,

Porque todos meus desdouros

Pelo septimo tem vindo.

Não fallo, como lá dizem,

Ao ar, ou libere dicto,

Pois diz o mundo loquaz

Que encubro mil latrocinios.

Si é verdade, eu o não sei,

Pois acho implicancias nisto,

Porque o furtar tem dous verbos,

Um _furor_, outro _surripio_.

Eu não vejo cortar bolsas,

Nem sair pelos caminhos,

Como fazem nas mais partes,

Salvo alguns negros fugidos.

Vejo que a forca ou picota

Paga os altos de vazio,

E que o carrasco não ganha

Nem dous réis para cominhos.

Vejo que nos tribunaes

Ha vigilantes ministros,

E si houvera em mim tal gente,

Andára a soga em continuo.

Porém si d’isto não ha,

Com que razão ou motivo

Dizem por ahi que sou

Um covil de latrocinios?

Será por verem que em mim

É venerado e querido

Sancto Unhate, irmão de Caco,

Porque faz muitos prodigios?

Sem questão deve de ser,

Porque este Unhate maldicto

Faz uns milagres que eu mesma

Não sei como tenho tino.

Póde haver maior milagre

(Ouça bem quem tem ouvidos)

Do que chegar um Reinol,

Por Lisboa, ou pelo Minho;

Ou degradado por crimes,

Ou por moço ao pae fugido,

Ou por não ter que comer

No logar onde é nascido:

E saltando no meu caes,

Descalso, roto e despido,

Sem trazer mais cabedal

Que piolhos e assobios;

Apenas se offerece a Unhate

De guardar seu compromisso,

Tomando com devoção

Sua regra e seu bentinho,

Quando umas casas aluga

De preço e valor subido,

E se põe em tempo breve

Com dinheiro, e com navios!

Póde haver maior portento,

Nem milagre encarecido,

Como de ver um mazombo

D’estes cá do meu pavio;

Que sem ter eira, nem beira,

Engenho ou juro sabido,

Tem amiga e joga largo,

Veste sedas, põe polvilhos:

D’onde lhe vem isto tudo?

Cahe do céu?--tal não affirmo:

Ou Sancto Unhate lh’o dá,

Ou do Calvario é prodigio.

Consultem agora os sabios,

Que de mim fazem corrilhos,

Si estou illesa da culpa,

Que me dão sobre este artigo.

Mas não quero repetir

A dor e o pezar que sinto,

Por dar mais um passo ávante

Para o oitavo supplicio.

PRECEITO VIII

As culpas que me dão nelle,

São que em tudo quanto digo

Do verdadeiro me aparto

Com animo fementido.

Muito mais é do que fallo,

Mas é grande barbarismo

Quer erem que pague a albarda

O que commette o burrinho.

Si por minha desventura

Estou cheia de preceitos,

Como querem que haja em mim

Fé, verdade, ou fallar liso?

Si, como atraz declarei,

Se puzera cobro nisto,

Apparecêra a verdade

Cruzando os braços comigo.

Mas como dos tribunaes

Proveito nenhum se ha visto,

A mentira está na terra,

A verdade vai fugindo.

O certo é que os mais d’elles

Têm por gala e por capricho,

Não abrir a boca nunca

Sem mentir de ficto a ficto.

Deixar quero as pataratas,

E tornando a meu caminho,

Quem quizer mentir o faça,

Que me não toca impedi-lo.

PRECEITO IX E X

Do nono não digo nada,

Porque para mim é vidro,

E quem o quizer tocar

Vá com o olho sobre aviso.

Eu bem sei que tambem trazem

O meu credito perdido,

Mas valha sem sêllo ex causa,

Ou lh’os ponham seus maridos.

Confesso que tenho culpas,

Porém humilde confio,

Mais que em riquezas do mundo,

Da virtude num raminho.

Graças a Deus que cheguei

A coroar meus delictos

Com o decimo preceito

No qual tenho delinquido.

Desejo que todos amem,

Seja pobre ou seja rico,

E se contentem com a sorte

Que têm e estão possuindo.

Quero finalmente que

Todos quantos têm ouvido,

Pelas obras que fizerem

Vão para o céu direitinhos.

Á GENTE DA BAHIA

Não sei para que é nascer

Neste Brazil impestado

Um homem branco e honrado

Sem outra raça.

Terra tão grosseira e crassa,

Que a ninguem se tem respeito,

Salvo si mostra algum geito

De ser mulato.

Aqui o cão arranha ao gato,

Não por ser mais valentão,

Sinão porque sempre a um cão

Outros acodem.

Os brancos aqui não podem

Mais que soffrer e calar,

E si um negro vão matar

Chovem despezas.

Não lhe valem as defezas

Do atrevimento de um cão,

Porque acorda a Relação

Sempre faminta.

Logo a fazenda e a quinta

Vão com tudo o mais á praça,

Onde se vendem de graça,

Ou de fiado.

Que aguardas, homem honrado,

Vendo tantas sem razões,

Que não vais para as nações

Da Barbaria?

Porque lá se te faria

Com essa barbaridade

Mais razão e mais verdade

Do que aqui fazem.

Por que esperas? que te engrazem

E exgotem os cabedaes

Os que têm por naturaes,

Sendo extrangeiros?

Ao cheiro dos teus dinheiros

Vem c’um cabedal tão fraco,

Que tudo cabe num sacco

Que anda ás costas.

Os pés são duas lagostas,

De andar montes, passar vaus,

E as mãos são dous .... ....

Já bem ardidos.

Sendo dous annos corridos,

Na loja estão recostados

Mais doces e afidalgados

Que os mesmos Godos.

A mim me faltam apodos

Para apodar estes taes,

Maganos de tres canaes,

Té a ponta.

Ha outros de peior conta,

Que entre estes e entre aquelles

Vêm cheios de pez, e elles

Atraz do hombro.

De nada d’isto me assombro,

Pois os bota aqui o Senhor

Outros de marca maior,

Gualde e tostada.

Perguntae á gente honrada

Porque causa se desterra?

Diz que tem quem lá na terra

Lhe queime o sangue.

Vem viver ao pé de um mangue,

E já vos veda um mangal,

Porque tem mais cabedal

Que Porto Rico.

Si algum vem de agudo bico,

Lá vão prende-lo ao sertão,

E ei-lo bugio em grilhão

Entre galfarros.

A terra é para os bizarros,

Que vêm da sua terrinha

Com mais gorda camizinha

Que um traquete.

Que me dizeis do clerguete

Que mandaram degradado

Por dar o oleo sagrado

Á sua ..?

E a velhaca dissoluta,

Déxtra em todo o artificio,

Fez co’oleo um maleficio

Ao mesmo zote.

Folgo de ver tão asnote

O que com risinho nos labios

Anda zombando dos sabios

E entendidos.

E porque são applaudidos

De outros da sua facção,

Se fazem co’a descripção

Como com terra.

E dizendo ferra ferra,

Quando vão a pôr o pé

Conhecem que em boa fé

São uns asninhos.

Porque com quatro ditinhos,

De conceitos estudados,

Não podem ser graduados

Em as sciencias.

Então suas negligencias

As vão conhecendo alli,

Porque de si para si

Ninguem se engana.

Mas em vindo outra semana,

Já cahem no peccado velho,

E presumem dar conselho

A um Catão.

Aqui frizava o Frizão

Que foi o heresiarca

Porque os mais da sua alparca

O aprenderam.

As mulatas me esqueceram,

A quem com veneração

Darei o meu beliscão

Pelo amoroso.

Geralmente é mui custoso

O conchego das mulatas,

Que se foram mais baratas

Não ha mais Flandes.

As que presumem de grandes

Porque têm casa e são forras,

Têm, e chamam de cachorras

Ás mais do trato.

Angelinha do Sapato

Valeria um pipo de ouro,

Porém tem o ... ...

Muito abaixo.

Traz o amigo cabisbaixo

Com muitas aleivosias,

Sendo que ás Ave-Marias

Lhe fecha a porta.

Mas isso em fim que lhe importa,

Si ao fechar o põe na rua,

E sobre a ver ficar nua

Ainda a veste.

Fica dentro quem a investe,

E o de fóra suspirando

Lhe grita de quando em quando:

Ora isso basta.

Ha gente de tão má casta,

E de tão vil catadura,

Que até esta ...

Bebe e vérte.

Todos a Agrella converte,

Porque si com tão ruim ....

A alma ha de ser dissoluta,

Antes mui sancta.

Quem encontra ossada tanta,

Dos beijos de uma caveira

Vai fugindo de carreira,

E a Deus busca.

Em uma cova se offusca,

Como eu estou offuscado,

Chorando o magro peccado

Que fiz com ella.

É mui similhante a Agrella

Á Mingota do Negreiros,

Que me mammou os dinheiros,

E poz-se á orça.

A Manga, com ser de alcorça,

Dá-se a um pardo vaganau,

Que a Cunha do mesmo pau

Melhor atocha.

A Marianna da Rocha,

Por outro nome a Pellica,

A nenhum homem já dedica

A sua prata.

Não ha no Brazil mulata,

Que valha um recado só,

Mas Joanna Picaró

O Brazil todo.

Si em gostos não me accommodo,

Ao mais não haja disputa,

Cada um gabe a sua ...,

E haja socego.

Porque eu calo o meu emprego,

E o fiz adivinhação,

Com que tal veneração

Se lhe devia.

Fica-te embora, Bahia,

Que eu me vou por esse mundo,

Cortando pelo mar fundo

Numa barquinha.

Porque inda que és patria minha,

Sou segundo Scipião,

Que com dobrada razão

A minha idéa

Te diz: Non possidebis ossa mea.

OBSERVAÇÕES

CRITICAS SOBRE VARIAS MATERIAS POR OCCASIÃO DO COMETA APPARECIDO EM 1680

Que esteja dando o francez

Camoezas ao romano,

Castanhas ao castelhano,

E ginjas ao portuguez?

E que estejam todos trez

Em uma scisma quieta

Reconhecendo esta treta

Tanto á vista, sem a ver?

Tudo será; mas a ser,

Effeitos são do cometa.

Que esteja o inglez mui quedo,

E o hollandez muito ufano,

Portugal cheio de engano,

Castella cheia de medo:

E que o turco viva ledo,

Vendo a Europa inquieta?

E que cada qual se metta

Em uma cova a tremer?

Tudo será, mas a ser,

Effeitos são do cometa.

Que esteja o francez zombando,

E a India padecendo,

Italia olhando e comendo,

Portugal rindo e chorando?

E que os esteja enganando

Quem sagaz os inquieta

Sem que nada lhe prometta?

Será; mas com mais razão,

Segundo a minha opinião,

Effeitos são do cometa.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 5 / 11 段