Em geral os poetas pedem a morte cedo; Gregorio de Mattos porém não

desejava morrer na flor da edade, e no soneto em que chora a morte de

um filho seu de tenra edade, diz:

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,

Que acabe a flor na docil infancia,

E que acabando a flor dure inda o tronco.

De genio altaneiro e caracter independente, não se curvava a interesses

mundanos. Queria dar espansão ao seu singular espirito e não admittia

nisso o mais leve constrangimento.

A sua ambição era limitada: assim, não fazia caso de dinheiro, nem

mercava a sua musa aos poderosos.

Conta o seu biographo, que quando elle vendeu umas terras suas por tres

mil cruzados, recebendo o dinheiro em um saco, mandara-o despejar a um

canto da casa, e d’ahi se ia tirando o necessario e sem regra, para os

gastos diarios.

Como advogado Gregorio de Mattos era de rectissimo proceder; só

defendia o justo e aconselhava o verdadeiro. «Conta-se, diz o seu

biographo, que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com

dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que

elle despresava aquellas, para attender a estes, passando lastimosas

necessidades.»

Apezar da promessa de d. Pedro II de um logar na Casa da Supplicação de

Lisboa, não quiz o dr. Gregorio de Mattos devassar no Rio de Janeiro

dos crimes imputados ao governador Salvador Corrêa de Sá e Benavides,

cahindo assim das graças d’aquelle monarcha. Este facto, si não lhe

sobrassem outros muitos que conta o seu biographo, bastava para mostrar

a rectidão e a independencia de caracter do poeta.

Á Gregorio de Mattos deve o Brazil o primeiro brado da sua

independencia. Foi elle quem primeiro, só e desajudado, teve a coragem

e a energia de dar este grito de alarma na colonia portugueza. Em

muitas das suas producções notam-se o amor que o poeta consagrava á

sua patria e os esforços que empregava para liberta-la do jugo da

metropole, e na despedida que fez á Bahia, quando seguiu para o seu

exilio de Angola, diz elle:

Que os Brazileiros são bestas

E estarão a trabalhar

Toda a vida, por manterem

Maganos de Portugal.

As famosas _bandeiras_ que em busca de minas partiram da Bahia, levaram

o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro

Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das

suas ruas _Gregorio de Mattos_: prova inconcussa de que a sua fama não

se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se

acha com o nome mudado. Vi-a indicada em uma _Planta de Villa Rica de

N. S. do Pilar_, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar

d’esta côrte.

VII

Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á

linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa

mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil no XVII seculo.

O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos

populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da

lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos

neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria

um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das

cousas da patria até sob este ponto de vista.

Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa

sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas

composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por

conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por

miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.

Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra

fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o

Brazil, mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de

logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não

podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o

seu alentado espirito.

Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a

sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a

mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e

jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem

feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.

Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela

vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se

fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos

escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que

nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando

os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis

e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas

da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma

torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando

dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom

serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos; mas o certo é

que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria:

Querem-me aqui todos mal,

Mas eu quero mal a todos,

Elles e eu por varios modos

Nos pagamos tal por qual:

E querendo eu mal a quantos

Me têm odio tão vehemente,

O meu odio é mais valente;

Pois sou só, e elles são tantos.

O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o

o mais elevado principio--o amor da patria--que é uma das virtudes que

mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a

todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas

do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia

prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz que _maior fructo

faziam as satyras de Mattos que as suas missões_; o que importa dizer

que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras

cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso

orador sagrado.

Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa

sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas,

salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota proprio dos

poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais

impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.

Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente

recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não

descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez

mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao

ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio

Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua

patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e

buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas

da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas

pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha

poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o

honram e abonam o seu estro.

Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu

esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e

pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e

picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas

poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos

o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual

infelizmente só se conhecem os dois quartetos, que justificam por

demais o que fica allegado. Dizem elles:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

Desses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os romanos, gregos, persas, godos,

Que comtigo mereça ter apodos

Nos applausos, que assim has adquirido.

Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua

mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no

soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:

Triste Bahia! Oh quão dissimilhante

Estás, e estou do nosso antigo estado.

Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque

o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com

a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura,

foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A

sua presença quer em Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em

Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o

mais decidido respeito.

Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas

italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto

Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se

acharão nos seus logares da presente edição.

Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples

versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e

extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos

de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada

vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e

enthusiastas.

Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador--torno a dizer; e teria

talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas

pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades

retratadas.

Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar

mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo

da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas

pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus

dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novas

forças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio

de Angola, começou dizendo:

Adeus praia, adeus cidade,

Sendo que estás tão decahida;

Que nem Deus te quererá.

E concluiu assim:

Terra, que não se parece

Neste mappa universal

Com outra; e ou são ruins todas,

Ou ella sómente é má.

E como Scipião Africano, chegou a dizer: _Ingrata patria! ossa mea non

possidebis!_

Accresce ainda que o poeta teve, além dos inimigos hereditarios,

inimigos posthumos, que, calando e occultando as suas obras, só

ambicionavam tirar-lhe a aureola de poeta, tentando assim apagar-lhe o

nome da memoria dos posteros.

Não obstante isso e as expressões e termos pouco decorosos que ás vezes

emprega nas suas obras, o seu nome será sempre evocado com respeito e

veneração, e jámais ficará esquecido nos annaes da litteratura dos dois

paizes que fallam a sua lingua.

A. DO VALLE CABRAL.

VIDA

DO

DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA

PELO LICENCEADO

MANUEL PEREIRA REBELLO

VIDA

DO

DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA

Abreviarei a vida de um poeta pouco cuidadoso de estende-la nos espaços

da eternidade, que lhe franqueou as portas, escrevendo costumes do

doutor Gregorio de Mattos Guerra, mestre de toda a poesia lyrica por

especial decreto da natureza, cujo enthusiastico furor poderá só

retratar-se dignamente, porque de fórma menos viva desconfia a equidade

tão excellente materia.

Cousas direi menos decorosas ao sujeito de minha empreza; e por seguir

os dictames da verdade historica, quero perder os louros de piedoso

advogado contra exemplares famosos, que commentando ou redimindo as

obras de benemeritos talentos, affectam justificar-lhe as vidas no

resumo d’ellas, de modo que pareça impeccavel aquelle de quem o céu

confiou os erarios da sua profluencia. E si a geral opinião reprovar

ésta maxima por desabrida, o mesmo sujeito que descrevo me apologisa,

cujas doutrinas persuadem sempre a verdade nua.

Nasceu na Bahia de Todos os Sanctos, capital cidade do Estado do

Brazil, ao Cruzeiro de S. Francisco, da parte do norte, em casas

cuja figurada cornija de medalhas imperiaes ainda hoje as distingue

caprichosamente nobres. Os paes que o deram á luz em 7 de abril de

1623 foram Pedro Gonçalves de Mattos, fidalgo da serie dos Escudeiros

em Ponte de Lima, natural dos Arcos de Valdevez; e Maria da Guerra,

matrona geralmente conhecida de respeito em toda a cidade, cujas

prendas intellectuaes amassaram uma trindade capaz de resplandecer no

coração da mesma Roma. A 15 do dicto mez recebeu a graça baptismal

com o nome de João, na cathedral que depois o venerando prelado d.

Pedro da Silva e Sampaio, pela sua occurrencia e milagroso auspicio de

S. Gregorio Magno collocado em Nossa Senhora da Ajuda, lhe mudou em

Gregorio, mysterioso agouro de que seria Gregorio doutamente grande o

tenro afilhado: mas dirigida aquella mudança de algum modo a favorecer

a distincção de seus paes.

Eram estes de tal maneira ricos que possuiam com outras fazendas um

soberbo cannavial na Patatyba fabricado com perto de cento e trinta

escravos de serviço, que repartia a safra por dous engenhos, cujo

rendimento suppria largamente os gastos de um liberal tractamento e

caridade com os pobres; mas nada d’isto basta para que um poeta sendo

grande se escuse de morrer nos braços da maior miseria.

Foi o doutor Gregorio de Mattos o ultimo filho de tres varões que

nasceram d’este matrimonio, dotados pela natureza com os maiores

thesouros; mas a fortuna sempre opposta aos morgados da natureza veiu

a consumir-lhe aquelles nomes, que ambiciosa a fama pedia; e não sem

apparencias de virtude, increpando o desalinho e pouca estimação, &,

achaques que sempre toma de anniquilar os benemeritos, e desgraça

repetidas vezes chorada de sua mãe, que com agudeza natural dizia:

«Deu-me Deus tres filhos como tres sovélas sem cabo.» Farei particular

menção dos dous primeiros no segundo tomo, para que o ultimo se não

queixe do desaire que a minha penna poderia occasionar-lhe, que é menos

honra ser um accidentalmente grande, que o ter vinculada sua grandeza

na especie generativa.

Gregorio, que d’este triumvirato sapiente é o nosso particular

assumpto, criou-se com a boa estimação que inculcavam os seus haveres

e as suas honras. Soube mais que seus brazileiros contemporaneos

fatalmente agudos com o temperamento do clima, sendo lastima carecerem

de mestres para toda a Faculdade: porque Athenas perdêra de uma vez

aquella suberba, com que se reproduz em desprezo do mundo.

Passou a Coimbra, onde não teremos por novidade que aprendesse, ou

que admirasse quem tanto de casa levava as potencias dispostas.

Direi somente que assombrou na poesia: porque Belchior da Cunha

Brochado, depois desembargador da Relação d’este Estado, escreveu a

certo cavalheiro da côrte em um periodo succinto o maior elogio do

seu enthusiasmo: «Anda aqui (dizia elle) um estudante brazileiro tão

refinado na satyra, que com suas imagens e seus tropos parece que

baila Momo ás cançonetas de Apollo.» Não devia de haver-lhe visto as

valentias amorosas para enviar outra cedula aos apaixonados de João

Baptista Marini pelo postilhão de Italia: mas como o maior d’esta

materia se destina a perpetuo silencio pela impunidade dos termos que a

modestia portugueza não permitte, triumphem os Italianos embora, que lá

deve de haver necessidade d’aquillo mesmo que cá se despreza.

Doutorou-se na Faculdade de Leis, e passando á côrte a praticar

os termos da judicatura com um dos melhores lettrados d’ella, lhe

conciliou grandes creditos o caso seguinte:

Defendia este lettrado um pleito a certo titular, tão volumoso que

o conduziam mariólas quando era preciso. Era a causa civel sôbre a

possessão de uns morgados, e expirava contra aquelle cavalheiro,

que somente queria empatar-lhe a execução; e nesse empenho nenhuma

esperança lhe dava o seu advogado com os melhores da côrte. Mas por

animar o affligido pleiteante, resolveu manda-lo ao doutor Gregorio de

Mattos, dizendo que só d’aquella viveza confiava o remedio palliativo

a Sua Excellencia, dado que o houvesse. Conduzido aquelle volumoso

labyrintho para casa do nosso praticante, com os maiores encarecimentos

lhe supplicou o fidalgo que puzesse os olhos naquelle instrumento de

sua perdição, examinando-lhe os menores incidentes para embargos, cuja

extensão dirigia a concertar-se com a parte vencedora por meio de algum

respeito.

Era meio dia, foi-se o fidalgo, e não lhe soffrendo descanso o seu

alvoroço antes de vesperas, partiu a examinar si se desvelava ou não

com os autos o novo lettrado; mas achando-o na janella que palitava

sôbre o jantar, grandemente affligido rompeu em queixas do pouco

cuidado que lhe dava cousa de tanta importancia. «Socegue V Ex. (lhe

disse o bom Gregorio), que os autos estão vistos, e nelles o remedio

que desejamos muito avantajado. Neste termo de autuação temos embargos

de nullidade a todo o processo, porque no anno aqui mencionado antes e

depois corria um decreto de Felippe IV que condemnava nullos aquelles

processos começados em papel que não tivesse o sello das armas de

Castella; e como alcançou o decreto este, de que tractamos, e lhe falta

o sello, segue-se que está nullo.» Com esta destreza se trocaram as

fortunas dos pleiteantes, e o novato se acreditou por aguia de melhor

vista.

É tradição constante que serviu na côrte o logar de Juiz do Crime; e

que tambem serviu o de Orphãos se mostra de uma douta sentença sua

proferida em 2 de novembro de 1671, que traz Pegas no tomo 7.ᵒ das

Orden., Liv. I. tit. 87 § 24. Chegou a merecer a attenção do senhor

rei d. Pedro II, então principe regente da monarchia, pelo bom e

particular conceito que fez da sua grande litteratura e rectissimo

proceder, e d’aqui se foi engolphando em merecimentos. Com promessa de

logar na Supplicação o mandava sua alteza ao Rio de Janeiro devassar

dos crimes de Salvador Corrêa de Sá e Benavides, mercê que fatalmente

rejeitou. Uns dizem que por temer as violencias de tão poderoso quão

resoluto réu, quando no firme proposito de observar justiça: outros,

que com algum atrevimento indecoroso capitulára com o Soberano a mercê

antecipada do serviço, dando a entender que se fiava pouco em promessas

ainda que Reaes.

Isto é o que se conta, e sempre o ouvi dizer a pessoas de melhor

noticia; mas como se faz merecedor do engano (diz Camões) quem acredita

mais o que lhe dizem, que o que vê, affirmarei que o doutor Gregorio

de Mattos cahiu da graça do Soberano á persuasão de alguem prejudicado

em suas satyras, sem que atrevida ou temerosamente recusasse mercês.

Thomaz Pinto Brandão, em um resumo que faz da sua mesma vida, diz que

viera ao Brazil na companhia d’elle, que se retirava descontente de

lhe negarem aquillo mesmo com que rogavam a outros, e isto por ser

poeta e jurista famoso:

Procurei ir-me chegando

A um bacharel mazombo,

Que estava para a Bahia

Despachado, e desgostoso

De lhe não darem aquillo

Com que rogavam a outros,

Pelo crime de poeta,

Sôbre jurista, famoso.

D’aqui infiro que invejas indignas occasionaram que o doutor Gregorio

de Mattos se retirasse desgostoso para a patria d’aquellas injustiças,

que de ordinario padecem na côrte os benemeritos. E com elle mesmo

provarei o que digo, que é auctor sem suspeita, escrevendo umas decimas

a d. João de Alencastre:

Mas inda que desterrado

Me tem o fado e a sorte

Por um juiz de má morte, &.

Esta queda do conceito de el-rei devia occasionar-lhe certo semivalido,

contra quem indignado soltou o meu poeta os diques á sua musa,

mostrando desde Lisboa ao mundo a mais venenosa satyra que podéra

excogitar o mesmo Apollo. Sempre que leio este ramalhete de viboras me

recordo do miseravel Bupalo, que desesperado de honra se enforcou por

haver sido assumpto de outra menos viva talvez do que esta: cujo heroe

devia de amar menos a honra, do que a vida. Foi tal esta obra, que o

mesmo Soberano a decorou, fazendo glorioso apreço das suas figuradas

consonancias.

Despachado e desgostoso, que são termos encontrados, diz Thomaz Pinto

que viera para a patria o doutor Gregorio de Mattos: e veiu desgostoso

por lhe negar el-rei o adiantamento que merecia, mas despachado, porque

sendo provido na dignidade de thesoureiro-mór da Sé da Bahia, d.

Gaspar Barata de Mendonça, primeiro arcebispo d’esta, lhe commetteu o

cargo de vigario geral, que acceitou, e com estes empregos se embarcou

para a patria, desenganado de poder lograr o fructo de suas virtuosas

lettras em uma côrte que o reconheceu agudo, para teme-lo ousado. O

desembargador Christovão de Burgos de Contreiras, natural da Bahia,

que depois o foi na Relação de Lisboa, lhe facilitou a passagem na

sua conducta, e em julho de 1681 entrou a exercer de ordens menores

aquelles cargos que trouxera, trajando porém o habito secular todo

aquelle tempo que lhe ficava livre das obrigações ecclesiasticas:

capricho que principiou a arrufa-lo com os governadores do arcebispado:

porém os erros do habito eram nelle menores que os de costume

naquelles, cuja parcialidade se augmentára por horas em contraposição

da luz: e o padecente que conhecia o seu damno com vista clara, queria

reparar a inimizade de todos com a sua. Elle o pinta magistralmente

nestes versos:

Querem-me aqui todos mal,

Mas eu quero mal a todos,

Elles e eu por varios modos

Nos pagamos tal por qual:

E querendo eu mal a quantos

Me têm odio tão vehemente,

O meu odio é mais valente,

Pois sou só, e elles são tantos.

Algum amigo que tenho,

Si é que tenho algum amigo,

Me aconselha que o que digo

O cale com todo o empenho, &.

Era o doutor Gregorio de Mattos acerrimo inimigo de toda a hypocrisia,

virtude que, se podéra, devia moderar, attendendo ao costume dos

presentes seculos, em que o mais retirado anacoreta se enfastia da

verdade crua. Mas seguindo os dictames da sua natural impertinencia,

habitava os extremos da verdade com escandalosa virtude, como si

nunca houveram de acabar-se as singelezas da primeira edade; e bem

que se communicava com os doudos, d’aquella prodigiosa chuva nunca

se resolveu a molhar a cabeça, como admiravelmente o diz na obra em

que redargue a doutrina ou maxima de bem viver, que seguem muitos

politicos, de involver-se na confusão de homens perdidos e nescios, a

qual o leitor veja, por me fazer mercê, e d’esta contumacia lhe nasciam

os quebradouros d’ella. Nem havia lisonja que desmentisse as durezas

d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:

A nossa Sé da Bahia,

Com ser um mappa de festas,

É um presepe de bestas,

Si não fôr estrebaria:

Varias bestas cada dia

Vejo que o sino congrega:

Caveira mula gallega,

Deão burrinha bastarda,

Pereira mula de albarda,

Que tudo da Sé carrega.

Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu

nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras

humildes; mas o bravo lhe respondeu: «Não, senhor padre, lá vai nas

bestas.» É verdade que naquelle tempo eram poucos ou nenhuns os

formados que vestiam murça, e tanto que para acceitarem aquelles

logares capitulavam conveniencias os benemeritos, pelo contrario do que

agora passa.

Com ésta singular opinião passou o doutor Gregorio de Mattos de

uma côrte de sabios, que o representavam grande, a uma colonia de

presumidos, que o aborreciam critico, experimentando por peior condição

d’esta troca desegual o entregar-se nos braços da propria patria,

onde o mais purificado sempre tem o desar de o haverem visto menino.

E como aquelle que olhou para o sol, que qualquer sombra depois lhe

parece abysmo, a elle, com a vista proxima de Lisboa, se representavam

infernos as confusões da Bahia.

O genio satyrico e orgulho intrepido, não ha duvida que de justiça

providencial se devia ao desgoverno d’estas conquistas, onde cada um

tracta de fazer a sua conveniencia, gema quem gemer, e se notou que

de algum modo moderaram os viciosos seus depravados costumes: de que

veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as

satyras de Mattos, que as missões de Vieira; mas bem podéra deixar de

dizer muitas cousas, sem inteira informação, do que ao depois como

christão se arrependeu, dizendo ao vigario da Muribeca em Pernambuco,

Antonio Gomes Baracho, que lhe doia na alma o que dissera de fr.

Basilio.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 2 / 11 段