enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos
infernos!
Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com
lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu
companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha,
para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros
cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder
ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar,
levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo...
Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando
voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções
e não podia dormir!
Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar
as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da
freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse
expontaneamente:
—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?
O coveiro respondeu suffocado:
—Não! Onde está?!
—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.
—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida.
—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos,
fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas,
apontando para longe, no fundo do valle!...
* * * * *
O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes
de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga
e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram
impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no
seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...
Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel,
composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o
suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde
o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello
faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser
aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido
e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A
rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de
um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade
absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida
terrestre!...
O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi
instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel
certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de
uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu
um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára
despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e
vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra!
O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e
com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente:
—Isto... havia de ser o diabo do frio...
Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si
mesmo mentalmente, acrescentou:
—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!...
Passados momentos ainda considerou:
—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente
sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns
sócos!...
A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o
corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse:
—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com
officio.
Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada
de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para
abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o
padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e
de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja,
observou ligeiramente para o sachristão:
—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!...
Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro,
o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto,
suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta:
—Quem diabo morreu, ó Cruja?
—O meu cão—respondeu com brevidade.
—E para que levas tu a enxada?
—Para lhe fazer um enterro.
O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido,
respondeu-lhe com orgulho:
—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que
muitos fidalgos.
E saiu bruscamente, coxeando.
* * * * *
O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro
excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse
conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o
estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma
posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos
para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de
respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um
acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu
que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos
que andavam n’um monte á garavalha, _pegassem ao caixão_. O caixão era
a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em
seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava
no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados.
Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e
falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse:
—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o _descanço
eterno_!
As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas.
O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro,
onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do
feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto
de contentamento triste, entoando o _canto-chão_, n’uma voz roufenha,
pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios:
Béu, béu, béu,
Vae p’r’ó céu.
Ao que os rapazes, que conduziam o corpo, respondiam, fingindo vozes
profundas e graves, espaçando as syllabas:
Engola, engola,
Vae p’r’a cova.
Depois, todos juntos, communicando uns aos outros certa alegria
sorumbatica e nervosa, cantavam em côro, n’um tom mais cadenciado, largo
e solemne:
Quem ’stiver no inferno
Saia cá p’ra fóra!
As creanças achavam isto divertido, apesar de procurarem adquirir
semblantes sérios e respeitosos, fingindo attitudes de homens,
endireitando o tronco, e esforçando-se por acertar o passo. Porém, como
não sabiam coordenar bem os movimentos, em certo instante, pucharam em
differentes sentidos e quasi deixaram caír desastradamente o cadaver
do Coisa!... O coveiro sentiu rasgar-se-lhe o coração e deu um grito
instinctivo e dilacerante! Os rapazes pararam rapidamente, ficando
quietos e silenciosos diante d’aquella manifestação inexperada de uma
dôr humanamente sentida! Continuaram depois o seu caminho, n’um silencio
meditado e mais triste!...
Quando subiam a encosta do monte, o rosto do Coruja cobriu-se de certa
melancolia, caminhando devagar, com o corpo inclinado para diante,
absorvido na idéa da sua perda! Chegando ao cimo, parou junto de uma
agglomeração de penedos. Esteve alguns segundos meditativo encostado á
enxada... Mas depois, dando á cabeça um movimento impulsivo e retomando o
seu tom comico anterior, disse com o chapéu levantado ao ar:
—Alto ahi!... oh! rapaziada!
Os pequenos pararam, pousando no chão o feretro.
O coveiro principiou a abrir ali mesmo a sepultura. O som baço e profundo
da enxada, batendo cadentemente na terra, dilatava-se, reproduzindo-se
nos angulos da montanha.
No exercicio da sua triste profissão, o Coruja tinha, n’este momento
unico, um aspecto maguado... Todo curvo sobre a cova que ía abrindo,
com uma expressão facial de rigida tristeza, impunha-se austero, digno,
respeitavel!...
As creanças, graves, silenciosas, olhando absorvidas para elle, obedeciam
a um sentimento que não saberiam explicar!... Tomavam parte no sentimento
do coveiro e, d’este modo, com a sensibilidade ingenua e infantil,
acabavam a tonalidade dolorosa d’este quadro triste!
Em frente das montanhas imponentes e do amplo horisonte, a respiração era
facil, regular, socegada. Todos sentiam a tranquillidade, o socego, a
paz silenciosa dos logares ermos! O Coruja, para acabar o seu trabalho,
desceu ao fundo da sepultura e principiou a cavar com esmero dos lados.
Desejava que o corpo ficasse cuidadosamente ageitado, como n’um berço!...
Por fim, disse aos seus companheiros n’uma voz natural:
—Chegae-me para cá esse caixão.
E tirando cuidadosamente os ramos de cima do corpo, sopezou a tábua, para
a collocar no fundo com o cuidado e com o amor com que collocaria o corpo
de uma creança morta! Um dos assistentes confessou com naturalidade:
—Parece... como os anjinhos.
O Coruja devolveu a esta expressão singela e amoravel:
—Tens rasão. Olha que tinha uma alma como elles.
E passou a mão na cabeça d’esta creança, que lhe penetrára o pensamento,
com a amisade com que o poderia fazer a um seu filho... Acrescentou
depois, com voz comprimida pela dôr, mas esforçando-se por ser alegre:
—Vamos lá a cantar os officios, para ajudar a entrar esta alma no céu da
bemaventurança!...
Recomeçaram de um modo mais calmo, penetrados de comica circumspecção, o
funebre _canto-chão_.
Dizia o Coruja de um lado:
Béu, béu, béu,
Vae p’r’ó céu.
Respondiam as creanças do outro:
Engola, engola,
Vae p’r’a cova.
Depois entoavam todos em côro:
Quem ’stiver no inferno
Saia cá p’ra fóra!
Repetindo isto muitas vezes, andavam em volta da sepultura. As creanças
seguiam o coveiro, como acolytos. O Coruja, com um ramo de oliveira na
mão, significava espargir o morto, com agua benta hypothetica!
Por fim cobriu-se de terra o defunto. Espetaram-se sobre a cova os
ramos de oliveira, e todo o mundo se retirou. Os rapazes íam adiante
do coveiro, contentes e felizes, atirando pedras que rolavam pelo
monte abaixo. Um d’elles, vendo-lhe lagrimas nos olhos, perguntou a um
companheiro:
—Porque é que o tio Cruja chora?
Ao que o interrogado respondeu intelligentemente:
—Ora... era amigo do Coisa.
* * * * *
Nos tempos subsequentes ainda viram, algumas vezes, o Coruja subir aos
penedos sobranceiros á sepultura! Demorava-se ali horas, olhando para o
largo horisonte, cantarolando sempre, como era seu costume nos momentos
tristes! N’um dia em que o barbeiro Zé Maximo, com o seu ar importante
de banalidade, lhe perguntou indiscretamente, sorrindo-se com modos de
troça, «Ó Cruja, tu, diz que fizestes um grande enterro ao teu Coisa!»,
elle respondeu com azedume:
—É verdade, meu grandissimo jumento! Merecia-o melhor que tu.
O EMBARCADIÇO
O EMBARCADIÇO
Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em
linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio
com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia
descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena
trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia
da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na
companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna...
Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa
consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho
pae cego!...
Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na terra chegaram a
esquecel-o, suppunham-n’o morto... O padre Beiral, que lia as gazetas,
vira, entre as victimas de um naufragio, o nome de um Miguel... Não podia
ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou lenço preto... Porém,
este convencimento foi precipitado; porque, o rapaz, não morrêra, apesar
de ter passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia de incertezas e
de perigos, no meio dos quaes nunca poude esquecer a sua pequena aldeia,
risonha e distante.
Durante largo espaço de tempo, correu uma boa parte do mundo e foi todas
as cousas que um homem rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto e
na India; foi soldado nas republicas hespanholas da America, entrando
em muitas conspirações; foi carroceiro no Brazil; e, durante os ultimos
vinte e cinco annos, andou embarcado, percorrendo grande numero de portos
do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo homens de todas as
côres...
Á sua organisação temeraria convinham as incertezas de amplo mar,
mysterioso e amigo... Uma vida accidentada, com alegrias e desesperos,
mas sempre com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe
sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas noites chuvosas
da sua aldeia, Miguel tinha sempre que contar aos seus conterraneos,
que o escutavam absortos e pasmados. No entanto, de tanta aventura
extraordinaria, aquella que mais os impressionava era a de o maritimo
ter comida _carne de gente_! Apesar da circumstancia attenuante da fome
a bordo e da morte irremediavel para todos, as velhas beatas da aldeia
acreditavam firmemente que, o filho do cego, não poderia ter na outra
vida um destino bemaventurado...
O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade com que o irmão
de Catharina descrevia este enorme momento de desespero, tirando longas
fumaças do seu cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba
amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul sobre a cabeça... O
navio, depois de uma tormentosa viagem e quasi sem mantimentos, teve
uma calmaria no mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo
morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, sem ondulações
providenciaes, liso como a superficie de uma poça, guardando, no seu
amplo ventre poderosos animaes, que poderiam sustentar durante tempos a
população da Terra... De noite, alguns d’esses peixes vinham á superficie
da agua, attraídos pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela
frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz e de bolacha,
todos os marinheiros tiveram a heroica firmeza de não comer em tres
dias, esperando um soccorro fortuito! Em vão clamaram pela Infinita
Misericordia! Em vão tiveram dedicação e coragem!... A Fome Implacavel,
como um demonio sinistro, já os fazia estorcerem-se no convez com dôres
cruciantes nas entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem
os restantes! Que valentes e bravos companheiros, esses rapazes de trinta
annos! Nunca a coragem tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca
a resignação na morte foi mais austera e imponente! Foram elles mesmos
que, risonhos e conformados, abriram as proprias veias, para morrerem!
Só quatro dias depois d’este acontecimento horripilante é que, os
sobreviventes, avistaram um vapor que vinha da China e os rebocou para
Madagascar!...
Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou no golpho do Mexico!
Era de um contrabandista andaluz, que fazia o seu commercio no mar das
Antilhas. O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos olhos as
guelas medonhas do mar, promettia a quem lhe salvasse a embarcação,
casal-o com sua unica filha, uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o
mar estava picado que nem um inferno, e tudo se perdeu _morrendo todos_
n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz de aldeia, que escutava a
narrativa, tranzido de susto, observou com voz timida:
—Mas o tio Miguel não morreu...
—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse que não morri!?...
E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza estupefaciente!
Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, teve uma
prolongada doença, que o deteve por dois mezes n’um hospital americano.
Foi em S. Francisco, na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre
pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, provavelmente,
foi colhido o ouro com que se fabricou essa gargantilha com que vossa
excellencia adorna o seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus
quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria California!—o
de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem todas as extravagantes
ambições do mundo moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis
chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, que domina estas regiões
do sonho, é uma das mais modernas, de entre todas as grandes cidades
americanas, pois que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu
aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem hoje mais
de duzentos mil habitantes e os seus famosos ladrões, e os incendios
criminosos que ali houve ainda ha pouco espantaram o mundo inteiro! S.
Francisco é uma população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma
cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel para um
pacato europeu, que, quando foi da guerra da _Independencia_, o celebre
doutor Belows, presidente do conselho de saude, convocando um _meeting_ a
favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os apertos de mão a dollar,
sendo tantos os dollars que lhe caíram para dentro do chapéu que, o
philantropo medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma cidade
que não tem nem os pobres immundos e obscenos das ruas de Lisboa, nem os
garotos vivos e espertos que se encontram em New-York e Londres!... O
seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais cara do que em
Paris!
Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta cidade nova, levantada
pelo enorme poder do ouro, uma impressão energica! Depois de ter
percorrido a maioria das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira
tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades materialistas da
civilisação moderna, impõem-se com uma soberba que deslumbra! Talvez,
pelo estonteamento que produzira n’este homem obscuro um mundo tão
febricitante, elle teve um dia como a reclamação subita de um sentimento
perdido, e na sua mente appareceu o quadro pacifico da sua pequenina
aldeia, tão sympathica e inundada de luz.
Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões
irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio,
que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até
terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!...
Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou
a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente!
Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos,
que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros
da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as
raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e
benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára,
porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam
morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora
coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O
tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam
enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na
imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de
voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou
restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as
costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade
insoffrida de um rapaz de vinte annos!...
Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu
azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe
na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira.
Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem
enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras
abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia
o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho
sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu
crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas
de milho.
As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos
retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura
de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações
dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da
seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia
á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido,
reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos
humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que
lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as
raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares
insistentes...
Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que
tem o andar de um borracho!?...—pensavam.
Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada:
—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?
Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo
contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha,
corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia
por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que
o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e
perguntavam-lhe compadecidos:
—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora?
Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes
respondia e continuava a caminhar para a _residencia_ que se via d’ali,
na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma
mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos
impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam
a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes
d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e
repetindo muitas vezes:
—Meu rico irmão, como estás velho!
E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as
botas, dizendo por entre soluços:
—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar!
Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente
para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar
a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da
longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e
pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno...