a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem
que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas
paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os
mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul
intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas
perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente,
na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia
em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço
de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até
envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos
agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por
um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as
suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente,
tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem
presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que
causára inveja ás outras _Nossas Senhoras_ da visinhança. Mas, de todos
os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o
chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com
uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda
era falhado como d’antes!...
Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram
trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral.
Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as
lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som,
que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!...
Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!...
Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo
fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser
senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura
por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que
mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de
seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante,
principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da
conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua
vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos
agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava
vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia
pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe
orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram
preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes
dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade,
regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um
dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte
do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido,
respondeu:
—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da _Bôa-Viage_ a quem os
encommendo sempre!...
* * * * *
Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não
deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes
meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir
_proval-os_ de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os
prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto
para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal _o racharia de meio a
meio_!»
O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á
fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas
premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar,
por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão...
O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á
vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com
tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira
antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo,
ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava
contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos
melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a
humidade da terra.
Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho
robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo,
incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh!
os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam
muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de
desespero!...
Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam
com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que
se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente
tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o
Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite
e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda
tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia
muitas vezes _que um bom cão era elle_!
Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola,
ainda disse... assim com um modo engulhado:
—Home, e se elle nos pilha?!
Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida
d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo
infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada
fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia
despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo
prophetico e despresador:
—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos
queixos, se não ficas de cara á banda!...
Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa
mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser
engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam
instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo,
que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não
se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra;
pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos
e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente,
dizendo:
—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam!
A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando:
—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por
causa d’este excommungado!
O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:
—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo.
Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não
trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco.
O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima
do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela
corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os
pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca
de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo,
uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade.
Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o
Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado
e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:
—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco.
O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e
começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite
tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias,
o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente
e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do
ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão
ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma
massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no
cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a
confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se
homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo!
Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!...
Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de
luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da
natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas,
como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de
pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este
instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido
nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com
uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe!
O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas
duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e
o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente!
Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um
ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho
maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus
ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe
a sua coragem e temeridade habituaes.
Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o
que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem.
Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado
do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava
as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher
as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo
ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes
instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos
prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais
nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das
arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu
ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha
cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em
mover um pé!
Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta
opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão,
de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os
pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar
um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo
por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém,
soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do
bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram,
tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:
—Seus grandissimos ladrões, que os mato!
Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o
effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto,
abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante
para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e
disse-lhe com ar de troça:
—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar
de escramenta.
O da Engracia, completamente submettido, pediu:
—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...
O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que
era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em
tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas,
o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e
de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros
misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro,
disse-lhe:
—_Prá_ outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?
Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da
Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar,
e a quem respondeu:
—Sabes que mais?! _Bae bugiar._ É uma ensinadella.
O REI ABSOLUTO
O REI ABSOLUTO
Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços
grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas
pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as
sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos
momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena.
Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus
musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se
pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua
vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou
uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não
queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima, castigou-o.
Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos,
gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão
com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar!
Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle,
deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se,
contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia,
para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que
as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual
lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais,
e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada
vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a
mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde
costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar»,
elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e
não», continuando intencionalmente o seu choro.
Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de
uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio
o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu
gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o
som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada.
Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante
da sua cara, uma _farmiga-operaria_ andava lidando na remoção de uma
pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido
das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede,
adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a
direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o
ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura,
mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre
esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas
juntas.
Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente
caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam
com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que
tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços,
com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os
movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa,
reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este
silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho:
—Mas sempre te calaste...
Ao que elle respondeu promptamente:
—Mas vou gritar mais.
E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu
que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e
cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu
d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.
Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era
uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores
desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas
e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes,
atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e
de um verde mais suave.
O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos
negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa,
meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade
d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao
longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva,
fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo,
com os beiços alongados:
—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel!
E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar
para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu
superior.
Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos
havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima,
secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira,
arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas
orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!...
Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço
estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus
corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os
seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu
olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz
ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos,
forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando
ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as
cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as
a tomarem a direcção que desejava.
O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar
meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar
n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo,
saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as
vaccas...
N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade
de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao
longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre
a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente
á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um
sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo
aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as
poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido,
as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de
espuma. Mas queria possuir _tudo_, mandar em _tudo_ de um modo absoluto,
incondicional!
—Se morresse toda _essa_ gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente.
_Essa gente_ eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que
no momento elle ambicionava!...
E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado,
as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um
macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza
_do mundo que via da varanda_!
Por fim, absorvido _na sua idéa de poderio, de auctoridade_, desceu da
cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se
abria na sala.
* * * * *
Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os
retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou
um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava
Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo
n’outra de um velho general _do primeiro imperio_, que faiscava coleras
marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez,
na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da
sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da
parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de
novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se
firme, auctoritario e dominador!
Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais
suave, quando contemplou a cadeira de braços, onde _seu papá_, depois
de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto
n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma
curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com
gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o
sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com
abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala,
ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as
cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta
maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir
que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna!
N’aquelle momento ouviu tossir a _mamã_ que estava no quarto proximo e
por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano.
E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio
dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando
primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de
bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos
e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou,
a sua respiração era larga e profunda, signal de que estava cançado do
grande esforço que fizera!
Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e
via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu
admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia
seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos
lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com
desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo,
fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia!
Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias
naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para
o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado,
sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se
intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o
chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado
e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia
natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu
dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de
bruços.
Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um
aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento
da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente
levantado para agarrar no castão da bengala, o que, de certa maneira,
lhe dava a parecença de um menino dependurado.
Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços,
quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se
achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de
tombar as cadeiras, quebrar os vidros, _atirar abaixo aquelles homes_.
E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez
sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a
pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo
o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as
rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e
a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto
suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso,
Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor
da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente
com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno,
_para se metter com elle_, fez-lhe este pedido exigente:
—Dás-me essa cousa?
Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu
imperiosamente:
—Dás ou não dás? Olha que tu...
E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.
Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno
julgando-o um signal desprezador do seu poder, pareceu-lhe provocante.
Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam
a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae:
—Então vae lá para dentro.