—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo missionario que ali

esteve em Refuinho, e que teve artes de levar para o reino da gloria

a Rosaria do Thomaz do Monte... Sabeis que _ella_ já vos faz tantos

milagres que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!..

Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria

combinou com as outras mulheres, para arranjarem _alguma cousa_ que

Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque

se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos

porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns

rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz

convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da

porta:

—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua

benta...

—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso.

Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na

garganta:

—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para

toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!...

Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.

Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe:

—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que

lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos

nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até

offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...

A _beata_, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo:

—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei.

Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam.

E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem os ultimos

melindres, principiaram ellas a comer com a mão, e a beber todas pela

mesma infuza.

* * * * *

O morto estava deitado no esquife, vestido com o seu habito de

_terceiro_. A côr escura do seu rosto e o pardo da mortalha sobresaía...

destacava-se da brancura do lençol de panno engommado, que tinha nas

ourelas recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, e as

mãos, sobre o peito, agarravam um ramo de oliveira; e no rosto, pallido

e soffredor, a dolorosa expressão dos que têem sentido dolorosamente

fugir-lhe o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, sobre

uma velha caixa de pinho coberta por uma toalha, estava um crucifixo,

com duas vélas dos lados; aos pés, a caldeira da agua benta, esperava

os amigos do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco hyssope,

depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle momento já devia

pairar nas regiões incomprehensiveis!... N’aquelle cadaver livido, todo

podridão e um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema

serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!...

Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, principiou a

comer com moderação e, ao parecer, com pouco appetite.

—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me passa d’aqui—dizia,

indicando a parte superior do esophago.

Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a:

—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de deixar ir assim para a

cova... _como elle_. Se Deus, na sua infinita misericordia t’o roubou,

não é rasão para que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e

bebe-lhe que é o melhor que tens a fazer.

E, olhando sagazmente para os lados do caminho, acrescentou com voz

familiar e sem imposturas desnecessarias:

—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu bocado sem medo.

Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, resignadas e com

vontade, sentiram passos de alguem que se aproximava!... Todas deglutiram

rapidamente o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue frio,

metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, mas deixou,

imprevidentemente, a porta aberta. Lindoria, por seu lado, escondeu com

sagacidade, a infuza do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo por

cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias espalhadas. Por

fim, como se tivesse havido qualquer convenio anterior, compozeram os

semblantes n’uma expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e,

fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com lagrimas no caso

presente, lamentando as amigas de Isabel, esta perda do _seu homme_,

procurando dar-lhe as melhores consolações que em taes momentos se podem

desejar!...

Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha

resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida!

Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das

creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem,

as suas palavras de coragem...

A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato,

com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto

lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e

desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias,

em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as

circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e

caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo,

ácerca do terceiro marido que lhe morria!...

* * * * *

No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro

sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa,

revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia

attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar

sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu

minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se

certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou

do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um

osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a

imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com

mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois

de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato

se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se,

e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha

sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o

chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali

principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...

O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto,

logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e,

sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira

da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente

tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e

inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar

de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias,

completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se

nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando

das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com

elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de

tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa

sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella...

A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente

reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria

do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife.

Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía

reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato

preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha

comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente

e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse

momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos

ao _ladrão_, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas

da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras

imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel:

—_Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!_

Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens

fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e

talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho

escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de

um comico ardente:

—Pega lá mulher... _Aquelles defuntos_ do que precisam é d’esta agua

benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!...

E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso:

—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas!

E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á soleira, com o

fim de o amansar, de o adquirir para o convivio das suas amigas. Por

isso chamou-o com uma voz convidativa, attraente e cheia de confiança,

piscando-lhe um olho:

—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de tratante... Andá cá

maroto... comer alguma cousa...

E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, ella, julgando-o

dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza:

—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás...

Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras de Lindoria, respondeu

simplesmente com _um gesto_ dizendo:

—Olha...

E distanciou-se com passo natural.

O ENTERRO DE UM CÃO

A MACEDO PAPANÇA

O ENTERRO DE UM CÃO

I

O velho Coruja, o coveiro, _o bom amigo dos mortos_, tinha pelo seu

pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.

O _Coisa_ acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente:

nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no

palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo,

como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da

visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou

submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as

rapaduras do pote do caldo de farinha.

O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer,

interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas,

repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese

sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto,

com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem

pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido

muito tempo.

O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro...

Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras,

estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e

isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por

causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as

encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este

ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O

Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava

então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:

—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes.

Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...

E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso,

concluia com energia:

—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros

desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o

pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os

rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...

O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e

como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em

que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido

para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças,

perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.

O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!...

ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria,

para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via

encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava

inteiramente a biographia do Coisa...

* * * * *

Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia

seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida.

O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco

carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar

compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um

bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um

pedaço, dizendo:

—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.

O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente,

auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O

coveiro observando este facto, disse sorrindo:

—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...

E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu

com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a

espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e

cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica

e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para

elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:

—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!

Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho

adiante... Ia para um atterro.

O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro,

olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de

longe:

—Tó Coisa.

O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de

alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o

affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo

de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente,

roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um

aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça

firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...

Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não

indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do

pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha

sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos,

magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes

ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito,

apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando

o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles

voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.

Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem,

casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos

rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem

irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este

procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o

observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:

—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este

ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou

home p’ra isso!

E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro

o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido,

entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando:

—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...

—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle

tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que

elle é de mau para as creancinhas... coitadas!

Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no

proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo

quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam

espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este

um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que,

todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e

vivacidade, por isso assim procedia!...

O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão

infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo

bemfeitor que se distanciava:

—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...

E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:

—És mesmo ruim, como as cobras!

Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro,

chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar

comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao

crime. Incomprehensivel preversidade!...

* * * * *

Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia

fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não

mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo

compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres,

que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia

comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente

quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios

de susto a olharem de longe.

Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante

familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da

mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia

habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o.

O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de

fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não

corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima

nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista...

emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso

abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o

Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro

bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que

andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não

só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava

ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo,

rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito _torto_:

—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!

Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera

impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico

que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a

bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver

entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres

eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de

que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e

indignado:

—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...

O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de

justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.

* * * * *

Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro

onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna

doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as

necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava

nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo

á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta

que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia

e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer

salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem,

como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a

comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O

coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura,

sorrindo com os seus olhos vesgos:

—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da

gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho

grande fome.

No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento

que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa,

qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.

II

Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho

sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante

muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia

um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar

claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas

espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma

herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas

successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar.

Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas

de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol

rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos

braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das

fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam

mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios

ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se

aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os

troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem

certeiramente a pontaria.

A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos

campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados,

puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas,

avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as

mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o

lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos

caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo,

cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes

despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de

hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e

caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães

vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola.

Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada,

tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que

não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo,

os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar

trocista e de chacota:

—Olhem este asno onde se foi deitar!...

Acrescentando outro:

—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!

Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido:

—Coitado!... Já não come mais brôa!

E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para

dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do

Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso:

—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...

Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico,

continuando depois o caminhar divertido.

* * * * *

Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o

Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas,

apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas

encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve

momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa

não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem

suspeitava um crime:

—Que diabo! por ahi algum maroto...

Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho

cerrado:

Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho) · 第 7 / 10 段