A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça

levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente,

um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie

de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de

timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem

era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa

de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua

vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém,

recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens

mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser,

para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado

de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e

dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua,

para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que

era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda

que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou

desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a

caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em

guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua

batendo nas lages da calçada.

Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na

escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no

ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um

ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se,

de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder _bimbar_ o

primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com

força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz

trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:

—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas

no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta!

Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o

Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores.

Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau

das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois

estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso

e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu

aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os

fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe

com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:

—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!...

Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em

que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior

energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio

Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes

se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento,

se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este

valente rapaz, não ter ficado morto _no S. Sebastião de Villa Nova_!...

Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A

enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos

dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda

que fóra de si, já tinha conhecido _pela guarda_ dos adversarios que

elles _sabiam do negocio_:—reconheceu que eram _jogadores_. Mas o seu

natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de

os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua _finta_ predilecta á

bôcado estomago; empregando, ainda assim, _muito olho_ para não perder a

protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite,

profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos,

no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam

na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo

uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras

injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já

tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente _aos

golpes_, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O

Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que,

no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar

a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um

largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu

rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida

navalha que abriu de prompto e disse na voz natural:

—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro.

Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre

dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O

Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina

da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos,

como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio

de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural,

havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali,

sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á

navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra,

que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios!

Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita,

para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos

que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava,

ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía

conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado,

nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho

da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso,

veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e

aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior

impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar,

pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce:

—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...

E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a

quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no

coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um

suspiro final:

—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!

Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que

proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os

braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda

teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar

stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia

ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo,

aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu

brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!...

* * * * *

O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto,

a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia

inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes,

mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa

comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente,

qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça,

para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia

aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto

sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro,

com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era

mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre

consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver:

—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...

E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se

não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que,

dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da

fonte:

—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar...

Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade

estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um

acêno imperativo de cabeça:

—Então?!

O outro troquilha encolheu os hombros, com certo desleixo, indicando que

fizesse elle o que quizesse, que estava prompto para tudo... O assassino

do Fogueira, dando movimentos desengonçados ao tronco e á cabeça,

proferiu com certa ironia feroz e temivel, condemnando aquelle estado de

arrependimento:

—Ora põe-te com _aquellas_. Talvez ainda lhe tenhas medo. Olha que já se

não mexe...—concluiu impellindo o cadaver com um pontapé.

E, logo, curvando-se sobre o corpo ainda quente, desafivelou-lhe o cinto

que suspendeu no ar, tilintando escarnecedoramente com o dinheiro, e

rematou n’uma voz de contentamento miseravel:

—Ouvel-os? Cá cantam?! Fazem um certo arranjo.

O sangue ensopava a terra, jorrando em borbotões ruidosos pela bôca do

cadaver e pela ferida! O Rio Tinto, tendo guardado o roubo, observou com

modo mais familiar, pondo a mão no hombro do companheiro, que permanecia

na mesma apparente insensibilidade:

—Agora... pernas para que vos queremos. Toca a andar, que póde vir por

ahi algum patrão!...

* * * * *

Retrocederam pelo mesmo caminho, primeiro n’um passo rapido, depois a

fugir, o Fanfarra atraz do Rio Tinto. Tomaram á esquerda, por um atalho

pouco frequentado, que os devia levar, atravez de uns montes, a outra

estrada...

O Fanfarra, quando já estava mais seguro de si, parou subitamente, para

considerar:

—Olha lá... Ficaria elle bem morto?!

O Rio Tinto certificou-lh’o do seguinte modo:

—Deus te dê mais vida do que elle tem!

Mas o Fanfarra, visivelmente preoccupado com esta idéa, como estavam

muito perto disse:

—Home... ainda é escuro... Voltemos a espreitar se elle se mexe!

E voltaram n’um passo rapido, melhor seguros de si, com a alma mais

desanuviada e perversa. Ficaram a pequena distancia, de traz do muro,

escutando... O silencio prolongava-se preguiçosamente na profundidade

do valle. Sómente o pingar monotono da fonte proxima perturbava este

alvorecer indiciso, que os passaros já principiavam a alegrar. Os

assassinos, para se certificarem positivamente da morte do Fogueira,

e como a escuridade ainda os protegia, saíram do logar onde se tinham

prudentemente escondido e aproximaram-se do cadaver, com certa ousadia e

confiança. O corpo continuava a jazer exanime, de bruços sobre a terra!

Não tinha o menor signal de vida—nem sequer perturbava o silencio da

noite, com a respiração tenue do moribundo!

O Rio Tinto, empurrando outra vez o cadaver despresivelmente com o pé,

pronunciou com um sorriso cynico:

—Estás bem morto! Pagastel-as todas. Já não comes mais brôa.

O Fanfarra, que era menos animoso, observou-lhe com certo modo urgente:

—Home, deixa-o lá, coitado! Fujamos nós, que já se vae vendo!... Pode vir

por ahi algum demonio...

O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:

—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem

elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse

agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.

Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna,

por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço

sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:

—Agora é que é bom dar á perna, que _ella_ vae-se mostrando...

* * * * *

Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer

de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos

ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das

estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos

brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se.

O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a

sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e

das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo

largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços

enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu,

tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía

illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com

mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando

para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo

por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro

tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de

primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre

os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do

valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos

e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos

continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com

o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos

carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente,

estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da

aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado

com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços,

no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra

e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que

refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons...

essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um

scepticismo ironico e dominador!...

A MORTE NEGRA

A ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO

A MORTE NEGRA

O terceiro marido de Isabel morreu de uma prolongada _queixa de peito_.

A viuva, que era uma rapariga de vinte e seis annos—saudavel, tentadora,

appetitosa—de uma forte carnação campesina, com a intensa vitalidade

das naturezas creadas em liberdade, poderia definhar-se em virtude de

tão successivas desillusões! Porque ella, que passára os ultimos tempos

em despezas de casamentos e de enterros, estremecendo com afinco e

tenacidade, cada marido recente, tinha de o prantear logo depois, com

um tal apparato de palavras inconsolaveis, que sensibilisava todas as

pessoas que a ouviam, obrigando-as a tomar parte na sua enorme dôr!

Quando acabou de expirar este ultimo, o José Chibante, Isabel principiou

a choral-o, com um desespero tão desgrenhado, que até a propria

natureza austera e muda—as altas arvores, os altos montes e os negros

penedos—pareciam compungidos!

Estava-se na primavera, mas durante muitos dias caíra um aguaceiro

copioso e subtil, que dava, ao socego das cousas naturaes, um caracter

funerario e lugubre! As densas paizagens, envolvidas d’um nevoeiro

espesso, não se viam cortadas, ao longe, pelas alegres claridades das

habitações. A linha irregular do horisonte não se riscava no azul das

tardes serenas e desejadas. O grosso volume das penedias occultava-se nas

densas nuvens, que se rasgavam, transpondo montes, transpondo valles,

correndo sempre, com uma impassibilidade gigantesca, como de valentes

cavallos de posta.

Ora Isabel, viuva pela terceira vez, sentira durante a noite o som

ululante do trovão, e presenciara os ultimos momentos angustiosos de

seu marido agonisante, encostado ao catre da cama!... Ella, que era uma

rapariga forte e com as seducções da belleza e da juventude, sentia-se

aniquilada! Exprimia-o com gritos angustiosos, com gestos vehementes, com

palavras de desespero, de amor, de saudade!... As suas boas lagrimas,

abundantes, sinceras e quentes, tinham attraído, logo de manhã, a

caridade de algumas visinhas, que lhe trouxeram as melhores consolações,

excellentes palavras, attenções urgentes... n’aquelle momento doloroso.

Eram amigas e companheiras nos trabalhos ordinarios da lavoura, e que

tinham igualmente assistido, ao caminhar implacavel da _consumpção_,

em que haviam morrido os outros dois maridos de Isabel!... Por isso

conheciam muito bem o que se passava, e, quando ouviram os primeiros

gritos alarmantes, fecharam as portas, e pelo caminho para casa da viuva,

consideravam cheias de tristeza:

—Então sempre se foi o Chibante?...

—Parece que sim, mulher! Ha pouco mais de um anno que se casaram! Quem o

havia de dizer... um rapagão como um castello!...

Uma disse com um modo indagador:

—Eu não sei o que isto é... mas tanto elle como os outros, passante o

primeiro mez de viverem com ella, logo arranjaram taes caras de bruxaria

que mettiam medo!...

Lindoria, com aspecto compadecido, teve esta opinião:

—Olhae que eu _tamem_ tenho pena da rapariga! Digam o que disserem, ha de

lhe custar... Tão nova, e já com tres mortes...

—Ora!...—duvidou uma terceira, encolhendo os hombros. A culpa de quem

é?!.. É minha?!

Lindoria, que andava sempre por casa de Isabel, interferiu para não

deixar concluir:

—Deixae-vos de asneiras... Eu bem sei o que lhe vae lá pelo coração. Ella

é uma apegada aos homens!...

—Pois sim—disse uma das companheiras; mas isso é o que não devia ser!...

E caminhando juntas, uma rematou esta conversa dizendo com naturalidade:

—Isto assim não tem geito. Isabel não deve casar mais vez nenhuma.

Entraram na casa da viuva do Chibante, que estava sentada na lareira,

com a cabeça energicamente apertada entre as mãos, chorando com desespero.

As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com os olhos enxutos

«que não se affligisse mais, que aquillo foi vontade do Senhor que tudo

manda». E acrescentavam com fé e confiança na Infinita Misericordia:

—Olha que elle ha de estar em bom logar!...

—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que Nossa Senhora o tenha no

reino dos céus!...—repetia muitas vezes Isabel.

As outras certificavam-lhe:

—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou n’este mundo...

—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis trazia-o sempre nas

palminhas!...

Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada:

—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo Antoninho onde te porei.

* * * * *

Depois de conversarem algum tempo familiarmente, foram á cama ver o

defunto! Estava escondido por um lençol; mas ellas descobriram-n’o

com certa naturalidade, talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o

bem, miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já composto, de

costas sobre a cama, tinha os punhos atados sobre o peito, e um lenço

_amarrando-lhe_ as maxillas, para se conservarem n’uma posição decente.

Essa alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe a lividez;

as palpebras, cuidadosamente cerradas e presas por um pingo de cêra,

accentuavam o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma posição

reflectida, com as pernas estendidas e os pés levantados no fundo da cama.

—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me morresse o _home_ é que

o não vestia—disse uma para a Isabel.

Ella respondeu com voz commum, interrompendo momentaneamente o chôro:

—Pois então?! Ninguem faz estas cousas melhor que a gente. Nós é que

sabemos, como elles gostavam de se arranjar...

Porque a camisa de altos collarinhos lavados e as calças de panno azul,

tinham sido vestidas ao marido, por sua propria mulher, que lhe quiz

fazer este ultimo asseio, o asseio da eternidade! O defunto estava quasi

prompto, para a sua festa de enterro. Uma das amigas de Isabel exclamou

sinceramente:

—Mas vae bonito e asseiado! Olha que te parece mesme vivo!...

Ella esclareceu, com a sua voz usual, limpando as ultimas lagrimas:

—Leva para a cova a roupa da bôda. Já aos outros dois homes, que Deus

Nosso Senhor teve na Sua Divina Vontade tirar-me, fiz o mesmo. Tenho

muita _aquella_ em que elles vão sempre para o outro mundo como uns

cravos!

E concluiu, dizendo que o seu José seria vestido de _terceiro_, porque

era _irmão d’esta ordem_, e ficava-lhe muito bem o habito, com a sua côr

parda e o cordão novo em volta da cintura, caíndo-lhe as borlas sobre

os pés... Lembrava-se muito bem, de quando elle caminhava na ultima

procissão de Passos, alinhado cuidadosamente com os outros companheiros,

levando uma tocha na mão, muito sério, já com a sua cara magra e doente,

amparada nos altos collarinhos da camisa, que agora lhe vestira para o

enterro. E, indo á caixa grande buscar o _habito de terceiro_, estendeu-o

para o verem bem, e disse que o defunto estimava muito aquelle rico

traste, que quando era vivo, muitas vezes dissera, ter desejos de o levar

para a cova. Por isso Isabel rematou com intimativa:

—Ha de ir á vontade d’elle. Quero-lh’a fazer até á ultima, porque elle

tambem sempre foi muito bô para mim.

—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as companheiras. A gente, quando

o seu home é bô, deve-lhe sempre andar ao geito.

* * * * *

Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar o Coruja para vir

arranjar o habito ao defunto, por que a viuva, attendendo a que sempre

era uma cousa benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos...

O coveiro chegou resmungando, e disse palavras desgostosas e insolentes,

quando viu o morto quasi prompto. Depois, assobiando canto-chão, e

bebendo de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar ageitando-o dentro

do esquife cuidadosamente, com esmero, compondo-lhe o lençol _rebicado_,

e endireitando-lhe a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi

concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar mais alto, com

um chôro ganido e espantado, andando em volta do esquife!... O vesgo e

cambado Coruja, com os seus arremessos grutescos e irregulares, depois de

se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo brusco e malcreado, fazendo

carantonhas, com a lingua de fóra:

—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha corja de mandrongas!...

Quem vos não conhecer que vos compre!

E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou:

—Já trazes outro de olho?...

As mulheres, offendidas, responderam indignadamente:

—Cala-te, bebedo!...

—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com accento desprezivel a

beata Lindoria.

Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um modo intenso, e, as

suas amigas, pelo que tinham visto das outras vezes, sabiam que lhe fazia

mal, produzindo-lhe ataques em que parecia possuida do demonio, uma

d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, a apresentar-lh’o

como um successo natural e simples...

—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de nós fica n’este

valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. Tu has de morrer, eu hei de

morrer... todas nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para esta...

outro dia para aquella... é o mundo!

E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, para mudar de

conversa, opinou chegando-se para o esquife, a sorrir:

—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter essa gavança, mulher!

Faz gosto olhar para elle. Ninguem ahi põe um defunto na igreja, tão bem

arranjado, como tu.

Isabel respondeu:

—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto Deus me der vida e saude...

Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes pareciam distantes, á

Lindoria, que tinha confiança na casa, veio-lhe a lembrança sensatissima,

de que Isabel precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe:

—Tu has de estar por força fraca e esse chorar faz-te mal... póde-te caír

no coração.

A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não lhe entraria nem uma

bucha de pão na boca... parecia-lhe que tinha comido o seu ultimo

bocado... e, fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as palavras

afflictivas!...

Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva e com auctoridade:

—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São lá cousas que se digam!

Olha que até offendes ao Senhor, que te creou!... A gente deve fazer bem

ao seu corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua Infinita

Misericordia...

E acrescentou, depois de se assoar com estrondo:

Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho) · 第 6 / 10 段