o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle
o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador
e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á
Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam!
Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na
barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um
saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe
lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava,
affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém,
esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde
principiou a examinar detidamente _a melhor_ egua, para a comprar! Era
um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte
e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas
na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo
rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés
até aos cascos, para ver se estava _puchada_. Observou-a na dentadura,
levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim
de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para
lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha
experimentado, para que o não enganassem _outra vez_!...
O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso
gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando
estrondosamente a sua pitada de _meio grosso_. O amante da Marianna
Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas
inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia
insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:
—Ó senhor padre! Ella é maluca?
O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e
alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente
timbrada:
—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser
maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria
chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah!
Ah! Ah!...
Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que
se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas
sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na
anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar
reviravoltas...
—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento
meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres!
O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de
offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção
simulada:
—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras
malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz
idéa!
—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um
simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não
tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar
de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de
panninho que desdobrára completamente ao ar!
Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as
duvidas. Se o Fogueira queria ver, _corria-a_ elle mesmo, padre João
Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não
pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes
queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria
como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da
Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar
galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos,
disse-lhe:
—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna.
O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as
correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as
de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas,
passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau
e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e
airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez
vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse:
—Isto é fino meus homes!...
E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas,
que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira
envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas
voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:
—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente,
nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.
As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas
firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma
vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para
lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se
devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade
e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as
redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar
bem desempedida a _carreira_... Depois, quando esse momento chegou,
partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores,
que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol
poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e
esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou
firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira
confessou accenando com a cabeça:
—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!
Outro feirante disse:
—E rica mão de redea!
O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o
animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas,
que o Fogueira pagou logo.
* * * * *
Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um
rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar
dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com
palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá
por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a
conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar
do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se
lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle
lhe disse que tinha vontade de ter uma _aquella_ com o Fogueira, tomou
abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano
para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!
Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o
deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o
dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam
porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já
não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que
de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se
d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem _sua prima_... Era
uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como
qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera
amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este
boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que
muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa
d’este negocio!...
—Já tu _bês_ que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde _entrar
na cousa_—concluiu com pronuncia intelligente...
Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma
difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o
Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo:
—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi
qualquer dia e ficas a chupar no dedo!...
Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que
diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão.
Isto _de amigos_, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre
rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha
visto o que acontecera com _outras_... Homens... trazem ás vezes muitos
trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre
João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma
barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que
deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não
era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas
para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o _ladrão_
andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira
lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por
esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade,
na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não
fosse seu primo, que jurou diante do senhor _demenistrador_, primeiro,
e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia
«que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a
sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar
sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára
escondida no palheiro do padre... á espera.
A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com _o seu amigo_, já lhe
fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á
mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera,
nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia,
por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os
espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa
de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do
peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito
particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que,
embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho,
estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa.
Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou
o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz
em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia
romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha.
Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá
o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga
da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor
gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem
ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa,
cantarolando o _bemdito_, as _modas do Coração de Maria_ ensinadas pelos
ultimos missionarios, e o _Afasta janota, arreda_... moda dos cegos
que tinham estado na ultima romaria do _Soccorro_. Ai que raiva se lhe
apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali
mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim,
quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma
toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada.
Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma
torteira de barro e saíu para chamar _senhor padre João_ o seu—rico
senhor padre João!—que andava na horta, a regar...
Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu
esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua
rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz
da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a
fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que
gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva
vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não
se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe
beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo!
N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga!
Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu
os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se
espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o
malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar
por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo
Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado
que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um
ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de
os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz
interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo
triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!...
Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria
horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão
terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!...
Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de
proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era
d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda
derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento
expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a
mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo
estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o
padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo
com estalidos gulosos de lingua.
—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...
Ao que ella respondeu, toda chieira:
—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe.
Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada,
entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e
o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não
teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a
malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas
enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão
terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar _o Senhor_ a
uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella,
só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio
tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e
de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando
os ouvidos para nada escutar!
Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os
factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella
ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico,
quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola,
com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos
do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado
do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a
sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos
na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu
com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem
mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio
desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham
acompanhado o _Santissimo_ o trouxeram n’uma padiola para casa e o
poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos,
os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma
eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que
os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha,
durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no
proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a
sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de
uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite,
desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com
os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e
escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo
postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a
quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe:
—Mas elles não te viram, não, rapariga?
—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada.
—Então bem, não tenhas medo.
Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em
que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe
pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este
achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça,
jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o
dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande
serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão,
e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o,
promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o
troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se:
impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o
não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um
estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz
de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o
queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer
peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos,
tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como
o que lhes ganhára ao _monte_?! De mais a mais era um burro tão feliz,
que até arranjára o _sustituto p’rá tropa_, por quinze moedas, quando,
todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que
a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a
valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a
_chelpa_!...
A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos
que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade,
em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de
lhe tirarem _o que levasse no cinto_!... O Fanfarra, porém com um rosto
ingenuo e sério, observou:
—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem
_o milho_ que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com
seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor.
O Rio Tinto observou sensatamente:
—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com
_aquellas_... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de
um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer
pimponices... faz respeito.
E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos
untos, sem mais _aquellanças_. O melhor era elle deixar-se de asneiras;
porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao
Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira
ainda desejava ajustar _umas contas velhas_ e que talvez fosse esta a
occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou:
—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real.
—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa.
Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não
ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram
dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas
de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta
de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos,
cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e
da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho,
depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto
conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio
em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns
carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das
sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela
meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam
para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o
_sombréro_ e o bacamarte para ser um quadro de Goya!...
Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre
os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente
com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem
e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam
o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio
Tinto com o seu rancor de mau homem:
—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como
uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver!
VII
O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar,
na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de
noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas
noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a
pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das
arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita
gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos
nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros
destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só,
destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um
fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo
moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do
caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas,
o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso,
sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de
desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um
mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões,
se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos!
Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu
incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente,
uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum
campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe
apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores
de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper
um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho
por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser
pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta
idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice
para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a
pensar em _taes amigos_, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de
dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a
um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada
lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou
de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente!
O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma
pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este
momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que
este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia
a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico,
irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas
de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com
arrogancia, dizendo com voz soturna:
—Faça lá alto, ó seu amigo!