E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito

leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes.

O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes,

a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das

saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da

carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada,

correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da

loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe

palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço,

pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania

orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:

—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.

Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda,

abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo

descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo

Fogueira e continuaram o caminho.

* * * * *

A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam

ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já

fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava

muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado,

apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava

pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois

barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante

dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de

carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado.

Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta

de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com

perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da

soga:

—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.

Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam

para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos,

puchando com mais força.

Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os

britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o

cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços

e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados

das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto

grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por

empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados

em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a

estrada antiga.

Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados

no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado

aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os,

obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar

a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de

palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir,

porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a

jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas

sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços

e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte

depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas

faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos

esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos

respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação;

o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação

ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o

chão, era triste e carregado, como deve ser o dos _casseurs de pierre_ de

Courbet.

Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um

desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio,

íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho

de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido

com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao

Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer

n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira.

Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto

esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos

e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as

pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio

e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços

esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um

certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram

as que passavam por namoros do senhor Alberto—o _apontador_, aquelle

que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas

um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia,

a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma

cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo.

Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre.

Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a

alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava

casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar

com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz,

ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu

tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento

para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a

cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem

sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem

gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto,

n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho

das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois

da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos,

a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou,

mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação,

levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe

sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:

—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de

lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que

ha de ir. Arre, _bá_ ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a

ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti

Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que

eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!

E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído

todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter

muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como

_os collegas_ que estavam na villa.

Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho,

veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por

ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar

na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!»

Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras,

um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um

botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos

ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel

predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada _as

moças_, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria

diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de

um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste

e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que

adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas

e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no

mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo

de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que

os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto,

expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica!

Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores

de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao

desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem

acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta

illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no

_Bracarense_, timidamente, sobre a epigraphe de _Inspirações do Lima_!...

N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram

apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas

de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes

desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde

ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros,

onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação

aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam,

apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos

d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de

longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros,

descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.

—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!

* * * * *

Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua

do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de

um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas

tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante

os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e,

dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos

olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas

que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma

certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e

indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos

de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou

dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga

corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu

instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe

tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de _lhe

fallar_, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta

instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente

parelha de couces!

A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com

desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão

para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua,

levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo

algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se

prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão,

de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez

mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam

diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram

condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso

arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as

pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do

rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar,

vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante

já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens

lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a

terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas

pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no

galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta

e o rabo espalhado ao vento!...

Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:

—Aquillo foi o dianho da mosca!...

Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a

olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas,

dominada por uma idéa infernal!...

Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se

as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre

penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio

levava uma bravura excepcional!...

A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas

ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo

estrondosamente na agua e fez _cachap_, levantando enorme poeira de

espuma na amplitude do ar!

Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu

campo, vendo isto, exclamou surprehendido:

—Oh! com mil diabos, que lá se _spapou_!

E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo,

gritando:

—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!

O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha

aberta na mão:

—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a

baixo, com esta!

Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:

—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?

—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.

O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores

e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe

igualmente:

—Você é dono da burra que ahi caíu?

E à affirmativa do troquilha esclareceram:

—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses

penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.

Um dos trabalhadores acrescentou:

—Aquillo era maluca, por força!

O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.

—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não

tivesse _spapado_, punha-lhe as tripas ao sol.

Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:

—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...

Um terceiro acrescentou:

—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem;

mas isso parece-me mentira.

Um rapaz esclareceu:

—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais

de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se

ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu.

Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!

O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:

—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.

E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:

—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!

A rapariga defendeu o primo:

—Ora! Talvez elle não soubesse!...

—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!

VI

Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na

mesma estalagem. Por causa do negocio da _burra_, invectivaram-se

reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa,

que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o

Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os

soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a

mesa, disse com altivez:

—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. _Bê_ lá como fallas p’rá

outra _bês_. Põe n’esse raio de cara dois _carbões_ accesos, para saberes

o que compras!...

E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á

noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa

de _monte_, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois

braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens,

para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um

modo natural e simples, principiando a jogar entre si o _trinta e um_.

Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem

vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de

peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído!

Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado,

foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o

chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando _n’aquillo_

um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros,

attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo

simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e

o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta,

um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma

convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais

dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas

que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a

baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O

companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado

sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou

ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz

imperiosa e rouca:

—São quatro _sovranos_ de monte!

Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau,

acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para

o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações

poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as

pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em

ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e,

carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um

modo vago:

—Eram precisas ahi quatro croaças em _covre_...

Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco

osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio

nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do

hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava

medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com

inflexões nervosas:

—Tio Domingos... Estas croaças em _covre_!...

Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.

O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe

usurariamente interessado:

—Então elles hoje... ein Marquinhos?!

Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente,

encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma

mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:

—Sim, senhor, _vão fazer_... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o

outro que eu não sei como dianho se chama...

—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!

—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa,

tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um

timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não _se

volta_, emquanto lhe não levarem _covre_!

O taberneiro disse:

—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.

E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais

falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias

e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando

ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que

collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:

—_Aqui pr’ás bemditas almas!..._

Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os

jogadores teriam de deitar os baratos!

Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com

um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera

do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho,

collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero

que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os

olhos com as fumaças e disse:

—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...

Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os

semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente.

Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa,

alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul,

o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo

dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros

accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas,

pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o _ou-ou_

prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando,

continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento

cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com

arrogancia, «jógo.»

Era quasi manhã, quando _isto_ acabou. O Fogueira _apontou_ durante toda

a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com

uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam

crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros

_pontos_, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava

sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram

cinco horas da manhã, estavam _á lisa_, achando-se o dinheiro no cinto

do Fogueira que os _tinha alimpado a todos_!

Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído

para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente

descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e

todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das

esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle,

por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota

e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim,

quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, _encontrando-se pela

primeira vez, no seu dinheiro_, depois de uma noite inteira de jogo,

durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte

moedas, disseram com certo desafogo:

—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...

E levantaram a banca sendo já dia alto.

O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante,

principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente.

Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que

ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido

perguntou com modo achincalhador:

—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro

falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao _demenistrador_. O

que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para

lembrança d’esta noite.

Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas

hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo

dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão

amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando

para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos

reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!

Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho) · 第 4 / 10 段