longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O
primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher
velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de
um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse
encostando-se com o feixe a um muro para descançar:
—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa,
por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha
Vicencia.
—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.
—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu
cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te
pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!
O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas
no pescoço da egua! Vicencia concluiu:
—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte
em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham,
quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em
jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo!
E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo
reprehensivo:
—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de
home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão _jaral_, que
vem ahi os missionarios, grande maroto!
O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima
uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe
com uma indignação latente:
—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá
pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa
d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o
diria, seu grande diabo!...
Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o
feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento
as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira!
Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas
feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias
diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com
os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão:
—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez
me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na
testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão
gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife)
andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra
ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o
senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter
ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.
Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira
só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua
pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem
o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz
ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo
do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos
responsaveis:
—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve
honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem
comprehender, voltado mentalmente para si mesmo!
E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um
muro musgoso, concluiu:
—É uma de mil diabos! Que grande bucha!
Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz
conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho:
—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!
E aproximando-se acrescentou:
—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem!
—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção.
—Tamem. Pois tu não sabes nada?
—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá
umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios!
O do Rego continuou esclarecendo:
—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na
freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco,
o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram
debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os
trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha
fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita
gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder,
por não a deixarem _ir abraçar o seu home_!... Ora tu bem sabes que a
gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega
disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem
custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe,
que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a
chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem
que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos
que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no
corpo da gente é peior que maleitas. Safa!
O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações.
Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a
alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe
Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa
barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz!
O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:
—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer.
Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante!
O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive...
comprei...». Depois perguntou-lhe:
—Mas diz que me querem prender?!
—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra
gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou
cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna;
porque _botou_ com elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por
ahi abaixo, á _speção_. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás
disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe
não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas.
E concluiu n’um tom de voz convidativo:
—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?!
Diz-lhe que venda e vamos todos lá a _essa_ Vianna!
Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria
entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no
caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou
desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O
Antonio forçou-a a caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!»
E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!...
Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando
excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua
era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas,
desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou
a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente,
fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou
a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando
estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma
tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não
faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras
amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou
familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para
isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa,
puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto
suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um
momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente
a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear...
e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á
cancella, partindo-a.
O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe
rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da
egua, como em outra occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão
aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O
momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali
mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de
todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso.
Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado,
e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira
acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A
final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não
augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu
espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar
a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas,
passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos,
com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo
acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas,
ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade
e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da
matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando
a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado,
prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a
olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes
como vidro!
Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada,
ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como
as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente,
em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos!
Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do
Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home
do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um
santo como elle era! Uma desgraça assim!»
Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio
saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da
brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e
dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a
dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo
como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de
Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes,
consolavam-n’o, lembrando-lhe que a _desgraça_ acontecera por vontade
de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a
chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E
depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão
geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre
preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que
não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida
desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal
creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa:
—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!...
E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente,
e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!»,
restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas
evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido,
sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e
viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume,
continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos,
quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com
uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego:
—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse
moço ha de vir com fome.
E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu,
expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais
secca, mais sincera:
—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu
que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home,
que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...
Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas
para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como
tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma
curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção
voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente
colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se
e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva,
mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e
apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e
rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza
nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito
honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor.
Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não
tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde
queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera
tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o
encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam
medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo».
Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O
pago foi o que se viu, ficar esborrachado.
O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca.
Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira
que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para
nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado
pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o
bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente
inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de
ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que
não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante
a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo,
disse reprehensivamente, para a viuva:
—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico
home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não
fosse pascacio!
Depois concluiu voltada para o Antonio:
—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas
teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas
verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um
casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um
Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa
é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre
Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...»
Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas.
N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o
signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á
sepultura! Uma das amigas de Engracia observou:
—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem
armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje
dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim
os vaes levando a um e um!
Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços
sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer...
N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada!
V
Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o
seu Antonio fosse para a tropa.
—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu
tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem
mal, hão de cegar!...
Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?!
Engracia bem o sabia: O Antonio não era um _cebola_, não era nenhum
_maricas_ que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões
de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa
era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que
a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de
homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras...
N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o
com a farda, com a _tal farda_ que o senhor padre Beiral lhe havia de
arranjar...
«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia
indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e,
acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que
morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas
cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio
milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se
livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses
campos para pagar a um _sustituto_. E por causa d’isto, tambem pensava
em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só
para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao
menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles
desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho;
mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez
estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um
dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno
vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a
absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio
do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo»
a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a
doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira
ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para
elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que
se via envolvido.
Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que
conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o
Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação
incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito
e de consolação ao mesmo tempo:
—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo
emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que
déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto
custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um
prompto!
Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a
apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de
Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de _arreguilar_
o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do
melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós
verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado
de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz
arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante,
com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao
Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de
lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte
moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas
quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador!
Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as
ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas
era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a
cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez
soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas
chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!...
O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:
—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella
precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna
para a montar!
O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso,
comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras
minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais
bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os
marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio
de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem _que era brava_, o Fogueira
quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas...
Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso
velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro:
—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado.
O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta
observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:
—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o
rapaz com as suas aquellas.
Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel
que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho
buscar _a guia_ e partiu para Vianna, á _speção_. A Marianna Ripa foi
com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía
toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira
fallar _da braveza_ da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante,
que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar,
observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella
subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para
ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do
panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus
pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas
pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe
impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e
triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar!
O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha
apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio
de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas
de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe
não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do
seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á
egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na
anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto,
continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto,
do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por
dentro...
Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram
uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e
resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a
ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com
vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:
—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.