3.542:000$000 réis, representa o producto bruto do solo uma quantia que
deve rastejar 46.000:000$000 réis, a qual dividida por 4.341:519
habitantes, dá uma verba media annual de pouco mais de 10$000 réis para
alimentação, em generos, de cada um d'elles, o que é absurdo. Verdade é
que o paiz importa generos alimenticios cujo valor deve accrescer ao dos
algarismos citados, mas tambem é exacto que a verba de 46.000:000$000
réis é, por outro lado, desfalcada pela exportação de milhares de contos
de réis em objectos de alimentação; pelas reservas para sementeiras, e
pela inserção, em varias matrizes, de mattos, pastagens, florestas e
outros artigos que não collaboram directamente na alimentação do povo. O
que não é possível é que cada cidadão portuguez consumma alimentação no
valor medio diario de menos de trinta réis, o que seria expressão de
miseria tal, que o paiz teria acabado á falta de gente.
Identicas observações se poderiam fazer com relação a muitos outros
rendimentos do estado, se nos traços rapidissimos do presente escripto,
podesse caber uma analyse miuda do que fornece cada um d'elles ao
thesouro publico.
Note-se unicamente de passagem que a verba da contribuição industrial
leva quasi á conclusão de que o paiz anda descalço e nu; de que não
dorme debaixo de telhas nem conhece o _conforto_ moderno, que augmenta
cada vez mais o numero de certas superfluidades dando-lhes a natureza de
necessidades verdadeiras.
* * * * *
É pois fóra de duvida que os rendimentos publicos podem ser augmentados
por meio do imposto.
O que é absurdo e vexatorio é que novos addiccionaes venham
constantemente aggravar as desigualdades já existentes, ao ponto de
tornal-as intoleraveis pela comparação.
Pague-se, mas paguem todos e proporcionalmente.
Mas se aquella proposição é verdadeira com referencia á massa geral das
transacções materiaes do paiz, será possivel que o augmento de tributo,
só por si, chegue para dar prompto allivio á crise em que labora a
fazenda nacional?
Seria loucura o pensal-o.
O _deficit_ do anno economico que teve fim em 30 de junho do corrente
anno sobe talvez de facto a perto de 8.000:000$000 réis!
Vê-se, pois, que pedir o saldo do orçamento ao imposto, seria augmentar
este de fórma que o tornaria impossivel debaixo do ponto de vista da
ordem publica, e, ainda mais, sob o aspecto economico.
Seria atacar a producção na origem; arruinar o paiz.
Para se alcançar um augmento effectivo de cobrança no valor de
8.000:000$000 réis, quanto seria necessario lançar, attendendo á quebra
que soffreria o movimento economico do paiz em todas as suas
manifestações e á repercussão d'essa quebra na cobrança do imposto?
Nem pensar n'isso é bom.
* * * * *
Bastará o auxilio das economias--isto é: de reducção nas despezas--dado
à prudente elevação do imposto, para pôr a nado a encalhada e fendida
nau de nossa fazenda?
Ainda assim, não. Quanto mais vindo as economias desacompanhadas de tal
soccorro!
As economias são uma boa e excellente cousa, como funcçao ordinaria de
governação publica e elemento de confiança nos destinos do paiz.
Para salvação não bastam.
Tem-se abusado d'essa palavra sonora, martellando com ella o espirito
popular, para favorecer intuitos de mando e combater com ella o augmento
de contribuição.
Poupam-se alguns contos de réis por um lado, quando se poupam.
Esbanja-se, pelo outro, o capital do bom juizo publico, dilapidando-o,
com falsas idéas.
A differença é contra o paiz.
Quem não deseja que se economise até ao ultimo real na administração do
estado, sizando com mão avarenta todos os gastos que não forem
indispensaveis á gerencia da nação?
Ninguem.
Quem não pensa que a economia deva ser permanente empenho de todos os
homens publicos?
Ninguem.
Quem não vê na reducção das despezas um dos melhores meios para alliviar
as finanças das difficuldades que as peiam?
Ninguem.
Mas quem faz das economias bandeira exclusiva de parcialidade?
Quem lhes attribue o condão de fazer brotar o dinheiro em jorros taes,
que matem a sede de meios em que ardem os cofres do paiz?
A especulação.
Economise-se, que economisar é proveito e dever.
Mas o _deficit_ é talvez de 8.000:000$000 réis!
Com que economias o quereis attenuar em ponto sensivel?
Ha muito a cortar no matagal do orçamento?
De accordo. Corte-se; e corto-se desapiedadamente.
Mas quanto?
A resposta mata a parte politica da questão. O lemma esfarrapa a
bandeira.
Por isso até hoje a economia tem sido mais uma formula geral de
programma de grupo, do que a applicação immediata de um principio santo.
Mas a idéa é tão boa em si, que, apezar de se terem empregado bem as
diligencias para a desacreditar, alguns resultados vai produzindo.
* * * * *
Ora se o imposto e a economia não são sufficientes hoje para avolumarem
facilmente as nossas receitas até ás ultimas visinhanças de nossas
necessidades, o que pode, senão o desenvolvimento da riqueza publica,
estendendo a base da materia tributavel, arredar dos horizontes do
futuro a cerração em que andam vendados?
Desenvolvimento de riqueza pela confiança, e de confiança pela extincção
da detestavel politica em que se tem vivido nos ultimos annos, e que, de
envolta com a moralidade, vai fazendo declinar os interesses materiaes
do paiz.
Nos ultimos tres annos a contribuição de registro e o rendimento das
alfandegas tem baixado por fórma sensivel, pois tendo sido creados desde
1867 novos impostos, ou augmentados os então existentes, na importancia
de 1.816:000$000 réis, sómente tem a receita publica crescido em cerca
de 1.200:000$000 réis.
A desconfiança a cercear as forças reaes do paiz!
Promova-se, pois, o desenvolvimento da riqueza nacional.
A base antes da cupula.
Promova-se, não por meio de um fomento _à outrance_, que onere a divida
publica com juros superiores ás vantagens que se pódem auferir d'elle,
mas por via de uma prudente applicação d'esse agente poderoso, resoluto
e valentemente auxiliado pelas forças moraes que o possam tornar
permanentemente productivo e proficuamente fecundante.
É inegavel que o paiz deve grandes serviços ás administrações que tem
curado de o dotar com os melhoramentos de que precisava. Mas talvez seja
opportuno continuar a suster um pouco tão violenta carreira, a fim de
que o thesouro não rebente no meio do caminho.
Tem-se gasto desde novembro de 1852 até 30 de abril de 1869 em obras
publicas:
No continente:
Estradas ordinarias 15.836:803$683
Caminhos de ferro 19.668:664$181
Obras publicas diversas,
incluindo o atterro, canos
de Lisboa, Lazareto, etc 4.539:186$710
Barras, portos e rios 2.002:857$174
Telegraphos 1.589:078$003
Caminho de ferro no pinhal
de Leiria 317:763$289
-------------- 43.954:353$040
Nas ilhas:
Ponta Delgada 364:023$450
Angra 281:994$184
Horta 329:367$853
Funchal 478:997$399
Docka de S. Miguel 1.170:119$505
-------------- 2.624:502$391
--------------
Somma total 46.578:855$431
O que já não dá ao paiz a nota de refractario á civilisação... e ao
_deficit_.
* * * * *
Mais uma vez, porque é bom que isto se repita: no desenvolvimento da
riqueza nacional está a salvação do paiz.
Só assim pode crescer o imposto em proporções alentadas, sem sobresalto,
sem violencia, sem transtorno da economia publica, e sufficientes para
nos livrarem de uma ruina, que sem tal esconjuro virá bater-nos á porta,
mais cedo ou mais tarde.
IX
Bater-nos-ha á porta a ruina?
Bate de certo.
De anno para anno o _deficit_ toma tal corpulencia que ameaça esmagar o
paiz debaixo do pezo d'essa mole tremenda.
DEFICIT ORÇAMENTO DO ESTADO CONTAS DO THESOURO
----------------------------------------------------------
1864-1865 2.718:953$347 | 3.709:441$590
1865-1866 3.666:517$110 | 5.813:548$730
1866-1867 5.028:674$579 | 7.870:531$454
1867-1868 6.478:862$856 | 6.773:524$044
1868-1869 6.133:631$721 | 4.764:847$779
Esta ultima verba accrescentada com a de réis 2.830:041$297, que ficou
em divida á Junta do Credito Publico no dia 30 de junho de 1869, sobe á
importancia do 7.594:889$076 réis!
_Deficit_ igual a quasi 50 por cento da receita realisada n'esse anno
economico, a qual foi de réis 16.513:420$330!
_Deficit_ que em 1869-1870 deve ter subido talvez a 8.000:000$000 réis,
ao passo que a receita é possivel que tenha baixado por motivo dos
acontecimentos politicos de maio do corrente anno!
A nossa despeza nos ultimos cinco annos tem sido a seguinte:
CONTAS DO THESOURO
----------------------------------------------------
1864-1865 21.475:719$247
1865-1866 21.284:218$335
1866-1867 22.836:957$724
1867-1868 23.317:163$231
1868-1869 (com a divida á Junta) 24.108:309$406
Devendo-se accrescentar ao anno de 1867-1868 mais a despeza em
inscripções para amortisação de varios emprestimos com juro e
amortisação, inclusive o saldo do emprestimo dos 4.000:000$000 réis.
O seguinte mappa mostrará a progressão das despezas publicas nos annos
economicos de 1864-1865, comparadas com as do quinquennio anterior, de
1868-1869:
*Despeza do Thesouro*--em contos de réis--*fundos saídos para pagamento
de despezas*
A B C D E F G H I J L
---------------------------------------------------------------------------
L1 2.967 1.205 435 2.894 1.218 179 3.099 4.099 052 16.148 --
L2 3.083 1.280 478 3.046 1.223 169 2.788 4.031 002 16.100 --
L3 3.817 1.335 472 2.903 1.115 276 6.715 4.305 002 20.940 --
L4 3.264 1.411 501 3.029 1.472 214 7.145 5.292 001 22.329 --
L5 3.899 1.438 531 3.132 1.781 224 5.015 5.733 001 21.754 --
L6 3.880 1.508 569 3.237 2.109 212 4.037 5.924 -- 21.476 --
L7 4.249 1.593 595 3.378 1.902 227 3.485 5.855 001 21.285 --
L8 4.926 1.634 612 4.315 1.902 241 3.001 6.205 001 22.837 --
L9 4.548 1.804 637 3.997 1.866 266 3.272 6.927 -- 23.317 6.263
L10 3.925 1.709 590 3.616 1.809 215 2.640 6.774 -- 21.278 --
---------------------------------------------------------------------------
38.558 14.917 5.420 33.547 16.397 2.223 41.197 55.145 060 207.464
===========================================================================
L11 17.030 6.669 2.417 15.004 6.809 1.062 24.762 23.460 058 97.271
L12 21.528 8.248 3.003 18.543 9.588 1.161 16.435 31.685 002 110.193 6.263
---------------------------------------------------------------------------
L13 4.498 1.579 586 3.539 2.779 99 8.225 21.305 6.263
L14 8.327 056 8.383
-------------
L15 12.922 6.263
-----------------------------------------------------------================
L16 899 316 117 708 556 19 1.645 4.260 1.252
L17 1.665 011 1.676
-------------
L18 2.584 1.252
===========================================================================
*Legenda:*
MINISTERIOS:
Fazenda coluna [A]
Reino coluna [B]
Justiça coluna [C]
Guerra coluna [D]
Marinha coluna [E]
Estrangeiros coluna [F]
Obras Publicas coluna [G]
Junta do Credito Publico coluna [H]
Amortisação de Notas coluna [I]
Somma coluna [J]
Amortisação en Inscripç. coluna [L]
Total
1859-1860 linha [L1] 16.148
1860-1861 linha [L2] 16.100
1861-1862 linha [L3] 20.940
1862-1863 linha [L4] 22.329
1863-1864 linha [L5] 21.754
1864-1865 linha [L6] 21.476
1865-1866 linha [L7] 21.285
1866-1867 linha [L8] 22.837
1867-1868 linha [L9] 29.580
1868-1869 linha [L10] 21.278
----------
213.727
1.^o Quinquennio linha [L11] 97.271
2.^o Quinquennio linha [L12] 116.456
Augmento no 2.^o linha [L13] 27.568
Diminuição no 2.^o linha [L14] 8.383
Augmento liquido linha [L15] 19.185
Media por anno:
do augmento linha [L16] 5.512
da diminuição linha [L17] 1.676
Augmento medio linha [L18] 3.836
Vê-se, d'este mappa, que as despezas publicas subiram em 3.836:000$000
réis de média annual, em cada um dos annos economicos que vão do 1.^o de
julho de 1864 a 30 de junho de 1869, comparadas com a média dos que
alcançam do 1.^o de julho de 1859 a 30 de junho de 1864!
Os juros da divida consolidada são:
Da divida interna 5.569:227$218
Da divida externa 4.768:318$629
--------------
Somma total 10.337:545$847
Mas, segundo o orçamento apresentado pelo sr. Anselmo Braamcamp, deviam
existir, em 31 de março de 1870, titulos para serem cancellados,
representando encargos:
Da divida interna 1.176:109$000
Da divida externa 76:734$000
--------------
1.252:843$000
Mais:
Na posse da fazenda 615:880$500
--------------
1.868:723$500
que descontados dos 10.337:545$847 réis reduzem esta verba a
8.468:832$347 réis.
O que resta saber, porém, é se ainda estão disponiveis os titulos que o
sr. Braamcamp cancellava na importancia nominal de 41.760:000$000 réis
aproximadamente e que representavam os encargos, acima indicados, de
1.252:843$000 réis.
Ora é isto exactamente o que se não póde verificar, por falta de
documentos officiaes que elucidem a questão. O que se póde asseverar é
que ainda até hoje não se cancellou titulo algum d'esses, aliás teria
constado isso dos termos mensaes das amortisações feitas pela Junta do
Credito Publico, amortisações que ultimamente tem consistido, segundo
parece, em queimar papeis velhos, que são trocados por novos.
Na presença d'este quadro póde, ou não, a ruina chegar, e depressa?
* * * * *
Póde, e é lastima que tal aconteça.
O paiz tem elementos em si para arredar essa temerosa eventualidade.
Uma simples observação:
Um povo que tem, amortisados no fundo de suas gavetas, em inscripções,
fundos estrangeiros; acções de bancos e companhias, etc., valores
superiores talvez a 350.000:000$000 réis, nominaes, não está tão pobre
que deva perder a esperança de se salvar da crise que o ameaça.
Bastaria pôr em circulação productiva uma parte d'esta riqueza;
bastaria, talvez, que os capitaes absorvidos na divida fluctuante, na
importancia effectiva de 8.529:693$499 réis, quizessem fecundar a terra,
o commercio e a fabrica, para que o desenvolvimento da actividade
nacional começasse a fazer raiar alguma aurora de redempção.
Mas o facto é que, como se disse algumas paginas atraz, o commercio
definha; a industria retrae-se; a agricultura vê seccar os peitos
uberrimos.
E o paiz tem um solo fertilissimo e colonias extensas!
Tem territorio no continente para 10:000.000 de almas e lava-se nas
aguas de tres oceanos!
* * * * *
Do equilibrio possivel do orçamento depende, pois, a sorte da nação
portugueza. Mais seis, oito, quatro annos de funesta accumulação de
enormes saldos negativos, e o paiz verá abrir-se diante d'elle uma valla
que não poderá transpôr, e na qual ha-de cair.
Abysmo que chama com dois braços: a bancarota e a Iberia.
A propriedade territorial será então quasi a unica que se poderá suster
á borda.
O _deficit_ duplicou em quatro annos. Como poderá o paiz, se durar essa
infernal progressão, resistir, de hoje a outros quatro, a 15.000:000$090
réis de desquilibrio orçamental?
E ainda ha quem pergunte anciosamente: «O que ha de novo?» com relação
unicamente á saída ou á entrada, no ministerio, d'esta ou d'aquella
individualidade?
Questão de pessoas em frente da questão do paiz! Vale a pena.
Mas quem é o verdadeiro culpado?
Diga-o a si próprio o paiz.
X
Em vista do que fica apontado em rapido esboço, não será chegado o tempo
de se buscar remedio para o mal que invade o paiz, e de cuja propagação
talvez seja elle o primeiro culpado?
Quando uma nação quer, e quer deveras, póde achar na vontade energica
thesouros de força e de valentia.
Se a fé transporta montanhas, a vontade transpõe-as.
A primeira, a grande reforma a fazer, não está tanto nos que governam
como nos que são governados. Comecem por moralisar o povo os que andam
perto d'elle, porque é de baixo que se dá principio a qualquer trabalho
de construcção solida e racional.
Os governos retratam sempre mais ou menos fielmente o estado das
sociedades que administram. Podem seguramente ter contribuido para o
estado geral do paiz, mas é fóra de duvida que o paiz tem exagerado
voluntariamente em si as consequencias dos erros commettidos, em vez de
collaborar na emenda com resolução e fervor.
Facto singular! Acredita o paiz em tudo e de tudo descrê. Tem assomos de
colera e espasmos de fraqueza. Censura nos ministerios o que todos os
dias faz em miniatura. É critico sem obras; sacerdote sem culto;
inquisidor sem fé.
Devem os nossos governos ter sobre a consciencia o peso de grandes
culpas. Quem o nega? Mas em que os ajuda o paiz, quando nasce de
qualquer d'elles alguma iniciativa util ou necessaria? Dando ouvidos á
intriga; acolhendo a diffamação; desdobrando-se até ao infinito em
individualidades que tratam de si, em vez de se condensar cada vez mais
n'uma collectividade que visite patrioticamente os interesses de todos.
Pedem, geralmente, os eleitores contas aos deputados pelos votos que
deram na decisão dos negocios importantes? Longe de tal. Contam os
memoriaes despachados e os que profundaram no lymbo, e, se o thesouro
ficou, á propria custa do povo, mais onerado com alguma verba
desnecessaria, não ha louros que cheguem para a reeleição triumphante do
grande homem de estado.
Quereis que de agua estagnada saiam aromas e saude? Por mais que n'ella
se espelhe o sol, esse calor, que é para a immensidade da natureza fonte
de vida e de esplendor, será, luzindo sobre o pantano, apenas origem
certa de fetidos venenos.
Pois entre tantos homens, que se tem succedido no poder, não terá havido
alguns que olhem com seriedade para as cousas do paiz?
Não terão subido aos conselhos da corôa a probidade, a illustração, a
prudencia e o patriotismo?
Tem, com certeza. Verdade é que tambem alli tem chegado quem possa gerar
no espirito publico largas hesitações. Mas o que infelizmente o paiz tem
feito é confundir todos os homens perante uma repugnancia tal que faz
persuadir, até certo ponto, que já não é contra ministros que se
pronuncía a cada passo, mas contra o principio de auctoridade, sem o
qual as sociedades não podem existir.
Estas reacções constantes dos erros dos governos sobre o paiz e dos
erros do paiz sobre os governos tem produzido um estado de cousas
intoleravel e perigoso.
Pois o que é o estar a administração superior continuamente influenciada
pela desorganisação moral do paiz, e o paiz sempre debaixo da
desorganisação politica em que vivem, quando vivem, os governos?
Em que param as necessidades urgentes quando o paiz se recusa a
trabalhar seriamente na satisfação d'ellas, sujeitando-se aos
sacrificios indispensaveis, e os governos consomem o tempo na tarefa,
quasi unica, de assegurarem a existencia, sempre ameaçada pela sua
propria fraqueza?
Que paiz é este em que qualquer ambição audaciosa pode lembrar-se, com
visos de probabilidade, de obter o que sonha, se não lhe faltar a
audacia ao serviço da intriga?
E no meio de tudo chovem as calamidades. A cheia cresce. Agora invade um
principio; alaga logo um direito. Escava aqui uma garantia, submerge
além uma conveniencia.
E ao fundo, lá ao fundo, mas aonde a vista alcança já, ameaça levar
comsigo a fortuna e quem sabe se o nome d'esta nação!
* * * * *
Tentem os que pensam, os que possuem e os que trabalham; todos os que
são as forças vivas do paiz, pôr dique á devastadora torrente,
intervindo franca, directa e proveitosamente, no governo do estado.
São elles os verdadeiros responsaveis pelo que vae succedendo.
São a intelligencia, o capital e o trabalho.
São mais ainda: O Numero.
E o numero no systema representativo é a realeza de facto.
A responsabilidade é d'elle.
É responsavel cada cidadão para com todos; são responsaveis todos para
com cada um d'elles.
Ainda mais: é responsável cada cidadão para comsigo mesmo.
Solidariedade absoluta.
Esta responsabilidade, que é immensa, impõe deveres a que se não deve
faltar, porque são protectores de interesses que se não pódem preterir.
Para que serve ao paiz a intelligencia, se o primeiro dever d'ella não
fôr o de empregar todos os recursos no estudo e na remoção dos males que
o affligem, e de que serve a quem a tem, se não achar ambiente em que a
desenvolva e aproveite?
Não diminue a massa do capital nacional, quando a falta de credito,
proveniente de uma errada politica, cerceia todos os valores
representativos em face da desconfiança publica, e até reduz os valores
reaes, o da propriedade territorial, por exemplo, augmentando
exageradamente o preço da moeda metallica?
Não soffre o trabalho com a má gerencia dos negocios publicos, a qual ao
cabo de periodo mais ou menos longo, influe inevitavelmente no consumo
geral, e, pela diminuição do consumo, em todos os coefficientes da
producção?
Quem poderá ter, pois, maior interesse do que o trabalho, o capital e a
intelligencia, em que o paiz seja regularmente administrado?
E, comtudo, julga-se acertado e prudente o pensar que a politica deve
ser apenas obra de alguns especialistas, arvorados por auctoridade
propria em directores, thesoureiros e guarda-livros, d'esta immensa
sociedade!
Se até ha quem pense que a politica é emprego de ociosos!
* * * * *
É obrigação de todos o trabalharem na tarefa commum.
É urgente, portanto, que se acabe um grande partido: o partido dos
abstencionistas.
Partido do desanimo, do egoismo e do orgulho.
Partido negativo para o bem; positivo para o mal, que deixa fazer.
Força perdida aonde não sobejam as forças.
E occorrencia notavel! São os que mais se abstem os que mais lagrimas
vertem sobre a sorte da patria, e os que fustigam com mais desapiedada
censura os erros, a que não tentam offerecer o minimo estorvo!
Pois que? Achaes-vos melindrados nos vossos principios de moralidade;
affectados no vosso patriotismo; offendidos nos vossos interesses, e só
tendes fel na palavra em vez de energia na acção?
Que dirieis vós do soldado, que, vendo em perigo a bandeira de seu
regimento, cruzasse os braços commodamente sobre o cano da espingarda,
crivando de longe com doestos os que se batessem em volta do estandarte
nacional, e que, ainda que por ventura o não fizessem por uma causa
irreprehensivel, sabiam pelo menos luctar e morrer?
Que direito tendes de vos queixar, quando nem sequer vos merece um
minuto de attenção a causa remota da queixa?
O _perinde ac cadaver_ do jesuita, se era um aniquilamento diante da
vontade, era uma actividade ao serviço da ordem. Os vossos estatutos
ainda rezam de menos.
Transformam-vos n'uma abdicação ao serviço de uma inutilidade.
Sois um partido que habilita qualquer obscuro cidadão a dirigir-se ao
mais illustre de vossos adeptos, e dizer-lhe: «Sois um grande escriptor.
Por vós o nome litterario d'este canto de terra anda conhecido entre os
sabios da Europa. Erguestes um monumento á patria. Sois uma gloria
nacional. Mas attendei: desde que vos fizestes o apostolo da descrença;
o oraculo do desanimo; o censor infecundo e irresponsavel das miserias
alheias; desde que rebaixastes ao nivel de vosso desprezo o paiz em que
nascestes, e que prejudicaes com o vosso exemplo, tanto mais deploravel
quanto que parte de um homem como vós, eu, humilde entre os humildes,
curvando-me respeitoso diante de vossa grandeza, tenho o direito, com a
mão sobre a consciencia, de vos dizer estas simples palavras:--sois um
mau cidadão!
Desappareça, pois, de Portugal essa perniciosissima seita. Use cada um
não só de seu voto mas de sua legitima influencia em pró da communidade.
_Res, non verba_.
Dado este passo importante; alcançada esta grande victoria, organisae,
vós os que pensaes, que possuis e que trabalhaes, a grande cruzada em
favor da moralisação do paiz.
Prégae-a com a voz, com a penna e, sobretudo, com o exemplo, o melhor
argumento para ensinar e convencer.
O criterio moral do paiz, desenvolvido e purificado, auxiliará a
formação de partidos fortes, que serão garantia de governos productivos
e regeneração da politica nacional.
Estão diante de vós tres estradas distinctas:
O absolutismo, a monarchia constitucional, a republica.
O passado, o presente, o futuro.
A saudade, a prudencia, a theoria.
Nos extremos: a tradição e o mysterio. No centro: o facto.
Tratae do facto, que é agora o mais urgente.
Facto que representa oito seculos de independencia e alguns annos de
liberdade.
* * * * *
A nossa terra é pequena para que n'ella possam caber á larga todos os
grupos actuaes.
Ha:
Historicos;
Regeneradores;
Reformistas;
Amigos do sr. A;
Amigos do sr. B;
Amigos do sr. C;
E assim por diante até á extincção do alphabeto!
Todos progressistas! Todos repellindo com azedume a qualificação de
conservadores!
E comtudo esta divisão é o facto universal, quando a politica de partido
não degenera em politica de bando.
Reconstrui a primeira pela aniquilação da segunda.
Concentrae-vos em dois grandes exercitos, chamando a vós os vossos
correligionarios que andam dispersos por todos os grupos, e obrigando o
partido, que julgardes dever escolher, a formular um programma, que seja
corpo de doutrinas, logico e perfeito.
Sêde progressistas ou conservadores; mas sêde alguma cousa, e sêde-o
deveras, em nome de systemas completos e harmonicos.