A constituição de ministerios sem que os membros d'elles tenham

formalmente combinado entre si a maneira de resolver os mais urgentes

negocios, deixando para conversas, em conselho de ministros, o que

devera ter sido conversado antes de subirem os decretos de nomeação á

assignatura do chefe do estado--«Entremos e depois conversaremos»--é a

formula invertida da mais elementar noção de politica constitucional, em

que a responsabilidade solidaria dos governos exige um perfeito accordo

entre os membros do ministerio. É a remora na quilha. O travão na roda.

A impotencia ou a discordia;

A gravitação em torno de cada ministro de um grupo especial de

satellites, que, segundo é mais ou menos numeroso, lhe dá voz

preponderante no conselho, ou lhe amesquinha a importancia entre os seus

proprios collegas;

A falta de cumprimento de promessas feitas na opposição, e as opiniões

imprudentemente sustentadas n'esse campo para grangeio de popularidade,

mas que se convertem depois em armas de guerra ao serviço dos mesmos

contra quem foram dirigidas quando o poder estava longe do braço e o

odio perto do coração;

A versatilidade de temperamentos que ora se desencadeiam em paroxismos

de ardor para sustentar a posição adquirida, ora se espreguiçam em

bocejos de tedio, não acertando em achar entre o aborrecimento e a teima

o meio termo de prudencia corajosa e placida.

Accrescente-se a tudo o nosso estado financeiro e facilmente se

comprehenderá que ande o paiz mal com todos os governos, e que andem

todos os governos mal com o paiz; isto é: que a instabilidade seja a

feição mais caracteristica dos gabinetes, por se reflectir n'elles a

perturbação moral que agita a sociedade em que vivem.

* * * * *

E não se queixe dos governos o paiz.

Seria o mesmo que o original a queixar-se da photographia, apezar de a

luz lhe ter sido exactissimo pintor.

Quereis que o edificio não grete, quando a base em que assenta não tenha

a firmeza indispensavel?

Quereis que a planta vos dê flores e fructos, se as raizes não acharem

alimento no solo?

Quereis effeitos sem causas?

Quereis que as causas não produzam seus necessarios effeitos?

Effeitos em virtude dos quaes é raro que um governo viva entre nós menos

da propria força do que na debilidade alheia.

Continuae, portanto, a desprezar o desenvolvimento das forças moraes do

paiz e deplorae depois que o governo seja ámanhã uma simples questão de

densidade relativa, em virtude da qual as camadas mais leves do talento

ou da aptidão, da honestidade ou do patriotismo, subam á superfície da

governação do estado, alagando em mil desgraças o paiz, que terá de

soffrer as consequencias do facto, sem se poder até queixar d'ellas com

razão, porque as deverá á sua propria imprevidencia, senão á sua propria

cumplicidade!

O que é finalmente impossível é que o governo em Portugal ande arrendado

a trimestres, e que se resolvam as crises por conferencias que nada

resolvem, e as conferencias por crises que ainda resolvem menos.

Circulo vicioso em que se pode gastar a vida a percorrer centenas de

leguas sem que se pize mais do que um palmo de chão!

VI

É ponto axiomatico que da instabilidade das situações resulta

naturalmente a falta de confiança publica.

Quando se não sabe qual será o dia de ámanhã, o sentimento da duvida,

assaltando os espiritos, suspende n'elles esse _quid_ mysterioso, em que

se fundam os actos do raciocinio e da vontade.

O raciocinio obscurece-se á falta de bases solidas; a vontade contrae-se

no receio.

Sem confiança publica não funcciona regularmente, portanto, o systema

representativo, que é o governo do livre arbitrio, aconselhado pela

intelligencia, dentro das orbitas legaes do direito e da acção.

Comprehende-se, pois, que o governo absoluto possa, até certo ponto,

existir sem esse poderoso auxiliar, porque centralisando em si a origem

da lei e sendo o juiz unico da utilidade, em nome do interesse social,

produz pela força e pelo segredo o que no governo da opinião deve nascer

da liberdade.

Perante as instituições que nos regem o caso é outro. Sem confiança

publica, saída das entranhas do paiz, adoece tudo e morre no seio de uma

geral estagnação.

E a confiança publica não se intima com programmas de ministerios nem

com discursos de parlamentos. Positivista como o apostolo, quer ver para

acreditar. O facto para ella é o melhor argumento. Serve-lhe mais uma

realidade do que mil intenções.

Quer, pois, factos, e factos estaveis. Quer realidades, mas realidades

serias.

Necessita de saber com o que póde contar.

Sendo isto verdade, como é, que confiança publica póde haver n'uma nação

aonde as situações politicas andam como as luas, ora em minguante, ora

em crescente, mas em prazos tão curtos e tão irregulares, que não ha

sciencia astronomica que se atreva a calcular as intermittencias das

phases?

E que fazem os governos para diminuir as consequencias de essa

instabilidade, que está sendo a vida normal de todos elles?

Ligam n'uma tradição corrente algum systema certo de administração?

Deixam os negocios mais urgentes sem solução de continuidade?

Atam logicamente o que é ao que foi, preparando facil soldadura ao que

ha-de ser ámanhã?

Nem sempre.

O mais commum é:

Que se anarchise a tradição envolvendo-a em reformas mais de nomes do

que de idéas;

Que se abra mão do que é urgente em beneficio do apparatoso;

Que se semeie de difficuldades a resolução futura do que não se soube

realisar.

* * * * *

E que fazem os partidos?

Apertam as filas em presença do ataque?

Obrigam a governar depressa e bem?

Sujeitam-se lealmente ás consequências de uma batalha perdida?

Poucas vezes.

Não faltam exemplos de que:

Aos primeiros tiros debandem as tropas;

As maiorias não se considerem responsaveis pela frouxidão ou pela

incapacidade dos governos que apoiam;

A embuscada traiçoeira substitua o combate a peito descoberto.

E os governos a mudar, e a confiança publica a desapparecer!

Circumstancia deploravel que envolve n'um descredito commum o fructo

amargo da sedição, e a flôr esperançosa de algum ministerio que por

ventura teria de resolver-se em pomos sazonados, se lhe dessem ar e luz,

espaço e tempo, solo e nutrição!

Atmosphera suffocadora em que respira, desde o primeiro momento, tanto o

que nasce da violencia ou da intriga, como o que deve a existencia á

indicação constitucional!

* * * * *

Incerto do presente e, ainda mais, do futuro, como quereis que o paiz

progrida desafogado; se uma perpetua interrogação é a formula de nossa

politica, para além da qual ninguem sabe se ha fojo ou caminho?

A experiencia é a grande mestra da vida, e como o instincto não é talvez

mais do que a experiencia dos individuos, crystalisada nos attributos da

raça, o instincto popular, auxiliando a razão, gera a desconfiança

publica, quando vê que de mudanças repetidas não tem saido mais do que

augmento de incompatibilidades, antigas nos homens, e de confusão,

preexistente nas cousas.

* * * * *

As dissoluções succedem-se em vertiginoso tropel. Andam as urnas em

serviço consecutivo, e, quanto mais esfalfadas, menos força tem para

suster na fuga a confiança publica, que se assusta com estes appellos

repetidos, symptomas de grave molestia nas funcções constitucionaes do

paiz e a mais desgraçada escola de devassidão para a massa dos

eleitores.

Nove dissoluções da camara dos deputados em treze annos! E para que?

Para que o fabrico de diplomas tenha entrado na industria politica, como

officio de applicação permanente, e a confiança publica olhe cada vez

mais de soslaio para esse laboratorio de popularidades a tanto por voto.

A confiança vive de paz e de ordem. Ora as dissoluções repetidas são a

revolução dentro das instituições, quando as não aconselha uma

impreterivel necessidade. Compromettem a paz sem salvar o poder.

Condemnar a revolução, a verdadeira revolução, a que batalha fóra da lei

mas em nome de um grande principio, seria condemnar o advento da

liberdade em todos os paizes aonde ella resplandece. Entre nós, por

exemplo, 1820 e 1833 são datas de gloriosa recordação. Mas os motins de

ambição em torno das pastas; os tumultos de capricho em volta das urnas,

tanto mais perigosos quanto mais engendrados á sombra da lei, só podem

ter comparação em alguma d'essas revoluções em que se grita por amor ao

ruido e se destroe por affecto á variedade.

A paz compromette-se. Não essa paz material que alguns soldados podem

facilmente fazer respeitar; mas a paz entre os visinhos da aldeia; a que

não póde resistir a estas amiudadas provações, e que, á falta de tempo

que apague, entre eleição e eleição, a lembrança dos conflictos que

sempre as acompanham, cede o campo á guerra de personalidades hostis

para todas as transacções da vida publica e particular. Os espiritos

incommodados pelos incidentes de tantas brigas, fazem com que o povo

maldiga esse fermento de discordia que por vezes o entalla entre

influencias poderosas, e d'este mal-estar local, multiplicado pela

freguezia, pelo concelho e pelo districto, sae uma das maiores verbas

para a somma geral da desconfiança em que vive a nação.

E não costumam as dissoluções salvar o poder. Pelo abuso d'ellas, o brio

partidario anda tão esmorecido que é frequente o ver-se que certas

candidaturas, ministeriaes na vespera da eleição, se transformam em

deputados eleitos de opposição, quando no dia seguinte o especulador,

que só adorava no governo o influxo da auctoridade, começa a buscar em

novas regiões a continuação do mesmo favor. E o governo recua de

espantado diante d'estas deserções sem se lembrar de que entre o partido

e a turba collecticia; entre a convicção e o lucro; entre a coherencia e

a vagabundagem, existe a mesma distancia que entre elle e um verdadeiro

ministerio, segundo o espirito do systema representativo, leal e

puramente executado!

* * * * *

Como póde haver confiança publica n'uma terra que vê com frequencia os

governos estudarem quasi exclusivamente na legislação dos outros paizes

as reformas a que devem proceder, sem que lhes occupe a menor attenção a

indole e o estudo do povo portuguez, e darem á theoria pura, senão

impura ás vezes, o que devia tambem ser dado, em parte pelo menos, á

pratica do solo em que é deitada a semente?

Imprudencia em virtude da qual muitas reformas ficam em meio, por não

haver sequer pessoal idoneo que lhes dê conveniente execução.

Como inspirar confiança a um paiz em que a questão fazendaria anda e

desanda quasi sempre dentro da esphera mesquinha de uma questão de

parcialidades, ora votando-se, ora negando-se o lançamento de impostos,

segundo se priva ou não com a politica ministerial?

Como, se a instabilidade nas pessoas e nas leis, nos factos e nas

opiniões, faz com que a duvida coaja pelo susto a liberdade do paiz em

suas expansões de actividade material, matando até n'elle, por constante

e profunda, o sentimento bemfazejo da esperança!

VII

Quando não ha confiança publica, soffre com isso o desenvolvimento da

riqueza nacional.

A falta de confiança fazendo irremissivelmente baixar o preço dos

titulos de divida consolidada, a cargo do thesouro, deprecia, _ipso

facto_, todos os valores do paiz, á excepção da moeda, que então mais

vale porque mais com ella se compra.

Depreciação que não póde deixar de ter logar n'uma terra como a nossa,

em que o papel do estado é a primeira base das grandes operações de

credito e em que o estado é o maior concorrente ao emprego dos capitaes

disponiveis.

Do facto economico da depreciação dos valores nacionaes, pela baixa dos

fundos, resulta logicamente uma diminuição na riqueza capitalisada e a

necessidade, portanto, de reconstruir pela accumulação da renda o

capital diminuido pela depreciação dos valores.

A circulação, pois, esmorece, collaborando tambem para este resultado

ora o susto que se apodera dos capitaes em especie, ora a esperança para

elles de mais rendoso emprego quanto mais, na continuação da crise, fôr

subindo o valor da moeda metallica.

Dois sentimentos, que partindo de polos oppostos, se encontram todavia

no terreno da retracção, da qual não saem geralmente senão para

augmentarem a verba da divida fluctuante do estado, o qual por meio de

um juro alto, pago á custa da nação, affronta assim com uma concorrencia

desleal o commercio e a industria do paiz.

* * * * *

Aceito o facto da retracção dos capitaes e da capitalisação de uma parte

da renda, em vista de uma prudente reserva, a industria começa desde

logo a padecer com a existencia d'elle.

O credito, por uma inevitavel consequencia, restringe o campo de suas

especulações, operando mais sobre a representação de valores já creados

do que na creação de novos valores, dependentes quasi sempre de maior ou

menor risco, que a desconfiança exagera.

Depois, o consummo do paiz, influenciado pelo estado geral, limita os

seus pedidos, e essa limitação não estimulando a offerta por meio de

aquelle poderoso agente economico, repercute-se logo em abatimento na

producção, principalmente na fabril, que só cria valores em vista da

permutação, e que tem no paiz o seu quasi exclusivo mercado.

A agricultura, a nossa grande industria, estaciona tambem no grangeio de

novas riquezas; não desbrava, arroteia, melhora e compõe, à falta de

capitaes que a auxiliem no fomento da terra, ou de preço remunerador

para os artigos de sua producção, alcançada á força de pesados

sacrificios, em tempos de desconfiança geral.

E, comtudo, no desenvolvimento de nossa industria agricola está de certo

um dos maiores elementos da prosperidade do paiz.

Cada hectare de charneca brava, que a roçadoura entrega á enxada e á

charrua, é mais um degrau subido no caminho da civilisação; mais um

passo na estrada da riqueza e da moralidade.

Menos uma enxerga de hospital.

Menos um registro de cadêa.

Menos um farrapo de nudez.

Menos um grito de fome.

Mais trabalho e menos miseria.

Mais um augmento de receita para o thesouro; menos uma amortisação de

valor productivo.

* * * * *

Não é menor o prejuizo que soffre o commercio com a desconfiança

publica.

Basta a consideração de que, baixando o consummo e a producção, devem

descer as operações da troca, para que se torne bem manifesta essa

verdade.

Não se desenvolve a indole empreendedora do commercio quando o credito

encolhe as expansões de seu efficaz auxilio, negando-se a descontar-lhe

as probabilidades de ganhos futuros.

D'esta frouxidão de mercados, acompanhada pelo retraímento do credito,

nasce uma situação difficil em que só á força de paliativos perigosos se

honram os compromissos tomados.

O proprio commercio de importação, o que serve necessidades especiaes,

que não dependem da producção nacional, ou para as quaes não chega a

industria do paiz, anda sujeito em ponto sensivel ás consequencias

d'esse estado de cousas.

Emquanto ao commercio de exportação, quando o capital desconfiado se

recusa a fecundar o solo, principal fonte de aquella manifestação de

riqueza, e o credito lucta com o medo, os algarismos de suas transacções

não soffrem comparação com as sommas que a producção, favorecida por

outras circumstancias mais fecundadoras, póde levantar do mercado

estrangeiro.

Em 1851 teve logar o movimento a que se deu o nome de Regeneração. Não é

logar aqui para se avaliarem as consequencias d'esse facto, que

parecendo ter sido então de grande valor politico, talvez lançasse á

terra bastantes sementes de desorganisação partidaria, que hoje

frondejam em cyprestes de luto. O que é, porém, inegavel é que a

confiança com que a opinião publica recebeu essa situação, activando por

todos os modos a vida do paiz, produziu os seguintes resultados,

esplendidos debaixo do ponto de vista dos interesses materiaes e devido,

mais do que tudo, a cinco annos de paz e de estabilidade no governo, á

sombra de um partido numeroso, embora artificial:

COMMERCIO DE PORTUGAL

+------------------------------------------------+

| ANNOS | IMPORTAÇÃO | EXPORTAÇÃO |

|----------+------------------+------------------|

| 1851 | 13,749:000$000 | 8,228:000$000 |

| 1856 | 20,452:000$000 | 16,299:000$000 |

|----------+------------------+------------------|

| Augmento | 6,703:000$000 | 8,071:000$000 |

+------------------------------------------------+

Em cinco annos duplicou a exportação! Augmento sem precedente na

historia moderna do paiz.

Verdade é que a reforma das pautas deve ter influido até certo ponto nos

algarismos citados, especialmente no que respeita ao commercio de

importação, assim como a maior facilidade de vias de communicação no

resultado geral; mas é indiscutivel que a confiança publica tenha

poderosamente contribuido para o augmento descripto, espalhando por todo

o paiz com mão larga o capital e o credito.

De 1861 a 1865 geriu um governo historico os negocios do estado. Essa

situação, apoiada por um partido intimamente convencido de que

trabalhava no bem do paiz, teve a estabilidade necessaria para que a

confiança publica não desertasse da vida economica da nação.

+------------------------------------------------+

| ANNOS | IMPORTAÇÃO | EXPORTAÇÃO |

|----------+------------------+------------------|

| 1851 | 26,634:000$000 | 14,383:000$000 |

| 1865 | 24,822:000$000 | 20,108:000$000 |

|----------+------------------+------------------|

| Augmento | | 5,725:000$00 |

+------------------------------------------------+

Isto é: um augmento de 40 por cento no commercio de exportação n'um

periodo de quatro annos, resultado tão lisongeiro que pouco o affecta a

diminuição experimentada no commercio de importação, na somma de

1.812:000$000 réis.

Attenda-se igualmente a que as inscripções de 3 por cento ficaram a

perto de 50 por cento quando o ministerio historico deixou o poder, no

fim de quatro annos de exercicio.

* * * * *

O desenvolvimento da riqueza nacional necessita de braços.

Ora quando a confiança no futuro do paiz baixa no animo do povo,

pronuncia-se cada vez mais a tendencia para buscar em outras regiões o

bem-estar que a patria não parece prometter.

Ou se emigra ou se deseja emigrar.

E o primeiro caso não é talvez o peor para o paiz.

Mau é que quando a população não superabunda (pois o dobro d'ella

caberia facilmente desde o Minho até ao Algarve se o paiz produzisse o

que é susceptivel de produzir) os nossos irmãos vão levar a terras

estranhas a actividade que poderiam empregar dentro da patria.

Compensam, porém, em parte, este mal os capitaes que a emigração tem

lançado no paiz, depois de os adquirir no labor de muitos annos longe da

patria. O que não tem compensação é essa vaga anciedade de espirito que

se traduz em ociosidade perigosa, quando o homem, profundamente

convencido de que o seu trabalho no paiz nunca o poderá enriquecer,

oscilla por longo tempo entre a esperança no El-Dorado e os vinculos que

o prendem á terra em que nasceu, não pedindo ao braço mais do que o

estrictamente necessario para, em duas ou tres horas de trabalho por

dia, ganhar com que satisfazer as mais urgentes necessidades.

Ainda que a idéa da emigração o não visite, esta expressão:--para que me

hei-de cançar?--é tão frequente formula de desconsolo, que ha-de

forçosamente influir na somma geral da producção.

Poder-se-ha tambem negar que a falta de confiança influa na população do

paiz, obstando á creação de novas familias pelo receio de que desgraças

futuras cerceiem os haveres de casal?

* * * * *

Que grangeio de riquezas póde haver quando, pelo desapparecimento

successivo de leis de impostos, tão sensatas quanto o permittiam as

urgencias do thesouro, se não sabe sobre que expressão de riqueza cairá

algum tributo vexatorio ou ruinoso?

Quando a confiança publica duvida da boa applicação dos dinheiros

publicos, mudando-lhes um governo de poucas horas o emprego que lhes

destinara outro governo de poucos dias?

Quando não adquire a certeza de que a um ministerio, que vive em

perpetuos balanços, lhe chegue o tempo para cuidar na independencia das

quinas de Portugal?

Quando o motim da rua influe na duração dos ministerios, ou n'elle

influe a pressa das opposições ajudada pela insignificancia dos

governos, e a confiança publica recua espantada diante d'estas mutações

de scena?

Quando a devassidão politica segreda ao ouvido do pobre que a riqueza é

um crime e o trabalho uma escravidão?

Logo que estas circumstancias se dêem é impossivel que a riqueza se

desenvolva. Trata-se mais de defender do que de augmentar; de conservar

do que de produzir.

Um fatal estacionamento trava a roda da prosperidade publica.

A fabrica, o navio, o campo, a loja, o escriptorio e a officina moderam

a actividade.

E o medo, quebrando todas as energias, reina despoticamente sobre um

povo de assustados.

Mau rei e mau povo.

VIII

Nem no que fica escripto, nem no que adiante segue, existe a estulta

pretenção de tratar a questão do imposto, tão melindrosa e complicada,

ou de resolver o problema financeiro, tão complicado e melindroso.

Trabalho é esse para mais rijos pulsos.

O que unicamente aqui se quer é reforçar com alguns argumentos, e poucos

algarismos, a demonstração de uma these politica, cuja resolução deve

ter immediata influencia sobre esses dois momentosos assumptos.

* * * * *

É fóra de duvida para quem não se deixa voluntariamente enganar, ou é

traiçoeiramente enganado, que as forças do paiz ainda podem com mais

alguns sacrificios tributarios, sem que a vida economica d'elle seja

atacada nas fontes em que bebe a existencia.

Mau serviço faz ao povo quem, desattendendo o estado da fazenda publica

e em nome de interesses de bando, lhe incute no espirito a negação

d'essa verdade, pois que essa negação, contribuindo para augmentar cada

vez mais o _deficit_, redunda em prejuizo não só do thesouro, como dos

proprios contribuintes, que tem de ser opprimidos com mais violentos

encargos, á medida que se fôr demorando a applicação do remedio, sem o

qual se parará fatalmente na morte.

A ultima contribuição predial lançada foi a seguinte:

No continente:

Contingente { ordinario 1.649:211$000

principal { extraordinario 329:842$200

Contingente de predios

novamente inscriptos 36:000$000

Viação 659:684$400

Falhas 46:177$900

------------- 2.720:915$500

Nas ilhas adjacentes:

Contingente { ordinario 178:903$970

principal { extraordinario 17:890$397

Contingente de predios

novamente inscriptos 3:850$000

Viação 71:561$588

Falhas 5:009$319

------------- 277:215$274

Somma total 2.998:130$774

que recae sobre um rendimento collectavel, em verbas redondas, de:

No continente 22.300:000$000

Nas ilhas 2.750:000$000

Ora este rendimento collectavel de 25.050:000$000 réis representa

aproximadamente 50.000:000$000 réis de producto bruto da propriedade, o

qual deve subir visivelmente a mais elevada quantia se se calcular:

1.^o Que os dizimos, no tempo da velha monarchia, em 1812, por exemplo,

deviam ter produzido a somma de 5.400:000$000 réis, porque o rendimento

da contribuição extraordinaria de defeza, n'esse anno, a qual era de um

terço dos dizimos, produziu a verba de 1.800:000$000 réis; d'onde

resulta que já n'essa epoca o producto bruto dos fructos da terra devia

chegar a mais de 50.000:000$000 réis.

2.^o Que a producção da terra tem augmentado, porque, além de occorrer,

em grande parte, a um accrescimo de população a qual era, em 1811, de

2.877:071 almas, e em 1863 de 4.341:319, tem influido no commercio de

exportação (para o qual a industria fabril entra apenas por uma quinta

parte) e influido de modo que esse ramo de commercio subiu de

5.581:000$OOO réis, em 1842, a 20.108:000$000 réis, em 1864, sendo de

18.041:000$000 réis em 1868.

Verdades amargas estudo politico dedicado às classes que pensam, que possuem e que trabalham · 第 2 / 5 段