Ahi tendes o livre cambio, a descentralisação, a reforma parlamentar, o
regimen colonial, mil outras questões de que podeis fazer bandeira de
escola.
Formae partidos fortes, que possam dar governos uteis.
Sois progressistas? Intervinde, e depressa. Aproveitando os quadros do
velho partido historico, reforçae-o com as massas de vossos tropas
frescas; redigi um programma de pontos concretos, em harmonia com as
idéas que adoptaes, e abri as vossas fileiras para receber n'ellas, por
meio de uma verdadeira incorporação, de entre reformistas e
regeneradores, os que já são hoje talvez mais vossos verdadeiros
camaradas em opiniões do que alguns dos que militam ás ordens de vossos
chefes.
Sois conservadores? Segui, o mesmo processo e com igual energia.
Agrupae-vos. Formulae o vosso credo. Nomeae os vossos chefes. Dizei o
que sois, que nada tem de deshonroso, e o que quereis, que pode ser
necessario em dados momentos.
Se dentro da lei e da liberdade obrigardes as parcialidades existentes a
condensarem-se em dois partidos bem distinctos, que ponham fim a
colligações de interesses e de homens, como as que por ahi tem
desmoralisado e vão desmoralisando o paiz, tereis feito o mais relevante
serviço e salvado a nação de crises estereis e de grandes calamidades.
Feito isso, acabaria a vadiagem politica, essa praga que nos arruina. A
decencia queimaria na testa; com o ferro em braza do desprezo publico, o
especulador que mudasse todas as semanas de partido, ao sabor de suas
conveniencias.
Teria fim a politica pessoal, peste que nos roe as entranhas e corrompe
tudo o que toca.
Intervinde, intervinde, vós que pensaes, que possuis e que trabalhaes.
Pesae na politica com a vossa collaboração. Influi nos negocios do paiz,
que são os vossos, e não os deixeis correr á revelia, entregues a
governos ephemeros e a corretores de eleições.
Tem ainda o paiz grandes recursos.
Tudo está em saber aproveital-os.
Aproveitem-n'os boas administrações, nascidas á luz da moralidade, e
levadas á pia baptismal nos braços de partidos robustos.
Só assim se póde viver.
O contrario será a morte na Iberia ou na banca-rota.
Senão em ambas.
XI
Capitalistas e proprietarios; industriaes e commerciantes; vós, que sois
geralmente os mais teimosos abstencionistas, ponde os olhos e a
intelligencia na contemplação do que foi o imperio francez.
Ainda não ha muito que alli a prosperidade material parecia sobranceira
a todos os riscos.
Uma activa circulação de valores levava a saude e a vida a todo esse
corpo que moia de inveja os mais poderosos visinhos.
O commercio duplicava em dez annos as transacções. A industria punha a
resgate o mundo inteiro, prezo nos laços de mil frivolidades. O capital,
decuplicado pelo credito, corria em abundantissimos veios, fertilisando
por todos os modos a actividade febril da arrogante nação.
A aguia napoleonica voava de Sebastopol ao Mexico, estendendo a sombra
das azas desde as vertentes dos Alpes até ás planuras do mais remoto
oriente.
Nas fragatas e nos batalhões do imperio parecia ter-se incarnado o genio
da Força.
Uma opposição, minoria de minoria, aturdida e estonteada com os votos de
maio, luctava sem esperança contra uma dynastia que centralisava sete
milhões de suffragios.
Estatua de ouro, tendo por dupla base um governo de ferro e um exercito
de bronze!
Mas de todo esse metal andava ausente um grande espirito.
O homem, que firmara o throno no perjurio, abatera o nivel moral do paiz
até ás ultimas consequencias de um governo de familia e de facção.
A França entregou-se ao culto exclusivo da materia. Deixou roubar, ou
vendeu, a representação parlamentar. Deliu em gozos physicos a antiga
virilidade. Abdicou no chefe do estado o sceptro da opinião.
Passou ao lado da moralidade encolhendo os hombros n'um gesto de enorme
fastio. Ganhar depressa e gozar rindo foram os dois limites de seu
stadio social.
Na politica, Morny. Na arte, Offenbach.
Dois fructos de bastardia. Dois typos da época.
Rebentou a guerra. A França tinha o pão, mas faltava-lhe o circo.
A victoria, essa ex-divindade, que trocou o Olympo pela alcova,
vendeu-se a quem lhe lançou no colo mais bayonetas e mais canhões.
Os soldados do rei Guilherme pisaram as terras e os brios da França, e
ella, a dissoluta, atrophiada por vinte annos de materialismo e de
corrupção, consentiu que as tropas do mystico e illuminado representante
do absolutismo da espada chegassem aos muros de Paris, sem que os filhos
dos heroes de cem batalhas, de um só jacto e com um só pensamento, se
erguessem todos para deter o passo ao exercito allemão!
Memorando e triste exemplo do que póde a ausencia das forças moraes!
Contam-se por centenas de milhares, por milhões talvez, os que recuando
perante a invasão não pensaram que o nome da patria merecia o sacrificio
de menos alguns annos de vida, ou de menos alguns francos de renda. A
resistencia, que devia ser obra de todos, tem sido apenas tarefa de
alguns. Quatro lanceiros tomam Nancy, e o espião francez, realisando o
ideal da infamia, vende a thalers a vida de seus proprios irmãos!
E a Prussia caminha, caminha sempre, elaborando nas almas de seus
seiscentos mil soldados um vago sentimento de hegemonia teutonica,
entrevista desde longos annos nas brumas dos tempos, á luz de uma
predestinação divina que lhe põe nas mãos a tutéla do mundo.
E que lucrou o capitalista, o proprietario, o industrial, o commerciante
em se ter abstido de uma intervenção directa e moralisadora na politica
da França? Os valores em ruina; os campos talados; as fabricas em cinza
e os armazens desertos e fechados dão triste, mas sufficiente resposta.
Se o povo francez não tivesse reduzido a religião politica a um ritual
dissolvente; se não se tivesse engolfado na subserviencia ao poder,
deixando-o corromper ou esmagar as consciencias; se, por inevitavel
reacção, não tivesse dado ouvidos ás theorias subversivas dos
exploradores de popularidade; se tivesse obstado a que uma profunda
devassidão lhe envenenasse as fontes da vida; se tivesse avocado a si,
por meio de bons e leaes representantes, a gerencia dos negocios
publicos, provavel seria que a guerra não tivesse rebentado para servir
a ambição de uma dynastia periclitante e satisfazer os instinctos
depravados das multidões, que, só á força de estimulos, sentiam ainda
pulsar no peito o velho coração, em que tantas vezes tem batido a sorte
da humanidade e a emancipação liberal de metade da Europa.
O olho do paiz, limpo de fumaradas de polvora e de orgulho, veria melhor
e mais fundo. Repousaria com mais jubilo nos conselhos da prudencia e
nas abundancias da paz do que nos lances da sorte e nas inclemencias da
guerra.
Se esta, porém, fosse inevitavel; se tivesse de resolver-se pelo fogo e
pelo ferro uma questão de equilibrio ou de preponderancia entre as duas
nações rivaes, embora o exercito francez eventualmente succumbisse
debaixo do peso dos batalhões prussianos, ter-se-hia poupado ao mundo o
afflictivo espectaculo de ver-se uma grande nação fugir a custo de um
somno profundo, para dar de rosto desde logo n'uma profunda anarchia.
É possivel que a França tivesse baqueado, mas cortejar-lhe-hia a queda o
respeito universal, factor immenso nas contas futuras da paz. A pressão
moral de sympathias, que não proviessem unicamente de uma utilidade
politica friamente calculada, teria de pesar no animo do vencedor,
levada até alli não só pelo concerto das chancellarias, como tambem pelo
impulso unanime de todos os povos cultos.
Mas a gangrena moral tombou no pó o chefe da vaca latina. Como que
receiosa do contagio, a Europa tem assistido impassivel a essa dolorosa
agonia, que oxalá possa terminar em brilhante resurreição á voz do
patriotismo e da liberdade, reagindo contra a podridão do imperio.
E se isto acontece com a França, com o gigante que, baqueando moribundo,
póde esmagar ainda com o peso do corpo o imprudente que lhe esteja ao
alcance da queda, o que seria com um paiz como o nosso, nesga de terra
perdida n'um canto da peninsula?
Transportae o exemplo a Portugal. Imaginae um conflicto que tenha de
resolver-se ámanhã pelas armas. Sonhae que um exercito hespanhol nos
arromba a fronteira e que uma frota couraçada mette a prôa ás aguas do
Tejo.
Não urje que a hypothese seja provavel; basta que seja possivel.
E depois?
Não levanteis a tempo as forças moraes do paiz; não lhe insuffleis nos
pulmões o ar puro e vivificador dos grandes e generosos sentimentos; não
o moraliseis com o exemplo e o conselho; não lhe ensineis que, acima do
que se toca, existe o que se sente, e admirae-vos depois de que não haja
quem possa suster a bandeira da patria, ou vencer na defensão de vossa
liberdade e de vossas fortunas, que seriam o primeiro pasto do dente de
guerra.
Mas (hypothese absurda, por impossivel) não ha resistencia. Um passeio
militar conduz o inimigo ao coração do paiz. Os quatro uhlanos de Nancy
resuscitam entre Elvas e Lisboa. E julgaes, vós capitalistas, vós
proprietarios, vós industriaes, vós commerciantes, que os vossos fundos,
os vossos campos, as vossas fabricas e os vossos armazens ficariam
livres de mil deploraveis contingencias? Enganaes-vos. Para começar,
pagarieis as despezas da invasão. Depois, a fibra popular, passado o
primeiro estonteamento, reagiria contra o hespanhol, que se póde ser
excellente para amigo e quasi irmão, deve ser detestavel para amo e
senhor.
Não se desfaz n'um dia o que fizeram oito seculos de odios e luctas.
Uma Polonia portugueza morderia sempre o flanco de uma Russia
castelhana.
E que farieis vós então, apertados entre o interesse e o patriotismo?
Collaborarieis na empreza da restauração, trabalho tanto mais difficil
quanto mais o invasor se houvesse internado no reino, e a reacção
tivesse de tomar corpo na presença de quem andasse já na posse militar
do paiz? Mas então o vosso dinheiro continuaria a custear as despezas da
guerra; o vosso trabalho pertenceria á communidade em perigo, e de
vossos predios, bombardeados e destruidos, se faria o parapeito do
reducto inimigo ou o baluarte dos defensores da nação.
Mas (nova e absurdissima hypothese) aguilhoados pelo instincto da
conservação, e pisando as tradicções da nacionalidade portugueza,
acceitaveis o facto consummado e formaveis ao lado do invasor hespanhol.
_Quid inde_?
Trocarieis então uma guerra politica por uma guerra social; guerra de
pobres contra ricos; guerra das massas contra as classes favorecidas;
guerra do proletariado patriota contra a burguezia satisfeita; guerra do
passado e do futuro contra o presente; guerra que semearia odios eternos
entre os que recalcitrassem e os que consentissem; entre os portuguezes
por fé e os ibericos por transacção.
E ai d'estes, se um inesperado successo, dos que por ahi desconcertam as
mais bem combinadas presumpções, viesse no espaço de um sol a outro sol
restituir a Portugal a roubada independencia.
Quem os salvaria então do furor das turbas amotinadas?
Quem lhes poria as propriedades ao abrigo do archote?
Quem lhes daria a mão no sorvedouro que se lhes abriria debaixo dos pés?
Então, ninguem. Antes, o paiz.
Mas um paiz que torne absolutamente impossiveis as hypotheses que ahi
ficam phantasiadas, e que as torne impossiveis pela convergencia de
todas as vontades, pelo emprego honesto e patriotico de todas as forças
no grangeio intelligente e honrado do patrimonio commum.
É difficil hoje que quatro milhões de homens possam resistir a quatorze
d'essas unidades.
Restabeleça-se o equilibrio, ganhando-se em ordem; em boa e liberal
politica; em sabia e recta administração do paiz pelo paiz; em respeito
de estranhos e nacionaes o que a natureza nos faz perder em extensão e
em numero.
Portugal bem administrado póde arcar peito a peito com a Hespanha
diluida em vinte parcialidades e estrebuxando nas convulsões de uma
desorganisação, que ainda não disse a ultima palavra.
Porém se a esse estado responder-mos com um estado igual, a questão do
peso physico obedecerá ás leis da materia.
Quaes ellas são, todos o sabem.
XII
Capitalistas e proprietarios, industriaes e commerciantes, ponde a
intelligencia, já que felizmente ainda lhe não podeis pôr os olhos, no
que seria a bancarota.
Se hoje vos queixaes de que os vossos fundos, os vossos predios, as
vossas fabricas, os vossos armazens padecem com o estado do paiz, o que
seria se desabasse tudo n'uma ruina geral?
E geral teria ella de ser.
Fallido o thesouro, é natural que essa fallencia arrastasse a grandes
difficuldades a maioria dos estabelecimentos de credito. Dado isto, a
ramificação do desastre chegaria á mais solitaria cabana e ao mais
obscuro balcão.
Tanto no espelho dourado dos salões da opulencia, como no barro vidrado
da baixella do pobre, se reflectiria algum gesto de tristeza ou de
angustia.
O luxo retirar-se-hia diante da parcimonia. A parcimonia diante do
constrangimento. O constrangimento diante da fome.
Porque, não vos illudaes, o paiz vive em grande parte á sombra do
estado.
Morto este pela fome, a fome de uma parte do paiz sairia directamente
d'essa ligação apertadissima.
De que vive geralmente o funccionario publico, quer elle se chame
empregado, professor ou militar?
De que vivem os portadores de milhares e milhares de contos de réis em
titulos de divida fundada espalhados no paiz?
A repercussão d'essa desgraça chegaria immediatamente a todos, porque é
em grande parte o estado quem vos paga o juro de vossos capitaes, a
renda de vossos predios, os artefactos de vossas officinas e os artigos
de vosso commercio.
A incidencia da bancarota, o mais pesado de todos os impostos, porque
arruina o capital, procurar-vos-hia em todas as transacções da vida
social, percorrendo por vias mysteriosas todas as representações do
trabalho e da riqueza.
* * * * *
Qual seria a depreciação de todos os valores actuaes pela raridade, e,
portanto, pela carestia da moeda cunhada?
Que somma de moeda chegaria para as necessidades da circulação e da
producção, se o credito a não a auxiliasse com a sua poderosa
camaradagem?
Que soccorro vos daria o credito em frente d'esse cataclysmo, elle, a
melindrosissima entre as mais melindrosas das molas sociaes, e que o
mais ligeiro abalo contrae, como a folha da sensitiva se fecha ao
contacto de um só dedo que a toque?
E comprehendeis vós sem o credito as sociedades modernas, em que uma
actividade devoradora, que é muitas vezes uma ficção, necessita de
outras ficções para mover os cem braços com que se agita o mundo
contemporaneo?
* * * * *
Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da
bancarota?
Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente já de si tão frouxos,
desatar-se-hiam n'uma dissolução completa.
As paixões ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella
perigosos batalhões.
A especulação tomaria a soldo a revolta.
E não tumultuariam unicamente na praça publica os pretorianos do motim;
os que, sem o estimulo de uma idéa, passeiam nas ruas apenas a ambição
de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o
estipendio, e que ámanhã gritarão com identico enthusiasmo a favor de
quem na vespera cubriram de vituperios.
Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que
iriam esquecer na sedição as lagrimas da familia, ou que, movidos por um
vislumbre de esperança, pediriam a uma transformação radical a cura de
suas desgraças.
Não seria então um partido sério o que tomaria as redeas do poder. A
logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mãos dos
mais audaciosos, nos momentos em que a audacia é tudo, e arredaria para
o lado os pacificos e illustrados cultivadores da idéa apparentamente
victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela
cooperação material de homens para quem servisse só de mentirosa
bandeira.
E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade,
que o contivesse, o açor podesse pairar á solta com a omnipotencia de
sua vontade em toda a extensão do facto e da lei!
* * * * *
A moral soffreria igualmente graves affrontas.
Não é quando falta o pão que mais se escutam os conselhos d'ella.
A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.
A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em explosões de colera,
que mais activariam as chammas do incendio.
Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coacção.
Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes
tentações.
O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se ás camas dos
enfermos nas misericordias e hospitaes, porque só alli acharia leitos
nus, aonde, á força de miseria nas arcas vazias, não haveria misearias
que proteger e consolar.
* * * * *
A bancarota!
Já encarastes bem essa atroz eventualidade?
Não é a venda da herança por um prato de lentilhas; é a venda do
patrimonio por um espectaculo de horrores.
A bancarota é o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do
espirito; operação que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz
sempre um resultado superior á intervenção dos dois factores que n'ella
collaboraram.
A bancarota ainda é mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais
do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade;
mais do que a sedição.
É a deshonra do nome da patria!
E querereis, vós os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vós todos os
que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz
fique deshonrado na historia do seculo?
Não é possivel.
E não basta que a bancarota não seja um facto inevitavel; é necessario
que o não pareça.
Porque em pontos tão delicados parecer é quasi ser.
Intervinde, intervinde, pois, que ainda é tempo. Salvae o paiz pelo
paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde já n'esta empreza tão
util para vós, como gloriosa para o nome portuguez.
Não se vos dá um grito de terror no meio da batalha.
É uma voz de--sentido!
XIII
Resumindo:
Fuja o paiz da ruina equilibrando, quanto possivel, o orçamento do
estado.
Equilibre o orçamento augmentando as receitas.
Augmente as receitas desenvolvendo a riqueza.
Desenvolva a riqueza promovendo a confiança.
Promova a confiança tendo governos estaveis.
Tenha governos estaveis inaugurando boa politica.
Inaugure boa politica criando vontade propria.
Crie vontade propria adquirindo noções de seus direitos e de suas
responsabilidades.
Adquira essas noções por meio do desenvolvimento do criterio moral, que
anda tão descurado e empobrecido, devendo ser o motor de qualquer
sociedade que não queira finar-se na impotencia, na ruina ou na
desordem.
* * * * *
Assim como a egreja nega o chão bento ao corpo dos suicidas, a
posteridade atira para a valla commum da historia os nomes dos povos que
morrem ás suas proprias mãos.
Haja fé na salvação do paiz e o paiz salvar-se-ha. Porém se Portugal, no
correr dos annos, tiver algum dia de baixar á cova, que possa ao menos
uma cruz negra dizer ás gerações futuras, no cemiterio das nações: _Aqui
jaz um povo que viveu como honesto e morreu como bravo_.
FIM
POST-SCRIPTUM
Depois de estar na imprensa este pequeno trabalho deram-se dois factos
importantes: a rendição de Metz aos Prussianos e uma crise ministerial
no governo do nosso paiz.
N'esta approximação não vae a menor sombra de epigramma. É uma questão
de datas. Nada mais e nada menos.
Á puridade se affirma que não se quer estabelecer relação alguma entre
Moltke, ou Bismark, com os homens d'estado que estão gerindo os negocios
de Portugal.
* * * * *
Caiu Metz. A toupeira napoleonica parece ter minado o baluarte aonde
cento e cincoenta mil soldados albergavam a honra militar, que,
violentamente affrontada em Sedan, fôra depositar nas mãos de Bazaine as
tradições gloriosas do exercito francez.
Pobre França! Se assim foi, não bastava que vinte annos de compressão e
de immoralidade te houvessem debilitado o braço e o coração; faltava-te
ainda que um marechal do imperio te arrancasse parte da armadura, a fim
de que a lança inimiga te chegue melhor ao corpo nu, quando um clarão de
patriotismo começava a tingir em côr de sangue as barricadas heroicas de
Saint-Quintin e Chateaudun!
Pobre mãe abandonada! Não era pouco que os teus proprios filhos para ahi
te deixassem rasgar o seio ás mãos da soldadesca de alem-Rheno;
faltava-te ainda que um d'elles, arrancando a corôa virginal da cidade
impolluta, te ferisse com ella no rosto, quando lhe sorrias de
esperança, por entre as lagrimas de teu penoso martyrio!
Na presença das traições de que é victima a França, não cabe o coração
no peito de quem tem alma para sentir, e uma parte d'elle vôa a
consubstanciar-se no do povo cuja tunica parece estar sendo jogada por
Napoleão sobre um tambor prussiano.
Para quem está escrevendo as presentes linhas, a causa da França, em
guerra com a Prussia, foi sempre a do interesse liberal e portuguez.
Bonaparte era um accidente que o furacão podia varrer.
O rei Guilherme é um systema, que terá sempre por objectivo a cruz da
espada no calvario da liberdade politica.
Hoje, porém, collabora o sentimento com a razão.
Se o prisioneiro de Wilhelmshohe viesse a Paris sobre um canhão de
Krupp, antes Rochefort na presidencia do que Bonaparte no throno.
Antes o incendio do que a podridão.
Antes o sangue do que o lodo.
A desordem pode passar. A deshonra fica.
Se a restauração consolidasse um precedente de tal ordem, a moralidade
espavorida teria de arrancar o vôo do occidente da Europa, levando
comsigo nas azas os ultimos lampejos da decencia e as ultimas vibrações
do patriotismo.
Praza a Deos que a França possa guardar esse resto, sem subverter os
alicerces da sociedade, no desculpavel delirio de uma nação que vê a
morte de perto.
* * * * *
Em Portugal correm as cousas menos tragicamente.
Organisou-se uma administração debaixo da presidencia do sr. marquez
d'Avila e de Bolama, o mais attendido conselheiro da finada dictadura, e
sob a immediata inspiração do sr. bispo de Vizeu, um dos mais
intrataveis adversarios da situação creada pelo sr. duque de Saldanha.
Esta incompatibilidade, que já dera anteriormente em resultado a saída
do sr. marquez d'Avila e de Bolama do gabinete presidido pelo sr.
marquez de Sá da Bandeira, produziu novamente... a juncção d'esse
cavalheiro e do sr. bispo nos bancos do poder.
Ha, pois, _governo_, mas segundo o verdadeiro espirito do systema
representativo não ha _ministerio_, porque os actuaes conselheiros da
corôa, pessoas individualmente dignas de todo o respeito pelos seus
dotes de coração e de intelligencia, não representam mais do que uma
colligação de homens, sem corpo de doutrinas que os possam graduar em
representação de _partido_.
Que não ha um verdadeiro partido atraz do governo, prova-o tambem
exuberantemente a necessidade, em que se julgaram ver os organisadores
da situação, de irem buscar alguns ministros fóra do parlamento, o que
constitue uma violação flagrante das praticas constitucionaes e seria um
erro indisculpavel se houvesse um partido ministerial, forte e
preponderante, que tivesse dentro de si os elementos para a gerencia de
todas as pastas.
Este raciocinio deve forçosamente ser exacto porque é impossivel que os
deputados verdadeiramente ministeriaes, se os houvesse, se deixassem
preterir em publico, como pessoas, por outros cavalheiros de opiniões
pouco definidas, e que não haviam recebido o sacramento da confirmação
na urna popular.
Viverá, portanto, o novo governo o tempo que vivem as rosas; ou durará o
que as rosas não duram, se lh'o consentirem as opposições que lhe estão
defronte e que farão bom serviço ao paiz não precipitando nova crise,
que teria de resolver-se por alguma nova colligação.
Impotencia diante de perplexidade. Governo sem força na presença de
opposição sem norte certo.
E ainda não será chegada a opportunidade de regularisar a politica do
paiz?
O que obsta a que se comecem a agrupar desde já os elementos
progressistas que andam dispersos por historicos, regeneradores e
reformistas, e reconstruam um verdadeiro partido, adoptando um
programma, não de sonoras banalidades mas de pontos determinados,
indicando desde logo a maneira pela qual os resolveriam no dia em que
fossem poder?