Quanto mais de ao pé da porta os salteia a petição; quanto m

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VERDADES AMARGAS

ESTUDO POLITICO

DEDICADO ÁS CLASSES QUE PENSAM, QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM

POR

CLAUDIO JOSÉ NUNES

LISBOA

TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua do Ferregial de

Baixo, 26

*1870*

AO LEITOR

O auctor d'estas linhas não pretende endireitar com ellas o mundo, nem

dar conselhos a quem lh'os não pede.

Como pertence, porém, a essa tribu de sonhadores que tem a simplicidade

de gastar alguns minutos no estudo das cousas da patria, e tantas vezes

te ouve ponderar--a ti mesmo, que tens agora este folheto nas mãos--o

que adiante acharás, julgou dever condensar em letra redonda a expressão

de teus patrioticos reparos.

Ignora elle, comtudo, se o pudor convencional te fará agora tapar os

olhos em publico na presença da verdade nua, que tão frequentemente

despes nas côrtes e na imprensa, na sala e na rua.

É natural que não.

Mas se esse facto se der; se a tua hypocrisia tomar geitos de castidade,

repara que, ferindo o auctor, cravarás o ferro em tua propria lingua.

Ha só uma differença. Tens dito mil vezes que o paiz está podre. Aqui

diz-se unicamente que o paiz apodrece.

Pódes, pois, á vontade hervar a setta da critica.

Outubro de 1870.

VERDADES AMARGAS

Ha na vida dos povos alguns momentos em que é honra e proveito o

trabalharem todos os cidadãos na redempção da patria commum.

O nosso paiz atravessa uma hora difficil.

De norte a sul, em todos os recantos d'este velho torrão portuguez, o

edificio social escaliça e range, como se houvesse caído sobre elle uma

d'essas biblicas maldições que imprimiam o cunho de uma irremissivel

fatalidade.

As forças vivas do paiz vão esmorecendo n'um deploravel abatimento.

Definha o commercio; retrae-se a industria; a agricultura vê seccar os

peitos uberrimos.

Sobre os factores da riqueza nacional anda uma athmosphera suffocadora.

A intelligencia annuvia-se; o capital adormece; o trabalho

espreguiça-se.

O melhor e maior de todos elles, a confiança publica, declina

rapidamente para um funestissimo occaso.

Porque?

Porque um povo não vive só do que palpa e do que vê. Transpõe-se o rio;

corta-se o monte; povoa-se o estalleiro; fertilisa-se o solo; mas se

todo o progresso material fôr automaticamente produzido, sem que o

illumine uma faisca d'esse espirito publico, que constitue a alma das

grandes nações, tarde ou cedo a ephemera florescencia murchará de

encontro ao mais ligeiro attricto.

E assim é.

Quiz Portugal acompanhar a Europa no caminho da civilisação. Poz a

estrada aonde era o barranco e o caminho de ferro aonde era a estrada.

Estimulou a producção pelo consummo e o consummo pela producção. Fez do

credito a alavanca de multiplicadas emprezas. Viveu em vinte annos o que

não vivêra n'um seculo. Mas como, no meio d'esse tumultuar de

interesses, não quiz ter olhos e coração para o culto das cousas do

espirito, vê-se hoje a braços com uma crise angustiosa, nascida em

grande parte da relaxação moral em que labora o paiz, debaixo do ponto

de vista politico e social.

* * * * *

Diga-se a verdade, custe o que custar. Não é com o silencio que se dá

rebate a um povo em perigo. Ponha-se o cauterio na ferida, embora as

carnes estremeçam com a dor.

O verdadeiro patriotismo não cala nem dissimula; descobre e repara.

E o remedio urge. Um veneno subtil, mescla atroz de apathia, de

relaxação e de egoismo, vai-se lentamente infiltrando por quasi todas as

camadas da sociedade portugueza e acabará por matal-a, se contra elle

não reagir a poderosa triaga de moralisadora e energica acção.

Sem criterio moral não terá o paiz o sentimento de seus direitos e de

sua responsabilidade.

Se lhe faltar esse duplo sentimento, faltar-lhe-ha a vontade propria.

Sem vontade propria não ha elementos de boa politica.

Sem boa politica não ha governos estaveis.

Sem estabilidade nos governos não ha confiança publica.

Sem confiança publica não ha grangeio de riquezas.

Sem augmento de riquezas não se avoluma facilmente a receita do estado.

Sem equilibrio no orçamento vai-se direito á ruina.

Ruina que não provém, pois, unicamente de razões physicas occasionaes,

mas que tem raiz e tronco na condição moral em que vivemos.

Ruina que póde levar-nos ao suicidio na bancarota ou na Iberia.

Incuta-se, pois, no paiz um novo alento e o que hoje é beira de abysmo,

na phrase tradicional da imprensa, talvez não passe amanhã de ponto

confuso na topographía politica de um povo regenerado.

I

Haverá criterio moral no paiz, em tão larga escala e com tal cunho, que

dê physionomia á vida publica portugueza?

Infelizmente, não.

É certo que não escaceia nas transacções da vida particular essa

honestidade, que á força de ser obrigação, não passa de banal virtude.

Toda a terra em que ella chegasse a constituir excepção cedo se

converteria n'uma charneca de salteadores, aonde o mais robusto e o mais

audaz tomaria a realeza do roubo e do assassinato.

Não falta igualmente quem modele o seu procedimento, no tracto commum,

pelas normas de escrupulosa delicadeza, não consentindo que a sombra

sequer de uma duvida lhe embacie a transparencia do nome.

Mas não se trata aqui de individuos; aprecia-se a collectividade.

Não se allude a homens; falla-se do paiz.

Do paiz que elege.

Do paiz que legisla.

Do paiz que governa.

Do paiz politico, n'uma palavra.

N'este, força é confessal-o, as excepções invadem a regra geral.

As convicções andam alli geralmente á mercê dos ventos do ceu.

Um enxame de incredulos, que borboleteiam de despeito em despeito ou de

interesse em interesse, pousando hoje aqui e além ámanhã, suga o mel do

partido em que eventualmente pousou, flor tanto mais procurada quanto

mais se espaneja ao sol do poder.

Os proprios programmas partidarios batem repetidas terçãs. Ardem na

febre ou gelam no frio, segundo são difficuldades de governo ou

facilidades de opposição.

No meio d'esta balburdia quasi toda a gente é correligionaria de quasi

toda a gente.

Parece que o pobre do orçamento é floresta aonde se caça a furão e a

rede, a tiro e a pau.

Não ha mezes defezos, nem habilitação policial.

Entra quem póde. Fere, mata e apanha quem teve melhor olho ou mais

vigoroso lebreu.

Gasta-se metade do anno a demolir os adversarios e a outra metade a

forjar com elles alguma salvadora fusão.

E como n'esta abençoada terra não se discutem principios mas homens, o

imbecil, o devasso, o infame da vespera será no dia seguinte honrado

collega.

A abnegação democratica é apregoada de boca em boca mas, para honra e

gloria d'ella, um chuveiro de titulos e condecorações alaga por vezes em

ridiculo a prosapia do agraciado e a referenda do bemfeitor.

Mais ainda. Tropeça um conde na plebe, levanta-se logo marquez.

Se vem a republica, é certo o ducado.

A lei anda em interinidade. Reformas de reformas reformam o que foi

reformado. Quem se descuidar um mez de estar em dia com a legislação

arrisca-se a dar comsigo n'algum labyrintho de referencias ou n'algum

fojo de multas.

Leis não faltam. Verdade é que, em compensação, ficam muitas em letra

morta.

O respeito ao principio de auctoridade, sem o qual nem a propria

liberdade florece e fructifica, vai-se pouco a pouco obliterando no

espirito das massas.

Só em tempo de eleições e a tres metros da urna é que, por uma fatal

inversão, a indisciplinada turbulencia do campanario se dobra aos

conselhos de quem alli representa aquelle desprezado principio.

Fóra d'essa quadra excepcional, queimam-se cartorios publicos;

espancam-se empregados; negam-se esclarecimentos e toca-se a rebate

contra os agentes da lei.

A intriga e a calumnia são moeda corrente. Emquanto a mentiras já não

incommodam quem as ouve e as diz. O caso é que se minta a proposito e

bem.

Questão de habilidade.

As varias fórmas da utilidade invadem todos os corpos e todas as almas.

Subir e medrar, gozar e vencer são os pontos cardeaes do mappa das

crenças.

Quem negará que o escandalo seja uma excellente recommendação?

Exemplifique-se:

Anda por ventura a attenção popular em curioso convivio com os mestres

da escripta; com a musa da forte e sã litteratura; com Garrett,

Herculano, Castilho, Rebello e Mendes Leal?

Passa a vista pelos trabalhos serios da imprensa?

Occupa-se, porventura, em ler as discussões parlamentares?

Não, não. No seu paladar pervertido sómente causa o estimulo da

curiosidade algum pamphleto immundo, em que se insulte a decencia; se

morda na lingua; se cuspa nas instituições e se esbofeteie a verdade.

E quanto mais é cobarde a insinuação; quanto é mais vil a denuncia;

quanto mais salgada é a infamia da phrase, tanto mais as saboreia a

avidez popular e se deleita com ellas o commum dos leitores.

* * * * *

Mas basta de generalidades e venha um facto concreto.

Triumpha uma sedição militar. Nos salões, outr'ora desertos, do

conspirador, acotovella-se, horas depois, a turba cerrada dos cortezãos

da victoria. Não admira. Ha musica no côro e bodo no pateo. Rebenta um

partido do cofre das graças. Formigam as adhesões. Enxameam os

enthusiastas. Não chegam os clarins para os arautos da gloria.

Á excepção da parcialidade vencida, todas as outras se derretem em

negaças ao heroe do momento. De todos os cantos estalla um catharro

provocador.

E um sargento de caçadores fechára as portas do parlamento!

Vem uma e diz:

«Sou a Regeneração. Já não me conhece, marechal? As amizades antigas

nunca se perdem. Se não tenho o fogo da mocidade, tenho a madureza de

espirito, qualidade digna de ser apreciada por quem já não tem pulmões

para folegos profundos. Em vez de cirios e cavalgatas, passaremos os

serões a grudar as folhas da Carta, violentamente rasgada n'um minuto de

pressa, e, grudar por grudar, grudemol-as nós. Esqueçam-se quinze annos

de amuo nas aras de um prudente consorcio.»

Mas uma voz grita do lado:

«Arreda-te, bruxa maldita. Aqui estou eu, que sou a Reforma. Sou joven e

bella, airosa e poupada. Uma choça e teu coração, meu guapo marechal!

Ahi fiaremos uma existencia de rolas e pediremos á egreja que abençõe

este feliz matrimonio.»

Clamam de baixo:

«E eu sou a Revolta! Nos meus braços robustos tens um throno de

affectos. Só eu sou a forte; só eu sou a bella. Despreza a velhice

prudente e a infancia dengosa. Rodopiarei comtigo n'uma orgia perpetua.

Ora soltarei os cabellos aos ventos da demagogia, ora polvilharei de

ouro as tranças luzentes Desde a lama até ás estrellas será estreito o

espaço para as nossas folias.»

E assim foi.

E haverá criterio moral n'um paiz aonde se corteja o poder com tão

notavel impudor?

E depois?

Depois veio a queda. Um golpe de estado desfez o que fizera o motim.

Cura perigosa de uma perigosa doença.

O paiz não achára em si força sufficiente para debellal-a e entregou á

corôa a manipulação do remedio.

Triste confissão de impotencia! Triste symptoma constitucional!

Caiu o marechal. Era execrada a dictadura. Moveu-se-lhe guerra em nome

da nossa autonomia. Contra os actos d'ella subiram as queixas dos

partidos até aos degráos do throno, que as ouviu e attendeu.

Pois bem. Despediu-se o artista mas guardou-se a obra. As leis da

dictadura são leis do paiz. Os auctores e collaboradores d'essa gloriosa

empreza, acabam em santa paz a digestão do festim, e um _muito a meu

contento_ que seria a condemnação do proprio decreto em que foi lavrado,

se não fôra uma ficção constitucional, passa um golpe de esponja sobre a

logica de uma situação!

Assim era necessario para que quem morrera ministro resuscitasse

embaixador; isto é, n'um cargo de absoluta confiança politica ao serviço

de uma das parcialidades que maior guerra lhe movêra!

Um recebe e parte.

Outro não parte e recebe.

O paiz olha e paga.

Á vista de um episodio d'estes haverá criterio moral no paiz?

II

Se é verdade, o que fica exposto, não deve causar estranheza que o paiz

não tenha claras noções de seus direitos e de sua responsabilidade;

direitos pelos quaes deve responder não perante a maioria mas perante a

universalidade dos cidadãos portuguezes; responsabilidade que lhe

compete diante da prosperidade publica, da lei e da historia.

O codigo de nossos direitos é a Carta constitucional da monarchia.

Em quanto existir será o vehiculo legal de toda a actividade politica.

Mas quaes são, de entre alguns milhões de portuguezes, os que tem

conhecimento directo d'esse pequeno volume, que nos custou rios de

sangue e montanhas de ouro?

O povo, opprimido ainda pela tradição secular da ignorancia que lhe era

imposta pelo interesse de uma politica de confessionario e de côrte, nos

tempos do direito divino, sae ainda hoje, lentamente e como que a custo,

de uma existencia passiva e expressamente concentrada nas cousas do

mundo physico, para as regiões moraes aonde brilha a idéa democratica da

sociedade moderna.

Conhece, portanto, a constituição só pela pratica, e como a pratica não

tem geralmente sido a fiel interpretação da theoria original, não admira

que o grosso do paiz ao cabo de trinta e tres annos de exercicio

constitucional, ainda não comprehenda bem até onde chega o alcance das

armas que lhe poz nas mãos o systema representativo.

As fontes do exemplo, seu guia, espelho e mestre, não lhe tem, de certo,

vertido os mais puros licores.

* * * * *

Na cupula do edificio está o poder moderador na pessoa do chefe do

estado.

É certo que ás espheras serenas, aonde paira, não devem chegar as

lufadas das paixões partidarias nem os pratos da balança em que se peza

a sorte arbitraria dos ministerios.

É certo que o rei é irresponsavel.

Mas tambem não é menos exacto que essa irresponsabilidade não é

congenita ao exercicio da corôa, porém nasce unicamente de um artigo da

Carta.

Suspensa, pois, de facto a constituição pela dictadura, a

irresponsabilidade real caduca desde logo.

Morta a causa, desapparece o effeito.

Póde-se, pois, alludir, sem quebra de lei, a um acto importante de

responsabilidade pessoal, que teve logar no mez de maio do corrente

anno.

Quatrocentos soldados invadem o paço da Ajuda. Falla a polvora e caem as

victimas. O duque de Saldanha intima a demissão do ministerio, ao qual

dera a sua palavra de honra de que nunca se revoltaria.

Cede o rei e concede a dictadura. A bondade natural de seu coração recua

diante da possibilidade de um conflicto que levasse os salpicos do

sangue até ás ruas da capital. Em seu animo, inclinado á paz, bate de

chofre, paralysando-o, a responsabilidade eventual de uma guerra civil.

Não se discuta o acto; pergunte-se unicamente:

Em que ficou o direito que assiste á corôa de escolher livremente seus

conselheiros responsaveis?

Em que lhe ficou o direito de addiar ou dissolver a camara dos

deputados, quando um piquete de tropa de linha dissolveu de facto os

eleitos do povo?

Em que lhe ficou o direito de perdoar, quando, seguramente contra a

vontade do soberano, o general vencedor castigou o crime de obediencia

ao juramento prestado?

Tres direitos offendidos. Tres perniciosos exemplos.

* * * * *

O principal direito do poder legislativo é o de fazer leis que subam

depois á sancção real.

Direito que se exercita tanto sobre propostas do governo como sobre as

que dimanam da iniciativa individual dos membros do parlamento.

Mas quem ignora que esta ultima hypothese se evapora, quasi sempre,

n'uma illusoria garantia e que falta habitualmente ás camaras a energia

para zelarem, como deviam, os direitos de cada um dos que a ellas

pertencem, discutindo e apreciando os trabalhos de iniciativa

particular, mórmente quando recaem sobre assumptos de interesse geral?

Exceptuem-se algumas ninharias locaes e alguns negocios sobre os quaes

não tenha convindo aos governos o comprometterem-se a favor de uma

opinião definida, e contem-se os projectos importantes que, saídos da

carteira do deputado ou do par do reino, tenham chegado á meza do

conselho de estado.

O direito de interpellação é uma das mais preciosas faculdades do

parlamento. É a fiscalisação constante, a sentinella permanente do

cumprimento da lei; a recompensa de bons serviços e o freio de

iniquidades.

E que acontece frequentemente? Vem um deputado e interpella o ministro.

O caso é difficil. A defeza hade custar, se não fôr impossivel. Muito

bem; não se responde. O queixoso renova tres, quatro, cinco vezes a

embaraçosa pergunta, e a maioria condescendente renova outras tantas um

adiamento que é sempre a negação de um direito.

* * * * *

Não lucta o poder executivo com menores contrariedades no exercicio de

suas legitimas funcções, nem menos vezes abdica de algumas d'estas com

prejuizo publico.

Transfere ou demitte o governo um funccionario, que está dentro das

attribuições do poder executivo demittir ou mudar. Rompe a celeuma. Era

o acto talvez conveniente e moral. Embora. Redemoinham em torno do

carrasco os parentes da victima, até grau desconhecido no codigo civil,

e o anjo da amnistia apaga com as pontas das azas a assignatura que

legalisara a fatal, mas honesta sentença.

Quer o governo prover um logar, ou resiste ao pedido de qualquer

demissão, sollicitada por terceiro? Sobre o uso de seu direito

accumula-se tal pressão, que o ministro dobra-se ou quebra, quebrando

com elle o direito e a moralidade.

Tumultua a ignorancia, explorada pela politica, armando a insurreição

contra o dominio da lei. Responde o governo á força com a força, no uso

de incontestavel direito, depois de esgotados os outros recursos? Nem

sempre. Titubeando entre o dever e a responsabilidade; não achando por

ventura na consciencia a base do necessario rigor, vacilla, estremece,

informa-se e contemporisa, sendo talvez necessario ir depois mais longe

do que podera, se um energico e opportuno exercicio de seu direito

constitucional tivesse atacado na origem o transtorno da ordem publica.

D'esta unanime indifferença pelos direitos de governos e camaras nasce

um tristissimo resultado. O governo, olhando só para os outros e não

olhando para si, julga poder assumir diante do parlamento uma quasi

attitude de superioridade; o parlamento, vendo no governo a

maleabilidade de que já por vezes tirou beneficio, acostuma-se a

acreditar que os ministros devem ser chancella de empenhos ou boceta de

recommendações.

Tem o paiz o direito....

Adiante. Quem falla n'isso?

* * * * *

O peor é que, por uma logica inexoravel, aonde falta a noção do direito,

anda igualmente em falta o sentimento da responsabilidade.

Serio e bem serio deve elle ser, quando seriamente comprehendido.

Mas a verdade é que de responsabilidades ninguem cura, porque a ninguem

se tornam effectivas.

Cada um faz, geralmente, o que quer.

O ponto está em que haja audacia para fazel-o e algum vestigio de força

para o sustentar.

Por exemplo:

Manda um ministro pagar sete annos de ordenados a quem não serviu, por

ter sido desligado da competente repartição. Já foi reparada essa

extorsão ao thesouro do estado? Já se pediu a responsabilidade d'esse

inaudito successo?

A Bruxellas! A Bruxellas! E o passado, passado!

E quando se despreza assim a responsabilidade legal, a que assenta em

cousas tangiveis, o que succederá com essa outra que vive nas regiões do

mundo moral? Que não entra nos codigos, porque não sae das consciencias?

Que não sae das consciencias, porque nem tudo arromba o metal e a pedra?

Que sentimento de responsabilidade acompanha o agitador, que a troco de

alguns reaes, submerge na desordem a vida laboriosa de seus concidadãos?

Que sentimento de responsabilidade influe nas phalanges cerradas de

eleitores, que envernizam com um diploma alguma carunchosa podridão?

Que sentimento de responsabilidade onera os que despedaçam os idolos da

vespera, para alimento do fogo em que arde o incenso aos triumphadores

da ultima hora?

Que sentimento de responsabilidade impera no indifferente, que entre

dois bocejos, lança a vista, apathica e distraida, para o veio de agua

que leva á costa o desarvorado baixel da causa publica?

Que sentimento de responsabilidade aconselha o voto do deputado que

limpa com a dignidade os pés dos eleitores, ou que traz no diploma o

vinco das libras?

Que sentimento de responsabilidade opprime o funccionario publico nas

mãos de quem os negocios ficam sempre em processos pendentes?

Que sentimento de responsabilidade experimenta o militar que semeia a

indisciplina nas tarimbas dos quarteis?

E que sentimento de responsabilidade tem uma nação que, no seu desapego

profundo ao que de perto lhe deve tocar, se contenta com o sorrir á

carencia de todas estas responsabilidades?

Essa carencia não fórma ainda o typo completo da nossa sociedade, mas

alastra-se tanto sobre a politica e sobre a administração, que a

existencia da nodoa será problematica sómente para quem escuta e não

ouve; para quem olha e não vê.

III

Do que dito fica deriva esta natural consequencia:

O paiz não tem vontade propria.

A recordação do que se acaba de passar, no curto espaço de sete mezes,

dará inequivoca prova d'esta deploravel proposição.

Corria o mez de março de 1870. Governava o partido historico. Houve

eleição geral. D'ella saiu tão numerosa maioria, que apenas dez ou doze

candidaturas de opposição declarada conseguiram cantar victoria no dia

da lucta.

Caiu o ministerio progressista e veio o senhor duque de Saldanha, que,

mais feliz do que Diogenes, conseguiu ao cabo de alguns dias achar o seu

homem. Foi ministro do reino o sr. José Dias Ferreira e dissolvida a

camara dos deputados. No fim de poucas semanas as urnas inchavam com tal

hydropisia ministerial, que a opposição luctava apenas n'um terço dos

circulos.

Passou d'esta para melhor vida a pasta do sr. José Dias. Entrou o sr.

bispo de Vizeu. Pois dezoito dias bastaram para que a maioria, que

andava na forja, tão luzida e primorosa, se convertesse em refugo diante

do baculo episcopal.

Terá, portanto, vontade propria o paiz?

Responda o que fica narrado.

É fóra de duvida que ainda ha muito cidadão honesto e intelligente, que

tem a consciencia do acto que pratica, quando lança um voto na urna.

Suppôr o contrario seria injusto e pouco verdadeiro. Quem escreve estas

linhas sabe, por experiencia propria, até aonde póde alcançar o

desinteresse e subir a dedicação reflectida de centenares de eleitores.

Desgraçadamente a regra é outra. O corpo eleitoral tem por nome Legião,

e ahi, aonde se conta por dezenas de milhares, nem sempre a

espontaneidade e o raciocinio constituem a mais pronunciada feição

d'essa cohorte numerosissima.

O que o paiz quer sabemos nós todos. Quer boa administração; quer paz;

quer ordem publica; quer finanças prosperas, independencia e moralidade.

O que o paiz não sabe querer é servir-se dos meios legaes para a

obtenção do que deseja.

E, comtudo, a formula de eterno conselho:--«Ajuda-te que Deos te

ajudará»--leva mais de cincoenta seculos de existencia nos ouvidos da

humanidade!

Ora como o paiz não sabe querer, corre tudo geralmente fóra de seu

influxo directo.

As eleições, a primeira funcção constitucional; a melhor Egeria da

corôa; a pedra de toque da popularidade; a expressão da mais augusta

soberania, a soberania popular, não dependem, em sua maioria, do

sentimento politico, na boa e lata accepção da palavra: systema, idéas,

principios, mas de uma evolução artificial dentro de tres detestaveis

corporações que as falsificam com uma influencia impura ou deleteria:

O grupo dos indifferentes;

O rebanho dos timoratos;

A guerrilha dos corruptos.

Para os da testa do rol todos os candidatos são de igual estatura. Uma

razoira, implacavel por descuidosa, confunde n'uma superficie commum o

talento e a estupidez; o saber e a ignorancia; a aptidão e a

inutilidade; a boa fé e a especulação; a honradez e a improbidade. Dão

ao favor, á cortezia, á amizade e ao empenho, o que deveriam conceder ao

interesse publico e á reflexão. Para elles tanto vale que entre nas

côrtes um homem d'estado, como que alli tome assento alguma creatura que

do velhissimo Adão só tenha herdado o barro quebradiço, ermo de qualquer

fagulha de espirito.

Quanto mais de ao pé da porta os salteia a petição; quanto mais palpam

no candidato alguma costella de parentesco; quanto mais de cima lhes

baixa o memorial, tanto mais batem as redeas ao Pegaso do elogio, que

vôa de aldeia em aldeia, levando no dorso a musa da recommendação.

Sorrirá o leitor das ampoulas da phrase. Não tem razão. Chama-se a isto

côr local, ou cousa que a valha.

A lista é para elles uma carta que não necessita de ser aberta. O papel,

a estampilha, a marca e o portador, bastam para satisfazer-lhes a

curiosidade.

Porém se os indifferentes são muitos, os timoratos ainda são mais.

Está n'elles a materia prima das maiorias parlamentares.

São o _paiz_ de varios governos.

São a _opinião publica_ de algumas situações.

Á frente d'elles caminha a auctoridade, que se já respigou na primeira

corporação, ceifa aqui, a fouce plena, por entre braçados de votos, mil

affagos do eleito ou de quem o mandou nomear.

Tudo varía. Ha revoluções no ceu e revoluções na terra. Giram os astros

na immensidade e succedem-se no mundo as estações. Tudo varía. Só o

rebanho dos que votam com quem está de cima estende o lombo á thesoura

eleitoral com imperturbavel constancia, submissamente pastoreado por

esses vigarios do Poder na terra, que se chamam administradores de

concelho, regedores de parochia, escrivães, cabos de policia, vereadores

e malsins.

Suspende-se o catalogo para não enfadar quem lêr, e lá se foram os

ministros d'estado e os governadores civis!

E não se diga que nem todos os ministros; nem todos os governadores

civis; nem todos os administradores de concelho; nem todos os regedores

de parochia; nem todos os escrivães; nem todos os cabos de policia; nem

todos os vereadores e nem todos os malsins, trabalham n'essa tosquia.

Tosquia a especie. Dos individuos não se trata aqui e é possivel que até

não sejam raros os que o não fazem, ou que, á menor repugnancia da

ovelha, a deixam sair intacta e livre das mãos do tonsurador.

Outros são de peor genio. Travam de pés e mãos a paciente; tomam-lhe o

pescoço entre os joelhos e, sem que o velo não caia ao fio do

instrumento, não a deixam saltar do redil para o campo.

E quantas vezes leva na pelle as costuras!

O que mais custa a confessar é que anda tão atrazada a educação politica

do paiz, que, se a auctoridade não collabora um pouco na formação das

maiorias, apparecem camaras anarchicas, aonde os chefes são tantos como

os soldados, e os partidos, por um sentimento de pudor constitucional,

se dão a si mesmos o nome de _grupos_.

Cumpre que isto não seja assim.

É da maior urgencia que a auctoridade administre e não eleja.

Se, á primeira vista, a intervenção d'ella, mais ou menos directa, pode,

em dadas circumstancias, aparentar uma sombra de proveito em favor de

uma necessidade parlamentar e constitucional, qual a da existencia de

uma maioria solidamente organisada, essa apparencia desapparece ao mais

ligeiro exame.

Primeiramente, não ha maioria solida quando, em vez da ligação de

principios, tem só para unil-a a identidade de uma origem viciosa, que

lhe rouba as condições de prestigio, sem que não pode desassombradamente

funccionar.

Em segundo logar, ha menor perigo na eleição de uma camara, que pela sua

turbulencia sirva de escarmento e lição ao povo, do que em habituar este

a uma subserviencia; que apague n'elle o sentimento de seus direitos e

de sua responsabilidade, e, portanto, qualquer impulso de vontade

propria.

* * * * *

Se a verdade da representação soffre com a intervenção da auctoridade

nas eleições, não padece com ella menos a regularidade da administração.

Que força moral pode conservar sobre os seus administrados o

funccionario que, no espaço de alguns mezes, de algumas semanas, de

alguns dias até, como succedeu ultimamente, apoia o mesmo nome que pouco

tempo antes guerreara, ou guerreia aquelle que dias antes defendera?

Voltando, ás vezes, dias depois a combater o que combatera e a

recommendar o que recommendara?

Que prestigio lhe assiste quando se vê forçado, por interesses

eleitoraes, a lançar mão da escoria de sua localidade, pelo unico motivo

de que entre ella pode recrutar algumas dezenas de votos?

Que auctoridade lhe dá o comprometter em vão a sua palavra com promessas

que não possa cumprir, ou o abater a dignidade de seu cargo tornando-se

o homem ligio de qualquer suzerania de campanario?

Para se salvar das consequencias do primeiro erro ou do primeiro

delicto, terá de requintar cada vez mais a violencia ou a sujeição, e,

ainda mesmo que a consciencia de seu dever ou de sua dignidade lhe não

tenha consentido que se exceda ou se avilte, a mescla de politica e de

administração redundará sempre em prejuizo do serviço e em descredito

das instituições.

* * * * *

Mas os corruptos? Aonde ficam os corruptos?

Bom seria não polluir a penna com esta hedionda palavra, mas a cousa

existe e o seu nome é este; e, como se está seguindo um filão de

verdades, força é que se atravesse esse immundo deposito de abjecções,

pois de tudo ha na mina,--ora tapetada de esplendidos crystaes, ora

vertendo lamas infectas infectas--a que vulgarmente se chama eleição.

E mina é, ou parece, para quem faz commercio de votos; commercio que,

devendo ter tido por berço provavelmente um armario sem pão, vai hoje

tambem querendo matar a fome de vaidades ou de interesses, nos salões da

abastança.

Não é o peor corrupto quem se vende por alguns reaes.

É-o muitas vezes quem compra.

Porque, salvas honrosas excepções, a diploma comprado deve corresponder

deputado vendido.

Ora a corrupção eleitoral cresce de anno para anno.

O sublime do genero é comprar a fazenda com a algibeira do vendedor!

O que parecia molestia esporadica vai-se transformando em epidemia.

É corrupto:

Da penuria---o que se vende a dinheiro;

Da estulticia---o que se vende a promessas;

Da vaidade--o que se vende a fitas;

Do odio--o que se vende a vinganças;

Da pieguice--o que se vende a mesuras;

Do interesse baixo e sordido--o que se vende, remediado de bens de

fortuna, a qualquer favor que lhe poupe, ou faça ganhar alguns reaes, ou

o dispense de alguns ligeiros incommodos.

Ainda ha outra especie de corrupção, não tão cynica, porém mais

perigosa:

A corrupção collectiva em nome da utilidade publica.

São corruptos, por exemplo:

O districto que se vende a estradas;

O concelho que se vende a arames;

A freguezia que se vende a reparos;

A localidade que se vende a concertos;

Tudo com _et coetera_ na clave.

Todos os votos, emfim, que se hypothecam ao lucro.

Trabalhe o deputado por satisfazer as necessidades do circulo. É dever;

mas não se reduza o beneficio a contracto. Isso rebaixa.

Demais, se o contracto é decente e justo, torne-se extensivo a todas as

povoações do reino e diga-se depois o que serão os orçamentos das

camaras municipaes, dos districtos e do estado, e que imposto chegará

para satisfazel-os.

Não se torne extensivo a todas, e pagará a independencia uma parte do

preço da compra, que terá de sair do cofre commum.

Paga a honestidade o que lucra a mercancia.

Indifferença, subserviencia, corrupção!

E por ellas e com ellas se atraiçoam os amigos; se quebra a fé jurada;

se falsificam os escrutinios; se deshonra o mais sagrado de todos os

direitos!

Uma observação:

Quanto ganhou n'este commercio o operario ou o jornaleiro que vendeu o

voto por algumas peças de prata?

Concorreu para a feitura de um mau deputado. Maus deputados dão más

camaras. Más camaras dão maus governos. Maus governos dão más finanças.

Más finanças assustam os capitaes. O susto dos capitaes faz esmorecer o

trabalho. Sem trabalho não ha pão, e o jornaleiro e o operario perderão

mais n'essas _grèves_ forçadas, de semanas e mezes, do que lucraram

n'esse dia de ignobil veniaga.

Nem ao menos a compensação do proveito!

Estenda-se o argumento a todas as outras fórmas de corrupção e

achar-se-ha sempre o mesmo fatal resultado.

* * * * *

Vontade propria no paiz!

São dez horas da manhã do dia 19 de maio de 1870.

Está Lisboa em socego profundo.

Nem a mais ligeira alteração na apparencia da nobre cidade!

A loja não se abre a meia porta; patenteia-se de par em par ao freguez

que a procura, como a procurara na vespera, pacifico e talvez risonho.

O negociante trabalha no escriptorio.

O operario moureja na officina.

O vendedor ambulante apregoa na rua.

Socego profundo! Uma tal ou qual reacção que houve, sómente semanas

depois começou a traduzir-se em factos.

E, comtudo, o paiz desandara em dez horas o que lhe levara dez annos a

andar!

A ordem e a liberdade, o rei e a lei, estavam á mercê da espada!

Francamente; haverá no paiz vontade propria?

IV

Sem vontade propria; sem que se pense, se compare e se escolha; sem

iniciativa de dentro e sensibilidade por fóra, não póde haver elementos

de boa politica n'uma nação que se rege pelo systema representativo.

Porque não ha boa politica sem bons partidos, e não ha partidos

regulares sem espirito publico no povo.

Quando falta o espirito publico não ha partidos; ha _parcialidades_ e

_grupos_.

A raiz etymologica é a mesma, mas a accepção philosophica cava um abysmo

entre estas palavras.

As ultimas são o troco, em cobre azebrado, de uma peça de ouro formosa e

luzente.

Valor convencional em frente de valor intrinseco.

Partido regular é o que tem logica nas idéas; constancia na defensão

d'ellas; unidade e disciplina.

Quantos conta Portugal n'estas circumstancias?

A logica:

Estão seis homens em conversa politica. Andam ha dois ou tres annos

(dois ou tres seculos!) em camaradagem seguida. Frequentam as mesmas

reuniões e tem por guia identico chefe. Muito bem. Trata-se de uma

escaramuça de bando? Unanimidade completa? Discute-se um interesse de

grupo? Completa unanimidade. Mas appareça uma questão economica ou

social: a liberdade de commercio; a descentralisação administrativa;

qualquer outra que deva ser crença de escola, e a concordia desapparece,

sendo talvez necessario que uma parte dos correligionarios busque

reforço na sala visinha, aonde um conventiculo de adversarios se

dilacera tambem, á mesma hora, ácerca do mesmissimo ponto.

Grita-se, discute-se, invectiva-se. O amigo é inimigo. O inimigo,

defensor ardente. Confundem-se os campos e só algum incidente que traga

a terreiro uma questão grave, uma questão pessoal, por exemplo, terá o

condão de restituir cada um aos amigos com quem batalhara.

A constancia:

Combate a opposição em pró de uma doutrina. Nos seus jornaes, nos seus

comicios, na tribuna e no livro bate em brecha com a propaganda escripta

ou fallada os erros de seus contrarios. Um golpe de fortuna; a fraqueza

do ministerio; certa manobra parlamentar, deposita-lhe as pastas nas

mãos. Pois desde esse momento caduca o enthusiasmo pela reforma pedida e

os erros tomam taes laivos de inoffensivas bagatellas, que talvez possam

passar, em momentos criticos, por necessidades a que não se póde fugir.

A unidade:

As fusões;

As colligações;

As conciliações.

A disciplina:

O despeito;

A inveja;

A sizania.

Um homem que falla e se move faz mais ruido do que cem, mudos e quedos.

As individualidades inquietas e ambiciosas das parcialidades politicas,

dão-lhes muitas vezes a feição com que a condescendencia dos

companheiros as deixa mascarar, e que, por ser a mais visivel, se torna

a mais caracterisada.

* * * * *

Da falta de partidos logicamente organisados e fortemente constituidos,

não em vista de uma necessidade de momento ou de um ponto especial de

administração, mas de um systema fixo, tem nascido as approximações,

esboçadas ou realisadas nos ultimos tempos.

A maior ou menor fraqueza dos grupos tem promovido esses actos, que

andam em moda permanente de ha cinco annos para cá, mas que deviam ser

anormaes n'um paiz, que soubesse comprehender bem as instituições que

nos regem:

Fusões, em que cada um dos fusionados conta pelos dedos quantos governos

civis ou quantas candidaturas lhe couberam em partilha, e que fundem tão

bem, que cada um se separa dos outros no momento opportuno, sem que as

forças da cohesão ponham estorvo a esse trabalho;

Conciliações que nada podem conciliar e que desmoralisam todos e tudo.

Necessita a nação de todos os esforços de seus filhos para arrostar com

immensas difficuldades? Haja patriotismo e saiba-se usar d'elle.

Auxilie-se o poder constituido n'essa immensa tarefa.

Diz-se popular o governo? Carregue com as consequencias d'essa

popularidade. Tome a responsabilidade da iniciativa nas medidas de

salvação publica.

Pedem as circumstancias que as opposições ensarilhem as armas? Faça-se

isso lealmente, mas não se confundam nos bancos ministeriaes,

inutilisando-se mutuamente para os effeitos da rotação no poder, os que

fóra d'elles podem dar ao paiz melhor documento de sua isenção

partidaria.

Conciliação sincera e permanente de todos seria a extincção completa dos

partidos, proposição que antes de ser uma quimera seria um absurdo

constitucional.

Conciliação, apenas de alguns e temporaria, não seria conciliação; seria

unicamente um novo elemento de confusão no que anda já tão confundido.

Que temos nós visto e com que resultado?

Maiorias de colligação em frente sempre de opposições colligadas.

Colligações que só tem uma certa desculpa na tenuidade das linhas

divisorias que separam, por emquanto, uns dos outros os partidos de

maior valor no paiz.

Como não ha systemas completos de governo, falla este em ordem publica e

respeito á constituição; aquelle em fomento; esse outro em economias.

Todos, na organisação das finanças. Mas desde quando a ordem publica, o

respeito á constituição, o fomento, a economia e a organisação das

finanças, pontos que devem ser communs a todos os partidos serios, podem

constituir o programma especial de cada um d'elles? Não prova que anda

ausente o dogma, ou que é de fé para todos, quando se falla só nas

exterioridades do culto? Que ha em alguns d'aquelles rotulos mais

artificio do que verdade? Que são maiores, de grupo para grupo, as

incompatibilidades de pessoas que de cousas?

* * * * *

Em Portugal a organisação de um _partido_ é a cousa mais facil do mundo.

Ha tres, cinco, dez homens (não urge que sejam mais) que, desejosos de

terem uma influencia que não podem alcançar, por andarem confundidos com

outros que os affogam no numero, buscam o modo de adquirir essa

importancia que lhes anda roubada, quer pela ingratidão da patria, quer

pela sombra dos proprios amigos. Problema posto, problema resolvido.

Inspira-se um jornal. Inventa-se um nome. Chrisma-se um chefe. Falla-se

no paiz, e, depois de estar prompto o scenario, põe-se o titulo á

comedia, cujos auctores se esfalfam em dar ao publico, por belleza

excelsa e privativa d'elles, o que nunca devera passar de logar commum

n'este ramo de litteratura dramatica.

Outros nem se cansam com estas poeiras. Mettem no laminador o simples

nome de um homem; estendem-no até que chegue á desinencia adoptada pelo

uso, e está feito o partido!

O partido!

Pobre vocabulo, que já tens sido a estrella polar de intelligencias em

busca da perfeição social, quem te diria que viria tempo em que por ahi

te reduzissem a alampada de viella obscura, ardendo de dia e de noite, e

mais de noite do que de dia, diante de algum santo, advogado contra as

cambras em quem deseja trepar ás alturas do poder!

Como se póde chamar partido a qualquer associação de homens, que não

ache até dentro de si quem possa tomar o peso ás pastas n'um momento de

crise?

Como se póde dar esse nome a qualquer confraria, que em tempo de

procissão não possa com o andor, ou dê com a imagem em terra logo á

beira do altar?

Como merece tal importancia o grupo que não se atreva a galgar sem

dianteiras a mais leve encosta da governação publica?

E em taes casos a fraqueza é má conselheira.

Para que augmente o numero dos adeptos não se olha a condições.

Todas as vadiagens; todas as deserções; todas as insignificancias; todas

as immoralidades; todas as traições; todos os cynismos; todos os

despropositos são bem vindos, quando encarnados em quem dê mais um

elogio na imprensa ou mais um voto nas côrtes.

Ha eleições. Combate-se com decencia, honra e lealdade, contra alguns

especuladores que farejam donde correm os ventos. Succube-se. No dia

seguinte, com a estatistica na mão, cortejam os socios da vespera a

existencia do facto brutal, e os adversarios, aínda que vencessem pelo

suborno e pela infamia, recebem um sorriso amavel, prologo e provocação

de allianças, ao passo que um gesto desdenhoso acolhe os amigos que

perpetraram o crime de não querer triumphar por identicos meios.

Ó moralidade!

Para obviar á fraqueza, recorre-se ainda á forte alimentação das

secretarias de estado. Atulham-se as pastas de recommendações. Cada

dignitario da ordem tem mesa posta na cella. O thesouro é copa e

cosinha. O despacho é mesa e talher.

Por fraqueza propria se larga o poder e por fraqueza dos outros se torna

a alcançar, para depois o tornar a perder.

Á fraqueza dos partidos; á falta de escólas politicas definidas, logicas

e racionaes; á carencia de esta móla indispensavel ao jogo regular das

instituições representativas, deve esta nação um originalissimo

espectaculo.

O sr. marquez de Avila e de Bolama, que diz que não tem partido, foi

ultimamente ministro em 1865, 1868 e 1870.

Que o fosse por ser, como é, zeloso e honrado administrador, não poderia

causar isso estranheza; mas tel-o sido, n'um paiz constitucional, talvez

especialmente pela condição de não ser no governo a representação

ministerial de um partido qualquer, é porventura a maior singularidade

do liberalismo contemporaneo.

Contae isto ao mais obscuro membro do parlamento inglez, e podeis estar

certos de que o vosso interlocutor se encurvará, dos pés até á cabeça,

na mais espantada interrogação que jámais tenha desaprumado a proverbial

rigidez britannica.

D'esse paradoxo tem resultado que as camaras eleitas sob a immediata

influencia d'esse distincto homem de estado não lhe tenham produzido

maiorias que o habilitem a governar, ficando depois sujeitas a deserções

vergonhosas ou a uma dissolução infallivel. Não se contraría impunemente

a indole do systema representativo.

V

Haja partidos sinceros e fortes, e haverá estabilidade nos governos,

condição em que não vivem as situações que se vão succedendo com pasmosa

rapidez.

Um ministerio entre nós é geralmente um castello de cartas.

Toma a criança um baralho. Dobra, ampara, ajusta e compõe. Começa a

desenvolver-se o vistoso edificio. Crescem os estrados; sobem as

galerias. O que, ha um instante, cabia no bolso, ameaça dar comsigo no

tecto. Mas venha um grão de arêa; uma carta mal disposta; um movimento

de impaciencia, ou mesmo um gesto de alegria trema no braço do joven

architecto, e o que era Alhambra rendada se converterá logo em naipes

dispersos no chão.

Outro tanto acontece com a politica da nossa terra.

Organisa-se um ministerio com todas as apparencias de força e de vida.

Parece que o leva ao poder uma onda de popularidade. Em torno ha só

ruinas. Tem maioria nas camaras e goza da confiança da corôa. Espera-se

que dure o tempo necessario para, ao menos, transpôr o mar de calmarias

que se chama--o estudo--e que é preliminar quasi obrigado n'estas

viagens, ainda mesmo para os pilotos mais experimentados e que uma

pratica de annos e annos devia já ter desviado de similhantes derrotas.

Mas de repente, sem que até muitas vezes se saiba como e porque, desmaia

o commandante, esmorece a tripulação, e pede-se ao cabo do rebocador a

salvação, que não se poude encontrar na paciencia perdida e na energia

esgotada.

Outras vezes, já voga o navio. De repente, tambem, cavam-se as ondas,

sem que um minuto antes sopre a menor brisa, e a marinhagem boqui-aberta

vê que o baixel aprôa ao recife, que, n'um relampago, o descose e

afunda.

E como póde haver manobra a tempo, se uma parte da tripulação descora

diante do perigo; outra, por bisonha, cambaleia de enjoada; esta, não

conhece da faina, e aquella, indifferente ou turbulenta, não quer ou não

sabe submetter-se a trabalho proveitoso, sendo poucos os marinheiros que

restam para que o barco possa resistir á tormenta?

* * * * *

As razões determinantes da instabilidade dos ministerios são de natureza

objectiva ou subjectiva, mas subordinadas sempre á falta de partidos e a

todas as consequencias que d'ella derivam.

São de natureza objectiva:

As vacillações do poder moderador diante de tumultos preparados adrede

na rua, e as quaes, embora nascidas de melindres de obtemperação ao que

se lhe figurou opinião publica, e embora ligadas na origem a um receio

de guerra civil ou de derramamento de sangue, tem comtudo influido

desfavoravelmente desde 1868 na marcha politica do paiz, deixando

quebrar maiorias que iam, ao lado dos governos, gerindo com alguma

regularidade os negócios do estado e occorrendo ás mais urgentes

necessidades financeiras, por meio de augmento nas receitas publicas;

vacillações que deixam pairar sempre uma tal ou qual incerteza sobre o

desenlace de qualquer conflicto que de novo se forje, e cerceiam a força

moral dos governos;

O estado geral do paiz, profundamente anarchisado pelos conselhos da

especulação, que o tem levado a pedir melhoramentos sobre melhoramentos,

incutindo-lhe ao mesmo tempo a falsa idéa de que os não deve pagar,

quando a especulação vê que os adversarios serão os que tem de cobrar o

augmento de receita, depois de legalmente votado;

A descrença que lavra com referencia aos homens que se succedem nos

bancos ministeriaes, descrença devida em grande parte ao trabalho

constante da imprensa em demolir reputações dentro de uma terra tão

pequena como a nossa, aonde o pessoal de gente habilitada para voltar,

ou subir, aos conselhos da corôa está em harmonia com a exiguidade de

população e territorio. Ao cabo de tres mezes de ministerio, ou de

simples desejo, ás vezes, de ser ministro, é raro o homem que já não

ande escalavrado no conceito popular e apontado como indigno de tão

nobres destinos, acabando a nação por acreditar, á força de lh'o

repetirem uns contra os outros, que Portugal anda entregue a quem o leva

á perdição com perfeito conhecimento de causa e por erro expresso de

vontade;

A vadiagem politica dos que percebendo que o governo estaciona na

carreira ascendente, e que não ha perigo de dissolução ou de qualquer

outro acto que os contrarie, começam a virar o thuribulo para os lados

do oriente; ou dos que trazendo já satisfeito qualquer empenho de costa

arriba, ou perdido a esperança de alcançar o que lhes anda pendente do

favor ministerial, se deitam a morder a mão que se abriu antes de tempo,

ou que não quer abrir-se em cornucopia de graças;

A ambição invejosa dos acolitos, que principiam a duvidar de que o

governo seja o melhor dos governos possiveis, desde que alguns d'elles

se acham preteridos para o posto de ministro de estado, quando já contam

dez ou vinte semanas de praça assente nas côrtes, e já pensaram n'um

discurso, que ainda não poderam pronunciar, por um conjuncto de

infelicidades inauditas, mas que de certo salvaria a patria se o tivesse

já humedecido o copo de agua da tribuna parlamentar; a ambição invejosa

dos especialistas... de todas as pastas.

São de natureza subjectiva:

A falta de firmeza para se resistir, em todas as estações do processo

politico, á pressão externa que difficulta os movimentos do ministerio,

que, como parte que é de um poder independente, segundo a carta, deve

ter plena liberdade de acção e de conselho dentro da esphera legal de

suas attribuições;

O pequeno valor da media politica ou pessoal dos conselheiros

responsaveis da corôa, entre os quaes por vezes uma minoria de

individualidades importantes é absorvida, aos olhos do paiz, na

obscuridade relativa de seus companheiros, que talvez escolhidos por

interesses de _coterie_, prejudicam, no sentir popular, quem tinha

melhores direitos a sentar-se nas cadeiras ministeriaes;

A falta de prestigio que resulta de se reunirem no governo individuos

que dias antes se olhavam de revez, e que (sem que o paiz tivesse

conhecimento da purificação anterior e reciproca dos delictos de que

mutuamente se accusavam, e em que talvez o povo não acreditava, mas em

que deviam acreditar elles, uma vez que os expunham) apparecem de chofre

tão intimamente ligados, que se diria que nunca a sombra de uma nuvem

passara entre esses obreiros da ultima hora;

Verdades amargas estudo politico dedicado às classes que pensam, que possuem e que trabalham · 第 1 / 5 段