A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os
dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e
fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era
dos estatutos o silencio obrigatorio.
D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa,
pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu,
receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á
filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o
genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra
o restituisse á liberdade.
Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o
cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?
Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.
Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas dilatar a prova
com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em
ludibrio por sentinas douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a
legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonçalo a negação do
consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do
sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade,
e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça,
porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado á
familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos
alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua integridade.
Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando
a piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das
manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a
legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que
inventára a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o
recurso de superiores instancias. Foram para a supplicação os feitos,
sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença
final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos
dos cabedaes:--desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.
Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á
final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na
supplicação e baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde
principiára. Assim se explica a premeditação de Maria das Dôres na
fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da Foz.
Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e
absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o
ataque de paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do
rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.
Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro,
velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu
palacete o berço da _civilisação dos costumes_, má civilisação, que é o
synonymo de _extrema liberdade_, a qual muito tarde será adulta no
Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr.
Joaquim de Sousa Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante
os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances
praticos de alta moralidade, os quaes é muito de esperar que eu venha a
dar em livro. Uma das scenas lá passadas, a mais simples de todas é a
seguinte:
Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo
na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se
incommodado do coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.
Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que
era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.
Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria.
No doutor era susto; e o susto não deshonra ninguem, mórmente
quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de
grandes barbas e possante estatura.
Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora
para o doutor.
--Quero ver minha mulher--disse Filippe.
--Parece-me que a lei se oppõe--disse o doutor--em quanto v. s.ª tiver
pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu casamento.
--Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe
digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.
--Então queira requerer a juiz competente.
--Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor
da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade
do recolhimento por minha mulher.
--Isso é impossivel, senhor!
--Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça
impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo,
affirmo-lhe que poucas cousas haverá tão faceis!...
Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O
doutor abriu a bocca e regougou:
--Oh!
Mas este _oh_ foi surdo como um rugido intestinal.
Filippe cruzou os braços, e disse:
--No que fica?
O provedor refez-se de animo, e respondeu:
--Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?
--O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos
novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de
maximas. Eu não posso demorar-me.
--E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?
--Veja esta certidão.
João Pedro leu attentamente, e disse:
--Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o
meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?
--Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa
filha.
--Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe
darei a resposta.
--Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes
consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem
de v. s.ª basta.
Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da
consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra
meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.
Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no
portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda,
e esperou impaciente a resposta.
Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a
filha, esperando-o. A esposa enfiou por entre as rêxas os braços,
que difficilmente passavam.
--Que mudada estás!--exclamou Filippe.--Que maceração de rosto, minha
pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!
Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza
cadaverica de sua mulher!
Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!
--Falta-me a filhinha!--dizia Filippe--Onde está o nosso anjo, ó Maria!
Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento
sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos
beneficios de Deus?
Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas,
defronte, e em roda do carcere da esposa.
A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de
Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa
o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da
filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao
ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o
portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de
sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas
depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador
do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da
primeira. Copiemos dos apontamentos o facto, presenceado pela
educanda a que os devo:
«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá
o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes
impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao
meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua
cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de
grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe
passava os pratos.[4]
«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras,
viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do
recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já
ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia;
despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante
de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma
droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei
que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já
estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e
um sorriso de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado
entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á
regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o
exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se
primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e
caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas;
até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos
compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não
vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao
lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do
seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta:
parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco
tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»
Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria
das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a
fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero,
cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.
Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:
«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se
demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que
precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a
menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou na
portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de
arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos
velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale
escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as
suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria
das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que
continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava
desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V.
s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A
regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das
Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora
abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao
terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale,
luzir o marfim do cabo de um punhal.
«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das
Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a
abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos
braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar
uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que
deixou caír o castiçal.
«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo
de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.
«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente ir
pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.
--Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.--Que dirá o
mundo?--Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a
passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso
um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era
namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as
portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a
regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a
velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera
corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o
provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»
A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois
creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e
saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da
sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a
encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se
rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho
de Villa do Conde.
D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido
recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica
vingança, e disse:
--A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu.
Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as
portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que
estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a
infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e
virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa,
aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.
Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:
--Maldita sejas tu!
--O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau
marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre
impenitente, homem tres vezes abominavel!
V
Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a
felicidade é grande a penuria de phrases: parece que as linguas são
pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!
Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com
receio de me perder em nevoentas chimeras; ou--di'-lo-hei com quanta
sinceridade posso--o descostume de a sentir estragou-me a palheta com
cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.
Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas
condolentes cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento.
Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára
filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em
terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram
algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraíam
saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquillo e
desassustado.
Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá
estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a
_Rosalinda_. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra
seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.
Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio
lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os
curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que
outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A
este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas
castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia
infeliz dos esposos.
Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de
Monção, disse o alcaide o seguinte:
--Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa
ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham
chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos
arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes
sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com
esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi
que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e
contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me
darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em
escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles
vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam que andavam em
cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que
tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta.
Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias
depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos.
Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se
averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois
presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta
de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este
episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas
apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim.
Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer,
aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados
por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da
affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela,
que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz;
porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria
ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e
a minha vigilancia mais apontada.
Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria
Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao
assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la,
e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor
de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e
seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França
ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a
partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e
velados pela guarda de tantos amigos.
Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria
Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia
um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e
corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos
de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar
ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.
As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente
na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair
de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus
paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os
accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira
contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia,
dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle
denominava _D. Francisco de Athayde_, exclamando: _Deixa-me, vingador,
deixa-me, que Beatriz já me perdoou!_ N'este estado, dizia a fidalga, o
successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo,
nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da
filha, e, sem contrariar, a affirmação da legitimidade do
casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á
esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como
disse, de a querer matar.
Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho
e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.
Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento,
escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:
--Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de
Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa
mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se
roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a
esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue
gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo
com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a
garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até
contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A
historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da
lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma,
se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos
immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás
fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente
sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção, d'onde eu
sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua
residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra
pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa
a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e
veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás
em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso.
Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição
aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para
Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu
entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só
então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.
Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal
podia era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em
retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em
Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa
que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da
França. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para lá que
a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle
annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos
quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a
traziam em permanente sobre-salto.
Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo ao alcaide, sem
esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe
causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas
vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas
no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas
estalagens da cidade.
Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas
metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte
primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e
as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de
Monção no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.
Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma
carta de Filippe Osorio:
«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha
dias com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder
casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da
terra, cujo avô foi creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo
pae pirateou na Africa, se não mentem as chronicas dos visinhos. Não me
parece que caiba odio em coração tão cheio de amor á bis-neta do oleiro.
Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde
é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existir
Ferro, veneno, vibora traidora
Cartas da mão de Machivello escriptas,
como diz o Tolentino no soneto.
«Precavém-te sempre, meu Filippe.»
Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as
cautelas, afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.
Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo,
jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se
na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.
No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a
approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha
para lançar-se fóra do leito.
Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão,
recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem
estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a
apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e
um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se
aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos
varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da
filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens
evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus
Christo perdoou a quem o matou.»
Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos
preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime,
comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se
salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera
soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os
seus conventos da esmola promettida pelo doente.
Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas
funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos
desditosos de Hespanha.
Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em
Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi
passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de
solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr as _Rosas-lindas_, o
florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das
florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e
aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a
sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam.
Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre
as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as
serras, quando Maria disse:--Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus
este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.
Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle
beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.
Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta
distancia.
Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde,
as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros
mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca
alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do
almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as
venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a
felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas
memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o
tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.
--Este sitio--disse Filippe--tem uma belleza terrivel. Eu gostei sempre
muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se
póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.
--Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo--disse ella vibrando
a chibata na anca de ambos os cavallos.
--Assustei-te com as minha apprehensões?--accudiu Filippe--Tolinha, vai
devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os rouxinoes como
cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças Deus.
Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...
Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de
arvores. Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.
Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo que se ergueu
de frente, espavorido pelo estrondo.
--Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois
passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo.
Extendeu-lhe ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como
derradeiro grito. Caíu fulminada a tempo que o cadaver de Filippe
resvalava aos braços do lacaio.
Oh! não vos dizia eu, leitores?
_Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas
negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da
leitora, que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia,
do mundo que sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do
estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de
lançar de mim com asco estes apontamentos._
E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:
«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.
O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de
passeio com sua mulher».
Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S.
Lazaro! outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e
papeis que se desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o
meu espirito até á catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.
A catastrophe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é
outra.