É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o
successo mais fielmente lhe dará as côres:
«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave
ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.
«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa
impraticavel o poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pela
_ministra_.
«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro,
se ajuntava no refeitorio.
«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou
torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e
do ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos
degraus do altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.
«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.
«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da
egreja, e saíram.
«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a
lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio,
e as portinholas da _ministra_ tambem abertas.
«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram
algumas pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.
«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto
d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.
«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo.
A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em
consistorio, para deliberarem.
«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as
outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás
ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral
terror.
«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[2] e
reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta
a porta do commungatorio.
«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro
dia, seriam onze horas...»
Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga,
vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as
menores.
Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não
sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era
egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de
pedregulho que descia da rua do Sol.
No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se
consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a
policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de
jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.
Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como
quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de
barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria
Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino
disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não
inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de
servir, e que ia para a Foz.
Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam
disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de
pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de
casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos
dois nocturnos.
--Vocemecês--disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos
das presas--hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que
levam.
Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a
prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a
calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.
Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de
espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e
inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma
d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.
Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle
passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu
marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama;
disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e,
em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.
Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu
uma carta de que foi portador o proprio funccionario.
Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era
permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.
Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá
se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento,
dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a
com agitado aspecto, e disse colerico:
--Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã. Eu me encarrego
de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.
Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria
Henriqueta um insulto de nervos.
--Foi entregar a carta ao algoz!--exclamava ella:--Agora é que eu vou
ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!
--Não tem remedio senão espera'-las--Disse friamente o aguazil-mór.
--Não tenho remedio?!--bradou Maria--Tenho o remedio que dá a
desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!
O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou
os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a
que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus
ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á
sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e
compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma
dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á
fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e
conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida
como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.
De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta,
recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem
ensaiada por esta. Quizera o guarda-portão impedir-lhe o accesso,
antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima,
chamando a fidalga a altas vozes.
Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo
Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou
assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.
Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu
capellão a encontrar-se com a filha.
A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os
nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel
funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a
cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O
principal artigo de accusação da fidalga era ter o _vil esbirro_
(amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae
a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a
fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados,
tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.
Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé,
pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com
ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.
D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de
raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões,
abraçou-se á filha, exclamando:
--De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice,
se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre
mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor
d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te
ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus
tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!
Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica
e vindicativa senhora.
Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:
«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por
seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.
«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora,
para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa,
e rodeadas de populaça!
«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar
asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á
primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.
«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a
não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com
duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um
postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.
«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um
leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida,
alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia
fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com
a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar
sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio
destinado a Rita de Cassia.
«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão
de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre
soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha
pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria, _para
exemplo das outras_, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim,
houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.
«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem
sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma
veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era
geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a
de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a
amiga por quem morria ou estava morta.
«Deu signaes de vida.
«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito
respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes
Pereira de Castilho.[3] Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas,
pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da
orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas
pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos,
os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se.
Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e
conseguiram-o.
«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor
cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção
alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos
soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»
Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e
humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje
possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os
costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador
lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são
os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma
prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em
desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de
educação social e religiosa para pensionistas, convém que se
descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que
a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais
dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de
prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram
na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas
de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no
auctor os dentes da calumnia.
D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello
da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de
sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças.
Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao
falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.
N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para
impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro
dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa
a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou
que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão
novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu
quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da
fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos
membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua ama,
uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro
se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella
quizesse visitar sua filha.
Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de
paralysia n'uma perna.