VI

O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de

Maria Henriqueta foi transportado em braços.

A viuva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao

levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.

Onde estava a alma d'aquella mulher, que não se assignalava nos sentidos

externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céo, ou voltaria ao

supplicio do corpo?

Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora

risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera

um marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na

sua vida, alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais

completamente feliz da sua vida!

Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braços das senhoras,

e exclamar:

--Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma só vez.

Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia

lhe não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadaver d'uma

mortalha, e dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias

ditosas do tumulo, piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o

ardor de vossos beijos e de vossos prantos!

Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ella

de per si se erguerá e clamará:

--Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle

derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixae-me e vereis

se eu era digna d'elle!

Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idéas

embaralhavam-se desconcertadas; mas eram idéas do passado, do presente e

do futuro. Pediu, instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem á

campa de seu marido.

--Deixem-n'a ir--disse o alcaide--e seja já. Vamos com ella. Quanto mais

cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltará a razão da infeliz.

Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe

indicaram. Debruçou-se até collar os labios na lagem. Disse uma palavra,

uma só, e nenhuma lagrima verteu.

Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.

--Mas não chorou!--disseram as consternadas senhoras.

--Ha de chorar--respondeu o pae.

N'essa mesma noite, disse Maria:

--Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.

As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:

--Mostrem-lh'a.

Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de

laivos de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:

--É minha: guarda'la-hei.

E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de

demencia.

--Mas não chora!--diziam as meninas, em segredo, a seu pae.

--Se não chora, morre.

No dia seguinte, chegou D. Maria das Dôres, chamada a Segovia por um

creado do alcaide, que partira horas depois do assassinio.

A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e

soluçar; ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora colericas; tudo viu

e ouviu impassivel.

--Iremos ámanhã--disse ella á mãe.

--Se pódes, vamos, minha filha!--respondeu Maria das Dôres, pensando que

o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.

Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:

--Até á eternidade!

Entrou n'uma liteira, com sua mãe.

Perguntou-lhe Maria das Dôres que levava ella enrolado debaixo do braço.

--É o sangue de meu marido--respondeu.

Tinha dito o alcaide a D. Maria:

--Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um

amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja

qual fôr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe

darei um espectaculo no caminho.

Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dôres ouviu ler as cartas,

concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.

--Eu já li essas cartas--disse Maria.--Sei tudo.

Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de

soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma

chan, e parou a liteira, embargado o caminho.

Maria via tudo indifferente.

Chegou o alcaide á portinhola da liteira, e disse:

--Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.

Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:

--Póde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues á minha

guarda. Maria olhava e parecia não compreender.

Os cavallarias ladearam a liteira e passaram ávante, dando o passo a

soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.

--Justiça de Hespanha!--disse o alcaide.--De joelhos, assassinos de

Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o ouro

do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes

infames; depressa, rapazes!

Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta;

o vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos

cadaveres passára com o fumo da polvora.

O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:

--É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.

E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:

--O resto... eu!

Os liteireiros afastaram com o pé os cadaveres do caminho, e o prestito

caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos

aturdidos pelo incidente.

Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.

Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou

por seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e

sacramentado. Entrou na camara, que já espirava o fetido tábido da

morte. Approximou-se do leito, ajoelhou, e disse:

--Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pae.

O velho fez um gesto de indignação.

Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.

--Em nome d'este sangue lhe peço perdão.

--Sangue!--exclamou o velho.

--Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos

encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era

innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.

Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o

sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e

balbuciou:

--Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...

E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a

face, pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim

instantes. Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e

os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços

do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:

--Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa

presença!

No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes

do palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas

de D. Maria das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á

meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel

creado de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram

no Porto.

D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a

filha respondia-lhe:

--Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das minhas

infernaes penas.

Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os

familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.

Maria Henriqueta saíu.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte

atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras

que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias

eram os mesmos; brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos

quando caíam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre

nuvens de pó, diziam: «Que extravagante mulher! É alguma fidalga, que

não sabe como hade consumir o vigor dos annos, espicaçados pela riqueza!»

Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e

paravam a comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas

estalagens, ou alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas

estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao

lacaio: «Que tem sua ama, que soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»

A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que

anoitecesse para entrar na cidade.

Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de

Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um

sr. conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia.

Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja.

Saíram os casados já recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a

noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrellas do

céo. E vae n'isto, quando o conde ia a dar a mão á noiva para entrar no

coche, um homem que eu não cheguei a ver, mas que me disseram que era já

avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, diz-lhe não sei que, e

enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o

repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram.

Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella

abriu a porta, e perguntou:

--E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

--Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!

--Prenderam-no?

--Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz

ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á

beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a

menina; outros contavam lá a cousa como queriam; o caso é que ao

certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que pelas perguntas se ha de

saber.

Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro

palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar,

soube que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem

curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a

perguntas em casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e

conseguiu entrar até ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao

gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o

seu amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca

para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em

gesto de silencio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do

gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a

causa por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para

morrer, vingado o amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa,

alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com

o preso, que era seu irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O

preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a chorar aos pés, e disse:

--Perdôe-me v. ex.ª...

Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a

voz, disse:

--Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?

--Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a

minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era

espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o

maldito saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé

d'elle, e disse-lhe: «Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a

facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem

quando tiverem occasião, que eu cá fiz trinta annos á justa ha mais de

vinte. Não podia empregar melhor a vida!

--Não has-de ser enforcado, João--disse Maria.

Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.

--Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha

ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e

deixe-me cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e

mais ella, assim me Deus salve a minha alma.

--Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais vezes.

Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já

tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim

o periodo final:

«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria para o resgate

de sua filha. É a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam

mil cruzados: dê-m'as, que eu não quero mais nada da herança de meus

paes, senão uma mortalha, e um tumulo para os ossos de meu marido e para

os meus.»

Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com

o carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que

o sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural

de senhora, e disse-lhe:

--Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil

cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com

o preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de

Portugal. Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher

que lhe dá, passados alguns dias, quinze mil cruzados.

O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:

--Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.

--Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. Aceite

a independencia onde a quizer gosar. Que responde?

--Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...

--Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que dará

a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a

quizerem.

O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava

Maria a resposta de sua mãe com anciedade. Ao fim de sete dias

chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente

ao valor das joias.

O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.

--Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não

serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta.

Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.

--Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira--disse o carcereiro.

Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro,

dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso

matador do conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o

destino do infeliz.

Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do

carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das

sentinellas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o

creado entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o

vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu

basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo

beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as de lagrimas, e partiram.

--Não tenho mais que fazer aqui--disse Maria Henriqueta.

E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a

flamma da vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No

caminho, succumbira muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua mãe, e disse:

--Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe

attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.

--O creado fiel--dizia ella á mãe--não me deixou cumprir a promessa que

fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-HEI, disse eu; mas eram

tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue do algoz!

Agora, Deus que me julgue!

Estrellas Funestas · 第 32 / 36 题