II

Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a

grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros

havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para

amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais

contrictas, por isso mesmo, das suas!

Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um

congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e

forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela

violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As

pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos

phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli

entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se

iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a

convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de

condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento,

que maldisse a sua cedencia á vontade da mãe, e aos conselhos do

esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro

deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto

se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia

romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o

mandado do deposito.

Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta

ganhasse profunda aversão á regente.

Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as

horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as

cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe

Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo

unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a

desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de

naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a

redempção.

Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita

de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a

lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma

epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram

affrontados ao dever!

O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de

sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e

para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle

falasse a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.

Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias,

se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados

mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!

Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta,

adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas.

Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o

receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços

d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração,

que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos

braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe

correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem

paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se

enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia

leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e

outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido

morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr

maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a

consternação do esposo.

Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das

palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima

vez que via a nossa filha.»

Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no

recolhimento[1], dizem singelamente:

«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha.

Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas

choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove

annos.--Falta-me um pedaço de minha alma!--gritava a pobre mãe. Que

formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso.

Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos

de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da

filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e

dissera:--Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»

Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia

esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado--dizia

elle--a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de

a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer

levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um

ao outro.»

E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava

sepultada! Qual outro coração se abriria a recolher-lhe as

lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar

sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!

E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu

ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As

blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo

trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a

separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos

da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das

impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e

jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se

ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»

Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas

horas a infausta nova.

Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.

Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa

cedeu ao primeiro accesso de febre.

Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella

directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava

perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de

Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no

quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa

noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma

vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia

possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de

junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando

na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á

sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle

por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade

que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha

cincoenta annos!

Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria

Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em

punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido,

que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou

animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da

casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas

que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se

legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.

A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de

sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora

repellindo-as ambas desabridamente.

Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou,

delirou em corridas de uma a outra extrema da casa. Na seguinte

madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa

da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta,

com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com

palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que

ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe

tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa

estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original

n'aquella casa de humillimas victimas.

Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que

lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os

na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de

Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:

--Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.

A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se

confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:

--Por onde fugiremos nós, minha senhora?!

--Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?

--Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir

d'estas paredes, que nem janellas teem.

Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta por

extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava

normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava

n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo

com ella.

Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a

intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga

prevaleceu ás melhoradas novas.

De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que

queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a

licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto

bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os

olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a

observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a _ministra_, por

onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo

sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e

recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha

alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre

mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria

respondia sempre vencedora.

Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o

corpo de Maria Henriqueta.

Estrellas Funestas · 第 29 / 36 题