Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a
grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros
havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para
amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais
contrictas, por isso mesmo, das suas!
Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um
congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e
forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela
violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As
pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos
phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli
entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se
iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a
convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de
condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento,
que maldisse a sua cedencia á vontade da mãe, e aos conselhos do
esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro
deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto
se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia
romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o
mandado do deposito.
Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta
ganhasse profunda aversão á regente.
Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as
horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as
cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe
Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo
unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a
desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de
naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a
redempção.
Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita
de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a
lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma
epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram
affrontados ao dever!
O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de
sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e
para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle
falasse a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.
Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias,
se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados
mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!
Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta,
adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas.
Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o
receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços
d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração,
que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos
braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe
correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem
paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se
enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia
leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e
outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido
morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr
maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a
consternação do esposo.
Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das
palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima
vez que via a nossa filha.»
Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no
recolhimento[1], dizem singelamente:
«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha.
Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas
choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove
annos.--Falta-me um pedaço de minha alma!--gritava a pobre mãe. Que
formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso.
Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos
de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da
filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e
dissera:--Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»
Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia
esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado--dizia
elle--a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de
a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer
levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um
ao outro.»
E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava
sepultada! Qual outro coração se abriria a recolher-lhe as
lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar
sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!
E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu
ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As
blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo
trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a
separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos
da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das
impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e
jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se
ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»
Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas
horas a infausta nova.
Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.
Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa
cedeu ao primeiro accesso de febre.
Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella
directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava
perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de
Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no
quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa
noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma
vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia
possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de
junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando
na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á
sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle
por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade
que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha
cincoenta annos!
Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria
Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em
punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido,
que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou
animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da
casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas
que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se
legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.
A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de
sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora
repellindo-as ambas desabridamente.
Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou,
delirou em corridas de uma a outra extrema da casa. Na seguinte
madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa
da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta,
com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com
palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que
ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe
tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa
estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original
n'aquella casa de humillimas victimas.
Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que
lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os
na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de
Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:
--Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.
A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se
confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:
--Por onde fugiremos nós, minha senhora?!
--Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?
--Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir
d'estas paredes, que nem janellas teem.
Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta por
extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava
normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava
n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo
com ella.
Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a
intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga
prevaleceu ás melhoradas novas.
De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que
queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a
licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto
bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os
olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a
observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a _ministra_, por
onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo
sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e
recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha
alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre
mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria
respondia sempre vencedora.
Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o
corpo de Maria Henriqueta.