--Temos historia....
Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e
prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu
licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais
roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.
--Quero que te admirem!--dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias,
e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de
scintillantes colares.
Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta
assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se
adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o
espasmo collára aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a
quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre
todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o
braço direito afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração,
que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos,
inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do
canapé. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de
golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céo e os mancebos
relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao
hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o
fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de
acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira
baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia
rebentar pelas costuras repuxadas.
--Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,--disse o conde gaguejando.
--Sim?--respondeu Maria--muito estimo que não tivesse incommodo.
--E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de jornada...
--A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma
pessoa que não conhecia.
--Ora se conhecia!
--A mim? Pensei que nunca me vira...
--Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.
Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se
dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.
--O meu retrato!--redarguiu Maria--Não cuidei que lhe fosse conhecido...
--Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu
excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o
objecto amado de que me deu a copia.
Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante
de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como
vestigio, uma visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas
que durou seu supplicio.
Da sala passaram á casa da ceia.
Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o
colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella,
protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite.
Estavam os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras
viessem tomar logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua
filha, além de estar habituada a não cear, sentia um leve incommodo que
a privava de vir á mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos
respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.
Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:
--Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?
O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros
tão dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais
sonetos que os de Petrarcha. Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo
Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguçou o appetite! Os
brindes eram todos em honra d'elle, e elle agradecia humedecendo os
labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá o que póde na muda
eloquencia do coração.
E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o
padre capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem
mentalmente da gulodice de alguns commensaes.
Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas
exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu
uma de suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama
de Gaya, S. Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse
um retalho das bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da
janella, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa
presença, e logo reconheceu n'elle o companheiro de meia jornada.
Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o
vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na má
conjunctura de ser conhecido.
Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as
saudações do estylo, disse:
--Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!
--Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?
--Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli por outra rua, e
não me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a
mim o homem ia para o quartel!
--Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...--disse Gonçalo com meditativa
anciedade.
--Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de
pensativo!
--Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada significam.
--Vamos a falar--tornou o conde--a respeito do casamento. Pela minha
parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer que
eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa.
Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la
toda a minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é
saber se ella gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito
agradaveis olhos, e que estava contente ao pé de mim. Depois lá me
affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um
talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar n'ella!
Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a
quem deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira
paixão era Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como
as irrupções das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde
que a vira, perdeu a consciencia de seus meritos, o que elle denominava
o seu besouro diabolico para fascinar mulheres. O suspirar á ceia,
e o velar no leito era a duvida, a excruciante duvida, unico besouro
infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, semelhante ao
ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção, edade
critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a
vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as
particulas corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam
rios de lagrimas, e ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças,
e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um
cadaver moral. E as compleições sem o sexto sentido do ideal,
desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, são por igual
sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e engolfa nos
tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com a
estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os
grandes incendios: e os poetas--bem hajam elles!--tão aporfiados andam
em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O
conde de Monsão é que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe
apertavam no seio os pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe
arregaçaram as palpebras veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para
flagela'-lo, o dialogo com o militar; e vieram apprehensões, e os
retraços dos menores gestos do companheiro, e a significação mysteriosa
de palavras, então ouvidas desattentamente. Estas combinações cresceram
de ponto, quando viu no rosto de Gonçalo signaes de assustadora
suspeita, com referencia á apparição do militar. Recolhido em si,
engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete
das peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu
rival, fosse elle quem fosse.
Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.