Gonçalo disse a Maria das Dôres:
--Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de
Mirandella.
--Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.
--Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta.
Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.
--Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?
--Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o
conde.
--Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos
aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.
--Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.
--Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.
--Mas a minha palavra está dada.
--Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua
palavra. Eu falarei com elle.
--É melhor que fales com tua filha, e a convenças.
--Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha
iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu
tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente!
Faz vontade de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa
de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos
assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!
--Tenho entendido...--disse Gonçalo com resignada
amargura--Estragaste-me Maria Henriqueta!
--Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os
frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses
um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer,
entendes que está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a
menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos
de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês titulos... N'uma
palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.
--Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua
filha.
--Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante
marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te
assim livre de ambas: e depois vae para as grades entreter-te com
as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma
cella onde não chegam figurões da laia do teu conde.
E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.
Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo
por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é
um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para
mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o
comprimento D. Maria das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito
penhorada das attenções do illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir
estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio
de defuntos.
Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando
com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que
por um cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma
carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de
melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á
mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietações do espirito eram
muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria
deixação das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente
compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de
um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda
estima de irmão. D'aqui saltou, pouco methodico, para os gabos
enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura
d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com
que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia
odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e
moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na
sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as delicias da côrte,
para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no paço as
brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa
considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e
gloria de educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.
Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas
lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a
alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a
maniatara ao seu destino.
--Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te?
Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?
Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:
--Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido
desde hontem a morte!...
--Basta;--disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de
entrar no mosteiro de Arouca?
--Entrarei, meu pae.
--E que has de lá estar emquanto eu for vivo?
--Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.
--Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu
poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o
rosto de um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não
coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma
série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por
não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro.
Toda a minha prudencia será necessaria para o não mandar chibatar pelos
meus creados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco
a tua dignidade, que é a minha.
E, baixando a voz, continuou com resguardo:
--Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que
estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo,
e fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim
para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua
felicidade.
Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando
com o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua
mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com
acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:
--São cousas muito melindrosas, sr. conde--Dizia D. Maria das Dôres
respondendo ao titular.--O amor não vem depois, se não tem já vindo
antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os
experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do
tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a
minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as
impaciencias do genio, as irritações que são o fel de quem o dá aos
outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar
com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não
houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar,
ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros
infortunios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui
casada á força, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque
não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e
torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes não
obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser util a alguem, penso eu, sr.
conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja util a minha filha, e
a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. O conde de
Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e
nobilissima.
Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:
--Não póde ser.
--Não póde ser o quê?!--redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.
--Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é
que ella case comigo.
Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se
ella de um salto e exclamou:
--Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta
faça a sua vontade.
--V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!--atalhou o conde com um
comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.--Ora queira
sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.
--Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou
mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.
Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um
corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O
homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o
que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde
que o hospede ficou sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de
rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração d'elle, na
analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.
Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande
amargura.
--Pelo que vejo--disse o conde--sua senhora oppõe-se ao casamento! V.
ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...
--Minha prima--respondeu urbanamente o fidalgo--verdadeiramente não
se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria
Henriqueta para o casamento, e...
--Então é a menina que me rejeita?
--Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.
--E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para
isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da
nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.
--Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez--tornou Gonçalo,
ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com
que decidira do destino da filha--Pensei que Maria Henriqueta via o
mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de
pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella.
Minha filha vae entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso
unicamente dar a v. ex.ª.
--Deixe-se d'isso!--atalhou o conde--Nada de mosteiros! Se a duvida do
casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudará
de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o
coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á
noite, como ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua
filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.
--Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu dou ordem a minha
filha para ir á sala. Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.
Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa
ao encontro, e disse-lhe:
--És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e
desembaraço!
--Que queres dizer n'isso?
--Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que
vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não
lhe dissesse já?
--Que o despersuada ella mesma.
--Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir
despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...
Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si
proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os
expedientes.
Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:
--Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que vá,
e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta
irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.
Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar
sem testemunhas.
Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O
conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do
tremó dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o
afogueamento de uma colera expansiva no rosto.
Sentou-se, e esperou que falasse o conde.
--Está melhor, minha querida senhora?--disse elle titubiando.
--Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.
--Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de
hontem á noite.
--Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a prova
de estima.
--E de amor apaixonado, minha senhora.
--Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso
retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em
satisfação á vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de
um modo, quando me é de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae
deve merecer a benevolencia do sr. conde pelos esforços que empregou em
convencer-me a ser esposa de v. ex.ª. Resisti, por que não posso. A
dignidade de meu pae está salva; e eu salva me considero da
responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por condescendencia
com a vontade de meu pae.
--Ahi ha outra cousa, minha senhora...--atalhou o fidalgo.
--Que póde haver?
--V. ex.ª ama outro homem.
--Amo.
--Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que eu?
--É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as qualidades, que o
meu coração não discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que
amarei até á morte.
--Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle não
seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.
--Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.
--Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...
--Com que fim?
--Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...
--Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.
--Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida... É
um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...
--É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres.
Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não
o pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr.
conde, são cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento
que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre
n'outra esposa a fortuna que eu de certo não posso dar-lhe.
Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu
magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições
ainda se vislumbram nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a
vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos
antigos tempos.
Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está
pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina
mandada a uma sala entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de
ser d'elle, ou não ia lá, ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada
n'um insulto flatulento.
V
N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos,
mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente
de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya,
e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os
aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar:
tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por
elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto,
augmentava o da aversão á mãe e á filha.
Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de
vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com
prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os
agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.
Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os
amores desditosos só acareiam dó para as victimas resignadas. Umas
ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são
para incutir malquerença que pena.
O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para
mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:
--Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde
isto pára!...
Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no
Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso
impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto.
Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e
seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.
Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu
primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na
pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e
chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a
ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem
esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao
apuro da desesperação!
Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os
Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera
do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a
geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado, e Gonçalo
um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria
saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que
humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante
causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo
de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.
Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir
temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao
convento de Arouca.
Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de
mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os
tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que
elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou
d'este theor:
--Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos _amigos e
parentes_, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo
á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para
onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo
d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será
mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso
occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê?
perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a
mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal
desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não
precipites uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar
não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas
as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram
votos de lá estar, querem sair.
A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si
mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a
mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu
quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.
O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem
assoalhar o seu desdouro.
Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de
cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta
averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no
Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de
Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas
desnecessarias.
Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em
attitude de entrar no pateo.
--O sr. conde!--disse Filippe com amigo sorriso.
--É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho
contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.
Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do
conde, porque não acha outro, que valha a nota.
--O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez
favor de me contar ha dias?
--Pois então!
--Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.
--Não subo.
--Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a
minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como
ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando
até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.
O conde encarou-o com arremesso e disse:
--O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um
amante da filha de Gonçalo Malafaya, _que ou eu ou elle_?
--Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte,
dita por v. ex.ª.
--Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!
--Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a
zombaria!
--O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o
disse ella.
--Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.
--Adiante o que?
--Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.
A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua
Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós
ha-de morrer.
--E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª
tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em
quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se
fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto.
V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu
sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são
do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu
regimento. Está satisfeito?
--Os seus fóros?
--Os meus fóros de fidalgo, pergunta?
--Sim.
--Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?
--Não me meço com peões.
--Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de
gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a
immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que
denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é
minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.
--Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...
--Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade, os fóros da
sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir
contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta.
Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto,
vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre
si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas
de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos
seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder
com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos
pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens
de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe
pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no
meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o
sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos
orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de
uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para
desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo
desaire lhe falta! Até á vista!
O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos
arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde
era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada
palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu
derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava as arterias. Tinha
razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os
labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde
ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de
um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra
elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes
de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua
consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não
é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua
justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos,
que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando
fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o
conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local
em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como
a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho
murmurando por entre os dentes cerrados:
--Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!