VI

Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro

andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma

sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito

silencio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em

transporte de jubilo, aos braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira

como de frio, e mudou de côres até permanecer n'um amarello de greda,

que era a sua usual expressão de extremo phrenesi.

--Que vem a ser isto?--disse Gonçalo serenamente.

A directora respondeu:

--Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a

menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me

não prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me

opporia, ainda mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se

contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que

fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex.ª dizendo que ia buscar

uma ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui

vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada.

Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.

--Tenho resolvido--disse Gonçalo.--Minha filha continúa a estar aqui. A

prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de juizo.

Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria

Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens

regias.

--Visto isto, eu nada valho?--disse Maria das Dôres em tom

commovente.--Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas,

a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é

verdade? Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz.

Primo Gonçalo, folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar

nem sequer a imagem de minha filha. É forçoso que eu viva em odio de

todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faça-se a vontade de

Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: ha de custar-me

muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo que é mau e infame se

consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem

para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a minha memoria,

quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse

misericordia das dores que lhe causa.

Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a

mão, commovida. Apertou-a ao ceio com insolito estremecimento a mãe,

e teve-a assim, até que as lagrimas saíram aos olhos de ambas.

Quebraram-se os animos das senhoras hostis a Maria das Dôres. Movia o

trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o só titulo de mãe quer-se

respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo d'elle foi delido

com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o coração.

Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a

creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em

abominações, que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa

hediondez da materia, desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste

é então o dizer-se «aquella mulher é mãe! Aquella innocente menina foi

levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquell'outra mulher,

que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando

lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa já lhe fortaleceste as

unhas frageis, quão mais benigna tu és!...

Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido

do pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe

compadecimento para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão.

Tirava por elle com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando

á beira da mãe a esposa consternada, com mansas palavras, com perdões e

amor.

Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento,

mas resoluto. Compreendeu-o Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a

mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa a scena, menos de suspiros e

soluços, que durez de alma seria se os circumstantes não se enternecessem.

--Prima Maria das Dôres--disse Gonçalo--seja este anjo que nos

reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu

amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós

pódes gosar?

Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.

Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria.

Aos olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A

reconciliação rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na

dignidade de sua mulher.

Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha,

e estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa,

resolveu residir na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido

da Persini, que, áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de

um amante, cujos traços physionomicos, a custo, distinguia das feições

dos successores. Chamava-lhe tragica a opinião publica; e a pobre

Persini não era senão a comedia humana real e pessoalissima.

Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição

benigna voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em

passeio ás suas inflammadas cavernas a pedir conselho ao chefe das

legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas varas dos cevados da

Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das familias.

Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca

monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto

seu natural lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas

em educação. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diversão de

cuidados. O grande mal da sua condição estava no scismar sósinha, e

devanear por desconfianças e zelos, quasi nunca injustos, diga-se a

verdade secca e breve.

Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes,

estava melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu

em Odivellas. Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão

sensivel, e a causa efficiente dos seus maiores desgostos domesticos.

Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angustias, se

fosse mais fiel marido, e menos insoffrido nos acommettimentos da ciosa

esposa.

Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil

taboa da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance

especial, que eu vou dar pela summa.

Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os

galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O

fidalgo ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o

portuense; lembrou-se, porém, d'este galhardo despique, a tempo que

Malafaya vinha em jornada para o Porto.

Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou

em merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um

coração alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.

Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e

por ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio;

mas, em geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita

importunamente, são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento

dos logrados, e se lastimam do assedio que soffrem.

A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o

repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!--attrahi'-lo a

confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de

professar, se Gonçalo não voltasse.

E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma

hora designára.

Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya,

Beatriz entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.

Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas

vezes resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos,

e quasi extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou

á patria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando sempre

a chaga de saudade como quem não queria morrer de outra.

Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as

freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de

Beatriz dos Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da

concentração, quer de velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o

encarregava de vinga'-la. N'este presupposto, saíu á luz do dia o

encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residencia

do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do

inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da edade

média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799

era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!

Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D.

Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de

barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.

--Francisco de Athayde, justamente--replicou o vingador ás delicadas

duvidas do portuense.--Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778

vinte e tres annos.

--Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade--redarguiu Gonçalo.

--Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.

--Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto v. ex.ª me não

disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.

--Matou Beatriz dos Anjos.

Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle

homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de

uma arvore de Cintra.

--O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a

mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonçalo balbuciou:

--Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a

escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como

conforto a desgraçadas, o exemplo que ella dera.

--Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido

por expiação d'aquella morte?

--Muito, sr. D. Francisco de Athayde.

--Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da

mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava

paixões que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si,

para sua esposa, para sua filha, para as glorias do tempo e para uma

velhice agradavel e tranquilla.

--Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e

se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer

extranha a intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos,

saber a sua missão?

--Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte.

Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação

das suas armas, e um braço, que póde com ellas.

--Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?

--Sim, senhor.

--É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.

--Medito-a ha vinte e dois annos.

--E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma de

Beatriz dos Anjos?

--É.

--V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos perdoou-me.

--Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.

--Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o

seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso

duello serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou

indigno d'ella?

--Mostrará o que fôr de sua vontade.

--Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe

enviar os meus juizes e testemunhas.

--Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a

arma de sua escolha.

--Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do

seu juizo.

--Ultraja-me?--bradou o Athayde em tremuras.

--Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a

occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade.

Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na

causa do desafio, e nas condições propostas.

--Em summa, não quer bater-se.

--Entenda-o assim, se lhe apraz.

--E sabe que desforra me fica?

--A do insulto publico.

--Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

--Quando v. ex.ª queira.

Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo

Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso

publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha

certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu

florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os

inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no

ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado

de povo, que se acotovellava para escutar as razões da extranha briga de

dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, ás

reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com

inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura

passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o

braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.

Este successo turvou profundamente a paz que o pae de Maria

Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as

caricias da filha.

Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos

coevos dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde

á enfermaria dos loucos.

Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias

depois. Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma

victima para a sepultura de Beatriz de Noronha.

Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do

lastimavel cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia

rehabilitadora das razões degeneradas estava no hospital de S. José,

onde foi recolhido D. Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o

jazigo de seus maiores.

Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá

Deus que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes

arcanos que os sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam

descortinar! Permittisse o grande do céo e da terra que alguma vez a

poesia d'este baixo lodo se elevasse á verdade eterna pelo raio da

inspiração de cima!

Estrellas Funestas · 第 16 / 36 题