Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro
andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma
sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito
silencio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em
transporte de jubilo, aos braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira
como de frio, e mudou de côres até permanecer n'um amarello de greda,
que era a sua usual expressão de extremo phrenesi.
--Que vem a ser isto?--disse Gonçalo serenamente.
A directora respondeu:
--Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a
menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me
não prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me
opporia, ainda mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se
contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que
fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex.ª dizendo que ia buscar
uma ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui
vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada.
Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.
--Tenho resolvido--disse Gonçalo.--Minha filha continúa a estar aqui. A
prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de juizo.
Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria
Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens
regias.
--Visto isto, eu nada valho?--disse Maria das Dôres em tom
commovente.--Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas,
a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é
verdade? Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz.
Primo Gonçalo, folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar
nem sequer a imagem de minha filha. É forçoso que eu viva em odio de
todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faça-se a vontade de
Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: ha de custar-me
muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo que é mau e infame se
consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem
para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a minha memoria,
quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse
misericordia das dores que lhe causa.
Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a
mão, commovida. Apertou-a ao ceio com insolito estremecimento a mãe,
e teve-a assim, até que as lagrimas saíram aos olhos de ambas.
Quebraram-se os animos das senhoras hostis a Maria das Dôres. Movia o
trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o só titulo de mãe quer-se
respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo d'elle foi delido
com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o coração.
Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a
creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em
abominações, que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa
hediondez da materia, desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste
é então o dizer-se «aquella mulher é mãe! Aquella innocente menina foi
levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquell'outra mulher,
que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando
lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa já lhe fortaleceste as
unhas frageis, quão mais benigna tu és!...
Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido
do pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe
compadecimento para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão.
Tirava por elle com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando
á beira da mãe a esposa consternada, com mansas palavras, com perdões e
amor.
Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento,
mas resoluto. Compreendeu-o Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a
mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa a scena, menos de suspiros e
soluços, que durez de alma seria se os circumstantes não se enternecessem.
--Prima Maria das Dôres--disse Gonçalo--seja este anjo que nos
reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu
amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós
pódes gosar?
Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.
Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria.
Aos olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A
reconciliação rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na
dignidade de sua mulher.
Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha,
e estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa,
resolveu residir na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido
da Persini, que, áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de
um amante, cujos traços physionomicos, a custo, distinguia das feições
dos successores. Chamava-lhe tragica a opinião publica; e a pobre
Persini não era senão a comedia humana real e pessoalissima.
Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição
benigna voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em
passeio ás suas inflammadas cavernas a pedir conselho ao chefe das
legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas varas dos cevados da
Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das familias.
Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca
monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto
seu natural lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas
em educação. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diversão de
cuidados. O grande mal da sua condição estava no scismar sósinha, e
devanear por desconfianças e zelos, quasi nunca injustos, diga-se a
verdade secca e breve.
Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes,
estava melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu
em Odivellas. Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão
sensivel, e a causa efficiente dos seus maiores desgostos domesticos.
Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angustias, se
fosse mais fiel marido, e menos insoffrido nos acommettimentos da ciosa
esposa.
Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil
taboa da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance
especial, que eu vou dar pela summa.
Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os
galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O
fidalgo ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o
portuense; lembrou-se, porém, d'este galhardo despique, a tempo que
Malafaya vinha em jornada para o Porto.
Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou
em merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um
coração alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.
Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e
por ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio;
mas, em geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita
importunamente, são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento
dos logrados, e se lastimam do assedio que soffrem.
A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o
repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!--attrahi'-lo a
confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de
professar, se Gonçalo não voltasse.
E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma
hora designára.
Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya,
Beatriz entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.
Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas
vezes resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos,
e quasi extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou
á patria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando sempre
a chaga de saudade como quem não queria morrer de outra.
Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as
freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de
Beatriz dos Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da
concentração, quer de velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o
encarregava de vinga'-la. N'este presupposto, saíu á luz do dia o
encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residencia
do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do
inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da edade
média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799
era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!
Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D.
Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de
barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.
--Francisco de Athayde, justamente--replicou o vingador ás delicadas
duvidas do portuense.--Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778
vinte e tres annos.
--Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade--redarguiu Gonçalo.
--Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.
--Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto v. ex.ª me não
disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.
--Matou Beatriz dos Anjos.
Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle
homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de
uma arvore de Cintra.
--O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a
mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?
Gonçalo balbuciou:
--Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a
escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como
conforto a desgraçadas, o exemplo que ella dera.
--Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido
por expiação d'aquella morte?
--Muito, sr. D. Francisco de Athayde.
--Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da
mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava
paixões que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si,
para sua esposa, para sua filha, para as glorias do tempo e para uma
velhice agradavel e tranquilla.
--Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e
se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer
extranha a intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos,
saber a sua missão?
--Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte.
Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação
das suas armas, e um braço, que póde com ellas.
--Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?
--Sim, senhor.
--É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.
--Medito-a ha vinte e dois annos.
--E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma de
Beatriz dos Anjos?
--É.
--V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos perdoou-me.
--Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.
--Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o
seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso
duello serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou
indigno d'ella?
--Mostrará o que fôr de sua vontade.
--Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe
enviar os meus juizes e testemunhas.
--Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a
arma de sua escolha.
--Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do
seu juizo.
--Ultraja-me?--bradou o Athayde em tremuras.
--Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a
occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade.
Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na
causa do desafio, e nas condições propostas.
--Em summa, não quer bater-se.
--Entenda-o assim, se lhe apraz.
--E sabe que desforra me fica?
--A do insulto publico.
--Estamos entendidos. Ver-nos-emos.
--Quando v. ex.ª queira.
Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo
Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso
publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha
certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu
florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os
inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no
ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado
de povo, que se acotovellava para escutar as razões da extranha briga de
dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, ás
reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com
inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura
passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o
braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.
Este successo turvou profundamente a paz que o pae de Maria
Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as
caricias da filha.
Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos
coevos dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde
á enfermaria dos loucos.
Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias
depois. Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma
victima para a sepultura de Beatriz de Noronha.
Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do
lastimavel cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia
rehabilitadora das razões degeneradas estava no hospital de S. José,
onde foi recolhido D. Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o
jazigo de seus maiores.
Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá
Deus que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes
arcanos que os sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam
descortinar! Permittisse o grande do céo e da terra que alguma vez a
poesia d'este baixo lodo se elevasse á verdade eterna pelo raio da
inspiração de cima!