VII

Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,--a

quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do

amante ditoso de D. Beatriz--saíu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua

mulher, com destino ao Porto.

Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara

prenda na educação das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre

dá'-la prompta no prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da

discipula. Maria das Dôres combateu a cedencia do marido, allegando a

inutilidade de falar francez n'uma terra onde ninguem sabia semelhante

lingua. Gonçalo, porém, que se prezava de a saber, contradictou a esposa

com victoriosas razões.

São pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno

seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital.

Velleidades de coração, antigo pomo de discordia, essas não voltaram

mais. Da triste sombra do amargurado homem, até os convidativos

prazeres do vicio iam fugindo. Os abysmos só se cavam aos pés de quem os

anda palpando. Amores de alta sociedade, amores de capricho, apavoram-se

das cans, e querem pugnar com robustos corações, e atrevidos

emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo. Ora, Gonçalo era

a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que vencia os

rivaes com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquelle homem

extenuado passar abstraído hombro a hombro das suas glorias de outro

tempo, e não as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia;

segue-o a indifferença, e bem póde ser que a derradeira phase seja a

irrisão. Esqueceu, pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre

dos mancebos, o «perfeito-fidalgo», epitheto antonomastico, e geralmente

aceite, que lhe deram as fidalgas edosas, que tinham visto a côrte de D.

João V.

Fechára-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr.ª D.

Maria das Dôres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante

apathia do marido os supprimira temporariamente.

Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O

guardião dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a

erudição do padre Theodoro de Almeida ficára largo tempo disseminada nos

espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das

freiras e dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e

armazenava pharmacopêa religiosa para, no inverno da vida, se medicar

em enfermidades geradas nos desvarios da primavera. Com freiras era

menos assiduo, mas muito estimado e desejado. Denominavam-n'o as

mysticas benedictinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o milagre a

mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo abrange

mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros

d'aquella época.

N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas

filhas ao começo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes á grade

cumprimentar o fidalgo do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do céo

e da terra, ditas com tanta unção e graça que nenhuma noviça ou freira

nova as ouviu, que se não sentisse mais conformada com a religião. E,

tanto era assim, que já soltava a intriga suas rasteiras serpes por

entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se o fidalgo chamava

umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com extranhos

inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos dentro

dos limites da candura monastica.

Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou

enfeitadas por mãos de anjos.

D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa

em bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas,

com a repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de

entrar no convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras

bentas, bafejou-lhe o seu demonio meridiano, e ahi começou ella a

averiguar quem fosse a freira perturbadora da sua paz. Deram em

resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as

religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á

gottosa abbadessa.

Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela

communidade benedictina.

--Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em

freiratico?--perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.

--Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas

e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe;

agora que somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na

ante-camara da sepultura.

--E só procuras as velhas, primo?

--Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de

amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.

--Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?

--Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes

creaturas.

--Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...

E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de

senhoras que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o

catalogo não breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera,

que feriu desagradavelmente o tympano do marido.

Ergueu-se Gonçalo e saíu murmurando:--_Amplius, amplius, domine!_ que em

linguagem quer dizer: _Ainda mais, ainda mais, Senhor!_ como quem dizia

que viesse do céo mais fel para o seu calix, pequeno para tamanhas culpas.

N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos,

politico de vasto alcance, e propheta da proxima invasão franceza. Tinha

o santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a

epigraphe de sumarentos discursos ácerca da liberdade, da politica

europêa e de Napoleão. Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e

maravilhava-se de tanta sciencia sob tão humilde habito.

Recolhendo a casa, alheado em combinações de politica fradesca,

encontrou sua mulher amuada e colorida de certa amarellidão, presagio

infallivel de tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em

relampagos e coriscos de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre

homem se empedrou de susto. Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o

ouvido á trovoada que reboava fóra.

Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras

escreviam-lhe a miudo, ou mandavam os capellães cumprimenta'-lo. Em uma

das cartas de saudação assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi

Maria das Dôres, quem, ausente o marido, abriu, por acinte, a carta.

Leu-a, e escreveu debaixo das assignaturas:

«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juizo. E, se não teem que fazer,

façam camisas para os pobres, que é isso o que faziam as antigas

congregações de monjas benedictinas.»

E devolveu a carta.

As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas não

me consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece

desnecessaria á salvação.

Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar

meadas em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando

o succedido. Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.

Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de

sua prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem

camisas para os pobres. É muito bom ter graça ás vezes. Gonçalo perdoou

a imprudencia á mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a

meditar no successo, quiz-lhe parecer que andára menos evangelicamente a

freira denunciante da indiscrição de sua mulher.

Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo

que lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se

ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e

ralhando com os servos para entreter o vicio, e com o capellão que

continuava a benzer-se.

Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o

pae em preparativos de jornada, e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi,

vencida curta resistencia.

Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava

mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a

deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro

caso em que as opiniões dos paes se harmonisaram, negando a licença.

Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua

ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lagrimas, que nem

sequer curou de enxuga'-las com caricias.

Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras

asperezas:

--Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem

aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer

contrariedade! Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito

mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por

dá cá aquella palha! Bonita educação, não tem duvida!

--Está bom!--disse Gonçalo com mansidão.--Excedes-te nas grandes e nas

pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: está

dito tudo.

--Então achas bonita aquella choradeira!

--É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se não

lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa,

Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós

que de mestres. Se tua mãe quizer iremos no anno que vem, se as guerras

tiverem acabado, visitar as capitaes de França e de Hespanha. Estudaste

nos livros; agora é bom que estudes nas magnificencias da arte e do

engenho humano. Gostas do meu plano?

--Gosto do que quizerem que eu goste--respondeu carrancuda Maria

Henriqueta.

O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua

alma: «Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo.

Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas,

e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o

apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando

castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a

contrariem seus paes...»

Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres

discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de

encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia.

Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e

ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como

aterrada do seu futuro.

Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na

palavra _futuro_!

Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no

esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:

--A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando

minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á

decrepidez! Alli está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com

a natureza, não pude corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com

o genio de ambas, azedado pela discordia em que vão viver. Como hei-de

ser justo, se forem ambas injustas? O que fará a raiva e o desespero no

coração insoffrido de minha filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o

bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?

Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de

golpe no quarto, e disse com sobresalto:

--Não sabes, primo Gonçalo?

--O quê?

--Estou espantada!

--Que é? Fala...

--Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!

--Que viste?!--exclamou Gonçalo, erguendo-se.

--Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...

--Isso que tem de extraordinario?!

--Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um

militar apanha'-la.

Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa

suor de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e

com grande esforço, disse:

--Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal

respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas

vida a mim, e honestidade a tua filha...

Maria das Dôres murmurou apenas:

--Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a

honestidade de uma filha!...

Estrellas Funestas · 第 17 / 36 题