Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,--a
quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do
amante ditoso de D. Beatriz--saíu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua
mulher, com destino ao Porto.
Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara
prenda na educação das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre
dá'-la prompta no prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da
discipula. Maria das Dôres combateu a cedencia do marido, allegando a
inutilidade de falar francez n'uma terra onde ninguem sabia semelhante
lingua. Gonçalo, porém, que se prezava de a saber, contradictou a esposa
com victoriosas razões.
São pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno
seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital.
Velleidades de coração, antigo pomo de discordia, essas não voltaram
mais. Da triste sombra do amargurado homem, até os convidativos
prazeres do vicio iam fugindo. Os abysmos só se cavam aos pés de quem os
anda palpando. Amores de alta sociedade, amores de capricho, apavoram-se
das cans, e querem pugnar com robustos corações, e atrevidos
emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo. Ora, Gonçalo era
a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que vencia os
rivaes com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquelle homem
extenuado passar abstraído hombro a hombro das suas glorias de outro
tempo, e não as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia;
segue-o a indifferença, e bem póde ser que a derradeira phase seja a
irrisão. Esqueceu, pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre
dos mancebos, o «perfeito-fidalgo», epitheto antonomastico, e geralmente
aceite, que lhe deram as fidalgas edosas, que tinham visto a côrte de D.
João V.
Fechára-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr.ª D.
Maria das Dôres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante
apathia do marido os supprimira temporariamente.
Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O
guardião dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a
erudição do padre Theodoro de Almeida ficára largo tempo disseminada nos
espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das
freiras e dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e
armazenava pharmacopêa religiosa para, no inverno da vida, se medicar
em enfermidades geradas nos desvarios da primavera. Com freiras era
menos assiduo, mas muito estimado e desejado. Denominavam-n'o as
mysticas benedictinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o milagre a
mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo abrange
mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros
d'aquella época.
N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas
filhas ao começo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes á grade
cumprimentar o fidalgo do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do céo
e da terra, ditas com tanta unção e graça que nenhuma noviça ou freira
nova as ouviu, que se não sentisse mais conformada com a religião. E,
tanto era assim, que já soltava a intriga suas rasteiras serpes por
entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se o fidalgo chamava
umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com extranhos
inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos dentro
dos limites da candura monastica.
Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou
enfeitadas por mãos de anjos.
D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa
em bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas,
com a repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de
entrar no convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras
bentas, bafejou-lhe o seu demonio meridiano, e ahi começou ella a
averiguar quem fosse a freira perturbadora da sua paz. Deram em
resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as
religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á
gottosa abbadessa.
Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela
communidade benedictina.
--Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em
freiratico?--perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.
--Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas
e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe;
agora que somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na
ante-camara da sepultura.
--E só procuras as velhas, primo?
--Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de
amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.
--Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?
--Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes
creaturas.
--Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...
E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de
senhoras que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o
catalogo não breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera,
que feriu desagradavelmente o tympano do marido.
Ergueu-se Gonçalo e saíu murmurando:--_Amplius, amplius, domine!_ que em
linguagem quer dizer: _Ainda mais, ainda mais, Senhor!_ como quem dizia
que viesse do céo mais fel para o seu calix, pequeno para tamanhas culpas.
N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos,
politico de vasto alcance, e propheta da proxima invasão franceza. Tinha
o santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a
epigraphe de sumarentos discursos ácerca da liberdade, da politica
europêa e de Napoleão. Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e
maravilhava-se de tanta sciencia sob tão humilde habito.
Recolhendo a casa, alheado em combinações de politica fradesca,
encontrou sua mulher amuada e colorida de certa amarellidão, presagio
infallivel de tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em
relampagos e coriscos de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre
homem se empedrou de susto. Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o
ouvido á trovoada que reboava fóra.
Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras
escreviam-lhe a miudo, ou mandavam os capellães cumprimenta'-lo. Em uma
das cartas de saudação assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi
Maria das Dôres, quem, ausente o marido, abriu, por acinte, a carta.
Leu-a, e escreveu debaixo das assignaturas:
«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juizo. E, se não teem que fazer,
façam camisas para os pobres, que é isso o que faziam as antigas
congregações de monjas benedictinas.»
E devolveu a carta.
As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas não
me consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece
desnecessaria á salvação.
Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar
meadas em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando
o succedido. Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.
Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de
sua prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem
camisas para os pobres. É muito bom ter graça ás vezes. Gonçalo perdoou
a imprudencia á mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a
meditar no successo, quiz-lhe parecer que andára menos evangelicamente a
freira denunciante da indiscrição de sua mulher.
Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo
que lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se
ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e
ralhando com os servos para entreter o vicio, e com o capellão que
continuava a benzer-se.
Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o
pae em preparativos de jornada, e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi,
vencida curta resistencia.
Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava
mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a
deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro
caso em que as opiniões dos paes se harmonisaram, negando a licença.
Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua
ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lagrimas, que nem
sequer curou de enxuga'-las com caricias.
Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras
asperezas:
--Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem
aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer
contrariedade! Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito
mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por
dá cá aquella palha! Bonita educação, não tem duvida!
--Está bom!--disse Gonçalo com mansidão.--Excedes-te nas grandes e nas
pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: está
dito tudo.
--Então achas bonita aquella choradeira!
--É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se não
lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa,
Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós
que de mestres. Se tua mãe quizer iremos no anno que vem, se as guerras
tiverem acabado, visitar as capitaes de França e de Hespanha. Estudaste
nos livros; agora é bom que estudes nas magnificencias da arte e do
engenho humano. Gostas do meu plano?
--Gosto do que quizerem que eu goste--respondeu carrancuda Maria
Henriqueta.
O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua
alma: «Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo.
Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas,
e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o
apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando
castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a
contrariem seus paes...»
Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres
discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de
encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia.
Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e
ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como
aterrada do seu futuro.
Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na
palavra _futuro_!
Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no
esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:
--A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando
minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á
decrepidez! Alli está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com
a natureza, não pude corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com
o genio de ambas, azedado pela discordia em que vão viver. Como hei-de
ser justo, se forem ambas injustas? O que fará a raiva e o desespero no
coração insoffrido de minha filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o
bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?
Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de
golpe no quarto, e disse com sobresalto:
--Não sabes, primo Gonçalo?
--O quê?
--Estou espantada!
--Que é? Fala...
--Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!
--Que viste?!--exclamou Gonçalo, erguendo-se.
--Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...
--Isso que tem de extraordinario?!
--Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um
militar apanha'-la.
Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa
suor de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e
com grande esforço, disse:
--Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal
respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas
vida a mim, e honestidade a tua filha...
Maria das Dôres murmurou apenas:
--Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a
honestidade de uma filha!...