Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, até

que o barão e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de ter

constantemente batido com a cabeça nos muros, nos dentes de elephante, e

nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a esperança,

declarando que «era melhor aquillo que pensar na morte, de braços

cruzados».

De repente, teve uma exclamação:

--Oh rapazes! Aqui! vinde cá.

Com que precipitação corremos para o canto d'onde elle fallára!

--Quartelmar, ponha aqui a mão, onde está a minha. Ahi. Que sente?

--Parece-me que sinto um fio d'ar.

--Agora ouça!

Ergueu-se, e bateu com o pé no chão. Uma immensa esperança

relampejou-nos n'alma. A lage _soava ôco_.

Com as mãos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n'um recanto, de

que ainda não suspeitaramos--e aos nossos pés, na lage que pisavamos, e

como encrustada n'ella, havia uma grossa argola de pedra. Não tivemos

uma palavra, na immensa excitação que de nós se apoderou. John tinha uma

navalha, com um d'esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas

das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e começou a raspar com o gancho,

em torno da argola. Raspou, raspou--até que conseguiu introduzir a ponta

do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pôl-a a prumo. Depois

deitou-lhe as mãos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.

--Deixai-me vêr a mim! exclamei com impaciencia.

Agarrei, pondo toda a minha força no puxão contínuo e intenso.

Escalavrei as mãos. A pedra não se moveu. Depois foi o barão.

Sentiamol-o gemer. A pedra não se moveu.

De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em

redor a frincha por onde nós sentiamos como um debil halito de ar. Em

seguida tirou um grosso lenço de sêda que lhe envolvia o pescoço, e

passou-o na argola.

--Agora, barão! Mãos ao lenço, e puxar até rebentar! Quartelmar, agarre

o barão pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, _vá_!

Em silencio, com os dentes rilhados, puxámos, puxámos--até que eu sentia

rangerem os ossos do barão. Era elle que fazia o esforço maior, com os

seus enormes braços de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer...

--Agora! agora! Está cedendo! Mais! Ála, ála! Héh!

Um estalo, uma rajada brusca d'ar, e rolámos estatelados no chão, com a

pedra por cima de nós. Fôra a immensa força do barão que fizera o

prodigio. Que grande coisa, a força!

--Um phosphoro, Quartelmar! exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante.

Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! vimos diante de nós os primeiros

degraus d'uma escada de pedra!

--E agora? perguntou John.

--Descer! E confiar em Deus!

--Esperai! gritou o barão. Quartelmar, veja se apalpa e acha o resto da

comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar?

Achei logo as provisões, que estavam junto da arca de pedra, cheia de

diamantes. E já enfiára o cesto no braço, quando pensei nos diamantes...

Porque não? Quem sabe? Talvez por mercê divina, achassemos uma sahida!

Não fazia mal nenhum, á cautela, metter um punhado de diamantes na

algibeira!... Se chegassemos a sahir d'aquella horrivel cova, não teriam

sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de diamantes

nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mão na arca e comecei a encher

todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das

pantalonas. Já abalava, quando voltei ainda, com uma idéa, á arca onde

estavam as pedras mais graúdas. E encafuei uma enorme mão cheia d'elles

para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d'aquellas riquezas

fez-me pensar nos outros.

--Oh rapazes! Não quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi as

algibeiras.

--Diabos levem os diamantes, disse do canto o barão, impaciente. Até me

faz nauseas a idéa de diamantes! É marchar, é marchar!

Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de joelhos,

junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus áquella que por elle

morrera!

Quando nos achamos juntos do alçapão, já o barão descera o primeiro

degrau.

--Eu vou adiante, segui devagar.

--Cuidado, gritei eu! Póde haver por baixo algum medonho buraco. Vá

tenteando... Mão encostada sempre á parede...

O barão desceu contando os degraus. Quando chegára a «quinze» parou.

--É um corredor, gritou elle debaixo. Descei!

Quando chegámos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos

restavam. Á luz que elle deu, vimos um pequeno espaço, onde se

encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro

morreu, queimando-me os dedos. E ficámos n'uma horrivel hesitação! Qual

dos tunneis seguir? John então lembrou-se que a chamma do phosphoro se

inclinára para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo

tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado

do ar.

Aceitámos a idéa. E apalpando sempre a parede, não arriscando um passo

sem tentear o sólo, seguimos n'esta nova e incerta aventura. Ao fim d'um

quarto de hora de marcha lenta, esbarrámos n'um muro. Era outro tunnel

transversal, por onde continuámos cosidos com o muro. Depois d'esse

topámos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais

largo. E assim durante horas. Estavamos n'um labyrintho de rocha viva.

Para que tivessem servido outr'ora estas innumeraveis passagens

subterraneas, não sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de

mina.

Finalmente parámos, esfalfados, com a esperança meia perdida. Comemos os

restos das provisões, bebemos os derradeiros goles d'agua. Tinhamos

escapado de morrer nas trevas d'uma cova de diamantes--para vir talvez

morrer nas trevas d'uma mina vasia...

Quando assim estavamos sentados no chão, encostados ao muro, n'um

infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a

distancia. Avisei os outros, escutámos sem respirar. E todos muito

claramente distinguimos um _som_. Era muito tenue, muito remoto,--mas

era um som, um som murmurante e contínuo.

--Santo Deus! exclamou John. É agua a correr! Tenho a certeza que é agua

a correr.

N'um instante estavamos de pé, caminhando para o som. A cada passo o

sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre

para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um

ruido forte, o ruido d'uma corrente d'agua. Mas como podia haver agua

corrente n'estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli

perto corria agua com força. John, marchando adiante, jurava que lhe

percebia já a humidade e o cheiro.

--Devagar, John, devagar! gritou o barão. Devemos estar perto...

De repente um baque n'agua, um grito de John! Tinha cahido.

--John! John! onde estás? berrámos, perdidos de terror. Falla! Falla!

Que allivio, quando a voz d'elle nos veio de longe, suffocada.

--Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu vêr onde

estaes!

Raspei o meu ultimo phosphoro. Á sua luz tremula vimos aos nossos pés

uma immensa massa d'agua, correndo com grande força. Que largura tinha

não percebemos... Mas a distancia distinguimos a fórma vaga do nosso

companheiro, pendurado d'um penedo agudo.

--Preparai para me agarrar, gritou elle de lá. Vou nadar para ahi!

Outro baque, uma grande lucta de braços batendo a agua. Depois junto de

nós um resfolegar ancioso. E por fim uma exclamação do barão, que

agarrára o nosso amigo pelas mãos, o puxára para dentro do tunnel, a

escorrer.

--Irra! balbuciava John, offegando. Estive por um fio. É uma corrente

furiosa e parece-me que não tem fundo.

Evidentemente, d'este lado nada conseguiamos. De sorte que, depois de

John descançar, de bebermos á farta d'aquella agua que era deliciosa, e

de lavarmos a cara, deixámos as margens d'aquelle tenebroso rio, e

retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e

pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegámos a outro tunnel,

que se inclinava para a direita e parecia mais largo.

--Seguimos este, disse o barão inteiramente desalentado. Todos elles são

iguaes. O melhor é andarmos, andarmos, até cahir ahi para um canto, sem

poder mais, á espera da morte.

Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastámos os passos na

treva, atraz do barão, cujas fortes pernas já frouxeavam.

De repente esbarrámos com elle--que estacára, como attonito.

--Quartelmar! exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o braço. Eu

estou a delirar ou aquillo além é luz?

Arregalámos desesperadamente os olhos. E com effeito, lá ao longe, ao

fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco

maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperança

estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessára,

deliciosamente. Era _luz_--uma desmaiada mancha de luz! Tropeçavamos uns

contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a

luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel

estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de

mãos no chão. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de

rastos. Mas a rocha findára. Era terra, terra friavel, que se

esboroava... Um empuxão, um gemido, e o barão furou, e John furou, e eu

furei--e sobre as nossas cabeças luziam as bemditas estrellas, e na

nossa face batia uma aragem dôce!

De repente faltou-nos o chão, e todos tres, á uma, rolámos, de

escantilhão, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim

e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de lôdo, berrei

pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo,

d'uma terra chã onde o barão fôra parar. Resvalei até lá, e fui

encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritámos

então por John. E uns _olás_ arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma

raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no

desesperado tombo.

Sentámo-nos então todos tres na relva--e vendo-nos fóra da funebre

caverna, salvos, sãos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoção foi

tão forte que começámos a chorar de alegria. Seguramente fôra Deus

misericordioso que nos guiára por aquelle tunnel, para aquelle buraco,

que era a porta da Vida! E agora, a manhã que julgavamos nunca mais vêr,

estava roseando o topo dos montes.

Á sua luz bemdita vimos então que nos achavamos no fundo, ou quasi no

fundo, d'aquella immensa cova circular que fôra outr'ora a mina de

Diamantes. Lá no alto, já podiamos distinguir as confusas fórmas dos

tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos

vagueado, tão angustiosamente, communicavam outr'ora com as

Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora

o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! Só

isto era essencial e dôce de saber!

Não podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras.

Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de pó

e de lama, sangue nas mãos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres

espantalhos medonhos. Mas não havia a pensar em nos sacudirmos ou nos

ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para

corpos como os nossos tão exhaustos. De sorte que começámos, com lentos

e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, através da greda

azulada, agarrando-nos ás raizes, e agarrando-nos ao tojo, n'um esforço

ultimo que nos esvaía. Ao fim d'uma hora estava terminada a façanha--e

os nossos pés tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomão. A umas

cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta

d'ella estavam homens. Para lá caminhámos, amparando-nos uns aos outros,

e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos

homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de

bruços ao chão, tremendo, gritando de medo.

--Infandós, Infandós, somos nós, teus amigos!

Elle levantou a cabeça, depois o corpo. Por fim correu para nós, com os

olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo:

--Oh meus senhores! Sois vós! Sois vós! Voltaes do fundo dos mortos!...

Voltaes do fundo dos mortos!...

E o velho guerreiro, abraçando-se ao barão pelos joelhos, rompeu a

soluçar de alegria.

CAPITULO XVI

A PARTIDA DE LÚ

Dez dias depois estavamos de novo em Lú--nas nossas confortaveis cubatas

de Lú, á sombra dos machabelles. E poucos vestigios nos restavam

d'aquella atroz aventura, além dos muitos cabellos brancos que eu

trazia, e da melancholia em que cahira o nosso pobre John, com o coração

ainda cheio de Fulata.

É inutil accrescentar que não tornámos a penetrar no thesouro de

Salomão--apesar de sagazes e methodicas tentativas. N'aquelle dia em que

Infandós nos acolheu como a resuscitados, nada fizemos senão comer,

dormir, descançar, gozar o sol. Logo no dia seguinte porém, descemos com

uma escolta á grande cova, na esperança de encontrar o buraco por onde

tinhamos furado para a luz e para a vida. Foi debalde. Em primeiro logar

chovera copiosamente de noite, e todas as nossas pegadas tinham

desapparecido; mas além d'isso os declives em funil da enorme cava

estavam por todos os lados cheios de buracos, uns naturaes, outros

feitos por bichos. Qual d'elles nos salvára entre tantos milhares?

Impossivel descobrir!

Depois d'isso voltámos á caverna de stalactites, affrontámos outra vez

os horrores da Camara dos Reis Mortos: e durante muito tempo rondámos

diante da muralha de pedra, para além da qual jaziam inaccessiveis para

sempre os maiores thesouros da terra, para sempre guardados funebremente

pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar de examinarmos a muralha

durante horas, de a apalpar, de martellar sobre ella, não nos foi

possivel achar o segredo da porta,--sob a qual jaziam pulverisados os

fragmentos da hedionda bruxa, que com a sua traição só ganhára a sua

perda. Emquanto a forçar aquelles cinco pés de rocha viva, quem podia

pensar em tal feito? Nem todo o exercito dos Kakuanas, trabalhando

annos, lograria passar através. Só com dynamite,--ou trazendo pelo

deserto poderosas machinas. E assim, lá estão ainda, n'esse remoto canto

de Africa, os thesouros, que desde os tempos biblicos tanto têm

fascinado a imaginação dos homens. Um dia talvez, quando a Africa toda

estiver civilisada, cortada de estradas, coberta de cidades, alguem mais

feliz que nós, e com os incalculaveis recursos da sciencia d'então,

penetrará no vedado thesouro, e será rico além de toda a phantasia!

Esse, se jámais existir, encontrará lá, como vestigio da nossa passagem,

as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma lampada apagada. A

esse tempo já estará perdida a memoria d'este livro, contando a estranha

aventura. E esse explorador futuro mal suspeitará então, ao dar com o pé

n'esses ossos, ao remexer essas riquezas, que tres homens do seculo XIX

passaram alli um dos mais tragicos lances que jámais foi dado a homem

passar...

Devo todavia accrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna

não foi de todo inutil. Como contei, ao abandonarmos o thesouro, eu tive

a esplendida precaução de atulhar as algibeiras de diamantes. Muitos

d'estes, e sobretudo os maiores, cahiram, ficaram perdidos, quando eu

rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos bolsos uma enorme

quantidade. Não lhe posso calcular o valor. Deve ser immenso! Supponho

que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos tres

millionarios, e possuirmos os tres mais ricos adereços de joias que

existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista economico, a aventura não

gorou.

Em Lú, fomos acolhidos pelo rei Ignosi com grande amizade e regozijo.

Apesar de fundamente absorvido nos cuidados d'um Reinado que começa (e

sobretudo na reorganisação do exercito) estivera em grande inquietação

durante a nossa longa demora nas Minas. E foi com ardente curiosidade

que escutou a nossa maravilhosa historia.

A noticia da morte de Gagula foi para elle um allivio immenso.

--Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio

escuro, não acharia ainda artes de me matar a mim tambem!

Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma dança. E foi

n'essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar,

que nós annunciámos ao rei o nosso desejo de deixar emfim o seu reino, e

regressar á nossa patria.

Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as

mãos:

--O que vós annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu coração!

Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi então, oh

valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta?

Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que é minha, é vossa. Escolhei! É

uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus

homens, ensinados por vós, edificarão uma entre jardins... Dizei! E cada

um dos vossos desejos tem já a minha promessa de rei.

--Não, Ignosi, não! acudi eu. O que nós simplesmente desejamos é voltar

para as nossas terras.

Elle então sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos corações

nunca houvera amor por elle, mas só cubiça das pedras que brilham. Agora

tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava

satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que ficava

chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos nós bem cedo!

Eu pousei-lhe a mão no braço:

--Escuta, Ignosi! As tuas palavras não vêm do teu coração. Escuta.

Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens

brancos do Natal, não sentias tu o desejo da terra d'onde vieras, e de

que tua mãe te fallava? Não se te voltavam os olhos para o Norte, para

onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde brincáras

com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido

teu pae?...

--Assim era, Macumazan, assim era! exclamou o rei commovido.

--Pois do mesmo modo o nosso coração deseja a terra em que nascemos.

Ignosi baixou a cabeça.

--As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vêm cheias de verdade e

razão. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque não mais me

chegarão noticias vossas, e vós sereis para mim como mortos!

Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou

os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos

acompanhados pelo regimento dos _Pardos_ até ás montanhas, e d'ahi com

uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle só

recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da

passagem das serras. Em seguida, erguendo a mão jurou ante os chefes que

não permittiria jámais que nenhum branco entrasse no seu reino a

procurar as pedras que brilham:--mas que nós poderiamos voltar sempre

porque eramos os irmãos do seu coração! E por fim decretou que os nossos

nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que

assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha.

--E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os d'uma

mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas

lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, Incubú,

Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos!

Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para nós, um por um;

depois escondeu a cabeça no seu manto de pelle de leopardo, e fugiu para

dentro da senzala real.

Nós afastamo-nos em silencio, e com o coração pezado.

Na madrugada seguinte partimos de Lú acompanhados por Infandós e pelo

regimento dos _Pardos_. Apesar de tão cedo, as ruas estavam apinhadas de

gente que nos lançava a saudação _Krum_, e nos desejava boa jornada! As

mulheres atiravam-nos flôres ao passar. Todos os _tam-tams_ resoavam.

Era como uma grande ceremonia real.

Pelo caminho Infandós foi-nos explicando que havia, com effeito, uma

passagem nas montanhas mais fácil do que aquella por onde vieramos--ou

antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os

dois «seios de Sabá» como um muro separa duas torres. Havia um anno, um

bando de caçadores Kakuanas, indo ao deserto á procura do abestruz,

tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d'elle encontraram o

deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massiços de arvores.

Levados pela sêde caminharam para lá, e acharam um largo e fertil oasis,

cheio de fructa, de caça e d'agua. E d'ahi, diziam os caçadores,

podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como

uma continuação de oasis. D'este modo era talvez possivel diminuir os

horrores d'uma nova travessia no deserto.

Ao fim de quatro dias de marcha chegámos com effeito ao alto da

escarpa--d'onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho

deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que

começámos a descida--e foi então que nos separámos do nosso amigo

Infandós.

O excellente homem quasi chorou de mágoa.

--Nunca os meus olhos, exclamava elle, verão homens como vós. Aquelle

golpe de machado, Incubú! Que belleza! Sois os fortes dos fortes! E o

meu coração fica cheio da vossa lembrança. Adeus!

Tivemos realmente saudade do velho Infandós; e John, como lembrança,

deu-lhe--adivinhem o quê?--_um monoculo_! Tinha um de sobresalente, e

presenteou com elle o heroico e leal selvagem! Infandós, enthusiasmado,

procurou logo entalal-o no olho, certo de que essa _pupilla

resplandecente_ augmentaria o seu prestigio entre as tropas. E foi esta

a derradeira impressão que me ficou dos nossos amigos da Kakuania--um

velho guerreiro, nú, com uma pelle de leopardo ao hombro, grandes plumas

negras na cabeça, franzindo a face, de _monoculo no olho_!

D'ahi a pouco, tendo apertado affectuosamente a mão a esse honrado

Infandós, começavamos a nossa descida pela escarpa que liga os «seios de

Sabá», entre as trovejantes acclamações do regimento dos _Pardos_.

Fizemos essa descida em doze horas. Á noite estavamos acampados á orla

do deserto, conversando em torno das fogueiras ácerca d'esses dois

estranhos mezes que passaramos entre os Kakuanas!...

--Ha sitios peores para se viver, dizia o barão.

--Quasi desejava ter lá ficado, accrescentava John, com saudade.

Eu não dizia nada. Tinhamos lá passado temerosos momentos. Mas por vezes

a vida fôra dôce. E no alforge traziamos um saco de diamantes!

Na madrugada seguinte encetámos a marcha para esse oasis que os nossos

guias conheciam. Trilhámos tres dias o deserto--mas sem desconsolo,

graças ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e que nos permittia

levar provisões fartas e agua farta. Pelo começo da tarde do terceiro

dia avistámos um bosque--e o nosso jantar já foi regaladamente servido

debaixo de copadas arvores, e junto de frescas aguas correntes.

CAPITULO XVII

EMFIM!

E agora resta-me contar a maior maravilha d'esta maravilhosa jornada.

Tão estranho, quasi inverosimil é, que, para não lhe augmentar o ar de

romance que ella já de per si tem, preciso narral-a com a maxima

brevidade e maxima simplicidade.

Foi isto. Na manhã seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido

d'uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n'um frondoso

outeiro á sombra de figueiras, com a fachada voltada para a

corrente--vejo uma confortavel cabana, construida á maneira cafre, mas

com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo.

E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n'um oasis

do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a

um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba até á cintura,

um _homem branco_!

Ficámos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n'esse

momento o barão e John appareceram. O homem crava os olhos em nós, com

um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um côxo póde

correr, aos tropeções. Esbarra, rola no chão. O barão acode. Ergue o

homem. E grita:

--Santo Deus! _é meu irmão Jorge_!

Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado

pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim.

E ainda mais! Ao alvoroço do barão, ás exclamações que seguiram, outro

homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na

mão. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mãos á carapinha:

--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... Não me conheces? Sou Jim. Sou Jim!

Aquelle papel que tu me déste para o patrão perdi-o... Estamos aqui ha

dois annos.

E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e rindo, n'uma

alegria furiosa.

As Minas de Salomão · 第 13 / 14 段