Com effeito, havia dois annos que o irmão do barão e o seu servo Jim

viviam n'aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n'essa tarde que Jorge

Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes

partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o deserto, e

procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por informação

porém, que lhe deram uns caçadores de abestruzes que felizmente

encontrára, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que

seguira outr'ora o velho D. José da Silveira, e que nós seguiramos

guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era através do deserto, mas

entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e

estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu uma grande

desgraça. No dia mesmo em que aqui parára, estava sentado junto do rio,

por baixo d'umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel

d'abelhas mansas. De repente, a um esforço qualquer que Jim fez em cima,

um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge,

esmigalhando-lh'a horrivelmente! Desde esse dia não pôde mais andar. E

muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caça e

fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente

morreria.

E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias

que decidira mandar Jim para traz, á aringa de Sitanda, a buscar

soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim não voltaria...

--E sois vós agora, que appareceis de repente. Justamente tu, irmão! E

tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter

encontrado em Bamanguavo! É extraordinario! E foi tudo a misericordia de

Deus!

N'essa noite tambem lhe contámos as nossas aventuras. Quando eu lhe

mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto:

--Santo Deus! Ao menos o que soffrestes não foi em vão! Emquanto que

eu!...

Esta triste exclamação tornou-me pensativo. E desde logo decidi

partilhar com elle um lote d'aquellas pedras, que a elle tinham trazido

uma tão longa desgraça.

* * * * *

E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi

extremamente trabalhosa. Não soffremos tanto da sêde, porque, segundo o

novo roteiro indicado pelos caçadores de abestruzes, encontrámos a

espaços pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, que mal

podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim

dizer, tivemos de o transportar através do deserto. Emfim attingimos a

aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas

armas e bagagens, ficou indignado de nos vêr voltar, vivos e sãos, para

as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente

aqui, na minha casa em Durban, á sombra das laranjeiras.

* * * * *

Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas

aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes na

mão. É o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do barão, que eu

transcrevo, porque dá exactamente a conclusão da minha historia:

«Solar de Braley--Yorkshire.

Meu caro Quartelmar.

Só algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmão Jorge, John e

eu, chegámos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas deixámos

o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro

trem. Não imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu logo na

manhã seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito,

coitado, na pobre Fulata.

E agora emquanto a negocios. Levámos os diamantes aos melhores

joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer

em quanto elles os avaluaram. É uma somma descommunal. Está claro

que elles não podem dizer com exactidão, porque nunca appareceram

no mercado pedras d'este tamanho em tal quantidade. Emquanto a

compral-os elles, está fóra de questão. Apesar de ser uma forte

casa, não poderia nunca reunir semelhantes sommas. Aconselharam-me

que os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e

devagar para não inundar o mercado. Um d'esses lotes, o que o

Quartelmar tão generosamente reservou para meu irmão, estão elles

todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras.

O que o Quartelmar deve fazer, agora que está tão rico, é vir para

Inglaterra, e comprar uma propriedade ao pé da minha. O melhor

seria vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho cá

por essa occasião o nosso John. A respeito de seu filho Henrique

posso dizer que está bom. Esteve aqui uns dias commigo a caçar.

Gosto d'elle. Pregou-me uma carga de chumbo n'uma perna, extrahiu

elle proprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver

sempre em todas as partidas de caça um estudante de medicina.

Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu

_Henrique Curtis_.»

* * * * *

Hoje é sabbado. Ha um paquete para Inglaterra além de ámanhã. Creio, na

realidade, que vou partir n'elle... Já tenho saudades do meu rapaz. E

depois quero vigiar eu proprio a publicação d'estas memorias.

INDICE

Introducção

Capitulo I--Encontro com os meus camaradas

Capitulo II--Primeira noticia das minas de Salomão

Capitulo III--O homem chamado Umbopa

Capitulo IV--Os elephantes

Capitulo V--A nossa entrada ao deserto

Capitulo VI--Penetramos no reino dos Kakuanas

Capitulo VII--O rei Tuala

Capitulo VIII--A grande dança

Capitulo IX--Antes da batalha

Capitulo X--O ataque da collina

Capitulo XI--A batalha de Lú

Capitulo XII--O rei Ignosi

Capitulo XIII--A grande caverna

Capitulo XIV--O thesouro de Salomão

Capitulo XV--Nas entranhas da terra

Capitulo XVI--A partida de Lú

Capitulo XVII--Emfim!

Notas:

[1] Elephante! Elephante!

[2] Este cruel costume é commum a muitas tribus de Africa, por occasião

de guerra.

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