E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? Não decerto os

Kakuanas. A sua composição, o seu trabalho revelavam uma arte perfeita.

Era obra dos artistas phenicios? Fôra collocada alli em tempo de

Salomão, para guardar, pelo terror da sua lança, a entrada dos

Thesouros? Não sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as estranhas

sensações por que passei n'aquella camara sinistra.

CAPITULO XIV

O THESOURO DE SALOMÃO

No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepára

para cima da mesa e acercára-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu

fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis,

dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas

e graves que não comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da

_Morte_, cahiu de bruços, com os braços estendidos, e ficou como

mergulhada em oração.

Era um espectaculo tão arripiador, n'aquella penumbra de sepulchro, a

hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas

ao enorme esqueleto--que eu, já enervado, lhe gritei que viesse, nos

levasse ao logar dos thesouros.

Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e

passando por traz das costas da _Morte_, ergueu a lampada, mostrou a

parede de rocha:

--Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo!

Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha solida e negra.

--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, não zombes de nós que te

mato!

--Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é aqui! gania ella, com as

costas apoiadas á muralha, onde roçava de leve uma das suas mãos

descarnadas.

E então, á luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha,

do feitio e tamanho d'uma porta, se ia erguendo lentamente do sólo, e

desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a

receber. Não pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta

toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n'um

equilibrio de peso, que uma móla, collocada n'um logar secreto da

muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n'esse momento, arrancar a

Gagula o segredo da móla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa

massa subir, devagar, muito devagar, até que desappareceu, deixando

diante de nós um grande buraco negro.

Estava emfim aberto, para nós n'elle penetrarmos, o caminho que levava

aos thesouros de Salomão. A emoção foi tão intensa, que eu, por mim,

comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedaço de papel,

o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a

nós, as maiores riquezas que jámais um rei accumulou na terra?

Poderiamos nós vêr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fôra

de Salomão, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e para isso

bastava dar um passo.

Dei esse passo--e com explicavel sofreguidão. Mas Gagula defendia ainda

com os braços o buraco negro:

--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que é necessario saber! As

pedras que brilham, que vós ides vêr, foram tiradas da cova circular não

sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente que, de geração

em geração, tem vivido n'esta terra, sabia da existencia do thesouro,

mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim

aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi

bem recebido e bem agasalhado pelo rei d'então, que era o quinto, além,

sentado á mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos

percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que

talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo

da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco

pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou

na mão outra pedra, maior que todas...

E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em nós.

--Continúa! exclamei eu, que escutára sem respirar. O homem era D. José

da Silveira. Que se passou mais?...

A velha feiticeira recuou espantada.

--Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem

póde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para

o chão o saco cheio de pedras, e fugiu, levando só agarrada a pedra

maior que tinha na mão. É a que Tuala trazia no diadema. É a que tu

déste a Ignosi!

--E ninguem mais entrou aqui?

--Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum

porém entrou, porque dizem prophecias já muito antigas que aquelle que

aqui entrar morrerá antes d'uma lua nova. Esta é a verdade, homens das

estrellas. Entrai agora! Se eu não menti a respeito do homem que se

chamava Silveira, vós encontrareis no chão, á entrada da porta, cahido,

o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou não

sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vós mais tarde o

sabereis...

E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso,

erguendo ao alto a pallida lampada. Nós, no emtanto, olhavamos uns para

os outros com hesitação, quasi com medo--bem natural de resto em nervos

abalados por tantas emoções estranhas. Foi John o mais corajoso:

--Acabou-se! Cá vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as tonterias

d'uma velha macaca! Adiante!

E avançou seguido por Fulata e por nós dois, em silencio. Mas dados

alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que tropeçára, quasi

cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula

erguera mais a lampada:

--Não receeis!... São pedras que a gente d'outr'ora tinha ahi accumulado

para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, não

tiveram tempo!

E com effeito havia alli como umas obras interrompidas--pedras serradas

e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha,

semelhantes ás que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com

reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que desde

a nossa entrada na caverna não cessára de tremer de medo, sentou-se

sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, não podia mais caminhar...

Alli a deixámos, com o cesto de provisões ao lado, até que ella ganhasse

alento. E seguimos.

Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau,

curiosamente pintada a côres, e toda aberta para traz. E no limiar da

porta, lá estava, cahido no chão--_um pequeno saco de couro que parecia

cheio de seixos_!

--Então, brancos, que vos disse eu? ganiu Gagula em triumpho, brandindo

a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi

está ainda, desde gerações! Que vos disse eu?

John ergueu o saco. Era pesado e tinia.

--Santo Deus! Está cheio de brilhantes! balbuciou elle quasi com medo.

E com effeito, meus amigos! A idéa d'um saco de couro repleto de

diamantes--é de causar medo!

--Para diante, para diante! exclamou o barão, com subita impaciencia. Dá

cá tu a lampada, bruxa!

Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer

pensar mais no saco que John atirára outra vez para o chão, transpozemos

a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomão.

Durante um momento olhámos vagamente em redor, n'um silencio apavorado.

Á luz debil e mortiça da lampada só percebemos, ao principio, que o

quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos

distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas até á abobada, uma porção

immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez

uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquelle marfim nos poderia

tornar a todos ricos para sempre. Era d'esse espantoso deposito que

Salomão fizera talvez o «grande throno de marfim», de que fallam os

livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com veneração,

como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas.

--Alli estão os diamantes, gritou John. Trazei a luz!

Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o barão

baixára mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito

compridas, pintadas de escarlate. A tampa d'uma, tão antiga que mesmo

n'aquelle ar sêcco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios

d'arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mão

através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas de moedas de ouro, como

nós nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e

palmeiras e torres em relevo no cunho.

--Justos céos! murmurei suffocado. Aqui devem estar milhões! Isto nem se

acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos

mineiros... Estaremos nós a sonhar?

--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto.

Onde estão por fim os diamantes? Só se o portuguez os metteu todos no

saco!

Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:

--Além, além, onde é mais escuro! Lá estão os tres cofres de pedra, dois

sellados, um aberto!

A sua aguda voz tomára um som cavo e sinistro. Mas quê! Onde ia agora,

diante de tão inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era

além, no recanto escuro? Para lá corremos, sondando com a lampada.

--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitação. Aqui. Oh meu Deus! São

tres arcas de pedra!

E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando

os tres lados d'uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas

com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada á

muralha. Baixamos a lampada para dentro. Não pudémos distinguir nada ao

principio, deslumbrados por uma vaga refracção prateada que faiscava e

tremia. Quando os olhos se habituaram áquelle brilho estranho, vimos que

a arca immensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! Mergulhei

as mãos n'elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de

diamantes! Não havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle

macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam _sabonaceo_! Era uma

arca cheia de diamantes!

Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. Á frouxa luz da lampada eu

via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E não havia em nós

nenhuma alegria. Era um torpôr, como se a alma nos ficasse bruscamente

esmagada, sob a fabulosa infinidade d'aquella riqueza.

Eu murmurei com um suspiro de creança:

--Somos os homens mais ricos d'este mundo!

John passava os dedos pelo queixo, n'uma distracção quasi melancolica:

--Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!

--E transportal-os? e transportal-os? dizia o barão, abanando a cabeça.

De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula.

Gagula que ia, vinha, ás voltas, na sala escura, como um morcego, de

braço estendido para nós:

--Hi! Hi! Hi! Ahi está satisfeito o desejo vil dos vossos corações,

homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares

d'ellas! E todas vossas! Agarrai n'ellas! Rolai por cima d'ellas! Hi!

Hi! Hi! _Comei_ as pedras! Hi! Hi! Hi! _Bebei_ as pedras!

Havia alguma coisa de tão grotesco n'aquella idéa de beber diamantes e

comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E

por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, ás

gargalhadas. E alli ficámos todos, de mãos nas ilhargas, perdidos a rir,

a rir, a rir! Riamos de quê? Nem sei. Riamos dos diamantes--d'aquelles

diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomão tinham

escavado para _nós_, que os agentes de Salomão tinham armazenado para

_nós_... Pertenciam a Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram _nossos_

agora, os seus diamantes! Não tinham sido para Salomão, nem para David,

seu pae, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham sido para o atrevido e

velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham

singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para _nós_! Só para

_nós_! Para nós aquelles milhões e milhões de libras, que, n'este

seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão poderosos como

outr'ora Salomão. De facto eramos _Salomões_!

De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os

outros, estupidamente.

--Abri as outras arcas! gania no emtanto Gagula. Estão tambem cheias!

Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos!

Em silencio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos sobre as outras

arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n'um desesperado

esforço! Hurrah! Cheias tambem! Cheias até cima!... Não, a terceira

estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas,

d'um peso, d'um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As

maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello.

Eram «diamantes de côr», como elles dizem em Kimberley, nas minas.

Tinha eu um d'estes na mão, enorme, quando de repente ouvimos gritos

afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:

--_Acudam_! _Acudam_! _Que a porta de pedra está a cahir_!

Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente:

--Larga-me, rapariga, larga-me!

--_Acudam_! _Acudam_! _Ai Gagula que me matou_!

Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. Á luz frouxa da lampada

vimos a porta de pedra descendo, e junto d'ella Gagula e Fulata

enlaçadas n'uma lucta furiosa. De repente Fulata cae, coberta de sangue.

Gagula atira-se ao chão, para fugir como uma cobra através da fenda que

havia ainda entre o chão e a porta. Mette a cabeça e os hombros!...

Justos céos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a creatura uiva de

agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo

já preso. Vem d'elle gritos e gritos, como eu jámais ouvira--até que ha

um som horrivel de coisa _esborrachada_, e a porta immensa fica immovel,

fechada, justamente quando nós, correndo sempre, esbarramos de roldão

contra ella!

Isto durára quatro segundos--quatro seculos. Voltamos então para Fulata.

A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer.

--Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan!

exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fóra. Eu não a vi,

estava meia desmaiada. Então a porta começou a descer... Ella ainda

entrou, foi olhar para vós... Depois tornava a sahir, quando eu a

agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro!

--Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! gritava John.

E como não podia fazer outra coisa, começou a dar-lhe beijos, longos

beijos.

Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois:

--Macumazan, estás ahi?... Ja mal vejo... Estás ahi?...

--Estou, Fulata. Que queres?

--Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que não me comprehende bem.

Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que

morro contente, porque elle não se podia prender a uma rapariga como

eu... O sol não se casa com a noite.

Teve um suspiro. A sua mão errante procurava em redor.

--Macumazan, estás ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para

eu sentir os seus braços. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de

tornar a vêl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em estrella, á

procura d'elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda...

Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta.

As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.

--Morta! murmurava elle, agarrando ainda as mãos de Fulata. Já me não

ouve! E não a tornar a vêr, não a tornar a vêr!

O barão disse então, devagar, e n'uma estranha voz:

--Não tardará, amigo, que a tornes a vêr.

--Como assim?

--_Oh homens, pois não percebestes ainda que estamos enterrados vivos_?

Foi então, só então, que pela primeira vez comprehendi o indizivel

horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra

estava fechada. O unico sêr que lhe conhecia o segredo jazia

esborrachado por ella, sob ella. Forçal-a, só se tivessemos alli massas

de dynamite! Estava fechada para sempre! E nós alli fechados detraz

d'ella!

Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em pé, junto do cadaver

de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, fugia de nós

bruscamente. Eramos sêres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano

monstruoso de Gagula--as suas ameaças, as suas ironias, o seu sinistro

convite para _bebermos_ e _comermos_ diamantes. Sim, era o que tinhamos

para beber e comer! Desde Lú, decerto, ella viera planeando a traição--e

só nos trouxera á caverna, para nos deixar lá dentro, morrendo junto dos

thesouros que appeteceramos!

--É necessario fazer alguma coisa, exclamou o barão, n'uma voz rouca.

Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos

achar o segredo, a móla que move a rocha.

Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre

Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do

corredor. Não achamos nada, em mais d'uma hora de desesperada busca, que

nos esfolou as mãos.

--A móla, se tal móla ha, está do lado de fóra, disse eu. Foi por isso

que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é porque se

queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes...

Malditos sejam elles, e maldita seja ella!

--De resto, lembrou o barão, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda é

que sabia bem que pelo lado de dentro não podia levantar a rocha. Não ha

nada a fazer com a porta. Vamos vêr outra vez, na camara.

Levantamos então com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o

collocar dentro, no chão, com os braços em cruz, junto das arcas de

dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados junto dos

cofres de pedra atulhados de riquezas que nos não podiam salvar,

dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por

dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Além da caça fria e

das carnes sêccas tinhamos duas cabaças d'agua.

--Bem, jantemos, disse o barão, que é talvez o nosso penultimo jantar

n'este mundo.

Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em

jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d'agua,

reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. Começamos então a

examinar systematicamente as paredes da nossa prisão, contando com a

remota possibilidade de que existisse, além da porta da rocha, outra

sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas,

batemos as muralhas, sondamos o sólo, exploramos a abobada. Ficamos

exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o

oleo estava chupado.

--Que horas são, Quartelmar? perguntou o barão.

Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado ás onze na caverna.

--Infandós ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos não vir voltar

esta noite, decerto nos vem procurar...

--E então? exclamou o barão. De que serve? Infandós não conhece o

segredo da porta, ninguem o conhecia senão Gagula. Ainda que conhecesse

a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as

suas azagaias, póde furar cinco pés de rocha viva. Ninguem nos póde

salvar senão Deus!

Houve entre nós um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou,

mostrando, n'um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte

dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo

da pobre Fulata estirado diante d'ellas, o saco de couro cheio de

diamantes, a vaga refracção que sahia dos cofres de pedra abertos, e as

lividas faces de nós tres, alli sentados a um canto, á espera da morte.

Depois a luz bruxuleou e morreu.

CAPITULO XV

NAS ENTRANHAS DA TERRA

Não me é possivel descrever com exactidão as agonias d'aquella noite. E

ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaços.

Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais

me torturava era o _silencio_. Um silencio tenebroso, tangivel,

absoluto,--o silencio d'uma sepultura cavada nas profundidades rocheas

do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do céo

estalando, não poderiam fazer chegar a menor vibração de som, fosse elle

ao menos tão leve como um leve zumbir de mosca... E então, acordado, a

monstruosa ironia da nossa situação ainda mais me acabrunhava. Em torno

de nós jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de

muitos estados, construir frotas de couraçados, erguer palacios todos

feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as

imaginações... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor,

mas que nós não podiamos quebrar com as nossas mãos, tornavam-nas

inuteis, tão sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de

diamantes dariamos nós com infinito prazer por um pouco de pão, ou por

outra cabaça d'agua. Mais! dariamos todas as arcas de diamantes pelo

privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o

que é a riqueza? Sonho, estupida illusão!

--John, disse o barão, do seu canto, n'um dos momentos em que eu assim

pensava, quantos phosphoros te restam?

--Oito.

--Accende um, vê as horas.

A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas

no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra!

A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flôr! Os soldados d'Infandós

começariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras

apagadas--e as nascentes d'agua, junto d'elles, cantariam de rocha em

rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos.

--Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o barão.

--Para que? exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto,

melhor!

--Emquanto Deus permitte a vida, é que permitte a esperança! respondeu o

barão gravemente.

Repartimos uma pouca de carne sêcca e d'agua. Emquanto comiamos, um de

nós lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos com toda a

força, porque talvez Infandós, andando já na caverna á nossa procura,

ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, tinha

o habito de gritar, desceu o corredor ás apalpadellas, e começou a

berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram tão

inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John

voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca agua

que restava. Gritar só nos fazia sêde. Desistimos d'esse esforço inutil.

De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes,

n'aquella horrivel inacção que era um dos nossos maiores tormentos. E eu

então cedi ao desespero. Deixei cahir a cabeça no hombro do barão, e

desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluçava tambem.

Grande alma, e corajosa, e dôce, era a do barão. Se nós fossemos duas

creancinhas assustadas, e elle a nossa mãe, não nos teria animado e

consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo

para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em

lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado.

Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, nós estavamos

simplesmente chegando áquelle fim a que todos têm de chegar, que tudo em

breve acabaria, e que a morte por inanição é suave (o que não é

verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos

abandonassemos á misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na nossa

miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a d'este

homem! Quanta serenidade, e quanta força! Eu por mim acolhia-me a elle

como a um grande refugio. E por sua exhortação, rezei e serenei.

Assim passou o dia (se tal treva se póde chamar dia), até que accendi

outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos então em

comer.

E quando estavamos dividindo a carne sêcca, occorreu-me de repente uma

idéa estranha:

--Porque é, disse eu, que o ar aqui se conserva tão fresco? É um pouco

espesso, mas é fresco.

--Santo Deus! exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei

n'isso! Com effeito é fresco... Não póde vir de fóra pela porta de

pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas...

Tem de vir de outro sitio. Se não houvesse uma corrente d'ar, deviamos

ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo deviamo-nos

sentir abafados. Evidentemente o ar é renovado. Vamos a vêr!

Ainda elle não findára, já nós andavamos, de gatas, ás apalpadellas, na

escuridão, procurando sofregamente qualquer indicação de buraco ou

fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a mão no

quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, já rigida.

As Minas de Salomão · 第 12 / 14 段