--Gagula é o genio mau d'esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar

para findar com ella, que já é velha de mais!

--Mas tem segredos! Mas sabe muito! repliquei eu.

--Sabe sobretudo o segredo dos _Silenciosos_, volveu o rei pousando os

olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis estão enterrados,

e o do logar dos diamantes. Ora eu não esqueço a promessa que te fiz,

Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula:

e só por isso a poupo.

--Está bem, Ignosi, registro as tuas palavras.

Mas não foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque

através de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os

nossos corações em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se não

fossem os desvelos, a adoravel dedicação de Fulata. Dias amargos esses

para nós! O barão, já então restabelecido, e eu, nada mais fizemos

durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de pés

a senzala onde elle delirava. Remedios não tinhamos para lhe dar, além

d'uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido

da raiz d'uma especie de tulipa. Só podiamos contar com a forte natureza

d'elle e a boa mercê de Deus.

Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para

manter perfeito socego em torno ao doente, ordenára que todos os que lá

viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente

ao lado d'elle, sentada no chão, dando-lhe a bebida refrescante,

arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sêccas d'uma planta que

faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto.

No nono dia da doença, á noite, antes de recolher, o barão e eu

entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no

escabello dava uma luz funebre. Não havia um rumor. E o meu pobre amigo

jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegára o seu fim, tive um

soluço que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou _chut_!

E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo não estava morto, mas

tranquillamente adormecido, sob a caricia das mãos de Fulata, que lhe

cobriam a testa, onde um suor fresco começava. Era a crise do nono dia,

o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito

horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque não serei acreditado) Fulata,

a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim,

com as mãos pousadas sobre a testa d'elle, sem comer, sem se erguer, sem

se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente.

Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braços, porque a

heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga.

A convalescença de John foi rapida. Ao fim d'outra semana, já passeava

pelos arredores da cidade, entre os pomares, á beira do rio, acompanhado

por Fulata, que o salvára, e a quem elle votára (segundo dizia) um

«reconhecimento eterno». Mas eu não agourava bem d'aquelle

«reconhecimento», d'aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata

havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era

indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter,

mais perigosa ainda, alguma aventura d'amor!

Apenas John se considerou a si proprio escorreito e «prompto para

outra»--Ignosi começou as festas da sua proclamação. Todos os «Indunas»

(chefes supremos) das provincias do reino vieram a Lú prestar

vassallagem. Houve revistas de tropas, danças, formidaveis banquetes. Os

homens que restavam do regimento dos _Pardos_ foram todos doados com

terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande

Assembléa que d'ora em diante não haveria mais _caça aos feiticeiros_,

nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto nós residissemos

no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como

elle, a saudação de _Krum_!

No ultimo dia d'este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao

rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegára, de realisar a sua

promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras

brancas que reluzem.

Ignosi abraçou-nos com grande affecto.

--Não me esqueci, amigos! Já indaguei a verdade, e eis o que sei.

Aquella estrada branca que trilhámos acaba além junto das montanhas

chamadas as _Tres Feiticeiras_, onde estão as figuras de pedra, os

_Silenciosos_. Jaz ahi uma grande cova, d'onde se diz que homens muito

antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para além

d'essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde

vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala já foi

conduzido. E por traz d'essa caverna fica uma camara secreta de que só

Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas

gerações, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa

camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d'essas que para os

Kakuanas nada valem: o branco porém não teve tempo de arrecadar essas

riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d'esses tempos o escorraçou

outra vez para além das montanhas...

--A historia é verdadeira, acudi eu. Não te lembras, Ignosi, que nas

montanhas, na caverna de gelo, encontramos nós, petrificado, esse homem

branco?

--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe,

sob pena de morrer, que vos leve á camara secreta, meus amigos... E as

riquezas que encontrardes, oh meus amigos, são vossas!

N'esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braços

a hedionda Gagula; que gania e os amaldiçoava. Mal a largaram, toda ella

se abateu e achatou sobre o chão--como um montão de trapos onde dois

olhos ferozes viviam e refulgiam.

--Que me queres tu, Ignosi? uivou ella. Não me toques, que te destruo.

Treme das minhas artes!

O rei encolheu os hombros.

--As tuas artes não salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes? Aqui

está o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara secreta

onde estão as pedras que reluzem.

--Só eu o sei, e nunca o direi! bradou ella. Os brancos malditos

voltarão, levando vasias as mãos malditas!

--Bem, volveu tranquillamente o rei. Então, Gagula, vaes morrer

lentamente.

--Morrer! gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu não te atreverás,

Ignosi! Ninguem me póde matar. Que idade pensas tu que eu tenho? O teu

pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem

ousará tocar-me, porque sobre esse cahirão as desgraças sem fim.

Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua

azagaia:

--Dizes?

--Não!

Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o montão de trapos onde

reluziam os dois olhos ferozes.

Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em pé, de salto. Depois

tornou a cahir, e rolou no chão esperneando.

De novo a lança de Ignosi a procurava:

--Dizes?

--Digo, digo, oh rei! ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao

sol, e respirar o ar dôce, e ter um osso para chupar!...

--Bem; ámanhã irás com meu tio Infandós e com os meus irmãos brancos a

esse logar, mostrarás a camara secreta e o escondrijo das pedras que

reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver traição, morrerás devagar,

e em tormentos.

--Não, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a desgraça vem a

quem penetra n'esse logar. Outr'ora veio um homem, encheu um saco

d'essas pedras brilhantes, e uma grande desgraça cahiu sobre elle! E foi

uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez

fosse minha mãe! Ou a mãe de minha mãe! Quem sabe? Será uma alegre

jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde!

Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as

costellas ôcas. A morte vive lá, e está á espera. Será uma alegre

jornada!

CAPITULO XIII

A GRANDE CAVERNA

Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n'um casebre

desmantelado, em frente das _Tres Feiticeiras_, as tres montanhas que

tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a Lú, e onde

deviam jazer, segundo a tradição dos Kakuanas e o roteiro do velho D.

José da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas de Salomão!

Tinhamos partido de Lú doze dias antes, acompanhados por Infandós, por

Fulata (que não deixára mais o «seu doente», o bom John), por Gagula que

vinha n'uma liteira, e por uma forte escolta de serviçaes e soldados. E

foi só no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle estranho

sitio, tão cheio de terror para os Kakuanas e para nós de maravilhosas

promessas.

Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na

primeira e fresca luz da manhã, vimos os tres montes isolados, em

triangulo, um á nossa direita, outro á nossa esquerda, o terceiro ao

fundo, em face de nós, erguendo magnificamente ao céo os seus cimos

resplandecentes de neve. Um tojo em flôr, d'um escarlate ardente, cobria

as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete

igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita

branca da estrada de Salomão cortava a direito até á _Feiticeira_

central, a que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e

mysteriosamente. Ahi, junto d'esse monte, estavam as fabulosas minas,

que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo

portuguez, o do seu descendente, e decerto o d'aquelle que nós vinhamos

procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta

aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula)

encontrará desillusão e desastre. Seria essa a nossa sorte? Nós

chegavamos sob a protecção do rei, cercados de serviçaes e de guardas...

E apesar d'isso sentiamos pesar-nos sobre o coração, tristemente, a

prophecia da horrenda mulher.

No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era tão viva a anciedade de

chegar e de vêr, que os carregadores da liteira de Gagula mal podiam

acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava,

estendendo para nós, por entre os pannos da liteira, os braços

descarnados, as mãos em garra:

--Não vos apresseis, homens brancos! A morte está á vossa espera e não

foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a

tendes!

Dava então uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente abrandavamos

o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso

irresistivel da curiosidade e da esperança!

Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de Salomão, e tendo já

deixado á nossa direita e á nossa esquerda as duas _Feiticeiras_ que

formam a base do triangulo--quando chegamos junto d'uma immensa cova

circular, em funil, offerecendo talvez trezentos pés de profundidade e

meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a

forravam, surgiam grandes pedaços de greda azulada: quasi ao fundo

corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel

d'essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e

gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposição do canal, a natureza

da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no

sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e

para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de Salomão,

fossem n'outros mais recentes, uma mina de diamantes.

A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a

circumdavam; e a espaços, esta via circular era feita de enormes lages

de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e

impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do

outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam

como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi

nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infandós; e bem depressa

percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas.

Conjecturamos logo que deviam ser os _Silenciosos_, esses idolos, tão

temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos.

Mas só ao chegar junto d'elles pudémos apreciar a estranha e terrivel

magestade d'essas vetustas figuras.

Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos

pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e

olhando a direito para a estrada de Salomão que através de sessenta

milhas de planicie seguia até Lú--enchiam um grande espaço as tres

gigantescas fórmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres sentadas,

medindo talvez cada uma a altura de vinte pés.

A figura de mulher, toda núa, com dois cornos, como os de um crescente

de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente

estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas

figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens,

pareciam mais bem conservadas. Um d'elles tinha uma face medonha, feita

para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro

parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expressão de dura

indifferença, de uma indifferença de rocha, que nenhuma prece póde

abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na

realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos

vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens

seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por

mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser talvez

os falsos Deuses que adorou Salomão--«Asthoreth deusa dos Sidonios,

Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de Amnon». Assim

diz o Livro Santo.

--Que lhe parece, barão?

--Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas

classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus, é a Astarté dos

Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomão. De Astarté

fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente

da meia lua na cabeça... Se Salomão tinha aqui as suas minas, era

natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que

provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua

da sua Deusa. Quem póde saber?

Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de

uma remota antiguidade, Infandós, que caminhára sem se apressar, chegou

junto de nós, e saudou reverentemente com a lança os _Silenciosos_.

Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar

primeiro a refeição da manhã. Como não eram ainda onze horas, e a nossa

curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando

comnosco provisões para se lá dentro a fome excitada pelas emoções nos

assaltasse. Infandós fez então signal aos carregadores para que se

acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um

cesto, para levarmos, uma porção de caça fria e duas cabaças d'agua. Nós

entretanto deramos uma volta em torno ás tres figuras de pedra. Por traz

d'ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das _Feiticeiras_ que

formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada n'ella, corria

uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco

escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os

carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no chão, a horrenda

creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e

vivos, largou em silencio para o arco escuro. Nós seguimos, calados,

tambem.

Á entrada, o monstro parou, voltado para nós, com um riso livido na

caveira.

--Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na

cova onde as pedras reluzem?

--Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente.

--Bem, bem! Entrai! E pedi força aos corações para affrontar as coisas

que ides vêr! E tu, Infandós, que trahiste teu amo, vens tu tambem?

O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr'olho:

--Não me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, Gagula, tem

cautela, e treme! Os homens que vão comtigo são os amigos do rei! Por

elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um só cabello lhes

succeder em mal, nem todos os teus feitiços te livrarão de morrer em

tormentos. Comprehendeste?

--Comprehendi, comprehendi, Infandós! ganiu ella, com um risinho gelado

e lento. Não receies! Eu vivo só para fazer a vontade do rei. Tenho

feito a vontade de muitos reis, em muitas gerações! E os reis findaram

sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E

eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para lhes

fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada está accesa!

Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma cabaça cheia de

oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do arco

negro pareceu desmaiar e tremer.

--Vens tu tambem, Fulata? exclamou John, volvendo os olhos em redor,

inquieto.

--Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga.

--Bem. Então dá cá o cesto!

--Não, meu senhor, para onde fôrdes, vou eu tambem!

--Bem! pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga

para dentro da mina!

No emtanto Gagula mergulhára na galeria, que dava apenas logar para dois

caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos

batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada,

que a voz de Gagula, que repetia n'um tom lugubre:

--Avançai, avançai! A morte está perto!

De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos

no mais maravilhoso sitio que olhos humanos têm contemplado.

A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa

cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada

por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da

abobada. Ao comprido d'esta vasta nave, como na nave de um verdadeiro

templo, corriam renques de gigantescas columnas, d'uma côr algida de

gêlo e de magnifica belleza. Alguns d'estes nobres pilares estavam, por

assim dizer, interrompidos no meio--um pedaço erguendo-se do sólo, como

a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedaço pendente da remota

abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimensões diversas, cavernas á

semelhança de capellas, tendo tambem as suas filas de columnas, algumas

tão pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de creança. Aqui e

além havia construcções estranhas, da mesma substancia algida que

parecia gêlo--uma da fórma de uma vasta taça, outra offerecendo a vaga

apparencia d'um pulpito com lavores pendentes. Um ar de indescriptivel

frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos,

na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo.

Não tardamos em perceber que estavamos simplesmente n'uma caverna de

stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d'aquellas gottas de agua,

que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se

estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando

n'aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas incompletas notei eu

uma rude inscripção entalhada decerto por algum obreiro phenicio das

minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia phenicia.

Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas

crescera para cima da inscripção uns tres pés e meio. E ainda estava em

via de formação, porque eu distinctamente senti, emquanto a examinava,

cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de agua!

Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a formar-se,

assim largas, massiças, altas como torres, as columnas innumeraveis que

se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa

velhice da Terra.

Gagula porém não nos deixou muito tempo n'esta curiosa contemplação.

Inquieta, batendo o chão com o cajado, a lampada erguida sobre a cabeça,

a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros.

--Vamos, vamos, que a Morte está á nossa espera!

O capitão John ainda tentava gracejar com a atroz creatura. Mas quando

ella nos conduzia ao fundo da nave, diante d'uma pequena porta

semelhante ás dos templos egypcios, e nos perguntou se estavamos bem

preparados a entrar a morada da Morte--todos estacamos, inquietos,

mudos, sem ousar o primeiro passo.

--Isto está-se tornando sinistro, murmurou o barão. Os mais velhos

adiante. Passe lá, Quartelmar!

Entrei a porta egypcia e achei-me n'um corredor inclinado, todo de

abobada, horrivelmente negro. A lampada de Gagula esmorecia. O bater do

seu cajado dava um echo lugubre. E a meu pezar parei, dominado por um

presentimento de desastre e de morte.

--Para diante! para diante! murmurou John, que trazia Fulata agarrada

pela mão.

Com um esforço desesperado venci o receio, alarguei o passo. E, quasi

collados uns aos outros, desembocamos n'uma sala subterranea,

evidentemente excavada outr'ora por poderosos obreiros no interior da

montanha.

Esta sala não tinha uma luz tão clara como a cathedral de stalactites; e

tudo o que eu pude descobrir a principio foi uma enorme e massiça mesa

de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir outras

figuras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui

uma fórma encruzada. E quando emfim, acostumado á penumbra, percebi o

que eram aquellas fórmas, voltei costas, e largaria a fugir como uma

lebre--se o barão não me agarrasse pelo braço fortemente. Cedi, tremendo

todo. Mas a esse tempo o barão tambem se habituára á luz diffusa,

comprehendera tambem, e largando-me o braço, com uma exclamação, ficou a

meu lado, quedo, arripiado, limpando o suor que lhe cobrira a testa. A

pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada ao pescoço de John. E Gagula

triumphava, com sinistra zombaria.

O que tinhamos, com effeito, ante os olhos apavorados, era terrivel.

Alli, no topo da longa mesa de pedra estava a _Morte_--a propria

_Morte,_ um medonho e gigantesco esqueleto, de pé, todo debruçado para

diante, com um dos braços apoiado ao rebordo da pedra como se acabasse

de se erguer do seu assento, e com o outro levantando no ar uma enorme

lança, que parecia arremessar sobre nós; o craneo da caveira alvejava

lugubremente; das covas das orbitas sahia um fulgor negro: e as maxillas

estavam entreabertas, como se fosse fallar, e desvendar o seu segredo.

--Santo Deus! murmurei eu, tranzido. Que póde isto ser?

--E estas figuras, em redor? balbuciava John.

--E além, aquella coisa, no meio? exclamou o barão apontando para a

inexplicavel figura encruzada sobre a mesa.

Então Gagula poisou a lampada e agarrando o braço do barão, com o dedo

estendido para a fórma encruzada:

--Avança, Incubú, homem forte na guerra! Avança, e contempla aquelle que

tu mataste e que está agora junto aos seus avós!

O barão deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a mesa,

inteiramente nú, com as pernas encruzadas, e a cabeça que o barão

cortára poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo rei dos

Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a sua

hedionda cabeça decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe para fóra do

pescoço encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro tinha já

uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais

pavoroso, e cuja natureza eu não podia comprehender--até que senti

_tic_, _tic_, _tic_, um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada,

lhe escorria pelo pescoço, e d'alli pelo corpo, para se escoar depois

por um buraco cavado na mesa. Então percebi tudo--_o corpo de Tuala

estava sendo convertido n'uma stalactite_!

E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos

Kakuanas, já transformados em _stalactites_! Havia trinta e sete--sendo

o ultimo o pae de Ignosi. É esta, desde tempos immemoraveis, a maneira

por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos,

expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua

siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas

geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon

Real que existe decerto na terra. E nada póde igualar a terrifica

impressão que causava aquella série de reis, pertencendo a muitas

dynastias, amortalhados n'uma camada de gelo que mal lhes deixava já

distinguir as feições, alli sentados, á volta da immensa mesa, em

espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte!

As Minas de Salomão · 第 11 / 14 段