--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui coisas

diversas; mas não tão bellas, não tão bellas! Beijos e festas de

mulheres são dôces; mas é mais dôce o brilho das lanças e o cheiro do

sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar

n'esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d'estas raparigas as

melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.

O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros,

deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a

recrutar alli, para occupar o seu coração na terra dos Kakuanas, um

serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente,

receiando as complicações do eterno feminino, apressei-me a recusar:

--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm das estrellas só se

ligam ás mulheres brancas que estão nas estrellas...

Tuala riu:

--Está bem, está bem... Nós temos um proverbio kakuana que diz:

«Aproveita a que está perto, porque com certeza a que está longe te

engana!» Mas talvez seja d'outro modo nas estrellas... Sêde pois

bemvindos, e comece a dança!

Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que

tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de raparigas

avançaram, cantando um canto muito lento e dôce,--e fazendo ondular nas

mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente

pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos

pés, n'uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaçadas aos pares,

redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma

batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em

reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem

ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre

confusão, n'uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos

ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres desfolhadas.

Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes,

mais airosa que uma Diana caçadora, avançou devagar, e rompeu n'uma

dança estranha, cheia de graça e de brilho, em que os movimentos tudo

traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até os pulos

bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: os seus olhos cada vez

mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flôr

a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze

humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou até ao grupo das

bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de

lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e outra depois, e muitas

ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caçadora tinha

belleza, graça e consummada arte.

O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou.

--Gentes das estrellas, disse elle, qual d'ellas achaes mais linda?

--A primeira, respondi eu irreflectidamente.

E logo me arrependi, lembrando o que annunciára Infandós--que a mais

linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um

olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.

Tuala no emtanto sorria:

--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem então como os meus. A

primeira é a mais bonita. E mau é para ella que tem de morrer!

--_Tem de morrer_! echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa,

e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e dôr.

--Morrer! exclamei eu, sorrindo tambem, como se não acreditasse. Porque,

oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além d'isso é moça e linda.

Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.

A fera affectou uma sympathia, que, n'elle, arripiava:

--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os _Silenciosos_,

que estão além na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha

uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da grande dança

não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecerá, e

com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem de «cima», cahiu meu

irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas),

trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a lança!

Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, que

desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De repente, e só

então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser

formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes

agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para

diante de Tuala.

--Que nome é o teu, linda moça? ganiu a horrivel Gagula. Não respondes?

Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber quem tu

sejas?

A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, alçando a sua immensa

azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre

as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou

toda, toda a tremer.

O medonho Scragga teve uma risada bestial:

--Como ella treme, como ella treme diante da minha força!

--Ah canalha, se te apanho a geito! rosnou o capitão, apertando na mão o

rewolver.

No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraçada:

--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! Não temas!

--Oh mãe! balbuciou a pobre creatura entre soluços, n'uma voz que

desfallecia. Oh mãe! O meu nome é Fulata, e sou da casa de Suko. Mas

porque hei de eu morrer, eu que não fiz mal nenhum?

--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que

vigiam além na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia.

Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da

casa de Suko, vaes morrer ás mãos reaes do filho do nosso rei.

Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei

quasi cruel!

No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mãos,

supplicava, com gritos de angustia:

--Oh mãe, oh rei, não me deixeis morrer!... E eu tão nova! Pois nunca

mais hei de vêr a aringa de meu pae? nem embalar meus irmãos pequeninos?

nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para dançar

e eu dancei! O meu noivo está lá fóra á minha espera! Minha mãe ficou

sentada debaixo das machabelles até que eu volte para mugir as vaccas...

E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa

casa deixava sempre cahir grãos de aveia para os passaros levarem aos

ninhos...

Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se

espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluçavam baixo. E

subitamente, o capitão John, sem se poder conter mais, arrancou o

rewolver da cinta e fez um movimento tão saliente, de tão clara

intervenção--que a rapariga viu, n'um relance comprehendeu...

Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio

arrojar-se aos pés de John, abraçando-lhe as pernas núas:

--Oh pae branco, que vens das estrellas! gritava ella. Deixa acolher-me

á sombra da tua força... Salva-me d'estes homens, e de Gagula, a mãe que

é tão cruel...

Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria tão intensa

que ainda hoje o recordal-a me aquece o coração, vi uma linha de sombra,

muito fina ainda, surgindo á orla do disco radiante!

--O eclipse! gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga

atraz! E armas na mão, rapazes!

Immediatamente, avancei para o rei:

--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Nós, gentes das estrellas,

não podemos consentir n'esta maldade! Tal não será! Deixa que a rapariga

volte para a sua morada!

Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos

chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de

assombro, e talvez de esperança.

--_Não consentis_! bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E

quem és tu, perro branco, para vir latir contra o leão na sua caverna?

_Tal não será_! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade

prevalecer contra a minha força? Scragga, mata a creatura! E vós

guardas, olá, agarrai esses homens!

Uma multidão de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O

barão, Umbopa e o capitão (com Fulata agarrada a elle) vieram pôr-se ao

meu lado de carabinas apontadas.

Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente,

avançava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiança, ergui a mão,

bradei:

--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga não

morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avançar contra

nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, _apagaremos o sol_ e

mergulharemos o mundo em trevas!

O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de

nós, com a lança erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula

erguera-se, sacudindo os braços com furor:

--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da

terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre para a sua morada! Mas se

o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os cães

malditos que vêm latir contra ti!

Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que logo

imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me lembro já das coisas

absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos

de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas

commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu?

Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse _em inglez_, na lingua

magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro

do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da minha alma!

P'ra diante, valente! Deixa avançar essa rica sombra! Ah que estás um

catita, meu astro! Mais, mais!...»

E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avançava, comia a

luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multidão. Volvi

então a fallar kakuana, livremente:

--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde vós, oh chefes! Mentem então os

homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem

tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz,

some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão e frio, e, que sem ti,

parem para sempre estes corações crueis!... O sol vai morrer!

Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, cahidas de

joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.

Só Gagula resistia ao pavor:

--Vai passar, vai passar! uivava ella. Eu já vi o sol assim. Ninguem o

póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu já vi, eu

que sou a mais velha, e conheço os segredos!

Eu por mim animava os companheiros:

--Vá, rapazes! Já não sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de

alguns versos, barão. Tudo serve, até pragas!

E John, admiravel marinheiro, rompeu então a praguejar. Foi sublime.

Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha

mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de

blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu!

No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras

fluctuavam no ar. Uma triste quietação descia sobre a terra. Todos os

passaros se tinham calado. Ao longe os cães uivavam.

E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornára-se espessa. Já mal

distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as

mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o

que restava do sol parecia uma luz agonisante.

--O sol morreu! berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas

mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!...

E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a

toda a força contra o peito do barão. Mas a cóta de malha repelliu o

ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o barão arrancára-lhe

a lança das mãos e passou-lh'a através do coração. Com um uivo hediondo,

Scragga tombou morto.

Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o

sol, o mundo, e a descendencia do rei! N'um terror indizivel, a multidão

de raparigas largou fugindo, em confusão e gritos, para as portas da

aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas,

galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos,

desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com

Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n'um pavor vil. Uma

debandada--que nos deixou sós, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda

agarrada a John, Infandós, os chefes que conspiravam, e o cadaver de

Scragga.

--Chefes! gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora

que Ignosi é o rei unico e forte. O feitiço está trabalhando. Corramos

para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura!

--Vinde! exclamou Infandós, segurando-me pela mão. E vós todos segui! O

dia é nosso!

Ao chegarmos á porta da aringa, a luz findou inteiramente.

Agarrados uns aos outros pelas mãos, com Fulata no meio, fomos

tropeçando através da escuridão. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de

terror. E para o augmentar, lançavamos a espaços, através da treva, um

lugubre brado de revolta e de guerra:

--Morte a Tuala!

CAPITULO IX

ANTES DA BATALHA

Durante mais de uma hora caminhamos, através da escuridão, guiados por

Infandós e pelos chefes--até que de novo surgiu, como um fino traço

luminoso, a orla do sol. D'ahi a pouco havia já luz sufficiente; e

achamo-nos então longe de Lú, junto de uma larga collina, de duas fartas

milhas de circumferencia, em fórma de ferradura, e toda ella

inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto

fôra (segundo nos disse Infandós) aproveitado como acampamento

permanente, e ordinariamente occupado por uma guarnição de tres mil

homens. N'essa manhã, porém, á maneira que iamos trepando os flancos da

collina, á luz já viva e quente do sol, descobriamos successivos

regimentos, formando uma divisão de dezoito ou vinte mil homens, quasi

todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa

treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos

através das suas filas cerradas, em direcção a um grupo de cabanas que

se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos

lá dois servos, á espera, carregados com todas as nossas bagagens,

cantinas, e munições que n'essa manhã deixaramos nas cubatas de Lú.

N'uma trouxa as calças de John. Com que sofreguidão elle as envergou,

pudico homem!

--Fui eu que mandei vir tudo, á cautela! explicou o serviçal Infandós.

Quem sabe quantos dias estaremos n'este deserto!

Como não havia tempo a desperdiçar, o velho e activo guerreiro deu ordem

para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de

tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta já

decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por quem

iam combater.

Meia hora depois os regimentos (a flôr do exercito dos Kakuanas) estavam

em formatura nos tres lados d'um immenso quadrado. Do lado aberto

ficamos nós com Ignosi, o velho Infandós e os chefes conjurados. Logo

que um arauto intimou silencio--Infandós avançou: e com um calor, um

enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de Ignosi,

o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de

seu pae á mão de Tuala, a sua fuga através dos montes, o seu exilio

entre estranhos. Depois retraçou o reinado cruento de Tuala, os seus

crimes, as suas espoliações, as frias e inuteis crueldades. Em seguida

contou como os homens brancos das estrellas, que de lá de cima tudo

vêem, se tinham compadecido da grande afflicção que ia no reino dos

Kakuanas; como tinham ido então buscar Ignosi, o rei legitimo, ás terras

distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela mão,

através dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como n'essa

manhã, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e provar aos

chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham

apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses magicos

que nenhuma força vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, o falso

rei--e pôr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro!

Apenas elle findára, entre um longo murmurio de approvação, Ignosi deu

dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as

tropas.--Ellas tinham ouvido Infandós, seu tio! Cada palavra d'elle

luzia como a verdade. Os Kakuanas agora só podiam escolher entre Tuala,

o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e

desordem,--e elle, rei legitimo, que não permittiria mais no reino a

caça aos feiticeiros, nem matanças de festa, nem castigos sem

julgamento, nem a oppressão dos mais fortes... Pelo contrario, sob elle,

só haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o ajudassem

daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre Tuala,

iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descanço e alegria para

sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado,

para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a força das suas

artes magicas? Não tinham elles visto o sol apagado, depois outra vez

brilhante, á ordem dos espiritos brancos?

Um rumor de acquiescencia, de adhesão, corria já entre as tropas. Ignosi

então recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel machado de

guerra:

--Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem,

d'entre vós, que diz que eu não sou o rei, que sáia a terreiro, se bata

commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no chão provará que na verdade

sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, vós

todos! Sou eu o rei!

--És o rei! foi a universal, acclamadora resposta, que atroou toda a

collina.

--Bem! Tuala está mandando já emissarios a reunir os seus homens para

nos combater. Os meus olhos estão abertos, e verão aquelles que mais

fieis me são, e que merecerão mais terra, mais gado, mais riqueza. E

agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei!

Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mão; e os vinte mil homens,

ferindo o sólo com as azagaias, soltaram a grande saudação real--_krum_!

_krum_! _krum_! Ignosi estava acclamado rei. Os batalhões immediatamente

recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem.

Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capitães. Era

evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. Já

do alto da nossa collina nós viamos regimentos marchando, a

concentrar-se em Lú--e um incessante movimento de armas por toda a

estrada de Salomão. Do nosso lado contavamos com vinte mil homens.

Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na manhã

seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d'esses, muitos

eram recrutas; e a forte flôr do exercito, os veteranos endurecidos, os

capitães de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a collina da

Revolta.

O primeiro cuidado era fortificar a nossa posição. Começámos por

obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da planicie.

Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras.

Accumulámos á orla do planalto montes de pedras para arremessar sobre os

assaltantes. Aqui e além cavámos fossos. E, como todo o exercito

trabalhava, ao fim da tarde a collina fôra convertida em cidadella.

Justamente antes do pôr do sol, vimos um grupo de homens que de uma das

portas de Lú avançava para nós, fazendo soar um tam-tam. Um d'elles

trazia na mão uma palma verde. Era um arauto.

Ignosi, Infandós, dois ou tres chefes, eu e os amigos descemos ao seu

encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moço, com a pelle de leopardo

aos hombros.

--Saude! gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu

saudar áquelles que lhe fazem uma guerra infiel. O Leão envia o seu

saudar aos chacaes.

--Falla! bradei.

--Estas são as palavras do rei:--«Entregai-vos á minha mercê, antes que

a minha forte mão cáia sobre vós!»--Assim disse o rei. Já foi arrancada

ao toiro negro a espadoa direita! Já o rei o anda enxotando

ensanguentado em volta ao acampamento![2]

--Quaes são as condições de Tuala? perguntei por curiosidade.

O arauto declarou que as condições eram misericordiosas e dignas de um

grande rei. Muito pouco sangue o contentaria. De cada dez homens um

seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incubú que matára

Scragga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e Infandós que

preparára a rebellião, seriam postos a tormentos, em sacrificio aos

_Silenciosos_. Taes eram as misericordiosas condições do rei.

Consultei um instante com os chefes, e repliquei, n'um tom estridente

para que todos os soldados ouvissem, por sobre a collina:

--Volta para Tuala que te mandou, oh cão, filho de cão! E dize-lhe em

nome de Ignosi, legitimo rei, e de Infandós, seu tio, e dos homens das

estrellas que apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui juntos,

dize a Tuala--que antes que o sol dê duas voltas o cadaver de Tuala

jazerá hirto e frio no terreiro de Tuala... Vai e treme, oh cão, filho

de cão!

O official riu, com arrogancia:

--Não se assustam homens com palavras inchadas! Ámanhã se verá em que

terreiro e que corpos jazerão hirtos e frios. Adeus pois, homens das

estrellas. Para meu proprio regalo espero que tenhaes o braço tão forte

como tendes ousada a lingua!

Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quasi immediatamente a noite

desceu.

Á luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defeza. Depois, já por

noite alta, quando tudo se completára, o barão, Ignosi e eu,

acompanhados por um dos chefes, descemos a collina a visitar os postos

avançados. Á maneira que caminhavamos, viamos de repente surgir dos

sitios menos esperados, de uma cova na terra, de uma moita de arbustos,

de um montão de rochas, alguma enorme figura emplumada, com a ponta da

azagaia rebrilhando á lua, que, trocada a palavra de passe, logo se

sumia, como dissolvida na sombra das coisas. A vigilancia era realmente

perfeita. Demos assim toda a volta á collina, que tornamos a subir pela

vertente norte, através das companhias de soldados adormecidos. A lua

batia nas lanças ensarilhadas. Aqui e além uma sentinella destacava

immovel, com as suas altas plumas ondeando á brisa fria da noite. E os

robustos homens escuros, estirados no chão, uns contra os outros, no

confuso abandono da fadiga e do somno, formavam como um vasto montão de

humanidade já prostrada e preparada para a sepultura. Quantos d'aquelles

estariam ainda vivos quando na outra noite de novo nascesse a lua?

Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos d'esses tinham alegria e

paz nas suas aringas. Um principe ambicioso passava. E eis que milhares

que alli dormiam um somno tranquillo cahiriam, varados por lanças,

seriam frios cadaveres, desappareceriam em pó impalpavel, sem de si

deixar mais vestigio que folhas de arvores que um vento leva. E nós

mesmos--quem sabe? Tornariamos nós a vêr a lua brilhar n'aquella

collina?

--Barão, disse eu de repente, dando voz a estes pensamentos, sinto-me

n'um lamentavel estado de atrapalhação e de medo.

--O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se...

--Não, não! D'esta vez é serio. Nem sinto as pernas. Nós ámanhã somos

atacados com forças colossalmente superiores e não escapa um de nós. É

estupido! E para que? Não temos nada com as questões dynasticas dos

Kakuanas! Somos estrangeiros, somos neutros!

--É verdade. Mas já agora, estamos envolvidos na aventura e é necessario

leval-a a cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale

morrer de repente, n'uma batalha, que durante mezes na cama!...

Eu pensei commigo (e bem estupidamente) que o melhor era não morrer nem

n'uma cama, nem n'uma batalha. E d'ahi a instantes recolhiamos á nossa

estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande acção.

As Minas de Salomão · 第 9 / 14 段