--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.

O barão deu um longo suspiro.

--Bem! Bem! exclamei logo, para lhe não matar de todo a esperança, e

cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fôr rei teremos então mais

facilidade de procurar o irmão do Incubú, até aos confins do reino, e

nas terras que estão além! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu,

Ignosi, para recuperar a corôa? Porque emfim, meu rapaz, é bom ser rei

de direito divino, mas...

--Não tenho plano. E tu, meu tio Infandós?

Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito.

--Esta noite, disse elle por fim, é a caça aos feitiços. Muitos vão

morrer, e em muitos outros mais recrescerá o odio contra Tuala. Depois

da dança, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispôr de

regimentos. É necessario que os chefes te venham vêr, Ignosi, se

convençam com seus olhos que és o rei. E se elles pozerem as mãos nas

tuas, ámanhã tens vinte mil lanças para combater por ti. Porque a guerra

é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui,

para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa!

N'este momento houve fóra do terreiro um brado, annunciando que se

avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d'elles

trazendo erguida nas mãos uma cóta de malha que rebrilhava como prata e

uma magnifica acha de batalha.

Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o conto da

lança:

--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vêm das estrellas!

--Agradecemos ao rei, volvi eu sêccamente. Ide!

Apenas os homens partiram, examinamos as cótas com grande interesse.

Eram maravilhosas, d'uma malha tão fina, tão cerrada, tão elastica e

macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mãos.

Perguntei a Infandós se eram fabricadas no paiz.

--Não, meu senhor, são coisas que existem ha muito, e que herdamos de

paes para filhos. Já muito poucas restam. Só os de sangue real as podem

usar. E o rei que as mandou é que está muito contente ou que está muito

assustado. Em todo o caso não ha ferro que as atravesse, e bom será,

meus senhores, que as useis esta noite na dança.

Quando Infandós sahiu, ficamos conversando n'este estranho

incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n'uma aventura

politica. Como notou o barão, fôra este decerto, desde a nossa partida

de Natal, um dos dias mais ricos de emoções e surprezas.

--Extraordinario, disse o capitão. Tem de ser registrado no _Livro de

Bordo_.

Chamava elle _Livro de Bordo_ a um Almanach do anno, com folhas brancas

intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa

espantosa empreza.

--Que dia é hoje? perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o

joelho.

--3 de julho.

O barão e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d'ahi a

instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanach:

--É curioso! Ámanhã, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a

Africa! Deve começar ás duas e quarenta minutos... Bom terror vão ter os

pretos!

Escassamente demos attenção áquella noticia: e como o capitão findára de

escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, porque o sol já

descia, e já ia fóra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente

conselho de Infandós envergamos as cótas de malha,--que achamos

confortaveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como

uma pellica: a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costellas com

pregas pouco marciaes.

A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós appareceu, com todas

as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para

nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres á cinta, empunhamos as

achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos.

No terreiro, onde estiveramos de manhã, encontramos a mesma formidavel

parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados

de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto «para as

farejadoras de feiticeiros» (como nos foi explicando Infandós). Não

havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras

de faiscas nos ferros altos das lanças. D'aquella escura massa d'homens,

do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impressão de magestade e

tristeza.

--Está aqui todo o exercito, murmurei eu para Infandós.

--Um terço, não mais, meu senhor. Outro terço ficou nas guarnições. E o

outro está fóra, em torno a palacio, para o caso de sedição, quando

começar a matança...

--Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo?

--Não sei, espero que não... Mas não mostreis medo! E se escaparmos com

vida esta noite--quem sabe? Talvez ámanhã Tuala seja como o raio que

feriu e se apagou.

Iamos no emtanto caminhando, através dos regimentos mais immoveis que

bronzes, para espaço vasio diante da cubata real, onde havia como de

manhã uma fila de escabellos d'honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com

um brilho e ruido d'armas, sahia da aringa real.

--É Tuala, disse baixo Infandós, e Scragga, e Gagula, e os homens que

matam.

Os «homens que matavam» eram uns doze negros gigantescos, de faces

hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e de azagaias

pesadas.

--Bemvindos, gentes das estrellas! gritou logo Tuala abatendo-se

pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E não percamos o tempo

que a noite é curta para as grandes coisas que têm de ser feitas. Olhai

em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jámais tantos valentes

juntos... Mas vêde tambem como elles já tremem, os que abrigam maldade

no seu coração!

--_Começai_! _começai_!--ganiu na sua silvante voz Gagula, que se

agachára aos pés do rei. As hyenas têm fome de ossos, os abutres têm

sede de sangue... _Começai_! _começai_!

Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente,

como um prenuncio de matança e de horror.

O rei então agitou a lança. Immediatamente vinte mil pés se ergueram, e

tres vezes, em cadencia, bateram no chão que tremia. Depois, lá ao

fundo, d'entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto

solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando n'este

estribilho:

--Qual é a sorte, sobre a terra,

De quem teve de nascer?

E os regimentos todos volviam, n'uma unica, grande e rolante voz:

--Morrer!

Mas pouco a pouco, as companhias, umas após outras, foram entoando uma

estrophe da canção, até que toda a vasta multidão armada formava um

côro--côro barbaro, rude, informe, onde todavia por vezes distinguiamos

como conscientes expressões de sentimentos--notas suaves e lentas de

amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de oração. Depois

os cantos varios fundiam-se n'um lamento unico, contínuo, ululado, como

d'um povo n'um funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lugubre

estribilho gemia no ar:

--Qual é a sorte, sobre a terra,

De quem teve de nascer?

E de novo a multidão clamava n'um unisono desolado:

--Morrer!

O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as

mãos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de pés de gazellas:

e, d'entre os profundos renques dos soldados, appareceram correndo para

nós estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quasi todas

velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as costas.

Traziam as faces pintadas ás listas brancas e vermelhas: dos hombros

pendiam-lhe esvoaçando, e misturadas ás madeixas, longas pelles de

serpente: em torno á cinta cahiam-lhe como breloques de ossos humanos

que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mão uma curta

forquilha.

Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o chão com as

forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braços, gritou:

--Mãe, aqui estamos!

--_Bem_, _bem_, ganiu o decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem

claros, Isanusis?

--Bem claros, oh mãe!

--Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis?

--Bem abertos, oh mãe!

--Ide então! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem

mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra

o rei, os que devem morrer por ordem de «cima»! Farejai! vêde os

pensamentos que se não mostram, ouvi as palavras que se não dizem! Ide,

meus lindos abutres! Os homens das estrellas têm fome e sêde de vêr a

grande Justiça! _Agora_!

Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para

todos os lados, através das fileiras armadas. Não as podiamos seguir a

todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a attenção na

que ficou junto de nós, uma velha, esgalgado feixe d'ossos, que deitava

lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados parou

_farejando_. Depois rompeu a dançar, girando sobre si mesma, tão

rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita de

estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por

entre silvos de alegria:--«Já o farejo, o homem do mal! Alli está elle,

o que envenenou a mãe! Acolá treme o que pensou mal do rei!»

E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, até que a

espuma lhe sahia aos flocos da bôca e os ossos lhe rangiam alto! De

repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar,

devagar, como uma fera que rasteja, avançou de forquilha estendida para

a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n'um indominavel

terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado

estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d'um rapaz

soberbamente forte.

Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braços, o empurraram

para defronte do rei. O desgraçado caminhava sem resistencia, inerte, já

morto na alma. O bando dos executores avançára a passos graves:

--Mata! disse o rei.

--Mata! ganiu Gagula.

--Mata! rugiu Scragga.

E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel tombára morto,

com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de

clava.

--_Um_, contou Tuala, sorrindo com satisfação.

Mal findára o feito horrivel, já outro soldado era arrastado como uma

rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de

pelle de leopardo. Dois golpes de facalhão vibrados com destreza

bastaram para o acabar sem um suspiro.

--_Dois_! contou o rei.

E assim até cem! Até _cem_! E nós alli, aterrados, immoveis, impotentes

para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu

findára por fechar os olhos. Á meia noite emfim houve uma suspensão. As

farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o

suor. Respirei, n'um infinito allivio, suppondo que findára todo este

incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza,

descobrimos Gagula, erguida, apoiada n'um cajado, dando alguns passos

que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, vêr

o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude,

ganhando alento, remoçando quasi, já direito, já vibrante, á medida que

se acercava da fileira dos homens, a recomeçar por gosto proprio a obra

sinistra das «farejadoras»! Mas n'ella o estylo era differente. Não

dançava, não uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e além, cantava

baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim

cantarolou, até que de repente se precipitou sobre um magnifico velho,

perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o

cajado. Um murmurio de dôr, de contida indignação, correu entre os

soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois d'elles,

empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o açougue.

Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande

influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalhão e clava--e

Tuala contou _cento e um_!

Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de

macaca, começou a avançar para nós, n'um movimento muito lento de valsa,

que era medonho na repulsiva bruxa.

--Justos céos! murmurou o capitão John, querem vêr que agora é comnosco!

--Tolice! acudiu o barão, pallido todavia.

Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais

perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na bôca.

Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caça.

--Qual será? murmurou o barão.

Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi)

sobre o hombro:

--Morte! gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Está cheio de

maleficio e de traição. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes

que por elle gema em desgraça o reino!...

Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um

cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza:

--Este homem, oh rei, é o servo dos teus hospedes, e quem deseja o seu

sangue é como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que

cumpre aos reis manter, exijo a tua protecção para elle!

Tuala franziu o sobr'olho:

--Gagula, mãe das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe a traição

dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!

--Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o pé no chão, é que

tem de morrer!

--Agarrem-no! bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, já todos

manchados de sangue.

Dois brutos romperam para nós--mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia,

decidido a morrer combatendo.

--P'ra traz, cães! berrei eu, n'um tom tremendo. Tocai n'um só cabello

do homem, e vós mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, não vereis

mais a luz do dia!

E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O barão tinha já o seu erguido

contra um dos carrascos: e John marchára sobre Gagula.

Houve um instante de indizivel assombro.

--Decide depressa, Tuala! gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano

do rewolver.

O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n'um tom surdo:

--Tirai para lá os vossos canos magicos! Invocastes as leis da

hospitalidade, e só por amor d'ellas, não por medo de vós, poupo a vida

a esse cão... Ide em paz.

--Está bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das

estrellas, nada podem os homens da terra!

O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lança. Os regimentos

começaram logo a desfilar.

D'ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando á luz de uma das

curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio é feito de fibra

de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que affirmavamos

todos com convicção, com ardor, era a necessidade e a justiça urgente de

ajudar a conspiração de Umbopa contra um villão como Tuala!

CAPITULO VIII

A GRANDE DANÇA

Já muito tarde, quasi de madrugada, Infandós appareceu, como promettera,

com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A

conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expôr a sua

romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, começou por

tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente

tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado

examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada

a outro.

Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a

fuga com a mãe através do deserto. Os chefes permaneceram calados.

Infandós, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraçou as

matanças d'essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas

illustres, tinham sido trucidados só por possuirem grandes rebanhos que

Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello á razão e ao coração

dos chefes, que só tinham a escolher entre o monstro que por avidez e

capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a

existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados.

Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.

Finalmente, um d'elles, homemzarrão possante, de carapinha branca, deu

um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de

Tuala, e que seu proprio irmão n'essa noite estava sendo pasto das

hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes

afiançava que elles não ergueriam as suas lanças por um impostor? A

guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o

sol que brilha, que o sol que ainda não nasceu. Necessitavam pois uma

evidencia. E quem melhor lh'a poderia dar que os homens das estrellas,

senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e

sabiam decerto os segredos?

--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas

que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e

tomará armas por elle!

--Mas a cobra, o emblema sagrado! exclamei eu.

--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre já depois de elle ser

homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos,

sem um milagre!

Um _milagre_! A situação era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a

tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer

prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os

honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me

para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso

lance.

--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um curto

silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.

Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram

na sombra:

--Temos o eclipse! exclamou o nosso admiravel John.

Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o

_Livro de Bordo_), e que n'esse dia, ás duas e quarenta minutos, devia

ser visivel em toda a Africa.

--Ahi está o milagre! affirmava John. É annunciar aos chefes que para

lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por elle, nós

faremos desapparecer o sol!

A idéa era esplendida. O unico receio é que o almanach estivesse errado.

--Não! É um almanach maritimo, não póde estar errado. Os eclipses são

calculados mathematicamente. Não ha nada mais pontual que um eclipse...

Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta região toda ficará

em trevas.

--Eu, por mim, disse o barão, parece-me que devemos arriscar o eclipse.

--Vá pelo eclipse!

Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da

cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar,

magestosamente, que nós os homens das estrellas não gostavamos de

alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e

confusão... Mas, como se tratava d'uma grande e santa causa, estavamos

decididos a fazer um milagre.

--Escutai! Julgaes vós que um homem póde soprar sobre o sol, e

_apagal-o_?

Os chefes olharam para mim, recuando com assombro.

--Não, murmurou um d'elles, não ha homem que o possa fazer! O sol é mais

forte que toda a terra!

--Perfeitamente, conclui eu. Pois ámanhã, depois do meio dia, nós homens

das estrellas _apagaremos o sol_ durante uma hora, espalharemos trevas

sobre a terra, e será o signal de que Ignosi é o verdadeiro rei dos

Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Será bastante este

milagre?

O chefe da carapinha branca abriu os braços para nós, esgazeado:

--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre será

mais que bastante!

--Bem. Tereis o milagre. Agora Infandós, que é experiente, diga o

momento em que mais convem que nós apaguemos o sol.

--Apagar o sol! murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae

de tudo, que brilha eternamente!

--Falla, Infandós!

--Meu senhor, é na verdade um milagre espantoso que vós prometteis! Mas

emfim... O melhor momento é o da dança das Flôres, que ha de logo

começar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de Lú estão lá, para

dançar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas é, segundo o

costume, morta por Scragga em sacrificio aos _Silenciosos_, as figuras

de pedra que estão além na montanha vigiando. Que os meus senhores

n'esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditará!

--O povo na verdade acreditará! exclamaram todos os chefes.

--A duas milhas de Lú, continuou Infandós, ha uma collina em fórma de

meia lua, que é realmente uma fortaleza, onde estão aquartelados o meu

regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar

de modo que ainda esta manhã cedo marchem para lá tres ou quatro

regimentos dos mais fieis á minha vontade. E se os meus senhores

apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escuridão, fazel-os

sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde

ficarão a salvo e d'onde começaremos a guerra contra o rei.

--Está entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois

combinar com os Espiritos!

Com longas reverencias, Infandós e os chefes deixaram a nossa aringa. O

sol ia nado.

--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. É certo que

podeis fazer esse milagre, ou estaveis vós ganhando tempo e soltando no

ar palavras vãs?

--Parece-me que não nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu

Ignosi, declarei eu sorrindo.

--É espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo

póde! Mas ah, se vós fizerdes isso por mim, o que não farei eu por vós?

--Uma coisa já tu nos podes prometter, Ignosi! acudiu gravemente o

barão. É, se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as

«farejadeiras de feitiços», com matanças como as d'esta noite, e não

consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter

sido julgado pelos doze mais velhos do logar.

Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituição do jury, que este

digno barão queria implantar no centro selvagem da Africa! Não ha senão

um liberal inglez para estas esplendidas imposições de civilisação e de

ordem. Com razão hesitou o astuto Ignosi! Com razão conservou longo

tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n'um rasgo de

generosidade ou de condescendencia:

--Os costumes dos pretos não se podem moldar pelos costumes dos brancos.

Comtudo, uma coisa te prometto, Incubú! É que não haverá no meu reino,

nem matanças de festa, nem execuções sem julgamento. Estás contente?

O barão apertou-lhe a mão em silencio.

D'ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sêccas, e

profundamente dormimos, até que Ignosi nos acordou ás onze horas. O

nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fóra da cubata, olhar

para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu tão brilhante e tão

seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme,

absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder

alterar!

--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a

fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem

querer, com tres honrados homens!

Depois de almoçar, um solido e valente almoço que nos amparasse na crise

imminente, revestimos as cótas de malha, afivelamos os cinturões de

cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dança. E ao

meio dia para lá voltamos os passos--que a inquietação interior e a

certeza do perigo não permittiam que fossem nem bem alegres nem bem

ligeiros!

O terreiro real offerecia n'essa manhã um aspecto bem diverso--e onde na

vespera reinára o horror transbordava agora a graça. Em logar de fuscos

e duros guerreiros, todo o espaço estava occupado por longas filas de

raparigas kakuanas, escuras tambem é verdade, mas lindas, pelas fórmas,

a expressão, a viçosa mocidade. _Toilette_, não tinham nenhuma--nem

mesmo o _panno_, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta

encantadora deficiencia pelo franco luxo das flôres. Todas traziam na

cabeça uma corôa de flôres; grinaldas de flôres, grandes como festões,

envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mãos uma palma verde e

um lyrio branco. Nos escabellos de honra já estava o rei--acompanhado

por Infandós, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula.

Reconhecemos tambem, de pé, por traz d'elle, alguns dos chefes que

n'essa noite tinham comnosco conspirado.

Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo

tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.

As Minas de Salomão · 第 8 / 14 段