E d'ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadiça, entre piquetes de

sentinellas a quem Infandós deu baixo o _santo e senha_, seguiamos

calados pela rua central de Lú, toda ladeada de sombras d'arvores e de

senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos á grade

d'um pateo redondo, com o chão muito batido e duro, todo caiado de

branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de colmo. Eram

alli (segundo declarou Infandós) os nossos «humildes pousos».

Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. Havia dentro um grande

asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxergões de

herva aromatica. Uma esteira tapetava o sólo. Tripeças pintadas

alternavam com frescas vasilhas d'agua. Não podiamos esperar mais

cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavámos, sacudimos o pó, appareceu

logo um bando de raparigas, das mais bellas que até ahi encontraramos no

paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos

de madeira.

Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas

(precaução que encheu de riso as raparigas),--e não tardamos em

adormecer com grata tranquillidade. Acordámos quando o sol ia nado--e a

primeira e aprazivel impressão que recebemos foi a do bando das

raparigas, acocoradas no chão, a um canto, á espera que despertassemos

«para nos ajudar a lavar e a vestir».

Quando uma d'ellas, a mais alta (e que figura! que braços!) fez esta

amavel offerta, o capitão John teve uma exclamação, um gesto d'atroz

desespero:

--Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não tem senão uma camisa e

um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi

por essa cidade... Não! isto não póde continuar! Eu não arredo pé d'aqui

da cubata, senão de calças! Quero as calças!

Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as calças. Mas uma das

raparigas voltou d'ahi a momentos declarando que essas sagradas e

maravilhosas reliquias tinham sido já mandadas ao rei!

O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a

face direita; porque na esquerda não consentimos nós que elle eliminasse

um só pêllo á farta suissa que já lhe crescêra. Aquella cara espantosa,

rapada d'um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raça

sobrenatural. Todos nós, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os

cabellos do barão, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora até aos

hombros, n'uma juba rude, que lhe dava o ar d'um barbaro dos tempos do

rei Olloff.

O almoço já esperava, fóra, no terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas,

primeiramente, quizemos tomar o nosso _tub_, atirar pelas costas alguns

frios baldes d'agua. E o assombro, a desconsolação das raparigas foi

consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando

a porta de vime...

Logo depois do almoço, Infandós appareceu annunciando que el-rei Tuala

nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio.

Declarei immediatamente, com indifferença e altivez, que ainda nos

achavamos cançados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.

Convém sempre, tratando com potentados negros, não mostrar pressa nem

respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que,

apesar da nossa anciedade em vêr o terrivel Tuala, retardámos nas

cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos

presentes que destinavamos ao rei e á côrte: a espingarda do pobre

Venvogel, um bocado de sêda, alguns fios de contas de vidro.

Afinal partimos, guiados por Infandós--e seguidos por Umbopa que levava

as dadivas.

* * * * *

Ao fim d'um curto kilometro, chegámos a um immenso terreiro, com o chão

duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma

estacada baixa. Em redor, fóra da estacada, corria uma fileira de

cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam ás mulheres do

rei: e ao fundo, fronteira á porta por onde entraramos, estendia-se uma

construcção, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de

colmo, que era o palacio real. No recinto não crescia uma arvore: e todo

elle estava n'esse dia cheio de regimentos em fórma, perfilados,

immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os

escudos brancos, as lanças a rebrilhar.

Em frente á cubata real ficava um espaço vasio, com uns poucos de

escabellos de madeira. A convite do bom Infandós occupámos tres d'esses

assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de pé: e assim ficámos á

espera, no meio d'um silencio absoluto, sentindo cravados sobre nós oito

mil pares d'olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e

surgiu d'ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles

de tigre lançado sobre o hombro, e uma azagaia na mão. Atraz d'elle

vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu

uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em

pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeças

de pau. Scragga permaneceu de pé, por traz, apoiado á lança. A velha

macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, e alli se

acocorou lentamente.

O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo.

Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se,

offerecendo ás vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica!

Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda ás

vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beiços muito

grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o

olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente

brilhante, d'um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente

cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saião d'uniforme,

feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma gargalheira d'ouro:

e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no

ar, um tufo esplendido de plumas d'abestruz.

O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d'aquella presença

assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser

Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil lanças faiscaram ao sol.

E de oito mil peitos rompeu, atroando o céo, a grande acclamação

real:--_Krum_! _Krum_! _Krum_!

Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula,

horripilante, e que parecia vir da macaca agachada á sombra:

--Treme e adora, oh povo! É o rei!

E oito mil peitos de novo atroaram o céo, bradando:

--É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo!

E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve

um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixára cahir

o escudo.

Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira:

--Avança tu! berrou, n'um tom trovejante.

Um soberbo rapagão sahiu da fileira, ficou perfilado.

--Cão infernal! rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo?

Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vêm das

estrellas!

--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! acudiu o rapaz cuja pelle

fusca parecia empallidecer.

--Pois, tambem sem querer, vaes morrer!

O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente:

--Eu sou a rez do rei!

--Scragga! bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lança. Vara-me

aquelle cão!

O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e

levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, immovel. Nós nem

respiravamos, petrificados.

«Um, dois, tres!» Scragga soltou a lança. O soldado atirou os braços ao

ar, cahiu morto.

D'entre os regimentos subiu então um longo murmurio que rolou, ondulou,

se esvaiu por fim no silencio.

O barão, livido de indignação, agarrára a espingarda das mãos d'Umbopa.

E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas

estavam á mercê do rei, e que eramos quatro contra todo um reino.

Tuala, no emtanto, sorria sinistramente:

--O golpe foi bom. Arrastem para fóra o cão morto.

Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo.

E então a mesma voz esganiçada, sibilante, horrivel (que evidentemente

era da macaca) cortou o ar:

--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora,

oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita,

a vontade foi feita!

Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de louça, e,

atirando d'elle cal ás mãos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala

permanecia immovel, como um idolo.

Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha.

--Gente branca! disse elle. Gente branca, que vindes não sei d'onde, nem

sei a quê, sêde bemvinda!

--Bem estejas, rei dos Kakuanas! respondi eu, com dignidade.

Houve um silencio, através do qual ficamos immoveis, sentados, com os

olhos cravados no monstro.

--Gente branca, volveu elle, que vindes vós procurar aqui?

--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! Não indagues como, nem para quê.

São coisas muito altas para ti, Tuala.

O rei franziu a face, d'um modo inquietador:

--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... Não

esqueçaes que as estrellas estão longe e a minha vontade está perto...

Póde bem ser que saiaes d'aqui como aquelle que agora levaram.

Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaça. Comecei por lançar

uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada):

--Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brazas que pódes escaldar os

pés! Toca n'um só dos nossos cabellos e a tua destruição está certa. Não

te disseram estes (e apontei para Infandós e para Scragga), que especie

de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como

nós, entre os filhos dos homens?

--Nunca vi, murmurou elle.

--Não te contaram esses como nós damos a morte de longe, através d'um

trovão?

--Não creio! exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me

primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um d'esses homens que estão

além (apontava uma companhia de soldados magnificos junto á porta da

aringa) e eu prometto acreditar!

Repliquei que não derramavamos nunca sangue de homem, senão em justo

castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, através dos

soldados, e antes d'elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre.

O rei rompeu a rir.

--Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar!

--Perfeitamente! exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei,

caminha através do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa

rolarás morto no chão. Ou, se não queres ir tu mesmo, manda teu filho

Scragga.

A isto, Scragga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para dentro da

aringa real.

Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as

nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, á sua escolha--Tuala

ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em

nós, ora no chão. Depois, n'um tom surdo:

--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo!

Dois homens, immediatamente, largaram correndo.

--Barão, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. Não

quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas.

O barão tomou a carabina «Express», e esperou, no fundo silencio que se

alargára. Por fim, á porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por

ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multidão,

o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.

--Agora! gritei ao barão, vendo a vacca de lado e em bom alvo.

Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no coração. De toda a enorme

soldadesca se exhalou um murmurio de admiração e terror.

--Então menti, rei Tuala? exclamei eu, fitando o monstro com altivez.

--Não, é verdade, rosnou elle.

Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana

confiança:

--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence.

Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as

proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a

estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro

voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua propria lança, que

nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!

Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a

lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.

--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua lança

invencivel.

Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e separou-a em

bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.

Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.

--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um presente que te

fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o

usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traição em ti, esse

proprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vacca morta

ou como a lança partida. Aqui tens.

E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma sêcca

antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, devagar.

N'esse instante aquella figura estranha que o acompanhára, e que me

parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata

real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha

caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei,

ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a

envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto

extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher

evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites

conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao

tamanho d'uma facesinha de creança, d'uma creança d'um anno, toda em

rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem

entalhadas em marfim. A bôca já se não via, de sumida, entre o queixo

sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida,

com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça de facto

pareceria a d'um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes não

refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d'aquelle

semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma bola, e a

que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem

o capello.

Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror.

Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois

estendeu lentamente um braço descarnado, a mão sêcca de Parca,

verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, n'uma voz

silvante que regelava:

--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, coisas vivas e

coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro

de mim e eu vou prophetisar!

As syllabas findaram n'um uivo longo e triste. Toda a multidão que

enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas

vezes na Africa os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não

sei que peso no coração. A velha era decerto terrifica.

--_Som de passos, som de passos que vem_! proseguiu ella, com a garra

tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra

que treme sob os passos dos brancos. _Cheiro a sangue, cheiro a sangue_!

São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a

terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os leões lambem sangue

por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!

Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um

grito longo, como uma ululação sepulchral.

--Sou velha! velha! velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vêr

correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes vós que eu

tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os

outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi

muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem no coração.

Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras

nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui

antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando

vos fôrdes como a nuvem de pó que passou!

E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas garras recurvas

estendidas para nós:

--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das

estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que

veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham

que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do coração do branco.

Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas

voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui commigo?

Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas

garras estendidas pareciam querer despedaçar:

--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras aqui? Não as

pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te

conheço! Oh céos! oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo

cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...

Um momento, ficou como esgazeada em face d'Umbopa. E subitamente,

batendo os braços no ar, cahiu no chão, como morta.

Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braços a feiticeira.

Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lançou um gesto:--e uns

após outros os regimentos começaram a desfilar, até que todo o pateo

ficou vasio e rebrilhando ao sol.

Então Tuala voltou-se para nós, com a face pavorosamente franzida:

--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Está-me a parecer que

vos devo matar.

Eu sorri, com superioridade.

--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca?

--Oh gentes, vós ameaçaes o rei! volveu elle, cerrando os punhos.

--Não ameaço. Digo só que tão facil é ás nossas Artes matar uma vacca

como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!

O enorme bruto levou os dedos á testa, reflectindo.

--Ide em paz! disse por fim. Esta noite é a Grande Dança. Vireis e

vereis. Não tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E ámanhã decidirei.

--Está bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto.

E acompanhados por Infandós, recolhemos á nossa aringa.

Quando chegamos ás cubatas, depuz n'um escabello o rewolver, e

voltando-me para Infandós que entrára comnosco:

--O teu rei Tuala é um monstro, Infandós!

O velho guerreiro teve um suspiro.

--Ai de mim! Toda a nação geme com as suas crueldades, meu senhor!

Vereis esta noite. É a grande caça aos feitiços; vem Gagula e _as suas

farejadoras_ farejar, adivinhar quem são, d'entre os guerreiros e o

povo, os que meditam ou já commetteram feitiços e maleficios. Se o rei

appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe

torne infiel, Gagula ou uma das _farejadoras_ aponta para esse homem, e

o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha

vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito á minha experiencia das

armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é cruel, a

terra toda soffre e está cançada d'elle!

--Mas, pela luz das estrellas, porque não depondes vós ou mataes essa

féra?

Infandós encolheu os hombros:

--É o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o coração

mais negro, pesaria sobre nós com mais furor. Se Imotú não tivesse sido

morto, e se Ignosi, o filhinho d'elle, não tivesse acabado tambem no

deserto com a mãe, então havia uma esperança no reino! Mas assim...

De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance

tão romanesco, tão semelhante aos que se lêem nos contos de grande

enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:

--E quem te diz a ti que Ignosi morreu?

Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.

--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? gritou Infandós que,

como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.

Umbopa deu para nós um passo lento:

--Escuta, Infandós. Não é verdade que o rei Imotú foi morto, e que a

mulher e o filho desappareceram? Não é verdade que correu então voz de

ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?

Com um gesto, Infandós concordou.

--Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as montanhas,

atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram

de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram

ter a um povo dos Amazulus que é da raça dos Kakuanas. Escuta ainda! O

filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos

Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos

brancos: trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu coração: e

sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço com elles,

atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de

neve, pisou terra dos Kakuanas--e está na tua presença, Infandós!

E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nú diante de nós,

com os braços abertos, gritando:

--_Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas_!

Infandós precipitára-se sobre elle, com os olhos fóra das orbitas, a

examinar-lhe o ventre onde corria, n'uma tatuagem azul, o desenho d'uma

cobra que lhe dava volta á cinta e juntava a bôca com o rabo logo abaixo

do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se grava a tinta

azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia lá

estava, certamente irrecusavel, porque Infandós cahiu sobre os joelhos,

bradando:

--_Krum_! _Krum_! É o filho de Imotú! É o rei! É o rei!

Umbopa acudiu:

--Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou rei! Mas com a tua

ajuda, e a d'estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois.

Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo

os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o coração

de féra? Dize.

O velho Infandós pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a

ajoelhar diante de Ignosi, pôz a sua larga mão na mão d'elle, e

murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial:

--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mão na tua mão, e até

morrer sou teu homem!

Nós, de pé, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O barão e o

capitão John só muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive

de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu

assombro em exclamações, contemplando Umbopa--quando elle nos

interpellou, com um gesto que começava a ser regio:

--E vós, homens brancos de quem comi o pão? Quereis vós ajudar-me

tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso braço forte. Mas

essas pedras brancas que reluzem, e que vós amaes, se, como rei, eu as

vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta

isto?

Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O barão

franziu o sobr'olho:

--Quartelmar, diga-lhe que um inglez não se vende por diamantes. Mas de

graça, porque sempre o achei leal, porque gosto d'elle, e porque me

appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa

com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu John?

O capitão encolheu os hombros:

--Que lhe havemos nós de fazer? Além d'isso homem que não briga

enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: quero as calças.

Communiquei estas adhesões a Umbopa--que apertou ardentemente as mãos

dos meus dois amigos.

--E tu, Macumazan, mestre da caça, olho vigilante, mais fino que o

bufalo, estarás tu tambem por mim?

Cocei a cabeça, pensativamente:

--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu não gosto de

revoluções... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas

de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro

lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n'esta

jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, ás

ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caçador de elephantes e tenho

de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os

diamantes. Se lhe pudérmos lançar mão, aceito-os, e quantos mais e mais

graúdos melhor! Não é que eu acredite muito n'elles. Mas, se

apparecerem, desde já te prometto que, com licença tua, hei de abarrotar

as algibeiras...

--Tantos quantos puderes levar! exclamou Umbopa radiante.

E já se voltava para Infandós, n'aquelle triumphal enthusiasmo de

pretendente a quem as adhesões affluem--quando eu o interrompi

vivamente:

--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes

perfeitamente, á procura do irmão do Incubú (era a alcunha do barão, em

Zulú). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como

rei para nos ajudar a encontral-o... Começa por te informar agora com

teu tio Infandós.

Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular magestade:

--Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e

como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve já

algum homem branco que, antes d'estes, tivesse vindo á terra aos

Kakuanas?

--Nunca, meu senhor!

--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?

As Minas de Salomão · 第 7 / 14 段