Tudo tem um fim n'este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se

possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel manhã passou: e pelas

tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de

vir) a ser por ella lentamente envolvidos n'aquelle infame buraco.

Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa agua,--que diminuia

terrivelmente, e subira já á temperatura do sangue. E com um esforço

rompemos de novo através da planicie flammejante.

Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do

velho D. José da Silveira, a total extensão do deserto estava fixada em

quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha marcada a meio do

deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da

agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos pouco mais

d'uma milha por hora. Ao pôr do sol parámos á espera da lua. Deixei-me

cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas d'ahi a um

instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito ou nove

milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente

na planicie rasa. Não parecia uma elevação natural de terreno, na sua

semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar

adormeci logo, murmurando: «Que será?...»

Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de cansaço e de sêde.

O andar franco e firme acabára para nós. Era agora um arrastar de passos

quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que

cahiamos para cima da areia, sem força, de coração desmaiado. Nem animo

nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, heroicamente.

John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!

Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d'alma, chegámos

ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d'areia, escura, lisa,

atarracada, da altura d'uns trinta metros, e cobrindo na base duas

geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto

da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um

almude!

Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos,

resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao

meu lado murmurar para si proprio em zulú:

--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra

aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! vida, murmurio que finda!

Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que

confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n'um deserto

d'areia!), adormeci profundamente.

* * * * *

Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a

tortura da sêde!

Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d'um regato d'agua,

muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de

fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e

face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os

beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á

força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda

vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes

uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros

dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco

a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do

regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d'aves, e toda uma

sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho

n'um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto

e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!

Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer,

erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces

resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados.

Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos

a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos

restava uma gota d'agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os

gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa

de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas

o barão arrancou-lh'a das mãos. Beber alcool, n'aquelle estado?... Era a

morte.

--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se

d'aqui á noite não achamos agua!

--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a

poça d'agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n'esta altura

exactamente que elle a achou...

Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no

roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar

n'essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais

pequena e perdida do que uma moeda de prata n'uma praia d'areia? Só por

um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d'accidente do terreno, que,

pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente

attrahisse os olhares e os passos.

A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando

conjecturas, n'esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote

Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, lentamente, como quem

procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o braço

espetado para a terra.

--Que é? exclamámos todos.

E corremos alvoroçadamente.

--Pégadas de corço! bradou elle em triumpho, apontando para o chão.

--E então?

--Corços nunca andam longe d'agua!

--É verdade! gritei eu. E louvado por isso seja Deus!

Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a agua--mas a esperança

d'ella, para breve! E n'uma crise afflictiva como a nossa, uma

esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que

enche logo a alma.

Venvogel no emtanto começára a andar em redor, com o nariz erguido (o

seu largo nariz mais chato que o d'um _bull-dog_), sorvendo o ar quente,

farejando.

--_Cheiro agua_! dizia elle, _cheiro agua_!

E nós todos atraz d'elle, farejando tambem, quasi _já viamos_ a

agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens,

possuem um faro maravilhoso. Mas n'esse instante os grandes raios do sol

que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma tão grandiosa

paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sêde!

Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos

primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o

portuguez chamára os «Seios de Sabá»; e de cada lado d'elles,

estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira

de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel

grandeza e belleza d'aquelle quadro de montanha!

Alli estavam as duas enormes serras que não têm iguaes na Africa, nem

creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil pés

d'altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de

portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima das nuvens. E o que

esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se

como um muro disforme de granito, d'altura de mil pés: as duas serras

formavam como os dois torreões d'uma porta, perdidos nas profundidades:

a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique,

lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configuração d'uma

porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d'uma muralha cercando

uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!

Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois montes «Seios

de Sabá»! Tinham com effeito a fórma perfeita de dois peitos de mulher:

as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n'uma curva dôce e

tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e lisas: e no

cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve,

semelhava exactissimamente a ponta, o bico d'um peito. Prodigiosa

estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, é uma

mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos!

Mas á minha imaginação (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada

n'esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha

estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito mysterio; e a

cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com

fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra

d'Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos

assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes

lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos

mortaes a magestade d'aquelle ádito, que uma vontade divina nos deixára

por um momento entrever. D'ahi a pouco os «Seios de Sabá» estavam

envolvidos de todo, resguardados sob o mystico véo--através do qual só

podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!...

Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares,

estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma

cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a cortina se

descerrava, como n'uma celebração, desvendando aos homens a maravilha

sem par.

Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a mesma

anciosa interrogação--«que fazer?» Venvogel insistia, convencido, que

lhe _cheirava a agua_:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em

redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! Só a areia ondulando,

com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular outeiro onde

pararamos de noite. Avançámos para os lados, em todas as direcções do

vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que furavam a

terra. Nada! Nenhum vestigio d'uma nascente, d'uma poça, d'um charco. Só

areia, arido tojo.

--Idiota! gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, nunca houve

aqui agua!

N'aquella aspera, arida immensidade não parecia, com effeito, haver

possibilidade, nem sequer verosimilhança d'agua... E quanto tempo de

resto poderia durar alli uma «poça salobra», como a que encontrára o

velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias

movediças?

No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas

erguidas e abertas:

--Eu sinto o _cheiro_ d'agua, patrão. Sinto-a no ar!

--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem não duvido que

venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!

O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:

--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O

sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha

direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui

esteve agua!

Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca!

Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome,

meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza

que elle a tivesse encontrado, n'esta deserta immensidade, justamente

quando d'ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse

attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno,

muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina...

Uma collina!

E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu

pensamento:

--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!

--Tolice! acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d'uma

collina! Onde se viu isso?

--Procuremos! disse eu, com um bater de coração que era todo de

esperança.

Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente

estaca, com os braços no ar:

--_Nanzie manzie_! (agua aqui!)

Pulámos para junto d'elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina,

n'uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua

lôbrega--mas agua! Agua! agua! Gritavamos de puro gozo. E n'um momento,

estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos

deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso,

que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber,

arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n'elle, ficámos

horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle

mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.

Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne

sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella

hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados

junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!

Todo aquelle dia tardámos junto da agua, bebendo d'ella, mergulhando

n'ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo

que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d'agua os

estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao

erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n'essa noite. Não

tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a

achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu

e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de

Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a

sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E

ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo

de Sabá!

Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não

havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de

neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos

começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os

passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte.

Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos,

estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e

rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo

a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos

descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos

empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda

nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena

distancia, n'um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa

e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára

alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham

alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens,

porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se

conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos

pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n'alma, pensando que

nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda

aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em

silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é

o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e

grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de

verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.

--É agua, Umbopa? gritava eu pulando por sobre a lava.

--Agua e sustento, Macumazan! exclamava elle agitando no ar a coisa

verde, com effusivo triumpho.

Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n'um meloal, um

enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!

--Melões! uivei eu para os companheiros que corriam atraz.

--Melões! melões! foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.

N'um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n'um melão,

sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de

mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas

o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais

intensa e aguda. Conservavamos ainda o _biltong_, a carne sêcca; mas já

nos enjoava atrozmente: e além d'isso deviamos poupal-a com avaro

cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão

da serra.

N'esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John.

Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta

terrivel evidencia, _a fome_--vi de repente uns oito ou dez grandes

passaros voando em direcção a nós, lentamente.

--Atire, patrão, atire! exclamou baixo o nosso servo hottentote,

acaçapando-se immediatamente no chão.

Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a côr da lava,

não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas,

que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por

cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e esperei

acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um

salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em

montão; e atirando á massa escura, pude facilmente abater um soberbo

bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia

uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho aloirava em cima. Foi

um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e bico!

N'essa noite continuámos a ascensão do monte, á luz da lua, carregados

de melões para a sêde. Á maneira que subiamos, o ar esfriava

consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da

linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua emfim, louvado Deus, já

não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regiões do gelo.

No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar nascentes, quedas

d'agua, um riacho corrente; porque decerto no verão as neves,

derretendo, deviam encher d'agua aquellas encostas. Por onde corria a

agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde descobrimos que (por

uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho

ou em queda, descia pela vertente norte da serra.

A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma

milha por hora. A carne sêcca acabára. Melões, nenhuns mais encontrámos.

O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente

caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora

muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante de nós, cada

vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos momentos de

repouso passavam n'um silencio sombrio e cheio de desesperança. Eu por

mim ia já tão debilitado e confuso, que, d'esses tres dias que nos levou

a ascensão da serra, não me recordo com bastante nitidez--e só poderia

reconstruil-os pelos apontamentos do meu _Diario_. Na nota com data de

22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos meio

desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os pedaços de

neve que começámos a encontrar. Frio intenso. Cada um de nós bebe uma

gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim

conservamos calor. Estamos verdadeiramente _soffrendo de fome_. Julguei

que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite».--Tudo isto é já

terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda

soffrimentos mais vivos:--«Estamos n'uma situação medonha. A não ser que

encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O cognac acabou.

Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde aguentar frio, parece

perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros

dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de torpor no

estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a _porta_, o

colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sabá.

Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... Para que o

atravessamos nós?» Logo abaixo d'estas linhas ha outra, escripta decerto

n'um dos momentos em que paravamos:--«Deus se amerceie de nós, que

chegou o nosso fim!»

Esta linha não tem data, mas sem duvida foi traçada no dia 24. Depois os

apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n'esse

estranho dia. Iamos então caminhando através da neve, com paragens

incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era

radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob

o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto

evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer,

fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol chegámos junto da «ponta do

seio», d'essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da

montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita d'um seio),

parecia ella propria o bico d'esse peito descommunal. Apesar de

exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração d'aquelle esplendido

cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr de rosa em

que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d'uma

carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admiração não podia

durar em homens collocados como nós, a tão extrema visinhança da morte.

O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho

generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d'aquellas

neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir á noite que

vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de

encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n'essa branca e lisa

vastidão de neve?

--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou

o capitão John.

Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados,

esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta.

Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:

--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou á beira d'ella.

O barão, porém, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactidão do

velho D. José da Silveira. «Se elle a achou (argumentava o barão, e com

razão) é que essa cova está situada de tal sorte, tão saliente e tão

visivel, que não póde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de

quem fôr trepando a serra».

--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! affirmou elle com um grande

gesto de esperança.

--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier

sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa aventura. Em todo o

caso, real ou metaphoricamente, _é a cova_!

Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos n'um silencio mortal.

Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de

couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para encolher a

fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei

n'elle que parára, e que me agarrou pelo braço:

--Macumazan, acolá! exclamou surdamente, apontando com o cajado.

O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, subindo, a

primeira encosta do «bico do peito». E ahi na brancura da neve destacava

uma mancha preta.

--É a caverna! exclamou Umbopa.

Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d'um buraco. Para

lá endireitámos os passos. E na realidade encontrámos uma gruta, de

entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. José da

Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E

bemdito era o seu encontro--porque (como succede n'estas latitudes) o

sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d'elle, de golpe, sem crepusculo,

sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. Enfiámos bem depressa para

dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos uns contra os

outros, sentados no chão, costas com costas. E alli ficámos na treva,

mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria.

Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou convencido

que n'aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou

quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de

affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!

Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, durante a

infindavel noite, sentindo a cada instante, através do corpo, começos de

congelação ora n'um pé, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos

apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar

á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas

para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De resto,

n'aquellas condições, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria

eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo

por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade.

As Minas de Salomão · 第 4 / 14 段