Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos

dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por

mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se

tivesse adormecido. As costas d'elle pousavam contra as minhas costas.

Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se

positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes

as repelli. Duas vezes a _pedra_ se abateu sobre mim, mais fria. O ar no

emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa

luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e

fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então para traz

descobri que o pobre Hottentote estava _morto_! Decerto morrera quando o

ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse sentido as

costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findára. Alli

estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em torno dos

joelhos, a cabeça cahida para baixo, _gelado_. Todos nos erguemos de

salto, com horror. Já a esse tempo o dia penetrára na caverna, n'uma luz

mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a

cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que não tinha mais de

quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada n'uma pedra, com a

cabeça toda descahida sobre o peito, os braços hirtos e pendentes para o

chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um _morto_.

Peor ainda, percebi que era um _branco_!

Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam com esta nova e brusca

emoção. Tropeçando uns nos outros, largámos desesperadamente a fugir

para fóra da caverna.

* * * * *

Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os

outros--envergonhados.

--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a

figura que vimos seja a de meu irmão.

Era possivel. E um por um, n'um silencio apavorado, atraz do barão,

tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz

exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava.

Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra.

Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um

suspiro de allivio:

--Não, graças a Deus, não é elle!

Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito

chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d'um

homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e

longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda

esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias

altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha,

pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham

petrificado.

--Quem poderá ser? murmurei, assombrado.

O capitão John contemplava a figura pensativamente.

--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D.

José da Silveira!

Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:

--Impossivel! Ha trezentos annos!

Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. N'uma temperatura como

a da cova, que é a d'uma geleira, um corpo morto póde perfeitamente

conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de

quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de

sol entrára jámais n'aquella cova voltada para noroeste: não havia

animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam

tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia para Londres

dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta dias; e

conservada em iguaes condições, não se deterioraria ao fim de trinta

seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o

encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de o enterrar,

e abalou...

--E olhai! accrescentou o capitão apanhando uma especie de osso da fórma

d'um lapis, e aguçado, que jazia no chão, ao lado. Aqui está com que

elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com esta ponta de

osso!

Passámos o osso de mão em mão, em silencio, esquecendo as nossas

proprias miserias no espanto d'aquelle encontro. Já não podia haver

duvida. Alli estava elle pois, sentado n'uma pedra, frio e duro como

ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais de trezentos

annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o

encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue

riscava o roteiro que d'além-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha!

Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle traçára essas linhas! E

parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os

momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e

de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira;

a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente

lançadas; a penna informe escorregando-lhe da mão; a treva da noite

enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento

dado ainda aos seus, á terra d'onde partira n'um galeão, ao Rei que

servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para

a morte, n'aquelle immenso silencio e na immensa solidão!

Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e

energicas feições do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera

nos braços. Talvez imaginação. Em todo o caso _elle_ alli estava, o

primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallára,

estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de Sabá. Alli

estava; e provavelmente lá está ainda, lá estará, através dos seculos

que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como nós, se

jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria

tumba!

--Vamos embora! exclamou o barão, muito pallido.

Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára na mesma

postura, com os joelhos á bôca, os braços apertados em volta dos

joelhos:

--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n'este esquecimento.

Erguemos então o cadaver de Venvogel e collocámol-o sentado na pedra,

junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou a corrente

que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e guardou o crucifixo no

seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o tenho ao meu

lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com elle o meu

nome.

Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d'outras eras

e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas

eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retomámos em

fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como

elles, gelados e hirtos, n'um barranco da serra.

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á

extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do

peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós,

estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras,

que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso

nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as

camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um

pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras

camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos

famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á

beira d'agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos

pareceram antilopes.

A nossa alegria--foi como a d'uma resurreição. Caça! Alli estava caça

para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era

caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma

rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se deviamos

aproximar-nos da caça ou fazer fogo d'alli, se deviamos usar as

carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel--porque de

acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me

decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o

rebanho. E a carabina «Express», apesar d'um alcance inferior, era

preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam

_algum_ dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou

tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que,

alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando

furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! salvos! De fome

já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo:--e em

poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal,

quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?

--Gente faminta não tem exigencias! gritou excitadamente o capitão John.

A ella, e crúa!

Não restava outra solução--e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as

visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e devorámol-as com

voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne crúa me

soube divinamente! D'ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a

vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim

_sentia_ positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

O barão apertou as mãos, e disse simplesmente:

--Louvado seja Deus por isto!

Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n'um sorriso

mudo. E não havia em nós outra sensação--senão a de estarmos salvos, de

estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no sol, que

subia macio e tepido. Quando acordámos, e esfregámos os olhos, o

nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos appareceu n'um

relance. Demos um grande _ah_, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem

outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e

da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao Paraiso, e que o

Senhor nos ia apparecer!

Estavamos no planalto d'um dos «Seios de Sabá», com um dos «bicos do

peito» erguendo-se por traz de nós até ás nuvens, sublime e brilhante de

neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n'uma

profundidade de cinco mil pés; e para além das derradeiras faldas, a

perder de vista, eram leguas e leguas d'uma terra esplendidamente

fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós como um

immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim

abrangidos n'um relance, davam a impressão d'um paraiso resumido onde

Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente

se póde detalhar uma paizagem tão formosa e vária. Aqui alastrava-se uma

vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos brilhos d'aço

novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde tenro e

claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que

pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as

rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante

entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas

coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensação

prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de

serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava

illimitadamente a alegria do seu fulgor d'ouro.

Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella região tão

rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do deserto. E

depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado

opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no

horisonte azulado.

Nenhum de nós fallava, arrobados na contemplação d'aquella incomparavel

natureza. Por fim o barão estendeu o braço:

--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomão, não

é verdade? Pois lá está, além, para a direita...

E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo

dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos já perdido toda

a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, que, no topo

d'uma montanha, no centro d'Africa, a centos de leguas de toda a

sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com as proporções e

grandeza d'uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os

abysmos.

--O melhor é descermos, disse simplesmente o capitão John.

A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por traz de

grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortámos

para lá, devagar, ora através de grandes espaços de neve, ora por sobre

montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, avistámol-a de

repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha

viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia

começar alli, ao meio da serra, bruscamente. Continuámos a descida

alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas fortes lages. Olhámos,

explorámos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra,

entre umas rochas de lava entremeadas de neve!

--Extraordinario! exclamou o barão. Porque começa esta estrada assim, ou

porque acaba assim, de repente, no meio da serra?

Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia.

--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando o queixo. Esta estrada

é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. Antigamente galgava a

cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para

além, foi coberta por montões de lava, n'alguma erupção: e a parte que

cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. Não póde ser

senão isto.

Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre essa

surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta suave descida

por uma magnifica calçada, com as forças restauradas, e a abundancia a

esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem

differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e

com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na verdade, se não

fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle

espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo d'outras eras, poderiamos

cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se

tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia crescer para

nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era

positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha semelhanças com a

estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira maravilha

maior! N'um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d'uns trezentos pés

de largura, d'uma profundidade de mais de cem pés: pois este abysmo

estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das

torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurança. N'outros

sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios,

com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o abysmo. Mais

adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.

Nas paredes d'este tunnel corriam singulares relevos representando

guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de

combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças em

confusão, e captivos acorrentados.

--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando a cada instante. Tudo

isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada virá de

Salomão. Mas estas esculpturas são das mãos de egypcios.

Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até ás faldas baixas

onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos

silvestres. Depois a estrada penetrava n'um bosque de olmos, uns olmos

cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só existirem no Cabo.

--Estamos ao menos em terra de lenha! exclamou enthusiasmado o capitão

John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já digeri aquella

carne crúa... Reentremos solemnemente na civilisação!

Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direcção

a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem

depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando succulentos bifes

do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de

espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto

accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas arvores,

gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso perfeito.

O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre

seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos

esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e além

cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como velludo

susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E

de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.

Nenhum fallava, no enlevo d'aquella paz e d'aquella doçura. E por muito

tempo nenhum de nós se moveu--até que o capitão John, surgindo de

repente nú do leito espesso de fetos onde se enterrára, correu para o

riacho, e mergulhou n'um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n'um

bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle homem

admiravel, que, apenas se achava n'uma região d'ordem, retomava os seus

complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso

excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se á beira do

regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta

barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o jaquetão,

dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e

desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou ás

botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois besuntou com

gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma apparencia

comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de

monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e mais delicadas

operações. D'um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho

e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba já

grossa d'oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a

cabeça com desconsolação e tédio. Começou então pelas unhas que aparou e

poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente,

com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com

as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o

espelhinho n'um ramo d'arvore. O arranjo não provou satisfatoriamente,

porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o

espelho n'uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mão no sacco

e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! pensei eu erguendo-me no

cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» Ia. Tomando outra vez o pedaço de

gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a escrupulosamente

no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e

principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era porém uma operação

difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d'um

angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade

do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando,

de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabeça.

John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma

margem do regato, a distancia d'uns trinta passos, dei com os olhos n'um

bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta,

e côr de cobre.

Alguns d'elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabeça umas

corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em

frente do bando, um rapaz d'uns dezesete annos conservava ainda o braço

erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d'uma estatua que eu

vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo.

Evidentemente a _coisa_ que passára e brilhára era um dardo--e fôra o

moço airoso que o arremessára.

Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d'entre o

grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como se o

avisasse. Em seguida todos avançaram para nós.

O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os

homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. Percebi logo

que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim

tranquillamente os tres canos erguidos.

--Baixem as armas! gritei aos outros.

Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa gente

selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. Apenas pois os

companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.

--Bem vindo! exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que idioma

entenderiam aquelles homens.

Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, não em Zulú,

mas n'um outro dialecto, tão parecido com o Zulú, que Umbopa e eu o

percebemos perfeitamente:

--Bem vindo!

Como viemos a saber depois, a lingua d'este povo era uma fórma antiquada

da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como o inglez do tempo dos

Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho

avançára outro passo, erguendo a mão.

--D'onde vindes? continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vós as

faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos de nossas

mães?

E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela côr, pelas

feições, era muito semelhante áquelles homens formidaveis. Eu então

repeti a saudação ao velho. E, muito espaçadamente, para que elle

apanhasse bem o meu Zulú:

--Somos gente d'outros sitios, vimos em boa paz, e este homem é nosso

servo.

O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas plumas negras que

ondulavam.

--Mentes! A gente d'outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem

o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas...

Se sois estranhos e vindes d'outros sitios, tendes de morrer, porque não

é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do

nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!

Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens

levarem logo a mão ao cinto d'onde lhes pendiam umas armas em fórma de

pesadas navalhas.

--Que diz esse malandro? perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.

--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.

--Santo Deus! murmurou o nosso amigo.

E, como era seu costume, em frente d'um perigo ou d'uma crise, passou

nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe

succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar

e que tornára a pôr), porque n'um relance lhe vi os dentes todos de

fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o

meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para

traz, em tropel!

--Que foi? exclamei.

--Foram os dentes! acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe

os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez

os assustes.

O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a

bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n'uma ancia de

curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E

foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com

solemnidade:

--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas,

cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle

que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?

--Abra a bôca, John! murmurei eu baixo para o capitão.

John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas,

desdentadas como as d'um recemnascido. Entre os selvagens passou um

susurro d'espanto.

--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! exclamavam elles,

entre si, com gestos apavorados.

Então John deu um movimento vagaroso á cabeça, passou a mão pela bôca

com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os beiços--mostrou

duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, que

rebrilhavam.

As Minas de Salomão · 第 5 / 14 段