O sol ia justamente descendo, n'um grande esplendor de vermelho e ouro.

O barão e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de céo e luz,

quando de repente ouvimos o bramido d'um elephante e vimos, escura sobre

a vermelhidão do poente, uma vasta fórma avançando a galope, de tromba

erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa

horrivel:--o capitão, e Khiva, o serviçal zulú, fugindo para nós n'uma

carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido,

o «Patriarcha» que alli ficára, errando. Agarrámos n'um impeto as

carabinas. Mas quê! Fera e homens, correndo para nós, vinham juntos! Se

disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficámos

n'esta indecisão, com o coração a tremer, quando o pobre capitão

escorrega n'aquelles infames botins de bezerro com que teimava em

trilhar o sertão--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do

enorme elephante que chegava bramindo!

Fugiu-nos a respiração! O pobre camarada estava perdido! Largámos ainda

a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com

effeito--mas d'um modo bem differente. Khiva, o Zulú (valente, heroico

rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a

toda a força contra a tromba do elephante. A fera lança um uivo de dôr,

arrebata o desgraçado Zulú, bate com elle no chão, põe-lhe uma immensa

pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito,

rasga-o--litteralmente _o rasga em dois_.

Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez,

furiosamente--até que o elephante se abateu como um monte sobre os

pedaços sangrentos do Zulú.

Foi um instante de indizivel consternação. Apesar de endurecido por

quarenta annos de caça e carnificinas, eu proprio sentia um «nó na

garganta», e creio que me fiz pallido. O barão tremia todo. E o pobre

capitão torcia as mãos, na dôr de vêr assim despedaçado o servo valente

que dera a vida por elle.

Só Umbopa teve a palavra serena que convinha á disciplina. Veio, com os

seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n'uma poça

de sangue, junto á massa enorme do elephante, moveu a mão no ar e disse:

--Morreu. Bem d'elle, que morreu como um homem!

CAPITULO V

A NOSSA ENTRADA NO DESERTO

Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a serrar-lhe os

dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d'uma arvore enorme, que

destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um «signal»

inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes do

«Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta

arrateis!

O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da collina, com uma azagaia ao

lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada

para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia levantámos o

acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa alma para que

nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--«voltar e

desenterrar este rico marfim!»

Depois d'uma fatigante marcha, cortada d'esses episodios africanos que

todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim á aringa de Sitanda,

ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso «ponto de

partida». Ahi começariam as nossas miserias.

Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita

descia, transmalhada, uma pequena povoação de negros, com curraes de

gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da

agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva

alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a esquerda era o escuro,

silencioso, infindavel deserto.

O nosso acampamento ficou junto d'esse riacho alegre que corria entre

arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas

erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era aquelle o sitio, aquelle o

outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n'uma tarde como esta, a figura

do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, apparecer

cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como então, o globo

do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios flexavam

obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua,

sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, que nos ia

talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em silencio. O ar era

d'uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe,

podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com

laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu

companheiro:

--A entrada das minas de Salomão lá está... Chegaremos nós lá?

N'esse instante senti alguem por traz de nós respirando: era Umbopa, que

trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa

gravidade. Vendo que eu reparára n'elle, deu um passo lento, depois

outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia ter-se

affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:

--É para aquella terra além que tu vaes, Incubú?

_Incubú_ é uma palavra do dialecto zulú, que significa «elephante», e

que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a

audacia d'Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa

de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao patrão, por

lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a um como eu,

pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se dirija sempre pela alcunha

negra--vá ainda! Mas que a atire á face d'um senhor, d'um fidalgo--isso

não!

--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo

comem da mesma gamella!

O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu.

--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao amo que sirvo?

Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas talvez eu

pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão forte como elle, e posso

com elle repartir o que tenho no coração. Sê pois a minha bôca, oh

Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E attende-as tu

tambem, porque em mim só ha verdade!

Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára n'aquelle

tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú tinha a arte de me

impressionar. Além d'isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que

lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia

impudente e ousada.

O barão, porém, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o

Zulú:

--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d'um

homem da minha raça, d'um irmão meu, que atravessou este deserto, e que

eu supponho estar além!

O Zulú moveu lentamente a cabeça:

--Assim é, assim é... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha

dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como nós, levando

um só serviçal... Nunca mais voltaram...

--Quem te disse? perguntei, vivamente. Porque te sahem só agora essas

palavras? Onde te disseram?

Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. Contára-lhe

que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a barba escura: e

que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim.

--São elles! exclamei. Não ha duvida! são elles! Jim conhecia eu bem....

O barão ficou pensativo.

--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou

o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera

d'elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.

O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes,

tornou muito gravemente:

--É uma longa jornada, Incubú.

--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa

emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava

aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem

desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se

puzer n'isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa

nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus

ordenar.

Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:

--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que

enchem bem a bôca d'um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da

herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e

fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para

morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por

mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei

sempre fiel...

Parou. E subitamente rompeu n'uma d'essas rajadas de poesia, frequentes

nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as

testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de

geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo

menos imaginativa.

--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n'aquelle tom

cantado que os Zulús tomam n'esses momentos de exaltação). Que é a vida?

Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d'este mundo, e do

mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para

além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida!

D'onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai

então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro

acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um

momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de

novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que

fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de

inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao

poente!...

Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.

--És um homem bem singular, Umbopa! exclamou o barão, que o escutára

assombrado.

O outro pareceu acordar, sorriu:

--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem vá procurando um

irmão entre as gentes que estão para lá das montanhas.

Olhei para Umbopa, com o sobr'olho franzido.

--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das montanhas?

--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de feitiços, de

jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda

de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, lá verá!

Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não queria revelar.

Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, espalmando as

mãos:

--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! Não abro covas para que

tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o

que sei. Mas a Morte está lá com uma lança, á nossa espera. Melhor te

fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a

fallar.

E meneando a azagaia á maneira de saudação, desceu o comoro, recolheu ao

acampamento--onde d'ahi a instantes o encontrámos limpando uma carabina,

attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e

vontade.

--Homem extraordinario! murmurou o barão.

--Extraordinario de mais! Não gósto nada d'aquelles mysterios... Mas,

emfim, nós estamos mettidos n'uma aventura phantastica, e um Zulú

mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe!

Na manhã seguinte começámos os preparativos para a marcha. Era

impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, todo o

pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados (depois de

debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz

sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era

abandonar as nossas magnificas armas á mercê d'aquelle velho

malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um fulgor de

cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas precauções.

Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n'um

tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se elle lhes

tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro

despedindo um _raio_! Immediatamente (como eu calculára), o Cafre puxou

o gatilho a uma carabina «Express». E o _raio_ partiu. Partiu, com tanta

felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, á

beira d'agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada força

do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em

volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a

impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, olhava para o

chão... Por fim rompeu aos berros:

--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, sobre o

colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós!

Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com

olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma d'aquellas

faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a

toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se nós

morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em

espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, tornar-lhe o gado

bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e

fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios filhos o

amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel do Inferno, com

horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas

nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife

infinitamente supersticioso.

Em seguida combinámos o que nós cinco--o barão, o capitão John, eu,

Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do deserto. Muito

calculámos, muito experimentámos. Não lográmos chegar a um peso menor de

quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui

o que conduziamos:

Cinco espingardas--com a competente munição (quatrocentas cargas);

Tres rewolvers;

Cinco cantis d'agua, de cinco quartilhos cada um;

Cinco mantas;

Vinte e cinco arrateis de _biltong_--que é uma especie de carne sêcca;

Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;

Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d'algibeira, uma enxó, uma

garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.

Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n'uma semelhante

empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem,

por um sol terrivel, através d'um deserto esteril!

Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a

acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás costas uma

larga cabaça d'agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os

cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na

frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos caçar o

abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sêde e de

fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os demonios que

vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de tres facas

de matto e d'uma manta vermelha.

Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao pôr do sol celebrámos

um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de chá--«o ultimo chá,

observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e

longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, esperámos que nascesse

a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa

gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que

parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de pégadas humanas como

o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia

nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na

mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre

perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns passos,

Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente

para o deserto: atraz de nós, n'um grupo, Venvogel, com os tres negros

que levavam as cabaças d'agua, esperavam, direitos e mudos: e nós tres,

os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o coração.

De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com profunda emoção:

--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que homens têm

ousado tentar. O que será de nós, não sei: mas, para bem ou para mal,

juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de

partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde!

Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O capitão John e eu

baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com humildade. Eu por mim,

confesso, nunca fui homem de orações. Caçadores de elephantes, na dura

vida d'Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso,

n'aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais

alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, apesar de

praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem de piedade

e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o braço,--e

com um bello ar de resolução e de esperança:

--Prompto?... Larga!

Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.

Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de

Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço

de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d'esse mappa

rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um

homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A

nossa salvação, n'aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de

agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre

a aldeia d'onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos,

tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para

mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros

n'aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima.

Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos

afiançava que n'esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra

coberta pelas areias movediças?

Era n'isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos

marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e

espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada

meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar

quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que

amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o

silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma

cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de _teus

dôces olhos_, parecia lugubre n'aquella severa immensidade. O engraçado

homem emmudeceu. E seguimos n'uma fila muda através do matto mudo.

Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois

nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e

marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John

desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha

de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como

garupas, galopando através do tojo, entre rolos d'areia. Os negros

atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio

e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando

avistámos John, apparentemente montado n'um potro, fugindo aos galões

para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento

mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no

matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o

caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d'um rebanho de zebras

adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d'uma,

enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas

ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle

sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido,

indignado--mas intacto de pelle e osso.

Depois d'isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite.

Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d'agua (não muitos, nem

largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta

minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante

sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as

estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do

horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz

varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d'uma

tremula refracção d'ouro--e ser dia!

Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol,

nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido

esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos

então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos,

exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada

sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um

pedaço d'areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois

de beber alguns goles d'agua bem contados e de comer uma lasca de

_biltong_, adormecemos deliciosamente.

Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças

já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma

farta tarraçada d'agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos

homens as facas de matto promettidas. D'ahi a instantes vimol-os (não

sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para

o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!

Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor

se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda

avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo

reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a

mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em

qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a

mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu

sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O

derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á

face. E talvez haja moscas no Paraiso.

Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena

que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e

pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol

nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d'agua

dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a

todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada

tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n'aquella immensidade

despovoada. D'esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas

acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um

bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo _fritos_! O sol

por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos

erguemos, de salto, quasi sem respiração.

--Santo Deus! murmurou o barão, sacudindo os enxames de moscas.

--Póde-se chamar a isto calor! gemeu do lado o capitão, que arquejava.

Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta

extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por cima uma vibração

radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar.

--Que se ha de fazer? exclamou o barão. É impossivel aguentar isto!

Olhámos uns para os outros, estupidamente.

--Se abrissemos uma cova? lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e

cobrir-nos com tojo... É uma idéa.

Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já com a enxó, já com as

mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho aproximado d'uma larga cama.

Cortámos uma porção de matto; e alli nos sepultámos, collados como

sardinhas n'uma caixa, todos quatro, o barão, John, eu e Umbopa,--porque

Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi elle que

nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios

perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d'aquella fossa, em

que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! Não

comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos

estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, arquejando

anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os

beiços com uma gota d'agua muito medida! Esta avara medição da agua era

o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa

tentação de sorver d'um só trago os quatro cantis. Mas quê! se a agua

faltasse--breve viria a morte!

As Minas de Salomão · 第 3 / 14 段