--Essas razões, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, snr.

Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou não da aventura,

o tempo dirá. Eu por mim estou decidido a ir até ao cabo, seja qual fôr,

triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer tão cedo, não

me parecia mau que antes d'isso, pelo caminho, arranjassemos uma batida

aos elephantes. Sempre desejei caçar o elephante, e com a perspectiva de

deixar assim os ossos nas serras de Suliman, é prudente que me

apresse... Não é verdade, John?

--Com certeza!... De resto, todos nós vimos já muitas vezes a morte

diante dos olhos. É um detalhe; para que se ha de insistir n'elle?

Viemos á Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus é grande.

--Está tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que chegou a

occasião d'um grog.

Fomos ao grog.

No dia seguinte desembarcámos. Alojei os meus amigos n'uma «barraca» que

possuo na Berea, e a que chamo em dias d'orgulho «a minha casa». É

construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e

uma cozinha. Em redor, porém, está plantado um bom jardim, com

esplendidas arvores e flôres, que um dos meus caçadores, chamado Jack,

traz lindamente tratadas. É um pobre homem a quem um bufalo esmigalhou a

perna na terra dos Sikukunes. Já não póde seguir a caça; mas na sua

qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zulú nunca faria

decentemente. O Zulú tem horror ás artes da paz.

O barão e o seu amigo dormiram n'uma tenda que lhes armei no jardim

(dentro de casa não havia espaço), no meio do laranjal. Aqui em Durban

as laranjeiras têm ao mesmo tempo a flôr e o fructo: de sorte que com o

perfume todo em torno, e o brilho das laranjas côr d'ouro, e o murmurio

d'aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na Europa.

Logo no dia seguinte, sem mais tardança, começámos os preparativos.

Antes de tudo fomos ao tabellião lavrar a escriptura em que o barão se

obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em

Inglaterra as propriedades do barão: mas arranjou-se uma «tangente», e

segura, graças ás artes de um Advogado, que pelos seus serviços

apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de

quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passámos a comprar o

carrão e as juntas de bois. Descobrimos um carrão excellente, com eixos

de ferro, solido e leve, que já fizera uma excursão a Lourenço

Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um

carrão dos que chamamos de _meia-tenda_--isto é, toldado sómente até ao

meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofadões

onde podiam dormir bem duas pessoas: além d'isso suspensões para as

espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco

libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas.

Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma

aventura d'estas, vinte bois não vão de mais. Todos eram de raça zulú, a

mais pequena d'Africa, mas a melhor; e todos elles _salgados_. Chamamos

aqui _salgados_ aos bois já muito jornadeados pelo sul d'Africa, e á

prova portanto da «agua vermelha»--que destroe ás vezes todas as juntas

d'um carrão. Além d'isso, todos tinham sido vaccinados contra a _maleita

de pulmões_, fórma horrivel de pneumonia, que é n'estas terras um

flagello para o gado.

Em seguida organisámos provisões e remedios. Este detalhe demandava

sciencia e cuidado, porque convinha, n'uma empreza tão accidentada, que

nem faltasse o necessario, nem o carrão partisse abarrotado e carregado

em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o capitão John,

que em tempos estudára para medico da Armada, e que (além de possuir,

muito a proposito para nós, um estojo de cirurgia e uma pharmacia de

viagem) conservára conhecimentos genericos e uma toleravel pratica.

Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre

com uma maestria--que fazia appetite vêr! O que o perturbou foi o Cafre

(que observára a operação em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois

para lhe pôr _outro dedo novo_.

Restava emfim a importante questão de creados e armas. Armas tinhamos

por onde as escolher--entre as que eu possuia e a collecção esplendida

que o barão trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois canos para

differentes cargas e differentes caças, tres carabinas Winchester, tres

rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a

creados, depois de muita consulta e reflexão, decidimos limitar o numero

a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviçaes. Boieiro e guia achámos

nós facilmente em dois Zulús, que se chamavam--um Goza e outro Tom. Mas

os serviçaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da paciencia, da

fidelidade, da coragem dos serviçaes poderiam muitas vezes depender as

nossas pobres vidas n'esta aventura sem igual.

Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito

zulú, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para os meus

companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote já eu

conhecia. Era um dos melhores «farejadores de caça» de toda a Africa.

Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito sério consistia na

_bebida_. Mas como iamos para região onde não ha «aguas-ardentes» nem

quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno

Venvogel.

Tinhamos pois dois serviçaes. O terceiro parecia impossivel descortinar.

Tentei, tentei--até que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar,

antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati

e Zukanga. Na vespera porém da nossa partida estavamos jantando, quando

Khiva, o rapaz zulú, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu

portal, á minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapagão muito

esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais

para Zulú. Floreou no ar o cajado á maneira de saudação, encruzou-se

sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. Não

lhe dei logo attenção. Assim se deve proceder com os Zulús. Se o branco

lhes falla com promptidão e agrado o Zulú conclue immediatamente que

está tratando com pessoa _de pouco commando_. Observei no emtanto que

este homem era um _Keslha_, um _homem-de-annel_--isto é, que trazia na

cabeça aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de

sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma _idade

de respeito_ ou attingem nas suas aringas uma posição superior. Tambem

me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella.

--Bem, disse por fim, como te chamas?

--Umbopa, respondeu o homem n'uma voz lenta e grave.

--Estou a pensar que já te vi algures.

--Já, Makumazan!

_Makumazan_ é o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo

meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os

olhos bem abertos.

--Makumazan, continuou o Zulú, viu-me em Izand-luana, na vespera da

batalha...

Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford,

na desgraçada guerra com os Zulús. Por acaso, na vespera da batalha de

Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando

levar para fóra do acampamento uns poucos de carrões de bagagens. Quando

se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troço de

Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o

acampamento não estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento

_trazia cheiro de inimigo_. Respondi-lhe que «dobrasse a lingua», e

deixasse a segurança do acampamento a melhores cabeças que a d'elle.

Pois grande razão tinha o Zulú! Logo n'essa noite o acampamento foi

terrivelmente assaltado... Tudo isso porém vem na Historia.

--Que queres tu? perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que

queres.

--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n'uma

grande expedição, com os chefes brancos que vieram d'além do mar. É

verdadeira a voz?

--Verdadeira.

--Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio

Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de

Manica. É verdade?

Franzi o sobr'olho, descontente de vêr assim tão conhecido o roteiro da

nossa expedição.

--Para que queres tu saber? que tens com isso?

--Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para tão longe, eu quereria

ir comvosco.

Havia uma altivez nas maneiras d'este homem, e especialmente no seu

emprego da expressão «_oh brancos_» em logar de «_oh inkosis_» (chefes),

que me surprehendeu grandemente.

--Estás esquecendo a quem fallas! repliquei. As palavras sahem-te

demasiadas e imprudentes. Como é o teu nome? onde é a tua aringa? É

necessario saber quem temos diante de nós!

--O meu nome é Umbopa. Sou da raça dos Zulús, mas não sou Zulú. O sitio

da minha tribu é muito longe, para o norte: os meus ficaram lá quando os

Zulús desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, antes de Chaka

ser rei. Não tenho aringa. Muitos annos vão que ando errante. Quando vim

do norte era creança. Depois fui dos homens de Cetewayo no regimento de

Nomabakosi. Por fim fugi dos Zulús, e vim para o Natal para vêr as artes

dos brancos. Foi então que servi na guerra contra Cetewayo, e que te

encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto,

quero ir para o norte. O meu logar não é aqui. Não peço soldada, mas sou

valente, e valho bem o pão que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.

Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me

singularmente. Era certo para mim que só dissera a verdade: mas na côr,

nos modos, differia muito do Zulú ordinario; e a sua offerta de vir

comnosco sem soldada, extraordinaria n'um Africano, enchia-me de

desconfiança.

Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes

conselho. O barão pediu-me que mandasse pôr o homem de pé. Umbopa

ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casacão militar

que o envolvia, e ficou diante de nós, mudo, erecto, soberbo, todo nú,

com um simples pedaço de pano em torno dos rins e um fio de garras de

leão enrolado ao pescoço. Era, realmente, um esplendido homem! Tinha

mais de dois metros de altura, e largo em proporção, agil, admiravel de

fórmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia apenas muito

trigueira, como a d'um arabe. Aqui e além, pelo corpo, conservava

cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia.

O barão foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se não

baixaram, e que rebrilharam:

--Gósto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu serviço.

Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zulú:

--Está bem.

Depois, atirando um olhar para a grande estatura e força do branco,

accrescentou:

--Somos dois homens, tu e eu!

CAPITULO IV

OS ELEPHANTES

Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas

que vão d'aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue,

chegámos, pelos meados de maio, a Inyati, não longe da aringa de

Sitanda, onde acampámos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas

d'aquellas que são usuaes em todas as travessias d'Africa e já muito

contadas nos livros. Em Inyati, ultima estação mercante da terra dos

Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) é rei, separámo-nos, com

fundas saudades, do nosso confortavel carrão. Dos vinte bois que

trouxeramos de Durban, só doze restavam. Um morrera da mordedura da

cobra, tres da falta d'agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma

herva venenosa, chamada _tulipa_. Os restantes deixámol-os com o wagon

ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno

Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos

vigiasse o carrão, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados

por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjámos

em Inyati, largámos para o deserto, a pé, em seguimento da nossa

temeraria aventura.

Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pôrmos em marcha

estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo,

decerto, se jámais tornaria a vêr o carrão, os bois e o Missionario. Eu

por mim levava a certeza _que não_. Os primeiros passos foram lentos,

dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente,

rompeu n'um grande canto--uma canção zulú, dizendo d'uns homens que,

cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao

deserto, para achar occupação ou morrer, e que, para além dos sertões,

subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moças, de gado,

de caça, e de inimigos para matar! Esta canção pareceu-nos de boa

promessa.

A quinze dias de marcha de Inyati começámos a atravessar uma região

arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas

de matto que os indigenas chamam _idaro_: e por toda a parte se

estendiam bosques de _machabelas_, arvores que dão um fructo amarello,

enorme, quasi todo caroço, mas deliciosamente fresco e dôce. As folhas e

fructos d'estas arvores são o alimento querido dos elephantes; e decerto

os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos

arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo,

vai assolando.

Uma tarde, depois d'uma caminhada fatigante, chegámos a um sitio

particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro

todo vestido d'arvoredo. Ao pé serpeava o leito sêcco d'um rio,

conservando ainda aqui e além poças de agua crystallina e fria,

espesinhadas em redor pelas largas pégadas de feras. Em frente verdejava

um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e

cheias de flôr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso,

impenetravel.

Decidimos ficar alli e construir um _scherm_, a pouca distancia d'uma

das poças d'agua. O _scherm_ é uma especie de acampamento

entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso

e armando-o circularmente n'uma vasta e rude sebe que fórma defeza. Todo

o espaço interior se aplaina como uma arena: ao centro amontôa-se herva

sêcca, um capim chamado _tambouki_, que serve de divan e de cama; aqui e

além, em volta, accendem-se alegres fogueiras.

Quando acabámos de arranjar o _scherm_--vinha nascendo a lua. O jantar

estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d'uma

girafa, que n'essa tarde, ao fim da sésta, fôra morta pelo capitão John

com um tiro providencial. Mas depois de coração de elephante (a mais

fina delicia que se póde ter), tutano e lombo de girafa são os petiscos

superiores d'Africa, e grandemente os saboreámos sob o esplendor da lua

cheia, que ia alta nos céos. Depois accendemos os cachimbos, e

conversámos no vasto silencio em roda do lume.

Os meus companheiros não se fartavam de contemplar aquella scena de

sertão, familiar para mim, com os meus quarenta annos d'Africa, mas que

a elles só offerecia estranhezas--até na maneira por que as claridades

alumiam, até na maneira por que a noite é silenciosa. Eu por mim,

confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capitão John. Alli

estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em

cima d'um sacco de couro,--tão apurado, tão correcto, tão bem pregado,

como se viesse de passear n'um parque luxuoso de castello inglez, em dia

de caça ao faisão. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com

chapéo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de

pelle de cão, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postiços

rebrilhando em gloria! Nunca o sertão africano vira decerto um homem

mais catita. Até trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha),

de que emmalára na mochila uma escandalosa porção--«por serem leves

(dizia elle), faceis de lavar, e dar logo á gente um ar de asseio e

distincção».

Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e

observando os Cafres, que chupavam a _dacca_ nos seus longos cachimbos

feitos de cornos de _eland_, e que, um por um, se iam enrolando nas

mantas e estirando á beira do lume. Só Umbopa por fim ficou acordado,

longe dos Cafres (a quem geralmente não admittia familiaridades), com o

queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n'uma d'aquellas

abstracções em que por vezes eu o surprehendera desde o começo da nossa

jornada.

De repente, da profundidade do matto, por traz de nós, subiu no ar um

longo e rouco rugido. «É um leão!» exclamei. Todos nos erguemos, a

escutar. Quasi immediatamente, junto á poça d'agua pura, visinha do

nosso _scherm_, resoou como em resposta a estridente trompa d'um

elephante. «_Unkungunlovo_! _Unkungunlovo_!»[1], murmuram á uma os Cafres,

levantando as cabeças das mantas:--e momentos depois avistámos uma fila

de enormes e escuras fórmas, movendo-se devagar da beira da agua para o

matto. O capitão, com um salto, agarrára a espingarda. Tive de o segurar

pelo braço:

--É inutil, não se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir.

--Em todo o caso, disse o barão excitado, este sitio para um caçador é

um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?...

Estranhei: porque até ahi o barão, impaciente, viera-nos sempre

apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo

Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera

alli o carrão em que viera de Bamanguato e se internára no sertão com um

Cafre por serviçal. Mas ouvira o leão, ouvira o elephante--e os seus

instinctos de caçador dominavam, irresistivelmente.

--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado

de divertimento, ter-se-ha; mas ámanhã. Por agora é tratar de dormir, e

erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes

que elle vá aos seus negocios. Toca pois a accommodar.

O capitão John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o

monoculo e os dentes postiços dentro do bolso das calças, dobrou tudo

cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu

_makintosh_, alisou o cabello, tomou um bochecho d'agua, e estirou-se de

lado para dormir, com correcção e conforto. O barão e eu, depois de

contemplar, rindo, estes requintes, embrulhámo-nos simplesmente n'um

cobertor:--e d'ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo,

absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que é a recompensa e a consolação

de quem moureja por estas terras negras.

Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a pé, preparando para a

acção. Tomámos as carabinas, munições abundantes, cantis cheios de chá

frio (que é a melhor bebida, a unica, quando se caça), e partimos,

depois de engolir de pé um almoço breve, acompanhados de Umbopa, de

Khiva e de Venvogel.

Não tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos

elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou

trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastára-se

durante a noite; e eram quasi nove horas, já o calor ardia em céo e

terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d'arvores

esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos

andavam cerca--e seguros. D'ahi a instantes, effectivamente, avistámos o

rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculára),

parados n'uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro

repasto, e sacudindo com lentidão e magestade as suas immensas orelhas.

Era uma vista soberba! Só as ha assim na Africa!

Estavamos separados d'elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de

capim e atirei-o ao ar para tomar a direcção do vento:--porque se um

elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pôr as

carabinas á cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria,

soprava para nós do lado dos bichos: de sorte que rastejámos

cuidadosamente através do matto, mudos, sem respirar, até nos

aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de nós,

e de ilharga para nós, estacionavam tres magnificos elephantes machos,

um d'elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei,

baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o barão

apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capitão ao «Patriarcha».

--Agora! murmurei.

Bum! bum! bum! O elephante do barão tombou redondo, varado no coração. O

meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar

para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando

por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. Á

pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e

findei-lhe misericordiosamente a agonia.

Voltei-me então para vêr o que se passára com o elephante do capitão, o

«Patriarcha», que eu ouvira por traz de mim bramando de dôr e furia.

Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido,

rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um

salto), e seguira, furioso e sem vêr, para a banda do nosso acampamento.

O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado,

através da espessura.

Durante um momento ficámos indecisos entre seguir o «Patriarcha» ferido

ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os

era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma

estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de

primavera. Achal-os, porém, era mais complicado: e tivemos, durante duas

infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os

avistarmos. Lá estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos

machos): e pela inquietação com que se mexiam, pelo constante erguer das

trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam

outro ataque. Um dos machos afastado, á laia de sentinella, vigiava para

o nosso lado, de tromba ameaçadora e alta. Entre elle e nós mediavam

umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e

o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e

homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontámos,

todos tres lhe atirámos. Bum! bum! bum! Morto! Mas os outros partiram,

n'uma desfilada, como collinas rolando.

Infelizmente para elles, logo adiante havia um _nullah_, isto é, uma

ribeira sêcca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique

do lado fronteiro (sitio parecido áquelle em que o Principe Imperial foi

morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em

tropel. Quando chegámos á borda, démos com elles em medonha confusão,

esforçando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta),

empurrando-se uns aos outros, n'um furor e egoismo verdadeiramente

humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era

escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando tão depressa

como carregavamos, démos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o

rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de

galgar a ribanceira, não largassem a fugir ao comprido do leito sêcco

que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os

perseguir, enjoados tambem d'essa vasta mortandade. Oito elephantes

n'uma manhã, antes do _lunch_, é decente.

De sorte que, depois de descansarmos e vêrmos os Cafres cortar os

corações a dois dos elephantes para servir á ceia, voltámos

vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a

proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os

carregadores viriam serrar.

Ao passar no sitio em que o capitão tinha ferido o «Patriarcha»,

encontrámos um rebanho de _elands_. Não lhe atirámos, porque não ha nada

no _eland_ que valha dinheiro, e mantimentos já traziamos, deliciosos e

abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois,

adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flôr, parou; e todos a um

tempo se voltaram, a olhar para nós, espantados.

O capitão nunca vira um _eland_. Quiz aproveitar a occasião, deu a

carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito,

para o tufo de arbustos em flôr. O barão e eu sentámo-nos á espera,

n'uma pedra.

As Minas de Salomão · 第 2 / 14 段