E contou-me então que no interior, muito no interior, descob

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AS MINAS DE SALOMÃO

Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira

Rua da Cancella Velha, 70

RIDER HAGGARD

AS MINAS DE SALOMÃO

Traducção revista

POR

EÇA DE QUEIROZ

PORTO

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON

Casa editora

LUGAN & GENELIOUX, Successores

1891

Todos os direitos reservados

INTRODUCÇÃO

Agora que este livro está impresso, e em vesperas de correr o mundo

largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para

elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia.

Emquanto á Historia, realmente, não pretendi, nem tentei, metter n'estas

paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem á terra

dos Kakuanas. Ha todavia n'esse estranho povo coisas que mereciam exame

detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu

dialecto (tão aparentado com a lingua dos Zulús), o magnifico systema da

sua organisação militar, a sua arte subtil em trabalhar os metaes... Que

interessante estudo se faria, além d'isso, com as lendas que ouvi e

colleccionei ácerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha

de Lú! Que curiosa, tambem, a tradição que entre elles se tem perpetuado

sobre os _Silenciosos_, os dois colossos que jazem á entrada das

cavernas de Salomão! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram o barão

Curtis e o capitão John) que seria mais efficaz contar a historia a

direito, e sêccamente, deixando todas estas particularidades sobre a

região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, n'um tomo

especial, com minudencia e largueza.

Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de

escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e

sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios.

Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei, nem

possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara idéa, as coisas

simples são as mais impressionadoras--e mais facilmente se deve

acreditar e estimar o livro, que venha escripto com séria e honesta

singeleza. _Lança aguda não precisa brilho_, diz um proverbio dos

Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a

apresentar a minha historia, núa, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem

lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da

Eloquencia.

Allão Quartelmar.

AS MINAS DE SALOMÃO

CAPITULO I

ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS

É bem estranho que n'esta minha idade, aos cincoenta e seis annos

feitos, esteja eu aqui, de penna na mão, preparando-me a redigir uma

historia!

Nunca imaginei que tão prodigiosa occorrencia se podesse dar na minha

vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa...

Sem duvida, por a ter começado tão cedo! Com effeito, na idade em que os

outros rapazes ainda soletram nos bancos da escóla, já eu andava

agenciando o meu pão por esta velha colonia do Cabo. E por aqui fiquei

desde então, mettido em negocios, em serviços, em travessias, em

guerras, em trabalhos--e n'essa dura profissão, que é a minha, a caça ao

elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, só ultimamente,

ha oito mezes, _arredondei o meu sacco_. É um bom sacco. É um sacco

graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo sacco! E apesar

d'isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos,

não me arriscava a passar outra vez os transes d'este terrivel anno que

lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pelle intacta e

com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e

ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia pois, é coisa estranhissima que assim me lance a escrever um

livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras--ainda

que, como outro qualquer, aprecio as bellezas da Santa Biblia e gózo com

a _Historia do Rei Arthur e da sua Tavola Redonda_. No emtanto tenho

razões, e razões consideraveis, para tomar a penna com esta mão inhabil

que ha quasi cincoenta annos maneja a carabina. Em primeiro logar, os

meus companheiros, o barão Curtis e o digno capitão da Armada Real John

Good (a quem chamo por habito «o capitão John») pediram-me para relatar

e publicar a nossa jornada ao Reino dos Kakuanas. Em segundo logar,

estou aqui em Durban, estirado n'uma cadeira, inutilisado para umas

semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquelle infernal leão

me traçou a côxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os

annos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que

apanhei a trincadella. É duro que depois de um homem matar, no decurso

da sua honrada carreira, quarenta e cinco leões, seja justamente o

ultimo, o quadragesimo sexto que o file e use d'elle como de tabaco que

se masca. É duro! Quebra a rotina, a estimavel rotina--e para mim,

pessoa d'ordem, qualquer surpreza me sabe peor do que fel). Em terceiro

logar, além d'encher os meus ocios, componho esta historia para meu

filho Henrique, que está em Londres, interno no hospital de S.

Bartholomeu, estudando Medicina. É uma maneira de lhe mandar uma

longuissima carta que o entretenha e que o prenda. Serviço de doentes,

n'uma enfermaria abafada e lobrega, deve pesar intoleravelmente. Mesmo o

retalhar cadaveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e

tedio:--e assim esta historia, onde tudo ha menos tedio, vai por uns

dias levar ao meu rapaz uma saudavel e alegre sensação de aventuras, de

viagens, de força e de vida livre. E emfim, como ultima razão, escrevo

esta chronica, por ser, sem duvida, a mais extraordinaria que

conheço--na Realidade ou na Fabula. Digo «extraordinaria» mesmo para os

Leitores profissionaes de Romances--apesar de n'ella não haver mulheres,

além da pobre Fulata. Ha Gagula, sim. Mas esse monstro tinha cem annos,

pouca fórma humana, e não sensibilisa. Em todas estas duzentas paginas,

realmente, não passa uma _saia_. E todavia, assim escasso como é nas

graças do Feminino, não creio que exista um caso mais raro e mais

captivante.

A unica vez que tive de fazer publicamente uma narração foi diante dos

Magistrados, no Natal, quando depuz como testemunha sobre a morte dos

nossos serviçaes Khiva e Vanvogel. Por essa occasião comecei assim,

muito dignamente, com approvação de todos, com louvores do periodico de

Durban:--«Eu, Allão Quartelmar, residente em Durban, no Natal,

_gentleman_, declaro e juro que...»--Não me parece porém que seja esta a

adequada maneira de principiar um livro. Além d'isso posso eu affirmar,

em typo de imprensa, que «sou um _gentleman_?» O que é um _gentleman_? O

que é ser _gentleman_? Conheço aqui Cafres nús que _o são_: e conheço

cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anneis

d'armas nos dedos, que _o não são_. Eu, pelo menos, nasci

_gentleman_--apesar de me ter volvido depois n'um pobre e simples

caçador de elephantes. Ora, se n'essa carreira e nos acasos que ella me

trouxe, permaneci sempre _gentleman_, não me compete a mim avaliar. Deus

sabe que com valente esforço procurei conservar-me _gentleman_--como

nascera. Tenho morto, é certo, muito homem: mas estas duas mãos, bem

haja a minha fortuna, estão puras de sangue inutil. Matei para que me

não matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como sagrados depositos

que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este

principio: e conto que o bom Deus, um dia, me dirá lá em cima--«_Fizeste

bem, Quartelmar_!» Este mundo, meus amigos, é aspero de atravessar: e os

destinos violentos impõem-se por vezes com uma logica inexoravel. Aqui

estou eu, homem ordeiro, timido, bonacheirão, que, constantemente, desde

creança, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca roubei. Uma

occasião, é verdade, abalei com quatro vaccas que pertenciam a um Cafre.

Mas o Cafre tinha-me rapinado sordidamente--e desde então essas quatro

vaccas trago-as sempre na consciencia. Só quatro vaccas. Pois têm-me

pesado mais que uma manada de gado!

* * * * *

Foi ha dezoito mezes, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens

que deviam ser meus companheiros n'esta aventura singular á terra dos

Kakuanas. N'esse outono, eu andára n'uma grande batida aos elephantes,

para lá do districto de Bamanguato. Tudo n'essa expedição me correu mal,

e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas, larguei para as

minas de Diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei

o carrão e o gado, debandei os caçadores, e tomei a diligencia para o

Cabo. Ao fim d'uma semana, no Cabo, descobri que o Hotel me roubava

infamemente: além d'isso já vira todas as curiosidades, desde o novo

Jardim Botanico que ha de certamente conferir grandes beneficios á

cidade, até ao novo Palacio do Parlamento que, tenho a certeza, não ha

de conferir beneficios nenhuns: de sorte que decidi voltar para o Natal

pelo _Dunkeld_, pequeno vapor costeiro que estava nas docas á espera do

paquete de Inglaterra, o _Edinburgh Castle_. Tomei passagem, e fui para

bordo. N'essa tarde chegou o _Edinburgh Castle_: os passageiros que

trazia para o Natal transbordaram para o _Dunkeld_, e levantamos ferro

ao pôr do sol.

Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o _Dunkeld_, havia

dois que me despertaram logo certo interesse. Um d'elles, um homemzarrão

de perto de trinta e cinco annos, tinha os hombros mais cheios e os

braços mais musculosos que eu até ahi encontrára, mesmo em estatuas.

Além d'isso cabellos ondeados e côr d'ouro; barbas ondeadas e côr

d'ouro; feições aquilinas e de córte altivo; olhos pardos, cheios de

firmeza e de honestidade. Varão esplendido que me fez pensar nos antigos

Dinamarquezes. Para dizer a verdade, Dinamarquezes só conheci um,

moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras: mas lembro-me

de ter admirado um quadro, os _Antigos Dinamarquezes_, em que havia

homens assim, de grandes barbas amarellas e olhos claros, bebendo n'um

bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam á bôca. Este

cavalheiro (vim a saber depois) era um Inglez, um fidalgo, um _baronet_.

Chamava-se Curtis--o barão Curtis. E o que me feriu mais foi elle

parecer-se extremamente com alguem, que eu encontrára no interior, para

além de Bamanguato. Quem?... Não me podia lembrar.

O sujeito que vinha com elle pertencia a um typo absolutamente

differente, baixo, reforçado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo

pelas suas maneiras que tinhamos alli um official de marinha; e

verifiquei depois, com effeito, que era um primeiro tenente da Armada

Real, reformado em capitão-tenente, e por nome John Good. Esse

impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguem mais escarolado, mais

escanhoado, mais engommado, mais envernizado! Usava no olho direito um

vidro, sem aro, sem cordel, e tão fixo que parecia natural como a

palpebra. Nem um só momento o surprehendi sem aquelle vidro, e cheguei

mesmo a pensar que dormia com elle cravado na orbita. Só muito tarde

descobri que á noite o mettia no bolso das calças--no mesmo bolso em que

guardava a dentadura postiça, a mais bella, a mais perfeita dentadura

que me recordo de ter contemplado, mesmo em annuncios de dentistas. E o

capitão, d'estas, possuia duas!

Apenas nos fizemos ao largo, começou o mau tempo. Brisa forte, nevoa

humida e fria. Depois cada solavanco (o _Dunkeld_, barco de fundo chato,

não levava carga) que não se podia arriscar uma passada confortavel na

tolda. De sorte que me recolhi para junto da machina, onde fazia um

calorzinho sereno, e alli fiquei olhando para o pendulo, que marcava,

com desvios largos, o angulo de balanço do _Dunkeld_.

--Pendulo errado, rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da

noite que cahia.

Olhei. Era o official de marinha.

--Errado, hein?... Acha? perguntei.

--Acho o que?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pendulo, não se

tornava mais a levantar... Aqui está o que eu acho. Mas é sempre assim,

com estes capitães de marinha mercante...

Felizmente, n'esse instante, tocou a sineta ao jantar, com immenso

allivio meu--porque se ha, sob a cupula dos céos, uma coisa temerosa, é

a loquacidade d'um official da marinha de guerra, desabafando sobre a

inepcia dos officiaes da marinha mercante. Peor do que essa coisa

temerosa--só a coisa inversa!

O capitão John e eu descemos juntos para o salão. O barão Curtis já lá

estava, no topo da mesa, á direita do commandante do _Dunkeld_. John

accommodou-se ao lado do seu companheiro: eu defronte, onde havia dois

talheres desoccupados. Logo depois da sopa o commandante, com a

lamentavel mania dos homens de mar, começou a fallar de caça.

Primeiramente de caça miuda, de condores e de abutres. Depois passou a

elephantes.

--Ah! commandante (exclamou ao lado um patricio meu, de Durban), para

elephantes temos presente uma grande auctoridade... Se ha homem em

Africa que entenda de elephantes é aqui o nosso companheiro e amigo

Allão Quartelmar.

Por acaso, n'esse momento, eu pousára os olhos no barão Curtis; e notei

que o meu nome, assim pregoado com a minha profissão, lhe causára emoção

e surpreza. John cravou tambem em mim o seu vidro, com uma curiosidade

que faiscava. Por fim o barão inclinou-se, através da mesa, e n'uma voz

grave e funda, bem propria do robusto peito d'onde sahia:

--Peço perdão, disse, mas é porventura ao snr. Allão Quartelmar que me

estou agora dirigindo?

--A elle proprio.

O homemzarrão passou a mão pelas barbas,--e distinctamente, muito

distinctamente, o ouvi murmurar: «Ainda bem!»

Não se passou mais nada até ao dôce. Mas fiquei ruminando aquelle

espanto e aquelle «ainda bem!»

Depois do café, enchia o meu cachimbo para subir á tolda, quando o

barão, com os seus modos sérios e lentos, se adiantou para mim, e me

convidou «a passar ao seu beliche, tomar um grog, e conversar...»

Aceitei. O barão occupava um camarote de tolda, o melhor do _Dunkeld_,

espaçoso, arejado, com um sofá, espelhos, e duas largas cadeiras de

verga. O capitão John viera tambem. Todos tres nos sentamos, accendendo

os cachimbos, emquanto o moço corria pelos grogs.

Houve primeiramente um silencio. Outro creado entrou, a accender o

candieiro. Por fim appareceram os grogs.

O barão Curtis então passou a mão pelas barbas, n'esse geito que lhe era

costumado, e voltando-se bruscamente:

--Diga-me uma coisa, snr. Quartelmar... Aqui ha dois annos, por este

tempo, esteve n'um sitio chamado Bamanguato, ao norte do Transwaal. Não

é verdade?

--Perfeitamente, respondi eu, pasmado de que aquelle cavalheiro se

achasse, no seu condado, em Inglaterra, tão bem informado das jornadas

que eu fazia no sul d'Africa!

--A negocio, hein? acudiu o capitão John.

--Sim, senhor, a negocio. Levei uma carregação de fazendas, acampei fóra

da feitoria, e lá fiquei até liquidar.

O barão conservou durante um momento pregados em mim os seus olhos

cinzentos e largos. Pareceu-me que havia n'elles anciedade e temor.

--E diga-me, encontrou ahi, em Bamanguato, um homem chamado Neville?

--Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a

descançar o gado antes de metter para o norte. Aqui ha mezes recebi eu

uma carta d'um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito

d'esse sujeito... Respondi como pude...

--Bem sei! atalhou o barão. Li a sua resposta. Dizia o snr. Quartelmar

que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no principio de maio,

n'um carrão, com um serviçal e um caçador cafre chamado Jim, tencionando

puxar até Inyati, ultima estação na terra dos Matabeles, para de lá

seguir a pé, depois de vender o carrão. O snr. Quartelmar accrescentava

que o carrão decerto o vendera elle, porque seis mezes depois vira-o em

poder d'um portuguez. Esse portuguez não se lembrava bem do nome do

homem a quem o comprára. Sabia só que era um branco, e que se mettera

para o matto com um Cafre...

--É verdade, murmurei eu.

Houve outro silencio, que eu enchi com um sorvo ao grog. Por fim o barão

proseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e anciosos:

--O snr. Quartelmar não sabe quaes fossem as razões que levavam assim

esse sujeito Neville para o norte?... Não sabe qual era o fim da

jornada?

--Ouvi alguma coisa a esse respeito, murmurei.

E calei-me prudentemente, porque nos iamos avisinhando d'um ponto em

que, por motivos antigos e graves, eu não desejava bolir.

O barão voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar. O

outro, por entre a fumaraça do cachimbo, baixou a cabeça, n'um _sim_

mudo. Então o meu homemzarrão, decidido, abriu os braços, desabafou:

--Snr. Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidencia! Vou-lhe mesmo pedir o

seu conselho, e talvez o seu auxilio... O agente que me remetteu a sua

carta afiançou-me que eu podia confiar absolutamente no snr. Quartelmar,

que é um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado como nenhum em

toda a colonia do Natal.

Dei um sorvo tremendo ao cognac, para esconder o meu embaraço--porque

sou extremamente modesto.

--Snr. Quartelmar, concluiu o barão, esse sujeito chamado Neville era

meu irmão.

--Ah! exclamei.

Com effeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o barão se parecia!

Era com esse Neville. Sómente o outro tinha menos corpo, e a barba

escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma decisão.

--Era meu irmão, continuou o barão. Meu irmão mais novo, e unico. Até

aqui ha cinco annos, vivemos sempre juntos. Depois um dia,

desgraçadamente, tivemos uma questão, uma terrivel questão. E, para lhe

dizer a verdade toda, snr. Quartelmar, eu comportei-me para com meu

irmão da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do despeito, da cólera,

é certo... Mas em summa comportei-me injustamente.

--Cruelmente, murmurou do lado o capitão John, que fumava com os olhos

cerrados.

--Cruelmente, com effeito. Como o snr. Quartelmar sabe, em Inglaterra,

quando um homem morre sem testamento e não tem senão bens de raiz, tudo

passa para o filho mais velho. Ora succedeu que meu pai morreu

exactamente quando meu irmão Jorge e eu estavamos assim de mal. Herdei

tudo; e meu irmão, que não tinha profissão, nem habilitações, ficou sem

real. O meu dever, está claro, era crear-lhe uma situação independente.

É o que todos os dias se faz em Inglaterra, n'esses casos. Mas por esse

tempo a nossa questão estava em carne viva. Eu não lhe offereci nada.

Elle tambem, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim ficámos, de

longe, eu rico e elle pobre... Peço perdão de o fatigar com estes

detalhes, snr. Quartelmar, mas preciso pôr as coisas bem claras... Não é

verdade, John?

--Escrupulosamente claras! acudiu o outro. De resto o nosso amigo

Quartelmar guarda para si esta historia...

--Pudera! exclamei.

--Pois bem, continuou o barão, meu irmão possuia de seu, n'essa época,

umas duzentas ou trezentas libras. Um bello dia, agarra n'esta miseria,

toma o nome de Neville, e abala para Africa a tentar fortuna! Eu só o

soube tarde, mezes depois d'elle ter embarcado. Passaram tres annos.

Noticias d'elle, nenhumas. Comecei a andar inquieto. Escrevi-lhe.

Naturalmente as minhas cartas não lhe chegaram. E eu cada dia mais

afflicto! Para o snr. Quartelmar comprehender tudo bem, deve saber que,

desde pequeno, desde o berço, meu irmão foi a forte e grande affeição da

minha vida. E por outro lado a nossa questão, assim amarga e aspera por

sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de quê? D'uma mulher.

D'uma mulher cujo nome já quasi me esqueceu. E meu pobre irmão, coitado,

se ainda é vivo, não se lembrará mais que eu. Ora aqui tem! E já por

isto o snr. Quartelmar comprehende...

--Perfeitamente, perfeitamente...

--Pois bem, descobrir meu irmão passou a ser a minha idéa constante, dia

e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquizas. Um dos

resultados, o mais importante, foi a sua carta, snr. Quartelmar.

Importante porque me dava a certeza que, mezes antes, meu irmão estava

na Africa, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente,

continuar as pesquizas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, não

têm o interesse de coração: é com o coração justamente que eu conto, com

a perspicacia, a inspiração especial que elle ás vezes possue. De resto

sempre tencionei visitar as nossas colonias d'Africa... E aqui tem o

snr. Quartelmar a minha historia. O mais extraordinario, é que o

tivessemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irmão

vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia a dirigir apenas chegasse ao

Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou,

prompto para tudo, com o meu velho amigo, o capitão John, companheiro

fiel de muitos annos, que teve a dedicação de me acompanhar.

O outro encolheu os hombros, sorrindo, com a sua esplendida dentadura.

--Não havia n'este momento nada interessante a fazer na velha Europa!...

Gasta, insipidissima, a velha Europa!

Depois, reenchendo o cachimbo, accrescentou muito sério:

--E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos trazem

á Africa, e o interesse que nos prende a esse homem chamado Neville,

espero da sua lealdade que não terá duvida em nos dizer tudo o que sabe,

ou tudo que ouviu, a respeito d'elle. Hein?

Impressionado, respondi:

--Não tenho duvida, por ser questão de sentimento.

CAPITULO II

PRIMEIRA NOTICIA DAS MINAS DE SALOMÃO

Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mão, e comecei, muito devagar,

para tudo pôr bem claro e bem exacto:

--Aqui está o que ouvi a respeito d'esse cavalheiro Neville. E isto, que

me lembre, nunca, até ao dia d'hoje, o disse a ninguem. Ouvi que esse

cavalheiro fôra para o interior á busca das minas de Salomão.

Os dois homens olharam para mim, com assombro:

--As minas de Salomão!? Que minas?... Onde são?

--Onde são, não sei. Sei apenas onde _dizem que estão_. Aqui ha annos vi

de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de

muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas milhas

de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguem (quero

dizer, homem branco) que o atravessasse, a não ser um, n'outras éras.

Porque toda esta historia vem muito de traz, de ha seculos! Eu não tenho

duvida em a contar, mas com uma condição: é que os cavalheiros não a hão

de transmittir sem minha auctorisação. Tenho para isso razões, e fortes.

Estão os cavalheiros de accôrdo?

--Com certeza!

Narrei então longamente tudo o que sabia, historia ou fabula, sobre as

minas de Salomão. Foi ha trinta annos que pela primeira vez ouvi fallar

d'estas minas a um caçador d'elephantes, um homem muito sério, muito

indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas através d'Africa,

tradições e lendas singularmente curiosas. Tinha-me eu encontrado com

elle na terra dos Matabeles, n'uma das minhas primeiras expedições ao

interior, á busca do elephante e do marfim. Chamava-se Evans. Era um dos

melhores caçadores d'Africa. Foi estupidamente morto por um bufalo, e

está enterrado junto ás quedas do Zambeze.

Pois uma noite, sentados á fogueira, no matto, succedeu mencionar eu a

esse Evans umas construcções extraordinarias com que casualmente dera,

andando á caça do _koodoo_ por aquella região que fórma hoje o districto

de Lydenburg no Transwaal. Essas obras foram depois encontradas, e

aproveitadas até, pela gente que veio trabalhar as minas d'ouro. Mas

ninguem (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era

uma estrada enorme, magnifica, cortada na rocha viva, levando a uma

galeria sem fim, mettida pela terra dentro, toda de tijolo, e com

grandes pedregulhos de minerio d'ouro empilhados á entrada. Obra

extraordinaria! E a raça que a fizera--desapparecera, sem deixar um

nome, nem outro vestigio de si, além d'aquella estrada e d'aquella

galeria, que revelavam um grande saber, uma grande industria e uma

grande força!

--Curioso! murmurou Evans. Mas conheço melhor!

E contou-me então que no interior, muito no interior, descobrira elle

uma cidade antiquissima, toda em ruinas, que tinha a certeza de ser

Ophir, a famosa Ophir da Biblia. Lembro-me bem a impressão e o assombro

com que eu escutei a historia d'essa cidade phenicia perdida no sertão

d'Africa, com os seus restos de palacios, de piscinas, templos, de

columnas derrocadas!... Mas depois Evans ficára calado, scismando. De

repente diz:

--Tu já ouviste fallar das serras de Suliman, umas grandes serras que

ficam para além do territorio de Machukulumbe, a noroeste?

--Não, nunca ouvi.

--Pois, meu rapaz, ahi é que Salomão verdadeiramente tinha as suas

minas, as suas minas de diamantes!

--Como se sabe?

--Como se sabe!? Tem graça! Sabe-se perfeitamente. O que é _Suliman_

senão uma corrupção de _Salomão_? O nome das serras, realmente, sempre

foi _serras de Salomão_. Além d'isso, uma feiticeira do districto de

Manica, uma velha de mais de cem annos, contou-me tudo... Isto é,

contou-me que para lá das serras vive um povo que é da raça dos Zulús, e

falla um dialecto zulú: mas como força, e corpulencia, e coragem, vale

mais que os Zulús. Pois n'esse povo ha videntes, grandes feiticeiros,

que de geração em geração têm trazido o segredo d'uma mina prodigiosa,

que foi d'um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje está cheia de

pedras brancas que reluzem... De sorte que não ha duvida nenhuma.

Para mim havia toda a duvida. As minas d'Ophir interessavam-me, como da

nossa crença e da Biblia: mas das minas de _pedras brancas que reluzem_,

conhecidas em segredo por feiticeiros zulús, teria certamente rido se

não fôra o respeito devido a um caçador tão digno como Evans. De

madrugada Evans partiu, a acabar tristemente nas pontas d'um bufalo. E

não pensei mais em Salomão, nem nas suas minas de diamantes.

Aqui ha vinte annos porém, n'um encontro muito singular que tive no

districto de Manica, de novo ouvi fallar das minas de Salomão, e d'um

modo que para sempre me devia impressionar. Era n'um sitio chamado a

«aringa de Sitanda». Não ha peor em toda a Africa. Fructa nenhuma, caça

nenhuma, tudo sêcco, tudo triste--e os pretos vendem os ossos d'um

frango por fazenda que vale uma vacca.

Apanhei lá um ataque de febre, e estava fraquissimo, enfastiadissimo,

quando me appareceu um dia um portuguez de Lourenço Marques, acompanhado

por um serviçal mestiço. Entre os portuguezes de Lourenço Marques--ha

soffrivel e ha pessimo. Mas este era dos melhores que eu vira--um homem

muito alto e muito magro, de bellos olhos negros, os bigodes já

grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram pensar

nos velhos fidalgos portuguezes que aqui vieram ha seculos e de que

tanto se lê nas historias. Conversámos bastante n'essa noite, porque

elle fallava um bocado de mau inglez, eu um bocado de mau portuguez; e

soube que se chamava José Silveira, e que possuia uma fazenda ao pé da

cidade, em Lourenço Marques.

Na manhã seguinte, cedo, antes de partir com o mestiço acordou-me para

se despedir, de chapéo na mão, cortez e grave como os antigos, os que

tinham _Dom_.

--Até mais vêr, camarada!

--Boa viagem! até mais vêr!

O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que

rebrilhavam. Depois accrescentou muito sério:

--Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica

d'este mundo! E póde contar, camarada, que não me hei de esquecer de si!

Nem ri. Estava muito debilitado para rir. Fiquei estirado na manta

olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabeça alta

e cheia de esperança, se mettia pelo matto dentro.

Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no

chão defronte da barraca, rilhando a ultima perna d'um d'esses frangos

que os pretos me vendiam por chita do valor d'uma vacca, e pasmando para

o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto--quando de repente

avistei, escura sobre a vermelhidão do poente, n'uma elevação de

terreno, a figura d'um homem que era certamente europeu porque trazia um

casacão comprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos n'elle, o

homem oscilla, cae de bruços e começa a arrastar-se pelo chão,

lentamente! Com um esforço desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo

comoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e

ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos

meus caçadores que acudisse. E quando elle voltou, amparando o homem nos

braços--quem hei de eu vêr? O José Silveira!

José Silveira--ou antes o seu miseravel esqueleto, com todos os ossos

rompendo para fóra da pelle, mais sêcca que pergaminho e amarella como

gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara, á maneira de dois bugalhos

de sangue. E o cabello que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo

branco como uma bella estriga de linho.

--Agua! gemeu elle. Agua, pelas cinco chagas de Christo!

O infeliz tinha os beiços horrivelmente estalados, e entre elles a

lingua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe agua com leite, de

que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi

necessario arrancar-lhe a vasilha. Depois cahiu de costas, rompeu a

delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de

Suliman, os diamantes e o deserto!

Levei-o para dentro da tenda: e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que

podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite socegou. Eu,

esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz,

dou com elle (fórma sinistra!) de joelhos, á porta da barraca, de olhos

cravados para o longe, para o deserto! N'esse instante, um raio de sol

que nascia frechou através do vasto descampado, e foi bater ao fundo, a

cem milhas de nós, o pico mais alto das serras de Suliman. O homem

soltou um grito, atirou desesperadamente para diante os dois braços de

esqueleto:

--Lá estão ellas, Santo Deus, lá estão ellas!... E dizer que não pude lá

chegar! Parecem tão perto! Logo alli, uns passos mais... E agora

acabou-se, estou perdido, ninguem mais póde lá ir!

De repente emmudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, a face

livida e como esgazeada por uma idéa brusca.

--Ó camarada, onde está vossê?... Já o não distingo, vai-me a fugir a

vista!

--Estou aqui; socegue, homem.

--Tenho tempo para socegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a

morrer. Vossê tem sido bom commigo, camarada... E para que havia eu de

levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguem se aproveita!

Talvez vossê lá possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto que

matou o meu pobre creado, que me está a matar a mim...

Começou então a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou

por fim uma especie de bolsa de tabaco, já velha, apertada com uma

correia. Estava tão fraco que as suas pobres mãos nem puderam desfazer o

nó. Fez-me um gesto, um gesto exhausto, para que eu o desatasse. Dentro

havia um farrapo de linho amarellado, com linhas escriptas, n'um tom

antiquissimo, de côr de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel

dobrado.

--O papel, murmurou elle n'uma voz que se extinguia, é a cópia do que

está escripto no trapo. Levou-me annos a decifrar, a entender... Foi um

antepassado meu, um dos primeiros portuguezes que vieram a Lourenço

Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acolá n'aquellas

serras. Chamava-se D. José da Silveira, e já lá vão trezentos annos...

Um escravo que ia com elle, e que ficára a esperar, do lado de cá do

monte, vendo que o amo não voltava procurou-o, foi dar com elle morto, e

trouxe para Lourenço Marques o bocado de linho que tinha letras. Desde

então ficou guardado na nossa familia. Ha trezentos annos! E ninguem

pensou em o decifrar até que eu me metti n'isso... Custou-me a vida. Mas

talvez outro consiga. Talvez outro chegue lá, ás malditas serras! Será

então o homem mais rico d'este mundo! O mais rico, o mais rico! Tente

vossê, camarada... Não dê o papel a ninguem! Vá vossê!

As ultimas palavras sahiram como um debil sopro. Cahiu de costas,

recomeçou a delirar. D'ahi a uma hora tudo acabou, Deus tenha a sua alma

em descanço! Morreu serenamente, sem esforço e sem dôr. Por minhas mãos

o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do

peito. Ao menos assim não darão com elle os chacaes.

Foi ao pé da cova, onde o desgraçado jazia, que examinei o documento.

Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado d'uma fralda de camisa e

do tamanho d'um palmo. No topo tinha os traços de um mappa, ou de um

roteiro, rapidamente e toscamente lançados. Era pouco mais ou menos

isto:

[Figura]

Por baixo vinham linhas escriptas, n'uma letra muito antiga e côr de

ferrugem. Para mim eram inintelligiveis. Mas o papel continha a

decifração, e dizia assim:

«Estou morrendo de fome, n'uma cova da banda norte d'um d'estes montes a

que dei o nome de «Seios de Sabá», no que fica mais a sul. Sou D. José

da Silveira, e escrevo isto no anno de 1590, com um pedaço d'osso, n'um

farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui

voltar, reparar n'este escripto, e o levar para Lourenço Marques, que o

meu amigo [_aqui um nome illegivel_], logo pela primeira nau que passar

para o Reino, mande estas coisas ao conhecimento d'El-Rei, para que Elle

remetta uma armada a Lourenço Marques, com um troço de gente, que se

conseguir atravessar o deserto, vencer os Kakuanas que são valentes, e

desfazer os seus feitiços (devem vir muitos missionarios) tornarão Sua

Alteza o mais rico Rei da Christandade. Com meus proprios olhos vi os

diamantes sem conto amontoados n'um subterraneo que era o deposito dos

thesouros de Salomão, e que fica por traz d'uma figura da Morte. Mas por

traição de Gagula, a feiticeira dos Kakuanas, nada pude trazer, apenas a

vida! Quem vier siga o mappa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem

o Seio de Sabá, o esquerdo, até chegar ao cimo, d'onde verá logo, para o

lado norte, a grande calçada feita por Salomão. D'ahi siga sempre, e em

tres dias de marcha encontrará a aringa do rei. Quem quer que venha que

mate Gagula. Rezem pelo descanço da minha alma. Que El-Rei Nosso Senhor

seja logo avisado. Adeus a todos n'esta vida!»

Tal era o extraordinario documento que textualmente li ao barão Curtis e

ao capitão, porque trazia sempre commigo (e ainda trago) uma traducção

d'elle, em inglez, na carteira.

Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por

fim o capitão, com o leve suspiro de quem repousa d'uma prolongada

emoção, bebeu um trago de grog--e mais sereno:

--O nosso amigo o snr. Quartelmar não nos tem estado a intrujar?

Metti com força o papel na algibeira, e, erguendo-me, repliquei

sêccamente:

--Se os cavalheiros assim pensam, não me resta mais nada senão

desejar-lhes muito boas noites!

O barão acudiu, pousando-me no hombro a sua larga mão:

--Pelo amor de Deus, snr. Quartelmar! Nem John, nem eu duvidamos da sua

veracidade. Mas, emfim, tenho ouvido dizer que aqui na colonia é coisa

corrente e bem aceita troçar um pouco os que chegam, os _novatos_

d'Africa... E depois essa historia é tão extraordinaria!

Insisti, ainda offendido:

--O original escripto pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o

em Durban! Será a primeira coisa que lhes hei de mostrar em chegando!...

Não ha uma palavra...

O barão atalhou gravemente:

--Toda a palavra do snr. Quartelmar é coisa séria, e como tal a tomamos.

Durante um momento ficámos calados. Eu serenei. Por fim o barão, que

dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante de

mim:

--E meu irmão? Como soube o snr. Quartelmar que meu irmão tentou tambem

essa jornada ás minas?

Narrei então o que me succedera com esse sujeito Neville, quando

estavamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu não o conhecia; nem

então começámos relações, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia

perfeitamente o serviçal que o acompanhava, um chamado Jim. Era um

Bechuana, excellente caçador--e, para Bechuana, esperto,

consideravelmente esperto! Na manhã em que Neville devia metter-se para

o sertão, vi Jim, ao pé do meu carrão, cortando folhas de tabaco.

--Para onde é essa jornada, Jim? perguntei eu, sem curiosidade, só para

mostrar interesse ao rapaz. Ides a elephantes?

Jim mostrou os dentes todos, n'um riso vivo:

--Não, patrão. Vamos a coisa melhor que marfim.

--Melhor que marfim!? Ouro?

--Melhor que ouro! murmurou elle, arreganhando mais a dentuça.

Calei-me, porque não convinha á minha dignidade de patrão e de branco

revelar curiosidade diante d'um Bechuana. Confesso, porém, que fiquei

intrigado. D'ahi a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas por alli se

quedou, rondando, coçando devagar os cotovêlos, á espera, com os olhos

em mim. Não dei attenção.

--Ó patrão! murmurou elle, n'uma ancia de desabafar.

Permaneci indifferente, por dignidade. Elle tornou:

--Ó patrão!

--Que é, homem?

--Vamos á procura de diamantes, patrão! atirou-me elle ao ouvido.

--Diamantes!? Boa! Então ides para o lado opposto. Devieis metter

direito ao sul, para as Diamanteiras.

O Bechuana baixou mais a voz:

--Ó patrão! Já ouviu fallar das serras de Suliman? Pois lá é que estão

os diamantes. O patrão nunca ouviu?

--Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim.

--Não é tolice, patrão. Eu conheci uma mulher que veio de lá, com um

filho, e que vivia no Natal. Morreu ha annos, o filho por lá anda. E foi

ella que me disse tudo. Ha lá diamantes!

--Olha, Jim, o que te digo é que teu amo vai dar de comer aos abutres,

que andam por lá esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens nos ossos,

tambem vai d'aqui direitinha aos abutres!

O homem teve outro riso fino:

--A gente tem de morrer, e eu não desgósto de experimentar terras novas.

O elephante por aqui já não rende. O Bechuana cá vai para os diamantes,

e o Bechuana vai cantando!

--Pois quando a morte te agarrar pelas guelas, veremos então se ainda

canta o Bechuana!

Jim abalou. D'ahi a meia hora o carrão do snr. Neville poz-se em marcha

para o norte. Mas não rodára ainda dez jardas, quando Jim voltou para

traz, a correr.

--Adeus, patrão! exclamou. Não me quiz ir de todo sem lhe dizer adeus,

porque me parece que o patrão tem razão, e que nunca mais cá voltamos!

--Ouve cá, Jim, teu amo vai com effeito ás serras de Suliman, ou tudo

isso é patranha?

O Bechuana jurou que não contava patranhas. O amo ia realmente em

demanda das serras e das minas que estavam para além. Ainda na vespera o

amo dissera que, para tentar fortuna na Africa, tanto montava ir em cata

de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque

no torrão tudo havia. Assim elle ia aos diamantes, que era o mais rapido

para enriquecer--ou para morrer.

Reflecti um momento.

--Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas has de

prometter que não lh'as entregas senão em chegando a Inyati!

Inyati ficava d'ahi a umas quarenta leguas. O Bechuana prometteu.

Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lapis estas linhas:

«Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sabá, o esquerdo,

até chegar ao cimo, d'onde verá logo, para o lado norte, a grande

calçada feita por Salomão».

--Bem! Ora agora, Jim, quando deres este papel a teu amo dize-lhe que

lh'o manda quem sabe, e que siga bem a indicação! Mas ouviste? Só lh'o

dás quando chegares a Inyati; que eu não quero que elle me volte para

traz e me venha fazer perguntas! Entendeste? Então abala, madraço, que o

carrão come caminho!

Jim agarrou o bilhete e largou a correr. D'ahi a pouco o carrão sumiu-se

por traz das collinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a

respeito d'esse sujeito Neville.

Mal eu acabára, o barão, sem hesitar, e com perfeita simplicidade,

disse:

--Snr. Quartelmar, vim á Africa procurar meu irmão. Desde que alguem o

viu pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim mesmo

é marchar tambem para esse lado. Póde ser que o encontre; ou que venha a

saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou

que não volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu dever, desde

que me impuz esta tarefa, é tomar o caminho que meu irmão tomou. E agora

pergunto eu: quer o snr. Quartelmar vir commigo?

Tambem não hesitei. Foi logo, de golpe:

--Muitissimo obrigado, snr. barão! Se tentassemos atravessar as

cordilheiras de Suliman, ficavamos lá como os dois Silveiras. Eis a

minha candida convicção. Ora ha em Londres um pobre rapaz que anda nos

seus estudos, que é meu filho, e que me não tem senão a mim n'este

mundo. E por elle, se não já por mim, não me convém por ora morrer. Em

todo o caso agradeço a sua lembrança. É de amigo!

O barão voltou-se para o seu companheiro, com um ar profundamente

desconsolado, e que quasi commovia n'aquelle homem tão robusto e tão

nobre. O outro murmurou:--«É pena, grande pena!»

--Snr. Quartelmar! exclamou então o barão. Quando eu me metto n'uma

empreza, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma

grande fortuna, e necessito do seu auxilio. O snr. Quartelmar póde

portanto pedir-me o que quizer pelos seus serviços, já não digo dentro

do razoavel, mas dentro do possivel. Além d'isso, apenas chegarmos a

Durban, vamos a um tabellião, e eu obrigo-me por uma escriptura a

continuar a educação de seu filho, no caso de lhe acontecer a si um

desastre, ou a deixar-lhe uma independencia, no caso de eu estourar

tambem. Vê que estou prompto a tudo. Ainda mais. Se por acaso

descobrissemos os diamantes, metade d'elles ficariam pertencendo ao snr.

Quartelmar, outra metade ao capitão John. É verdade que nenhum de nós

acredita nos diamantes, e portanto esta vantagem conta como zero. Mas

podemos applicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que

encontrarmos. Finalmente escuso de dizer que todas as despezas da

expedição correm por minha conta. Creio que não posso fazer mais.

Eu olhava para elle, deslumbrado:

--Barão, essa proposta é a mais generosa que tenho recebido na minha

vida! Mas tambem, que diabo, a empreza seria a mais arriscada em que me

tenho mettido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe darei

a resposta. Por hoje ficamos aqui.

--Ficamos aqui por hoje! acudiu o capitão, erguendo-se, e respirando com

allivio.

Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no meu

beliche, até de madrugada, sonhei com o antigo D. José da Silveira, com

El-Rei Salomão, e com montões de pedras que reluziam no fundo d'uma

caverna.

CAPITULO III

O HOMEM CHAMADO UMBOPA

Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do barão.

Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para as

minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre

caça, sobre aventuras de caça na Africa. Os dois, homens de grande

_sport_, não se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de

memorias e já anecdotico, não me fartava de contar.

Finalmente, n'uma esplendida tarde de janeiro (que é aqui o mez mais

quente do anno) avistámos a costa de Natal--com a esperança de dobrar a

ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa é adoravel, com as suas

longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres

aringas dos Cafres espalhadas aqui e além, e a orla espumosa e alva do

mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a região

toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas

enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto é

mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as

plantações d'assucar: e a espaços uma casa muito branca, sorrindo para a

azul placidez do mar, põe uma linda nota, humana e domestica, na

vastidão da paizagem.

Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban.

Mas quando deitámos ancora já era crepusculo cerrado, tarde de mais para

entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao salão,

para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vêr o salva-vidas

remar para terra com as malas do correio.

Quando voltámos á tolda, a lua ia alta, e tão brilhante sobre mar e

praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra

vinham, através do ar calmo, aquelles picantes e dôces aromas de

especiarias, que, não sei por quê, me fazem sempre lembrar hymnos de

egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as

varandas alumiadas. N'um grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros

estavam cantando, ao som do _banjo_. Era uma noite d'encanto, como só as

ha n'este abençoado sul d'Africa, que lançava sobre a alma uma infinita

paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. Até o

bull-dog d'um passageiro irlandez, que não cessára de rosnar ferozmente

durante toda a jornada, cedera emfim ás pacificadoras influencias do

sul, e dormia, estirado no convés, com um ar de tregoa e de perdão aos

homens.

O barão, o capitão John e eu, estavamos sentados junto á roda do leme,

olhando e fumando em silencio.

--Então, snr. Quartelmar? exclamou de repente o barão, sorrindo. Aqui

estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas?

--Vamos ou não vamos de companhia á busca do snr. Neville? echoou do

lado o amigo John.

Não tugi. Mas ergui-me, e fui devagar sacudir para fóra da amurada a

cinza do meu cachimbo. A verdade é que, depois de muito matutar, eu

ainda não tomára uma resolução,--ou antes a minha resolução permanecia

vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior que

a definisse e a fixasse. E foi justamente aquella exclamação risonha dos

dois, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo

fixou e definiu no meu animo. Ainda a cinza não cahira na agua e já eu

estava resolvido a partir.

--Pensei e vou! declarei, voltando a sentar-me. E se os cavalheiros me

dão licença, direi as razões por quê, e as condições com quê.

Expuz logo as condições, muito claramente:

O barão, em primeiro logar, corria com todas as despezas; e qualquer

achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedição,

seria irmãmente dividido entre mim e o capitão John. Em segundo logar, o

barão pagar-me-hia em dinheiro de contado, antes de partirmos,

quinhentas libras, compromettendo-me eu a acompanhal-o e fielmente

servil-o até que a jornada terminasse ou por um triumpho, ou por um

desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em

terceiro logar, o barão obrigar-se-hia por uma escriptura a dar

annualmente a meu filho, emquanto durassem os seus estudos, uma pensão

de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilisado...

Ainda eu não findára, já o barão aceitára tudo, largamente, alegremente!

«O que eu quero, seja por que preço fôr (dizia elle), é a sua companhia,

snr. Quartelmar, é o soccorro da sua experiencia!»

--Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condições em que vou, quero

dizer as razões por que vou. É porque se nós tentarmos atravessar as

serras de Suliman, não voltamos de lá vivos! O que succedeu ao velho

Silveira, ao que tinha _Dom_, ha trezentos annos; o que succedeu ao

outro, ao que não tinha _Dom_, aqui ha vinte; o que succedeu

naturalmente ao snr. Neville, é o que nos vai succeder a nós! Não

sahimos de lá vivos.

Olhei attentamente para os dois homens. O amigo John arripiou um bocado

a face. O barão ficou impassivel, murmurando apenas:--«Corremos-lhe o

risco!»

Eu prosegui:

--Agora dirão os cavalheiros: «Se julgas que não sahes de lá vivo, para

que vaes lá?» Em primeiro logar, porque sou fatalista. Se Deus já

decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de

Suliman hei de morrer ainda que lá não vá. E se Deus decidiu já o

contrario, posso lá ir impunemente e de cara alegre. Isto é claro. Em

segundo logar, estou velho, e já vivi tres vezes mais do que costuma

viver na Africa um caçador de elephantes. De sorte que, continuando

n'esta carreira, e desgraçadamente não tenho outra, que posso eu durar

ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em

cima, o meu pobre rapaz ficava n'uma situação má, coitado d'elle!

Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e

se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para

acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui têm os cavalheiros a

coisa em duas palavras.

O barão ergueu-se, excellente homem! e apertou-me as mãos com effusão.

As Minas de Salomão · 第 1 / 14 段