VI

Está já cançada a penna de fazer transcripções, é tempo de pôr termo a este

trabalho, e ainda não temos percorrido toda a escala de variadissimos tons

com que Luiz de Camões teceu a sua harmoniosissima composição sobre as

cousas do mar. Fallaremos ainda, antes de terminar, da Geographia, sciencia

que o Poeta possuiu em subido grau, e que, como a astronomia e a

meteorologia, é tambem essencialmente necessaria ao marinheiro.

Os _Lusiadas_ são por si só um completo tratado da sciencia da terra. Não

ha ponto conhecido no mundo do seculo XVI de que o Poeta não falle,

assignando a cada um a sua feição geographica caracteristica, a sua

especialidade ethnographica. Mas as suas descripções tem ainda a

particularidade de serem essencialmente maritimas. Effectivamente ao

marinheiro o que mais importa saber, depois da posição dos logares, é a

fórma com que elles se apresentam vistos do mar, fórma que o marinheiro

precisa de gravar na memoria para poder distinguir uns dos outros montes,

cabos, praias ou enseadas aliás muito similhantes. Para isto serve-se

muitas vezes o navegador da comparação com objectos conhecidos, e foi de

certo elle quem inventou os nomes de Sombreiro, Barrete de S. Fillippe,

Bonet de Jockey, Nariz de Nelson, e tantos outros, para designar e reter na

memoria a fórma de certas saliencias da superficie da terra banhadas pelo

mar. Ora, nas descripções geographicas de Camões, nota-se que elle procura

muitas vezes dar o relevo da costa, e que quasi sempre refere a ella a

descripção dos outros logares notaveis do interior, por modo que as suas

descripções são preciosissimas para um roteiro e ensinam muitas

_conhecenças_ do _debuxo da costa_ (Lus. X, 120), conhecimento altamente

necessario ao navegador. Não se esquece tambem o Poeta de notar qualquer

circumstancia, cujo conhecimento seja util ao navegante, como os productos

da terra, a maior ou menor facilidade de se acharem mantimentos, a

qualidade dos portos, etc.

Não sendo possivel transcrever todos os logares dos _Lusiadas_ que tratam

de geographia, porque seria preciso copiar dezenas e dezenas de estancias,

citaremos apenas alguns poucos exemplos, e seja o primeiro a descripção da

Europa:

Entre a zona que o Cancro senhorea,

Meta septentrional do Sol luzente,

E aquella que por fria se arrecea

Tanto, como a do meio por ardente,

Jaz a soberba Europa, a quem rodea,

Pela parte do Arcturo e do Occidente,

Com suas salsas ondas o Oceano,

E pela Austral o mar Mediterrano.

Da parte donde o dia vem nascendo

Com Azia se avisinha; mas o rio,

Que dos montes Rhipheios vae correndo

Na alagoa Meotis, curvo e frio,

As divide, e o mar, que fero e horrendo

Viu dos Gregos o irado senhorio,

Onde agora de Troia triumphante

Não vê mais que a memoria o navegante.

Lá onde mais debaixo está do polo,

Os montes Hyperboreos apparecem,

E aquelles onde sempre sopra Eolo,

E co'o nome dos ventos se enobrecem;

Aqui tão pouca força tem de Apollo

Os raios, que no mundo resplandecem,

Que a neve está continuo pelos montes,

Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

(Lus. III, 6, 7 e 8.)

A esta descripção geral da Europa segue-se a especial dos seus paizes. Como

não as podemos descrever todas, lembraremos a da Italia:

Da terra um braço vem ao mar, que cheio

De esforço, nações varias sujeitou,

Braço forte de gente sublimada

Não menos nos engenhos que na espada;

(Lus. III, 14.)

a de Hespanha:

Eis aqui a nobre Hespanha,

Como cabeça da Europa toda;

Com Tingintina entesta, e ali parece

Que quer fechar o mar Mediterrano,

Onde o sabido Estreito se enobrece

Co'o extremo trabalho do Thebano;

Com nações differentes se engrandece

Cercadas com as ondas do Oceano;

(Lus. III, 17, 18.)

e a de Portugal:

Eis aqui, quasi cume da cabeça

Da Europa toda, o reino Lusitano,

Onde a terra acaba e o mar começa

E onde Phebo repousa no Oceano.

(Lus. III, 20.)

Veja-se como em duas palavras se demonstra a importancia do porto de

Moçambique:

Esta ilha pequena

He em toda esta terra certa escala

De todos os que as ondas navegamos

De Quiloa, de Mombaça e de Sofala;

E por ser necessaria procuramos,

Como proprios da terra, de habital-a;

(Lus. I, 54.)

e como com outras duas se descreve a ilha de Mombaça:

Estava a ilha á terra tão chegada

Que um estreito pequeno a dividia;

Uma cidade n'ella situada,

Que na frente do mar apparecia,

Como _por fora ao longe_ descobria,

Regida por um Rei de antiga idade;

Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

(Lus. I, 103.)

A grande peninsula indostanica, esse theatro de tantas glorias nossas, é

pintada assim:

Alem do Indo jaz, e aquem do Gange,

Um terreno mui grande e assaz famoso,

Que pela parte austral o mar abrange

E para o Norte o Emodio cavernoso;

Jugo de Reis diversos o constrange

A varias leis; alguns o vicioso

Mafoma, alguns os idolos adoram,

Alguns os animaes, que entre elles moram.

Lá bem no grande monte, que, cortando

Tão longa terra, toda Azia discorre,

Que nomes tão diversos vae tomando,

Segundo as regiões por onde corre,

As fontes sahem, donde vem manando

Os rios, cuja grão corrente morre

No mar Indico, e cercam todo o peso

Do terreno, fazendo-o Chersoneso.

Entre um e outro rio, em grande espaço,

Sae da larga terra uma longa ponta,

Quasi pyramidal, que no regaço

Do mar com Ceilão insula defronta.

(Lus. VII, 17, 18 e 19.)

Nomea depois o Poeta as principaes nações indianas, e não lhe escapa

lembrar a serra dos Gates, que é uma boa _marca_ por ser visivel de muitas

leguas ao mar:

Aqui se enxerga, _lá do mar undoso_,

Um monte alto, que corre longamente,

Servindo ao Malabar de forte muro

Com que do Canará vive seguro;

Da terrra os naturaes lhe chamam Gate.

(Lus. VII, 21, 22.)

E ao passar pelos seus portos não se esquece de notar o phenomeno a que os

modernos geographos francezes dão o nome de _raz-de-marée_, que em alguns

d'elles se observa, principalmente em Madrasta:

Do mar a enchente _subita grandissima_,

E a vasante que foge _apressurada_.

(Lus. X, 106.)

Fallando de Aden, lembra o Poeta a circumstancia bem conhecida de nunca lá

chover:

a secca Adem,

pedra viva,

Onde chuva dos céus se não deriva.

(Lus. X, 99.)

E estas duas palavras--_pedra viva_--são por si só uma completa descripção

d'aquelle arido rochedo, onde já correu muito sangue portuguez.

A Ieddah attribue Camões toda a importancia que esse porto tem por ser a

unica communicação para os peregrinos que, por mar, vão a Mecca:

Lá no seio Erythreo

Não longe o porto jaz da nomeada

Cidade Meca;

Gidá se chama o porto aonde o trato

De todo o Roxo mar mais florecia.

(Lus. IX, 2, 3.)

Mas a descripção verdadeiramente magnifica, arrebatadora, é a que abrange

todas as descobertas e conquistas na Africa, Asia, Oceania e America.

Aquellas cincoenta estancias do canto X (91 a 141) com as que no canto V

contem a _derrota_ de Vasco da Gama desde Lisboa até Melinde, são um

compendio de geographia das descobertas até ao seculo XVI. Ao lel-as

parece-nos que se repete para nós a magica visão que Tethys offerecia na

ilha dos Amores aos olhos surpresos do afortunado descobridor da India;

parece-nos que vemos desenrolar-se a nossos olhos o mappa immenso de tantas

ilhas, portos, montanhas, rios e promontorios; parece-nos que se agitam

diante do nós tantos centenares de povos e nações, com os seus usos tão

oppostos, com os seus trajos ora tão singelos ora tão complicados e

custosos, com a riqueza de suas minas ou de suas industrias, com a sua

historia tão cheia de contrastes. E um espectaculo deslumbrante, unico, que

obriga o mais fervente admirador dos genios modernos a render-se á

superioridade evidente de Camões; porque Camões, e só elle, poude, sem ser

monotono nem faltar á mais escrupulosa verdade, fazer de uma longa

enumeração de terras e mares uma formosissima galeria das mais variadas

paisagens e marinhas; porque só elle soube ser successivamente Claude

Lorrain e Vernet, ficando ainda superior a estes e a todos os pintores,

ficando sempre o grande, o incomparavel, o divino marinheiro LUIZ DE

CAMÕES!

Luiz de Camões marinheiro · 第 15 / 17 题