Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama

lume vivo,

Que a maritima gente tem por santa,

Em tempo de tormenta e vento esquivo,

De tempestade escura,

(Lus. V, 18.)

Tambem falla nas correntes maritimas, cujas leis eram pouco conhecidas dos

primeiros navegadores, causando-lhes muitos embaraços. Ainda hoje no canal

de Moçambique se não póde contar com a corrente, ou antes deve-se esperar

que ella seja sempre contraria, porque, _como no mar tudo são mudanças_,

tão depressa correm as aguas ao norte como no dia seguinte correm ao sul, e

com tal velocidade que vencem muitas vezes a força do vento regular. É,

pois, a corrente, como descreve o Poeta

tão possante

Que passar não deixava por diante;

Era maior a força em demasia,

Segundo para traz nos obrigava,

Do mar, que contra nós ali corria,

Que por nós a do vento que assoprava.

(Lus. V, 66, 67.)

Superior á meteorologia é a sciencia astronomica, de todas a mais

necessaria ao homem do mar. É ella que lhe ensina a conhecer onde está, a

que parte do vasto Oceano o levaram os ventos e correntes; é ella que lhe

mostra o caminho a seguir no meio da vasta solidão. Estava esta sciencia

bastante atrasada no tempo do Poeta, pois que reinava ainda o errado

systema de Ptolomeu. Mas este systema é por elle descripto tão exactamente,

que um abalisado professor contemporaneo, ao ter de explical-o nas suas

lições de cosmographia, nunca deixava de citar a descripção de Camões.

Ptolomeu, fazendo da terra centro immovel de todo o universo, collocava a

lua, o sol, os planetas e as estrellas em outras tantas espheras

concentricas a ella, e que, sobre um eixo que passava pelos seus polos,

giravam com velocidades diversas. Todas estas espheras eram envolvidas por

uma ultima, o Empyreo, alem do qual estava o Ser Infinito, pois

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e sua superficie tão limada,

He Deus.

(Lus. X, 80.)

Começando, pois, a enumerar as superficies concentricas, cujo conjuncto

fórma o systema, diz Camões:

Este orbe, que primeiro vae cercando

Os outros mais pequenos, que em si tem,

Que está com luz tão clara radiando,

Que a vista cega e a mente vil tambem,

Empyreo se nomea.

(Lus. X, 81.)

Segue-se o primeiro mobil:

Debaixo d'este circulo,

que não anda,

Outro corre tão leve e tão ligeiro

Que não se enxerga: he o mobile primeiro.

(Lus. X, 85.)

Vem depois os dois crystalinos e logo o céu das fixas, entre as quaes o

Poeta não se esqueceu de nomear as doze constellações zodiacaes bem como as

outras mais notaveis do firmamento:

Est'outro debaixo esmaltado

De corpos lisos anda e radiantes,

Que tambem n'elle tem curso ordenado

E nos seus axes correm scintillantes;

se veste e faz ornado

Co'o largo cinto d'ouro, que estellantes

Animaes doze traz affigurados,

Aposentos de Phebo limitados.

Por outras partes a pintura

as estrellas fulgentes vão fazendo:

A Carreta, a Cynosura,

Andromeda e seu pae, e o Drago,

Cassiopea, Orionte, o Cysne,

A Lebre, os Cães, a Nau e a Lyra.

(Lus. X, 87, 88.)

Seguem-se por sua ordem os céus dos sete planetas então conhecidos,

contando n'esse numero o Sol:

Debaixo d'este grande firmamento

o céo de Saturno;

Jupiter faz logo o movimento,

E Marte abaixo;

O claro olho do céo no quarto assento;

E Venus;

Mercurio;

Com tres rostos debaixo vae Diana.

(Lus. X, 89.)

Em seguida á Lua vem finalmente os quatro elementos:

o _fogo_ e o _ar_, o vento e a neve

Os quaes jazem mais a dentro,

E tem co'o _mar_ a _terra_ por assento.

(Lus. X, 90.)

Alem d'esta descripção, que é completa, ha por todo o poema allusões ao

firmamento e aos seus brilhantes luzeiros, espectaculo maravilhoso e divino

em que se enlevam os olhos do marinheiro durante as longas horas da noite.

Citaremos apenas a allusão ao Cruzeiro do Sul:

Lá no novo hemispherio nova estrella,

Não vista de outra gente, que ignorante

Alguns tempos esteve incerta d'ella;

(Lus. V, 14.)

á qual se segue logo a allusão áquella parte do firmamento perto do polo

sul, onde as estrellas são mais raras, e que os astronomos modernos chamam

o _Sacco de carvão_:

a parte menos rutilante,

E por falta d'estrellas menos bella,

Do polo fixo.

(Lus., ibidem.)

Para acabarmos com a astronomia de Camões diremos ainda que nem sequer se

esqueceu elle de fallar da _nautica_, parte pratica ou applicação d'aquella

sciencia á navegação, a qual mais directamente ensina o marinheiro a _ver

em que parte está_ (Lus. V, 26), isto é, a _pôr o ponto na carta_, pois que

nos falla do

novo instrumento do Astrolabio

Invenção de subtil juizo e sabio;

(Lus. V, 25.)

que servia, como hoje o sextante, para

tomar do Sol a altura.

(Lus. V, 26.)

Luiz de Camões marinheiro · 第 14 / 17 题