No mais, musa, no mais, que a lyra tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
(Lus. X, 145.)
Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas,
na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os
logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e
principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu
poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para
demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da
divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos
da natureza taes como elles se manifestam.
E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do
melhoramento do actual gosto litterario?
Nada.
Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades.
Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres
impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o
patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe
substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os
tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel
imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia,
suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.
E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os
seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as
obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as
pennas que escreveram os _Lusiadas_ e as _Decadas_? E, deixando esses
monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um
firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage,
de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de
Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos
nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os
trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia
publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta
em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no
plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza
o periodo da ultima decadencia.