VII

No mais, musa, no mais, que a lyra tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

(Lus. X, 145.)

Perdoe-se ao pigmeu a ousadia de applicar a si as palavras do gigante. Mas,

na verdade, para que serve continuar? Se houvessemos de citar todos os

logares em que Luiz de Camões se mostrou eximio pintor da natureza, e

principalmente da natureza maritima, teriamos de copiar quasi todo o seu

poema. Cremos, porém, que o que fica transcripto é sufficiente para

demonstrar a nossa asserção, de que o Poeta foi um marinheiro tocado da

divina scentelha da inspiração, que lhe fez ver os grandiosos espectaculos

da natureza taes como elles se manifestam.

E, comtudo, de que serve esta demonstração? Que póde ella fazer em prol do

melhoramento do actual gosto litterario?

Nada.

Acontece com a historia das litteraturas como com a das nacionalidades.

Quando o espirito de uma nação está decaído, quando faltam os nobres

impulsos que a impelliram no seu progresso ascendente, quando está morto o

patriotismo que centuplica as forças do individuo, quando o egoismo tórpe

substituiu a abnegação e o amor da patria, é então que se recordam os

tempos de gloria e se levantam monumentos aos heroes que já não é possivel

imitar; são os vãos lamentos dos filhos de Israel captivos em Babylonia,

suspirando pela liberdade de Sião, que tão mal souberam defender.

E assim com as litteraturas. Quando passaram, para nunca mais voltar, os

seus tempos de explendorosa florescencia, vem os commentadores estudar as

obras primas, mas não apparece um só que os imite. Onde estão hoje as

pennas que escreveram os _Lusiadas_ e as _Decadas_? E, deixando esses

monumentos, que são como que as estrellas de primeira grandeza de um

firmamento de eterno brilho, onde estão os successores de Diniz, de Bocage,

de Garção, de Alexandre Herculano, de Rebello da Silva, de José Estevão, de

Garrett, de Castilho? Transformaram-se os lagos cristalinos em charcos

nauseabundos, as campinas viridentes em aridos pragaes; calaram-se os

trinados dos rouxinoes, só se ouve o coaxar das rãs; e a consciencia

publica, festejando o tri-centenario da morte de Luiz de Camões, manifesta

em doloroso grito o arrependimento que sente por se ter deixado resvalar no

plano inclinado do mau gosto, e marca na historia da litteratura portugueza

o periodo da ultima decadencia.

Luiz de Camões marinheiro · 第 16 / 17 题