em sangue e resistencia
O mar todo com fogo e ferro ferve.
(Lus. X, 29.)
Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e
o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o vencedor
Das grandes naus,
co'a ferrea pella
Que sahe com trovão do cobre ardente,
Fará pedaços leme, mastro, vela;
Depois, lançando arpéos ousadamente
Na capitaina inimiga, dentro nella
Saltando, a fará só com lança e espada
De quatro centos despejada.
(Lus. X, 28.)
V
Mostrámos até aqui como Camões conhecia e comprehendia os homens do mar,
não lhe escapando nem uma das mais pequenas circumstancias, que tornam o
seu modo de viver e pensar tão caracterisco e differente do dos homens da
terra. Mostrámos tambem com que propriedade e conhecimento elle introduziu
no seu poema a descripção ou antes a viva pintura das manobras e fainas que
constituem o officio do marinheiro. Vamos agora tentar mostrar como o Poeta
comprehendeu o theatro em que se passam as scenas tão variadas da vida do
homem do mar.
O mar, esse elemento imponente e magestoso, que enche de espanto o homem
que, pela primeira vez, o encara, parecendo á primeira vista tão uniforme e
tão igual, apresenta mil aspectos diversos, que são outras tantas
manifestações das forças creadoras que abriga em seu seio. D'essas, a mais
grandiosa, aquella que irresistivelmente se impõe e subjuga a alma mais
destemida, é a tempestade. Nem o volcão vomitando fogo e lavas; nem a
trovoada fusilando raios, atroando com o ribombar do trovão e inundando com
as catadupas de agua; nem o terramoto abalando os edificios e fazendo
ondular os montes; nem o kahmsin do deserto enterrando as caravanas com as
suas nuvens de areia, nada póde rivalisar com uma tempestade maritima. Esta
reune tudo o que os outros cataclysmos tem de bello e horroroso, e é ainda
mais sublime e medonha. E são tão variados os espectaculos offerecidos pela
natureza, que ainda nas tempestades maritimas ha differenças e
especialidades que as distinguem entre si. Assim o temporal dos Açores não
se parece com a tempestade do Cabo, como o cyclone do Oceano Indico differe
do tufão do mar da China. São diversas as causas que as originam, diversas
as circumstancias meteorologicas com que se manifestam, diversos, se é
possivel, os horrores que inspiram.
E, comtudo, Camões apanhou essas differenças, conheceu essas circumstancias
especiaes. Duas são as principaes descripções de tempestades maritimas que
elle nos offerece no seu poema. A primeira é de um temporal no Cabo da Boa
Esperança, e constitue o episodio do Adamastor, que não transcreveremos por
o julgarmos conhecido de todos. A tempestade começa por uma nuvem _temerosa
e carregada_
que os ares escurece;
(Lus. V, 37.)
e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é
escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que
attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte
alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III,
onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
chegando ao Cabo da Esperança
Eis a noute com nuvens se escurece,
Do ar _subitamente_ foge o dia
E todo o largo Oceano se embravece;
Em _serras_ todo o mar se convertia.
Voltando aos _Lusiadas_ observaremos que todo o horror do Cabo da Boa
Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:
Quantas naus esta viagem
Fizerem de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem
Com ventos e tormentas desmedidas.
(Lus. V, 43.)
E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais
frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo
excepção a bonança. A tempestade
c'um medonho choro
Subito d'ante os olhos se apartou,
Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
(Lus. V, 60.)
Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas,
ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como
féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é
conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles
pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa
a navegação. E, pois, ahi
Já nos mares da India,
(Lus. VI, 6.)
que o Poeta colloca o temporal, o qual começa, como é sabido, por uma
pequena nuvem que desponta no horisonte, e dentro em pouco, tocada pelo
vento com vertiginosa velocidade, occupa toda a athmosphera. A
impetuosidade e o repente do assalto não dão tempo a manobras; muitas vezes
é necessario _picar os mastros_, se o cyclone se não encarrega d'isso. O
mar cava-se em ondas desencontradas e altissimas, e os relampagos e
coriscos vem augmentar o terror. Eis estas scenas successivas da terrivel
tragedia pintadas pelo mestre:
O vento cresce
D'aquella nuvem negra que apparece.
Dá a grande e subita procella.
Não esperam os ventos indignados
Que amainassem (a véla grande), mas juntos dando n'ella,
Em pedaços a fazem.
No romper da véla a nau pendente
Toma grão somma d'agua pelo bordo.
Os balanços, que os mares temerosos
Deram á nau, n'um bordo os derribaram (os marinheiros.)
Nos altissimos mares, que cresceram,
A pequena grandura d'um batel
Mostra a possante nau.
A nau grande
Quebrado leva o mastro pelo meio,
Quasi toda alagada.
Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas,
Agora a ver parece que desciam
As intimas entranhas do profundo.
(Lus. VI, 70 a 76.)
Os ventos que lutavam,
Como touros indomitos bramando;
Mais e mais a tormenta accrescentavam,
Pela miuda enxarcia assoviando;
Relampagos medonhos não cessavam,
Feros trovões.
(Lus. VI, 84.)
Mas não são apenas os traços geraes da descripção que reproduzem a exacta
verdade. Até nas mais pequenas minudencias se mostra rigorosa exactidão. Os
ventos são
Noto, Austro, Boreas, Aquilo,
(Lus. VI, 76.)
recordando assim a direcção successivamente differente do vento,
percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação.
Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador
durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são
substituidos pelos maçaricos, as _almas do mestre_, como lhes chama a
poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios
lamentosos a tristeza do espectaculo:
As Halcyoneas aves o triste canto
levantaram,
Os delfins namorados entretanto
Lá nas covas maritimas entraram,
Fugindo á tempestade e ventos duros,
Que nem no fundo os deixa estar seguros.
(Lus. VI, 77.)
Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a
descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o
logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas.
N'este phenomeno em que _as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano_,
começa a levantar-se
No ar um vaporsinho e subtil fumo,
E do vento trazido, rodear-se;
D'aqui levado um cano ao polo summo
Se via, tão delgado que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da materia das nuvens parecia.
Hia-se pouco a pouco accrescentando
E mais que um largo mastro se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de agua em si chupava;
Estava-se co'as ondas ondeando;
Em cima d'elle uma nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada,
Co'o cargo grande d'agua em si tomada,
Qual roxa sanguesuga
se enche e a alarga grandemente,
Tal a grande columna, enchendo, augmenta,
A si e a nuvem negra que sustenta.
Mas, depois que de todo se fartou,
O pé que tem no mar a si recolhe,
E pelo céu chovendo em fim vôou;
Ás ondas torna as ondas que tomou,
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
(Lus. V, 19 a 22.)
Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões.