Os que deixam a patria vão

Para os bateis caminhando.

(Lus., ibidem.)

Não o fazem a olhos enxutos; as lamentações dos que os acompanham redobram

de intensidade á medida que se aproxima a hora fatal; a extrema afflicção

faz perder a esperança do regresso; lamentam-se todos,

As mulheres c'um choro piedoso,

Os homens com suspiros que arrancavam;

Mães, esposas, irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrescentavam

A desperação e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo

(Lus. IV, 89.)

É doloroso aquelle transe, mas o dever e a necessidade fazem calar a voz do

coração. Para evitar mais lagrimas esconde-se a hora exacta da partida, e

embarcam-se

Sem o despedimento costumado.

(Lus. IV, 93.)

E partem, ficando-lhes,

na amada terra

O coração, que as maguas lá deixavam,

(Lus. V, 3.)

Dura ha muitos dias a viagem. O vento é de feição, o mar plano, os

horisontes claros e extensos. Navega-se de escota folgada. O commandante,

já cansado

De vigiar a noite,

Breve repouso aos olhos dava.

(Lus. II, 60.)

Dá meia noite, rendem-se os quartos,

Os do quarto da prima se deitavam,

Para o segundo os outros despertavam

(Lus. VI, 38.)

Como é desagradavel deixar o conchego da maca ou do beliche, quando

estavamos no melhor do somno, quando talvez a imaginação nos tinha

transportado á patria _em dôces sonhos que mentiam_, para ir fazer um

quarto em cima da tolda, aguentando o aspero frio da noite! Por isso os

pobres marinheiros

Vencidos vem do somno, e mal despertos,

Bocejando a miude, se encostavam

Pelas antenas, todos mal cobertos

Contra os agudos ares que assopravam;

Os olhos contra seu querer abertos,

Mas esfregando, os membros estiravam.

(Lus. VI, 39.)

Não ha manobras a fazer, não ha cousa alguma que distráia, porque, com

tempo tão excellente, só é preciso estar álerta. Como se hão de passar

aquellas quatro horas e afugentar o somno teimoso?

Remedios contra o somno buscar querem,

Historias contam, casos mil referem,

(Lus., ibidem.)

E ahi começa o orador, o _beau-diseur_ da companhia, a contar uma historia

interessante, que entretem a todos e faz voar as horas.

Mas nem tudo são rosas durante a viagem; bem pelo contrario, os espinhos

são em numero muito superior. Aos dias de bom tempo succedem as

tempestades, que tornam o marinheiro

Confuso de temor, da vida incerto

(Lus. VI, 80.)

e durante os quaes elle muitas vezes

Chama aquelle remedio santo e forte

Que o impossivel póde;

(Lus., ibidem.)

chama

Aquelle que a salvar o mundo veio

(Lus. VI, 75.)

A navegação demorada e aborrecida tem exacerbado as saudades e irritado os

animos; já se não juntam os grupos pelas amuradas a contar historias.

Escaceia a aguada, a bolacha está avariada, azedou o vinho; vae-se a meia

ração e a menos; aproxima-se o terrivel espectro das viagens prolongadas, o

escorbuto. Assim vivem por muito tempo os marinheiros _coitados e

perdidos_,

De fomes, de tormentas quebrantados

E do esperar comprido tão cansados,

Quanto a desesperar já compellidos;

Corrupto já e damnado o mantimento

Damnoso e mau ao fraco corpo humano,

E alem d'isso nenhum contentamento,

Que sequer da esperança fosse engano.

(Lus. V, 70, 71.)

Luiz de Camões marinheiro · 第 8 / 17 题