Temos visto como Luiz de Camões percorreu em repetidas viagens o Oceano
Atlantico e o Indico, o mar da China e os Estreitos. Para vermos como a sua
intelligencia superior aproveitou este longo tirocinio, appropriando-se e,
por assim dizer, assimilando-se tudo quanto observára, phenomenos do mar,
costumes dos marinheiros, sciencia de navegação, etc., basta abrir o seu
immortal poema, porque ahi, sempre que elle tem de se referir ás cousas do
mar, fal-o com a maxima propriedade, com toda a verdade de descripção.
Respiguemos, pois, n'essa vasta campina de tantas flores e fructos.
A vida do marinheiro tem tormentos e prazeres desconhecidos aos homens de
terra. A lucta constante com os elementos torna-o _rudo_, epitheto que o
Poeta a miude lhe dá. A monotonia dos longos dias em que se não vê _mais
que mar e céu_ (Lus. V, 3), faz com que elle procure abreviar o tempo com
historias e contos, torna-o investigador curioso das cousas novas que vae
vendo. A saudade da patria faz-lhe alvoroçar o coração com a lembrança
d'ella, e é por isso que elle procura ser o primeiro a dar o alegre brado
de--«Terra á vista!»--brado que faz esquecer todos os trabalhos e males
passados.
Tudo isto observou Camões.
Deixa o marinheiro a patria e despede-se dos parentes e amigos, que o vão
acompanhar ao embarque, não fallando nos curiosos que não perdem o
imponente espectaculo que offerece um navio ao fazer-se de véla. Concorre
pois, muita gente,
Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver sómente,
Saudosos na vista e descontentes.
(Lus. IV, 88.)