A tudo se resigna o marinheiro e vae

Soffrendo tempestades e ondas cruas,

Vencendo os torpes frios no regaço

Do sul e regiões de abrigo nuas,

Engolindo o corrupto mantimento

Temperado c'um arduo soffrimento

(Lus. VI, 97.)

E peor é ainda quando chega a terrivel doença, _crua e feia_, de que já

fallámos, com a qual

Tão disformemente ali lhe incharam

As gengivas na bôca, que crescia

A carne e juntamente apodrecia

c'hum fetido e bruto

Cheiro que o ar visinho inficionava

(Lus. V, 81, 82.)

Assim se passam as semanas e os mezes. Anceia o marinheiro por pôr termo a

uma navegação já aborrecida, por ter algum descanço n'aquelle lidar diario.

Suspeita-se que está proxima a terra; porfia-se em qual será o primeiro que

a veja; algum mais desejoso de ganhar as alviçaras sobe á _celsa_ gavea, e

percorrendo o mar com a vista, enxerga

Terra alta pela prôa

(Lus. VI, 92.)

e logo

«Terra, terra!» brada

(Lus. V, 24.)

Quem ha que fique indifferente a este brado? Os mais occupados largam tudo

por mão, os que dormem levantam-se estremunhados dos catres, e

Salta no bordo alvoroçada a gente

Co'os olhos no horisonte,

(Lus., ibidem.)

devorando com elles as fórmas ainda mal distinctas da terra, e começando

Á maneira de nuvens

A descobrir os montes.

(Lus. V, 25.)

Deu-se fundo. Acabaram os trabalhos e perigos, e quasi já esqueceram. Tudo

é curiosidade dos marinheiros em observar as pessoas que de terra vem a

bordo;

A gente se alvoroça; e de alegria

Não sabe mais que olhar a causa d'ella.

(Lus. I, 45.)

Como não podem chegar-se e interrogar esses individuos, porque elles estão

conversando com o commandante, contentam-se com espreital-os, e por isso

Está a gente maritima

Subida pela enxarcia.

(Lus. I, 62.)

Por fim a curiosidade vence o respeito, e elles vão-se chegando pouco a

pouco para ouvir as novidades;

A gente se ajunta a ouvir.

(Lus. VII, 29.)

Chega depois a noite; são horas de descançar e dormir pela primeira vez com

socego. Mas o marinheiro esquece-se d'isso para, ou a sós comsigo, ou dando

largas á sua loquacidade, fazer commentarios sobre o que viu e ouviu;

Qualquer então comsigo cuida e nota

Na gente e na maneira desusada.

(Lus. I, 57.)

Não escapou a Camões a qualidade ou defeito caracteristico do marinheiro

portuguez, principalmente do algarvio, sempre fallador e gritador. Ainda

hoje, com a disciplina moderna, é facil conseguir do marinheiro que elle

faça tudo, que soffra as maiores privações, que arroste os maiores perigos;

mas é difficilimo conseguir que elle esteja calado. Ha sobretudo certas

manobras em que é quasi impossivel obter um silencio completo, e no tempo

das descobertas, diz-nos o Poeta que os marinheiros suspendiam

as ancoras

Com a nautica _grita costumada_,

(Lus. II, 18.)

e largavam

A véla, que _com grita_ se soltava.

(Lus. IX, 11.)

Luiz de Camões marinheiro · 第 9 / 17 题