Os cães, _apud_ Vasconcellos, grunhem. A pag. 273: «Tu vês um cão...

elle _grunhe_.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão...

_grunhir_.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado.

Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo _Methodo_ de Monteverde,

teria aprendido nas _Vozes dos animaes_ do snr. Pedro Diniz como vozêam

cães e porcos.

_Muge_ a vacca; _berra_ o touro;

_Grasna_ a rã; _ruge_ o leão;

O gato _mia_; uiva o lobo;

Tambem _uiva_ e _ladra_ o cão.

..........................

_Chia_ a lebre; _grasna_ o pato;

Ouvem-se os porcos _grunhir_;

Libando o succo das flôres,

Costuma a abelha _zumbir_, etc.

Tambem Vasconcellos, traduzindo Goethe, descobriu no cão um _caroço_

(pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que _Kern_ significa _pevide_ ou

_caroço_, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é

_amago_, _substancia_, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os

significados de _Kern_, achou _caroço_, e pespegou-o logo no cão; por

isso o cão encaroçado _grunhiu_ tres vezes. Podéra...

A pag. 474, escreve Vasconcellos: _ouvir por um oculo._ Eu esta phrase

não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: _vêr por uma

corneta acustica._

Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo _enterrado até ao queixo na

agua._ Póde uma pessoa estar _enterrada_ na agua, e estar _submergida_

na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da

ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu

comnosco, ou _com nós nasceu_, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag.

339.

BIBLIOGRAPHIA

_Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido JOSÉ DE SOUSA

BANDEIRA, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874._--O

berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do

redactor do _Azemel_ e do _Artilheiro_. Bandeira é o patriarcha da

facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José

Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia

direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas

de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas

paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas

os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco

politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de

consultar os _Annaes da imprensa da liberdade restaurada_, quando houver

de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo

representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias,

José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José

Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas,

escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na

sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de

Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por

que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia

e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal.

Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador

severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o

atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de

narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e

amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se

preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.

* * * * *

_No Minho, por D. ANTONIO DA COSTA. Lisboa, 1874._--Apenas publicado,

divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado

em ramos de variada litteratura. Os _Tres mundos_ foi obra que affirmou

os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do _Minho_ é o

repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação,

estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do

indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas

verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com

as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por

estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas--em que não ha

vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia--passar uma noite em

Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma

crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga

sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas

que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria

a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas

hospedarias não fossem alfobres de insectos _apteros_ com seis patas, e

_hemipteros_ com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios

em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei

que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam

sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da

raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o

espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.

Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da

Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos

que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no _Compendio de

civilidade_ do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga

em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se

consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros

carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e

proveito do homem.

O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos

Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou

copiosamente no capitulo intitulado: _Uma insomnia._ Quem sabe se,

n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos

attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas?

Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um

de cada lado, e os outros bichos no meio.

Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro,

intitulados _O Bom Jesus do Monte_, _Um castello feudal em 1873_, _A

mulher do Minho_, e a _Ultima impressão_. N'estas paginas que fecham o

livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da

Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma

da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel

a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada

senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda

caritativa. «Ah, senhora!--escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da

instrucção--devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla

que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando

no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao

passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com

as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães

apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: _É aquella!_»

O livro _No Minho_ está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e,

todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não

são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis

producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro

dos _Tres mundos_, relido com intelligente ardor e creio que já

reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto

da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de

palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer

derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua

indole peculiar ao genero escoteiro--digamol-o assim--d'estas cousas

levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a

dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo

que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce

engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no

periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos

bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os

rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do

amor dos Espronceda e Musset.

Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos,

condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que

estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais

futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei

n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o

rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de

porvindouros beneficios a filhos e netos--consolação unica, mas santa,

que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.

* * * * *

_Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo VISCONDE DE BENALCANFÔR.

Porto, 1874._--Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu

o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle

tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para

uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta

familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.

No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com

a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e

desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O

carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do

phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do

tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do

groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna,

carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante,

arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á

porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e

regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração

de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães--o estylo que é a

dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a

alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o

escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os

brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras

originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em

1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia

e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle

adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a

profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e

escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a

politica do _Nacional_, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.

Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de

algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as

azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e...

adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos

na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com

elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se

convenceram que o _visconde de Benalcanfôr_ era o epitaphio de _Ricardo

Guimarães_.

Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos

expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com

oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens

de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.

D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas

resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no

boleio da phrase--ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a

consciencia d'essa difficultosa amalgama.

Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de

viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em

quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente

indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo,

n'este livro o teu capitulo, intitulado ELOGIO MUTUO. Tu, com certeza,

antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e

quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.

* * * * *

BERNARDINO PINHEIRO. _Amores d'um visionario, romance historico original

do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874._--Se a linguagem das civilisações

adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem

pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino

Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de _historico_. A

illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na

questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro,

depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as

theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras

novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D.

Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes

e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo,

da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom

animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases

intempestivas.

Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas

que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu

livro. As paginas descriptivas de _Uma academia feminina do seculo XVI_

quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III.

Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras,

se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que

o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo

estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de

escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou

incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das

regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira

ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as

suas leis fataes--e, por vezes, posto que raras, felizes...» E

acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós

somos:--amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no

mundo livres o pensamento e o amor?!»

A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia

desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror

Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu

a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de,

colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças.

Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a

nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.

Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o

historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII

(_Illustrações em Coimbra_) é labor bastante a graduar um espirito culto

na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo

é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma

negra de João III e não vingaram esclarecel-a.

O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela

cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil.

Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem

sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de

Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz,

dispensa-se dos realces da naturalidade.

Em summa, _Os amores d'um visionario_ é um livro que merece graduar-se

entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da

imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas

desaffectas a demorados estudos.

POBREZA ACADEMICA

O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de

Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um

donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João

Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das

suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por

meio da seguinte carta, que está inedita:

«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto

a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção

arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre

saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas

as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo

muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este

empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos

d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais

prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento

sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu

um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos

conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de

Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das

duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor

regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer

outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe

não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia

roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de

pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá

a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso

mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se

dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este

titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular

prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho

muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os

attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de

seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria,

que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei,

que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de

escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.»

Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se

não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão

de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de

ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os

baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade.

Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca

destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que

deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo

symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de

direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno.

SOBRE ANSELMO

Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não

respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha

canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma

parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê

esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos

tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos

bicos da penna e aos loros do látego.

Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos

representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e

atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido

quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta

laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.

Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim

Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma

excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é

tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão.

Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe

impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a

vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao

curro das letras.

No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias

que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José

Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as

seguintes:

«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré,

mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo

procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o

amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance

para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito

tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio

para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma

_escroquerie_, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima...

«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza;

explorou a desgraça do amigo com o drama o _Condemnado_, que vendeu a

dous individuos.»

Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor

do _Condemnado_, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas

deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser

publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se

furtar a uma _escroquerie_; e finalmente á dupla venda do drama _O

Condemnado_ a s. exc.ª e a outro simultaneamente.

O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma:

_Snr. Camillo Castello Branco._

Meu amigo.

Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso

que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe.

O primeiro periodo marcado por v. allude ás _Memorias do Carcere_ cuja

editação v. me veio propor em seguida á do _Amor de Perdição_. Ajustamos

a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia

seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas

expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do

conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio

junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a

v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu

não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas

informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de

magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio

immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão

da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada

probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v.

não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez

generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle

mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado

impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v.

contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto.

Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que

sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os

factos fossem desfigurados em desabono de v.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12) · 第 3 / 4 段