elle _grunhe_.» A pag. 277: «Não grunhes, cão!» E torna: «Quer o cão...
_grunhir_.» Nunca se usurpou tantas vezes a linguagem ao cevado.
Se o snr. Vasconcellos estudasse portuguez pelo _Methodo_ de Monteverde,
teria aprendido nas _Vozes dos animaes_ do snr. Pedro Diniz como vozêam
cães e porcos.
_Muge_ a vacca; _berra_ o touro;
_Grasna_ a rã; _ruge_ o leão;
O gato _mia_; uiva o lobo;
Tambem _uiva_ e _ladra_ o cão.
..........................
_Chia_ a lebre; _grasna_ o pato;
Ouvem-se os porcos _grunhir_;
Libando o succo das flôres,
Costuma a abelha _zumbir_, etc.
Tambem Vasconcellos, traduzindo Goethe, descobriu no cão um _caroço_
(pag. 285). Diz-lhe o snr. Telles que _Kern_ significa _pevide_ ou
_caroço_, quand se trata de fructos; mas n'outras conjuncturas, é
_amago_, _substancia_, etc. O snr. Vasconcellos, quando tirava os
significados de _Kern_, achou _caroço_, e pespegou-o logo no cão; por
isso o cão encaroçado _grunhiu_ tres vezes. Podéra...
A pag. 474, escreve Vasconcellos: _ouvir por um oculo._ Eu esta phrase
não a estranho. Mais me espantára, se elle dissesse: _vêr por uma
corneta acustica._
Dá-nos Vasconcellos a pag. 503 Tantalo _enterrado até ao queixo na
agua._ Póde uma pessoa estar _enterrada_ na agua, e estar _submergida_
na terra. Tambem não estranho isto; mais me assombra a coragem da
ignorancia, se é que não ha um fado irresistivel e tolo que nasceu
comnosco, ou _com nós nasceu_, como diz Joaquim de Vasconcellos a pag.
339.
BIBLIOGRAPHIA
_Escriptos humoristicos em prosa e verso do fallecido JOSÉ DE SOUSA
BANDEIRA, precedidos da biographia e retrato do author. Porto, 1874._--O
berço da liberdade em Portugal foi embalado com as trovas politicas do
redactor do _Azemel_ e do _Artilheiro_. Bandeira é o patriarcha da
facecia jornalistica entre nós. A sua graça era da velha escóla de José
Daniel e de José Agostinho de Macedo. Não pespontava de delicadeza: ia
direita aos beiços do leitor e abria-lh'os forçosamente em casquinadas
de riso. Hoje em dia, o riso é mais preguiçoso, quando folheamos estas
paginas do livro escripto ha 38 annos. São cinzas, e cinzas esquecidas
os estadistas que José de Sousa Bandeira motejou no tumultuoso palco
politico de aquelle tempo; todavia, a historia não prescindirá de
consultar os _Annaes da imprensa da liberdade restaurada_, quando houver
de assentar de vez os vultos dos grandes obreiros do governo
representativo; e, entre todos os archivistas das luctas d'esses dias,
José de Sousa Bandeira foi o mais independente e afouto. Custodio José
Vieira, talento insigne e apreciador inflexivel dos homens e das cousas,
escreveu a biographia do jornalista com quem muitas vezes pleiteou na
sua juventude de publicista. É um lavor incompleto, dado que na vida de
Sousa Bandeira lhe não esquecessem os lances capitaes. É incompleto, por
que as 83 paginas escriptas deviam prolongar-se até completar a historia
e o proseguimento da restauração dos direitos civicos em Portugal.
Custodio Vieira revela-se, n'este eloquente escripto, historiador
severo. No estylo, usa as concisões de D. Francisco Manoel de Mello, e o
atticismo dos historiographos que melhormente exemplificaram a arte de
narrar. Se elle um dia poder furtar-se aos braços da sua amada e
amantissima jurisprudencia (que amores!) póde ser que a historia se
preze de brindar os portuguezes com os fastos da sua emancipação.
* * * * *
_No Minho, por D. ANTONIO DA COSTA. Lisboa, 1874._--Apenas publicado,
divulgou-se o gracioso livro de D. Antonio da Costa, escriptor provado
em ramos de variada litteratura. Os _Tres mundos_ foi obra que affirmou
os distinctos dotes revelados nos livros anteriores. Este do _Minho_ é o
repousar suave de circumspectas canceiras, que asseveram meditação,
estudo, espirito reflexivo e capacidade para tentativas avessas do
indolente genio portuguez. Escrever 310 paginas ácerca d'estas moutas
verdejantes do Minho, sem enfastiar, é condão de quem sabe quebrar com
as diversões da arte a monotonia da natureza. E, depois, jornadear por
estradas reaes, pernoitar por estalagens urbanas--em que não ha
vislumbre de urbanidade, nem sequer misericordia--passar uma noite em
Braga, é sentir-se a mais robusta e inventiva alma encodear de uma
crusta de estupidez que nos faz pensar que temos no peito uma tartaruga
sôrna. Braga, a scintillante esmeralda d'esta manilha de pedras finas
que D. Affonso Henriques tirou do pujante braço de Hespanha, Braga seria
a querida dos forasteiros de todo o mundo, se as camas das suas
hospedarias não fossem alfobres de insectos _apteros_ com seis patas, e
_hemipteros_ com azas, segundo Cuvier. Sei que no Indostão ha hospicios
em que as pulgas são pensionadas e medicadas nas suas enfermidades. Sei
que os indostanicos respeitam o dogma da metempsychose, e se deixam
sugar devotamente por ellas; mas nem Braga é Aurengabad, nem eu sou da
raça mahratta, nem tenho razões bem assentes para desconfiar que o
espirito de minha avó se compraz em me morder no hotel Real de Braga.
Não encontro memoria d'este martyrio no livro do snr. D. Antonio da
Costa. Attribuo a omissão á delicadeza do martyr. Ha tormentos tão sujos
que o relatal-os em gemidos é indecencia consignada no _Compendio de
civilidade_ do snr. João Felix. Se bem me lembro, Boileau cantou a pulga
em magnificos alexandrinos; hoje em dia; nem á pedestre prosa se
consente rolar uma lagrima sobre a cutis sevandijada por estes e outros
carnivoros creados em um dos sete dias genesiacos... para satisfação e
proveito do homem.
O meu amigo D. Antonio da Costa, convisinhando do snr. Manoel dos
Malhos, que roncava impenetravel ás harpias do hotel, chorou
copiosamente no capitulo intitulado: _Uma insomnia._ Quem sabe se,
n'aquella noite, as luras epidermicas da casca de Manoel dos Malhos
attrahiram as hordas a desenxovarem n'ellas as suas larvas e nymphas?
Eu, n'aquellas estalagens, encontro sempre dous Manoeis dos Malhos, um
de cada lado, e os outros bichos no meio.
Formal e substancialmente são admiraveis os capitulos d'este livro,
intitulados _O Bom Jesus do Monte_, _Um castello feudal em 1873_, _A
mulher do Minho_, e a _Ultima impressão_. N'estas paginas que fecham o
livro reluzem os entranhados desvelos com que o snr. D. Antonio da
Costa, ha tantos annos, afaga as criancinhas carecidas da segunda alma
da educação. Este capitulo é um obelisco de gratidão publica e amoravel
a perpetuar a memoria de D. Maria Francisca dos Santos Araujo, abastada
senhora de Leça que fez do seu ouro um quinto evangelho de propaganda
caritativa. «Ah, senhora!--escreve o eloquente enthusiasmo do obreiro da
instrucção--devem de ser formosos os vossos momentos, quando na escóla
que edificastes vos achardes rodeada das meninas que se estão educando
no vosso bafo, e não menos quando sahindo d'alli festejada por ellas, ao
passardes pelas ruas de Leça, chegarem ás portas todas aquellas mães com
as filhinhas mais pequenas ao collo, e fordes vendo todas essas mães
apontarem para vós, dizendo alvoroçadas para as crianças: _É aquella!_»
O livro _No Minho_ está julgado por 1:500 leitores que o já possuem; e,
todavia, annunciou-se a excellente obra nos primeiros dias de julho. Não
são triviaes estes triumphos em Portugal, repetidos com as mais notaveis
producções do benemerito escriptor. Aquelle grave e philosophico livro
dos _Tres mundos_, relido com intelligente ardor e creio que já
reimpresso, attesta que renasce n'este paiz o afan do estudo, e o gosto
da instrucção solida. Deviamos vir a isto, depois do cataclysmo de
palavrorio e marmanjarias com que uns sycambros andaram por ahi a querer
derrancar a mocidade. Não póde o illustre escriptor frizar de todo a sua
indole peculiar ao genero escoteiro--digamol-o assim--d'estas cousas
levissimas e quasi futeis que se escrevem em jornadas de fronteiras a
dentro. O modêlo, que Almeida Garrett imitou dos francezes, é um estorvo
que desanima. O romance, interposto na viagem, era em 1840 um dôce
engodo, e foi grande parte na prosperidade do livro. Estavamos ainda no
periodo romantico. A menina dos rouxinoes devia ser contemporanea dos
bardos que se inspiravam das proprias cabelleiras á Saint-Simon. Os
rapazes d'aquelle cyclo acreditavam em Garrett, e andavam saturados do
amor dos Espronceda e Musset.
Hoje, não. O livro do snr. D. Antonio da Costa é, a intervallos,
condimentado das grandes questões do dia, da vitalidade regeneratriz que
estúa no pulso de todas as forças. Se parte dos leitores o desejam mais
futil, ha de haver muito quem assim o estime em dobro. Eu, de mim, achei
n'estas trezentas paginas o sorriso alegre, a meditação melancolica, o
rebate saudoso de perdidos contentamentos, o estimulo a considerações de
porvindouros beneficios a filhos e netos--consolação unica, mas santa,
que a Providencia dá aos que não esperam nada da vida presente.
* * * * *
_Phantasias e escriptores contemporaneos, pelo VISCONDE DE BENALCANFÔR.
Porto, 1874._--Ricardo Guimarães, com o camartello do folhetim, derruiu
o carroção, no Porto, ha vinte annos. O carroção tinha, por aquelle
tempo, dous seculos de moda. Fôra inventado na rua das Cangostas para
uso de uma familia obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta
familia derreteu-se no estio de 1650; mas o carroção ficou.
No lapso de duzentos annos, o carroção, parado no largo da Batalha, com
a lança vermelha atravessada nas sôgas dos ramalhudos bois, viu passar e
desapparecer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O
carroção escancarou as goelas, e riu da americana, da victoria, do
phaetont, do landeau, da caleche, do dog-cart, da tipoia, do coupé, do
tilburi, do daumont, do brougham, do mail-coach, do poncy-chaise, do
groom, do break. Ricardo Guimarães, fundibulario da hoste moderna,
carregou a funda de estylo, remessou-a ao Golias de couro; e o gigante,
arrastado pelos bois que mugiam saudosos da palha-milha que comiam á
porta do theatro lyrico, dispersou os membros por Barcellos, Famalicão e
regiões visinhas. O milagre não fôra obra de um homem nem de uma geração
de espiritos finos. Fôra o estylo de Ricardo Guimarães--o estylo que é a
dynamisação de todas as forças, desde a polvora até á dynamite, desde a
alçaprema de Archimedes até á machina de Papin. Era uma delicia o
escrever d'este rapaz, e outra delicia o modo como entornava no papel os
brilhantes paradoxos, as hyperboles ridentes, as metaphoras
originalissimas. Era meu companheiro de hotel (que hotel, ó Ricardo!) em
1855. Escrevia artigos politicos de madrugada, na calma, entre meio dia
e uma hora, do seguinte feitio: tinteiro e papel no sobrado; elle
adaptava-se horisontalmente ao colchão, na postura de quem espreita a
profundidade de uma cisterna, descia o braço direito até ao pavimento, e
escrevia lá em baixo. Assim tratava Ricardo Guimarães, de bôrco, a
politica do _Nacional_, no soalho, como quem deita migalhas a uma pêga.
Depois, um dia, enfardelou os fraques e os vernizes, os retratos de
algumas mulheres formosas e os economistas mais avançados, desdobrou as
azas da sua arrojada phantasia, deu um sorriso aos seus amigos, e...
adeus! D'ahi a pouco, deputado, esposo, pai. Fez-se um silencio de annos
na sua voga de escriptor. Os seus camaradas, que haviam afivelado com
elle a espora de cana em algaras litterarias, trajaram luto quando se
convenceram que o _visconde de Benalcanfôr_ era o epitaphio de _Ricardo
Guimarães_.
Eil-o que resurge com as feições mais accentuadas, o sorriso menos
expansivo e mais hervado de ironia, a graça mais palaciana, a satyra com
oculos verdes para que a não acoimem de estouvada, e as antigas imagens
de sua invenção com decote que não deixe vêr a curva da espadua.
D'esta reforma, salvou o visconde de Benalcanfôr as facetas
resplandecentes do estylo, deveras portuguez na palavra, francez no
boleio da phrase--ligação que é uma formosura, quando o escriptor tem a
consciencia d'essa difficultosa amalgama.
Tem o visconde publicado os melhores livros que possuimos ácerca de
viagens. Este das Phantasias seria aquelle que eu mais encarecesse em
quilates de graça e critica, se me não visse ahi tão amigavelmente
indulgenciado em onze paginas. Ponderei, gravemente, meu caro Ricardo,
n'este livro o teu capitulo, intitulado ELOGIO MUTUO. Tu, com certeza,
antes queres de mim uma reminiscencia da juventude, que os tardios e
quasi inuteis gabos feitos ao teu assignalado talento.
* * * * *
BERNARDINO PINHEIRO. _Amores d'um visionario, romance historico original
do seculo XVI. 2 tom. Lisboa, 1874._--Se a linguagem das civilisações
adiantadas e os pensamentos de perfectibilidade humana podessem
pensar-se e exprimir-se no seculo XVI, este romance do snr. Bernardino
Pinheiro corresponderia, cabalmente, á qualificação de _historico_. A
illusão desfaz-se a cada pagina, sempre que os personagens entendem na
questão do progredir social. Que Antonio de Gouvêa, o heroe do livro,
depois de ouvir, na Europa litteraria e convulsa de reformas, as
theorias dos adversarios do papa e do dogma, propagasse idéas e palavras
novas em Portugal, é possivel; mas que a freira do Salvador, e D.
Margarida de Lencastre, e a escrava liberta discreteassem tão eloquentes
e progressistas ácerca dos direitos do homem, da emancipação do escravo,
da liberdade do pensamento, repugna aceital-o a razão, posto que de bom
animo nos affeiçoemos á vehemencia e esplendor d'essas phrases
intempestivas.
Mulheres illustradas, se as houve em Portugal no seculo XVI, são umas
que o snr. Pinheiro nos mostra em um dos admiraveis capitulos do seu
livro. As paginas descriptivas de _Uma academia feminina do seculo XVI_
quadrariam em livro da mais selecta historia do reinado de D. João III.
Alli estão as Sigéas, que não gozam fama de pudentissimas escriptoras,
se um poema erotico as não calumnía. Pois, n'esses completos moldes que
o snr. Pinheiro nos deu da sciencia feminil, está o maximo, o ultimo
estadio do alcance intellectual da mulher. Soror Maria, a monja que, de
escrupulosa, não ousava erguer o véo a sós com o amante, revelou
incapacidade para discorrer tão liberrima, na carta a Gouvêa, ácerca das
regalias do coração. Escrevendo ácerca de uma visionaria, diz a freira
ao seu amado: «Os espiritos convictos são logicos. O fanatismo tem as
suas leis fataes--e, por vezes, posto que raras, felizes...» E
acrescenta com intelligente ironia: «Que enormissimos criminosos que nós
somos:--amamo-nos, e acreditamos no evangelho puro!... Quando serão no
mundo livres o pensamento e o amor?!»
A freira em 1548, podia delinquir porque era mulher; mas não saberia
desculpar o seu delicto com argumentos d'aquella natureza. E soror
Maria, se tivesse no corpo o demonio incubo da philosophia, quando abriu
a porta da cerca monastica ao amante, sahiria por ella, em vez de,
colhida em flagrantes amorios, pedir misericordia á mestra de noviças.
Teria feito o que fez depois, independente de luzes que lhe mostrassem a
nullidade e tyrannia dos votos de reclusão, castidade e pobreza.
Esta macula é resgatada por nitidissimas paginas que manifestam o
historiador avantajando-se ao romancista. O capitulo XVIII
(_Illustrações em Coimbra_) é labor bastante a graduar um espirito culto
na convivencia dos varões insignes do seculo XVI. A disposição do grupo
é magnifica. Alli se admiram os luzeiros que chammejaram á volta da alma
negra de João III e não vingaram esclarecel-a.
O quadro do auto de fé em que Antonio de Gouvêa é salvo da fogueira pela
cohorte dos escravos, é tão vigorosamente desenhado quanto inverosimil.
Os frades de S. Domingos não se deixavam embair por tretas nem
sancadilhas á sua credulidade, quando queimavam herejes da laia de
Gouvêa. Não obstante, esse trance, pelas commoções que produz,
dispensa-se dos realces da naturalidade.
Em summa, _Os amores d'um visionario_ é um livro que merece graduar-se
entre os bons romances portugueses, tanto pelos predicamentos da
imaginação, como pelo subsidio de historia que presta ás pessoas
desaffectas a demorados estudos.
POBREZA ACADEMICA
O secretario da academia real das sciencias de Lisboa, José Bonifacio de
Andrade e Silva, escreveu a monsenhor Ferreira Gordo, pedindo-lhe um
donativo para ajuda de se pagar o busto do duque de Lafões, D. João
Carlos de Bragança, que a mesma academia desejava collocar em uma das
suas salas. O sabio monsenhor respondeu com circumspecção e graça por
meio da seguinte carta, que está inedita:
«Poderá v. s.ª certificar em meu nome á academia, que eu estou disposto
a concorrer com o contingente, que me couber, guardada a proporção
arithmetica, para o monumento, que pretende dedicar á memoria sempre
saudosa do seu illustre fundador, e que aproveitarei de bom grado todas
as occasiões, em que possa dar-lhe mostras do meu reconhecimento pelo
muito, de que lhe fui devedor. Mas não se achando todos os socios n'este
empenho, e fallecendo á maior parte d'elles meios, para fazer donativos
d'esta natureza, parece-me que a academia teria resolvido com mais
prudencia, e circumspecção decretando que a despeza do dito monumento
sahisse inteiramente dos seus fundos. Que póde doar sem detrimento seu
um religioso, não sendo commissario da Terra Santa, prior geral dos
conegos regrantes de Santo Agostinho, abbade geral do mosteiro de
Alcobaça, ou ministro provincial dos menores observantes de qualquer das
duas provincias de Portugal e Algarves? Que rendimento tem um professor
regio de humanidades, um lente da universidade, um ministro, e qualquer
outro funccionario publico, que na fallencia de bens patrimoniaes, lhe
não seja indispensavel para sua mantença? Dirá alguem que a academia
roga, e não manda, e isto é verdade; mas como ninguem quer o fóro de
pobre, nem ser marcado com a nota de pouco officioso, esta rogativa virá
a ser para a maior parte dos socios, o effeito de um rigoroso
mandamento. De mais se a academia é real, se todos os seus trabalhos se
dirigem a fazer prosperar, e florecer os estados de quem lhe deu este
titulo, e a subsistencia, e se até agora tem gozado a singular
prerogativa de ser presidida por uma personagem de sangue real, acho
muito improprio, que a despeito, de tudo isto, se lhe queiram dar os
attributos de uma irmandade religiosa, fazendo dependente da caridade de
seus irmãos, e não do seu patrimonio, qualquer despeza extraordinaria,
que emprehender. Perdôe v. s.ª como secretario a liberdade, que tomei,
que como meu amigo que é, tenho certeza me desculpará, se o que acabo de
escrever se encontrar com o seu parecer, que muito respeito.»
Os academicos de hoje são outra casta de gente, quanto a pelintraria. Se
não fazem bustos, é porque ainda estão vivos todos os sujeitos que hão
de resuscitar no marmore e no alabastro. Aquelles salões desertos hão de
ser povoados de estatuas, quando as cangas de sabios que hoje lavram os
baldios da sciencia, se foram a pascer nos almargens da immortalidade.
Medita a geração nova no modo de os entrajar, pois que a funeral casaca
destôa das arrojadas manias e sabenças de cada sujeito. Creio que
deveremos apparecer, nós, os academicos, cada qual com seu caranguejo
symbolico na mão operosa. O mocho, a ave de Minerva, apenas cabe de
direito ao snr. João Felix Pereira, o pervigil diurno e nocturno.
SOBRE ANSELMO
Usam dizer algumas pessoas assalteadas por bandidos da imprensa: «Não
respondo, porque o insultador é canalha.» Isto é um desacerto. Não ha
canalha irrespondivel. Todo o infame que calumnía representa uma
parcella da opinião publica. E essa parcella, malevola ou enganada, crê
esmagar o calumniado quando o interprete de seus odios ou preconceitos
tem no espinhaço a couraça repulsiva do escaravêlho, invulneravel aos
bicos da penna e aos loros do látego.
Anselmo é um como isso. E, todavia, eu respondo a um grupo de sujeitos
representados na imprensa por Anselmo. Separal-o individualmente, e
atagantal-o, isso é que de modo nenhum. O sapo esguicha um pus fetido
quando lhe verberam as pustulas do couro. Não se bate em homens d'esta
laia, desde que o pelourinho e o açoute foram expungidos da lei.
Convém saber que Anselmo não escreve: assigna. Theophilo Joaquim
Fernandes é o tubo intestinal por onde Anselmo estrava a alma
excrementicia; ao mesmo tempo que Anselmo é a testa polida (não é
tartaruga: finge) em que Joaquim escreve as suas protervias a carvão.
Theophilo, o ignorante que eu abafei com a critica risonha, sem lhe
impor alçada ás devassidões notorias, resfolga nas iras do outro. É a
vingança negra do mais safado caracter que ainda sahiu desembolado ao
curro das letras.
No impresso assignado por Anselmo de Moraes encontrei duas aleivosias
que me doeram por estar conspurcado n'ellas o nome serio do snr. José
Gomes Monteiro, invocado como authoridade no meu descredito. São as
seguintes:
«Da cadêa começou Camillo a abrir brecha para a rapina na casa Moré,
mandando ahi mostrar um romance de descompostura ao dignissimo
procurador regio, que não lhe tolerou certas obscenidades no carcere; o
amigo do procurador regio, gerente da dita casa, teve de pagar o romance
para poupar um desgosto ao magistrado respeitavel. Ainda não ha muito
tempo que o snr. José Gomes Monteiro se refugiou no nosso escriptorio
para evitar o encontro de Camillo na loja Moré, que ia alli armar uma
_escroquerie_, com o fim, dizia elle, de pagar uma decima...
«Ultimamente comprometteu a sorte de Vieira de Castro com a sua defeza;
explorou a desgraça do amigo com o drama o _Condemnado_, que vendeu a
dous individuos.»
Pedi ao snr. José Gomes Monteiro, antigo gerente da casa Moré, e editor
do _Condemnado_, que se dignasse ajudar-me a interpretar estas
deshonrosas referencias a um romance que s. exc.ª me pagára para não ser
publicado, a uma fuga de s. exc.ª no escriptorio de Anselmo para se
furtar a uma _escroquerie_; e finalmente á dupla venda do drama _O
Condemnado_ a s. exc.ª e a outro simultaneamente.
O snr. José Gomes Monteiro, na volta do correio, respondeu d'esta fórma:
_Snr. Camillo Castello Branco._
Meu amigo.
Acabo de receber a carta de v. datada de hontem, incluindo o impresso
que Anselmo de Moraes fez aqui circular. Apresso-me em responder-lhe.
O primeiro periodo marcado por v. allude ás _Memorias do Carcere_ cuja
editação v. me veio propor em seguida á do _Amor de Perdição_. Ajustamos
a publicação d'essa obra antes de eu ter lido o original, que só no dia
seguinte me foi entregue. Li então o manuscripto aonde encontrei algumas
expressões que me pareceram offensivas da reconhecida probidade do
conselheiro Camillo Aureliano da Silva e Sousa, então procurador regio
junto á Relação do Porto. Por este motivo tive de devolver o original a
v. rogando-lhe houvesse por nulla a nossa convenção, por isso que eu
não podia ser editor de um livro em que de certo por erradas
informações, era maltratado um amigo meu, que eu tinha na conta de
magistrado integerrimo e de honradissimo cavalheiro. V. veio
immediatamente procurar-me e aceitando o meu testemunho como a expressão
da pura verdade, confessou ter sido mal informado ácerca da immaculada
probidade do meu amigo. Voltou o manuscripto devidamente reformado e v.
não se limitando a expungir as phrases que eu havia condemnado, fez
generosamente justiça ao honrado magistrado. Publicou-se o livro e elle
mesmo dará testemunho da inexactidão do que se affirma no citado
impresso, de que eu me vira obrigado a pagar um romance escripto por v.
contra o meu amigo para lhe poupar um desgosto.
Confesso não ter guardado rigorosa reserva sobre este incidente, do que
sinceramente me peza, visto que a minha indiscrição deu lugar a que os
factos fossem desfigurados em desabono de v.