V. não precisa de certo que eu o justifique, nem me justifique a mim de

me haver um dia refugiado no escriptorio do signatario do impresso para

me subtrahir a um pedido de v. Declaro com toda a ingenuidade não me

recordar d'esse grave capitulo de accusação dirigido não sei se a mim se

a v. O que afoutamente posso asseverar é que nas muitas transacções

commerciaes que temos tido encontrei sempre em v. a maior franqueza e

inexcedivel probidade. Não é por isso verdade que v. depois de me haver

vendido a propriedade do drama _O Condemnado_ o tivesse subrepticiamente

vendido tambem a outra casa editora. É verdade que d'este drama se veio

a fazer no Rio de Janeiro uma contrafacção, mas tenho completa certeza

de que v. fôra inteiramente alheio a esta fraude, que a falta de um

tratado com o Brazil infelizmente authorisa.

V. fica authorisado a fazer d'esta minha carta o uso que lhe convier.

Sou como sempre

De v. etc.

Porto, 25 de julho de 1874.

_José Gomes Monteiro._

Apraz-me grandemente o publico testemunho d'esta carta, no momento em

que as minhas relações sociaes e commerciaes com o snr. José Gomes

Monteiro se desatam. Eu não poderia, sem impostôra inutilidade,

fingir-me amigo de s. exc.ª desde que do contexto da sua carta se

deprehende que o snr. Gomes Monteiro não se recorda bem se fugiu de mim

para o escriptorio de Anselmo. Figura-se-me mais consentaneo ao honesto

caracter do snr. Gomes Monteiro negar-se pela palavra a um favor pedido,

e não pelo escondrijo no escriptorio de Anselmo a quem, pelos modos, s.

exc.ª não disse _que nas muitas transacções commerciaes que tivera

commigo encontrára sempre a maior franqueza e inexcedivel probidade_.

Tirante esta feição mais attendivel do impresso, o remanescente é

indiscutivel nos prelos e nos tribunaes. Tenho vergonha das infamias

alheias, e respeito os nomes das pessoas que ahi se ultrajam.

No entanto, não me esquivo a tocar dous episodios da minha biographia,

que lá vem contados:

Que eu guardara cabras em Villa Real.

Quer o leitor saber onde Theophilo foi esquadrinhar este indecoroso

lance da minha vida? Em um livro meu, chamado DUAS HORAS DE LEITURA,

escripto ha 20 annos. Sou eu que, em uma carta ao meu fallecido amigo

José Barbosa e Silva, conto assim o caso das cabras:

«Aos meus dez annos, levantou-se uma tempestade no seio da minha

familia. Uma vaga levou meu pai á sepultura; outra atirou commigo de

Lisboa, minha patria, para um torrão agro e triste do norte; e a

outra... Não merece chronica a outra: arrebatou-me um esperançoso

patrimonio. Foi bem pregada a peça, para que eu não tivesse a impudencia

de nascer, a despeito da moral juridica, filho natural de não sei que

nobre. Disseram-me que uma lei da snr.ª D. Maria I me desherdava. A boa

da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão

cruamente para os filhos do peccado; Denominava-se a _piedosa_, pela

mesma razão que um rei nosso, soprando a fogueira de vinte mil hebreus,

se chamou o _piedoso_... Fui educado n'uma aldêa, onde tenho uma irmã

casada com um medico, irmão de um padre, que foi meu mestre. O mestre

podia ensinar-me muita cousa que me falta; mas eu era refractario á luz

da gorda sciencia do meu padre. Fugia de casa para a serra, dava muitos

tiros ás gallinholas e perdizes... O meu gosto era (_hic_, cabras)

pascer o rebanho de casa por aquelles saudosos valles. Todavia, minha

irmã oppunha-se a este humilde serviço. Dizia-me cousas que eu não

percebia ácerca da minha dignidade, reprehendia os meus baixos

instinctos, attrahia ao seu voto o marido e o padre, e cortava-me o

rasteiro vôo, escondendo de mim a clavina, o polvorinho, os salpicões, a

brôa, e a cabacinha da aguardente. Não obstante, eu pedia tudo de

emprestimo, e ia com as ovelhas para o monte. Passava lá o dia inteiro,

sentado nas espinhas d'aquelles alcantis fragosos, sempre sósinho,

scismando sem saber em quê, engolfada a vista nas gargantas dos

despenhadeiros.»

* * * * *

A respeito de cabras, não ha mais nada nos archivos impressos, que eu

deva transmittir á posteridade.

Ai! meu saudoso rebanho! Provavelmente, d'este lidar com cabras é que me

ficou o sestro e coragem de aparar as marradas de cabrões, como Anselmo.

N'essa mesma carta a Barbosa e Silva, conto eu que ajudava diariamente á

missa a cinco sacerdotes. O sarrafaçal deixou escapar o ensejo de dizer

ao publico que eu tambem fui sacristão.

E a historia da filha do taberneiro, que me deu um fato novo e uma moeda

para eu lhe casar com a filha; e vai eu pego a fugir com o fato e a

moeda e deixo a rapariguinha perdida!

Desbragada porcaria!

Ó meus amigos de Villa Real, ou lá d'onde se passou o caso

infando! Procurai a miseranda menina; e, se a topardes n'alguma

gafaria--derradeira paragem da espiral das perdidas--trazei-a a casa

d'este Anselmo para lhe agradecer o pregão que a vinga, e para lá se

rehabilitar, vendo-se honesta em contacto com certo exemplo femeal de

podridão d'alma e corpo.

* * * * *

Despedi-me, ha dias, de assignante da _Actualidade_. Estou arrependido.

Devemos todos contribuir com alguns cobres para que Anselmo de Moraes

não seja forçado pela necessidade a _picar-nos_ (giria d'elle) o paletó

no cunhal da viella da Neta. Em quanto aquelle archi-pulha tiver gazeta,

o seu pão, embora deshonrado, garante-nos do assalto nocturno. Não lhe

leio mais o jornal; mas dou-lhe a esmola dos 240 reis mensaes. Mande-os

receber em quanto a espinha em via de amollecimento me consentir

subscrever com seis patacos, a fim de que elle me não liquide a cadêa do

relogio.

É verdade: affirma o impudentissimo caloteiro que tem lá uns titulos do

saldo de nossas contas.

A fim de que esses documentos appareçam, offereço o seguinte e perpetuo

supplemento a todos os numeros da _Actualidade_:

ANSELMO DE MORAES É RADICALMENTE LADRÃO, COM UM CORTEJO DE TORPEZAS

ESPECIAES E RARAS NOS LADRÕES MAIS DESPEJADOS.

AO PUBLICO

AO PUBLICO

Distribuiu-se ahi ha dias com generosa profusão um libello famoso por

motivos a que sou completamente estranho, mas em que nem por isso

quizeram que eu deixasse de figurar.

Indignou por ahi a todos a alludida publicação, sem exceptuar os

proprios amigos ou parciaes do signatario d'ella, o snr. Anselmo de

Moraes. Dou-me com isso por bem vingado das malevolas intenções que me

apontaram ás iras atravessadas do insultador enraivecido. Não ha

desforço pessoal que valha tanto, e, ainda que o houvesse, não seria eu

que o tirasse. A dignidade nem sempre manda procurar o aggressor, antes

ás vezes exige que se evite.

O meu fim é, pois, sómente esclarecer o publico, a quem respeito, como

devo, e de quem quero continuar a merecer bom conceito, ácerca da

perfida insinuação com que se intentou manchar a minha probidade

commercial, que só d'isto posso aqui fallar sem offensa da moral

publica. Obrigou-me aquella insinuação a dirigir-me ao exc.mo snr. José

Gomes Monteiro, que, como homem de bem, se dignou dar-me o testemunho

que se segue:

_Snr._

_Respondendo restrictamente á carta que de V. acabo de receber,

cumpre-me declarar, como o exige o meu caracter, que durante o tempo que

sob a minha direcção V. serviu a casa da snr.ª viuva Moré, nunca d'ella

subtrahiu cousa alguma ou quantia e prestou regularmente as suas

contas._

_De V._

_Porto 28, 7, 74._

_attento venerador_

_José Gomes Monteiro_

Depois d'isto seria de mais tudo quanto eu podesse dizer. Fica o publico

habilitado para fazer o seu juizo.

_Ernesto Chardron._

FIM DO 8.º NUMERO

EMENDAS AO N.º 7

Pag. 47, lin. 15: quer-me _parece_, emende: quer-me _parecer_.

Pag. 95, lin. 10: _king-charles_, emende: _king's-charles_.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12) · 第 4 / 4 段