Manoel, o conde de Armamar, e Fernando Telles, foram sentenciados por
crime de lesa-magestade: os quatro primeiros foram degolados, e o quinto
queimado em estatua: a todos se confiscaram os bens, e como só Fernando
Telles tivesse filhos, a estes passaram os morgados, e os dos outros
delinquentes a quem de direito pertenciam.
«Francisco de Lucena foi julgado e justiçado por crime de
lesa-magestade, da mesma fórma o senhor de Regalados, um dos Soares de
Alarcão, os mascarenhas de Montalvão, D. Raymundo, quinto duque de
Aveiro, e outros foram reputados criminosos, sentenciados como taes,
confiscados seus bens; alguns d'estes tinham descendentes, a quem
passaram os morgados, e além d'isso conservaram a mesma estimação, e
lograram as mesmas honras, que teriam se seus ascendentes permanecessem
innocentes. Francisco Maldonado, e Francisco de Mendonça foram julgados
por traidores, e como taes justiçados, e confiscados os seus bens;
nenhum d'estes tinha filhos legitimos; mas Francisco de Mendonça deixou
uma filha bastarda, que conservou a mesma estimação que teria se seu pai
não commettesse o delicto; casou competentemente ao seu nascimento, com
descendencia nobre de quem tomou tambem o appellido. Muitos outros
factos semelhantes se omittem para não abusar da regia paciencia; só se
nota não haver nenhum em contrario de pessoa de certa ordem; e é tambem
de admirar que até quando por algum dos nossos monarchas foi
recommendado ao seu successor que se conservasse inexoravel com os que
deixava profundados na desgraça, nunca tiveram efficacia bastante as
razões politicas d'este conselho, e triumphou contra elles a clemencia e
justiça. D'ahi se seguia manifestar-se mais que nunca n'este reino a
verdade importante de ser a religião o mais solido fundamento das
felicidades e das glorias. Tudo n'este tempo pareceu por Deus abençoado,
e d'este modo se conservou, não sómente a raça respeitavel, com que
viemos a recuperar os nossos fóros nacionaes; mas concorreram tambem
para a sua exaltação muitos descendentes dos proscriptos antigos
tornados pelo mesmo rei afortunado ao estado venturoso.
«Estes exemplos constituem um perfeito costume, porque concorre n'elle a
multiplicidade dos actos, a diuturnidade do tempo e a sciencia de
principe. Se foram de justiça, não é o supplicante menos innocente, nem
menos fiel e obediente ao sceptro do que aquelles em quem se não
executou a lei, para que n'elle se interrompa uma tão dilatada serie nos
ditos exemplos; tanto mais não lhe tendo valido até agora a opinião de
muitos santos padres, de doutos juristas, canonistas e theologos, que
deu occasião ás leis estabelecidas nos reinos mais policiados da Europa,
dos quaes reputando-se os filhos nascidos antes dos crimes de seus paes,
livres de infecção, sómente a do peccado original são preservados de
toda a pena, antes pelo contrario, tendo estado o dito supplicante
expiando por excesso de rigor o crime alheio pelo tempo que se equipára
á morte, por ser já de uma duplicada vida civil, e que pelas violentas
circumstancias da rigorosa prisão em que padeceu, lhe teria acabado a
natural, se a Providencia divina lh'a não tivesse conservado apesar dos
esforços empregados para a brevidade da sua duração,--pena nunca
praticada, porque nem as leis dos imperadores, nem a nossa ordenação,
nem alguma outra impuzeram exorbitante castigo a semelhantes filhos
innocentes.
«Se os mesmos exemplos são de graça, o supplicante prostrado diante do
throno de V. M. a implora, tomando por protectores, a religião e a
piedade d'um principe, que preparado de muito longe pela Providencia,
com dotes proporcionados ao magestoso encargo que lhe destinava, se nos
mostra possuidor em grau sublime de tantas virtudes christãs, que fazem
o mais brilhante ornato da sua corôa.
«D'um principe a quem com antecipadas luzes, sendo evidente que para
beneficio dos que deviam obedecer-lhe seria poderoso o seu exemplo mais
do que a sua real authoridade; que por não ter na terra tribunal que lhe
fosse superior, devia exceder muito em perfeição aos homens ordinarios;
e que em lugar tão eminente poderia o seu beneplacito ser a regra
soberana por onde tudo fosse decidido, passou os instantes da sua
preciosa vida, em um continuo exercicio do dominio das paixões e foi
sempre o juiz mais severo de si mesmo. D'um principe, em fim, que com
estes respeitaveis fundamentos certo de ter estabelecido o mais feliz
imperio nos corações dos seus vassallos, só fará sensivel o peso immenso
da sua real grandeza aos inimigos da igreja e da verdade. Não dará outro
uso ao seu poder, senão para que se execute o que Deus manda; e assim
como alguns, que foram a delicia dos seus povos, fará consistir a sua
maior gloria em livrar da oppressão os desgraçados.
«Debaixo d'estes ditosos auspicios, d'estes augustos intercessores,
espera o supplicante vêr o termo do seu abatimento, a restituição da sua
liberdade, da sua honra, do seu credito e dos bens que o direito do
sangue lhe conferiu pelas vocações de seus ascendentes. Esta graça
humildemente pedida, será para o supplicante um novo vinculo da sua
submissão. E para el-rei nosso senhor um eterno monumento da sua benigna
magnanimidade.»
Esta pungente invocação á caridade da rainha, que esvasiava os repletos
cofres do estado no mosteiro do Coração de Jesus, não valeu ao
desgraçado, sequer, uma esmola do real bolsinho. Braganças!... O marquez
de Gouvêa viveu longos annos da caridade do seu parente conde de Obidos,
e já no fim da vida recebia uma mezada que lhe dava D. João VI. D.
Martinho, se bem me recordo do que li, morreu em Lisboa, em uma humilde
casa, no bairro de Buenos-Ayres, por 1804.
[2] É este o titulo do manuscripto: _Itinerario do ex.mo snr. bispo
conde, restituido ao seu bispado, para o qual partiu de Lisboa no
dia 11 de agosto de 1777._
D. MARIA CARACA BONAPARTE
Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e
benemerita de immorredoura escriptura.
Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da
demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado _A catastrophe_.
Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio,
tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em
que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se
haver perdido no vigor da idade tamanho espirito.
D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE
D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai
morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela
independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da
opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam
volcanisado o seu cerebro até o delirio.
Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade
para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes
da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada.
As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque
seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o
odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a
blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os
bispos e contra as mitras e cadeiras.
Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo
contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a
exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na
metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece.
Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas
provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição
podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava
conferir-lhe todas as attribuições do imperio.
Bonaparte no Egypto era saudado como rei do fogo; Mahomet e todos os
impostores e usurpadores da sua escola recebem a mesma baixa e servil
adulação que as almas mais vis sempre se empenham em prodigalisar ao
vencedor. A sciencia, e a virtude de homem grande, consiste em desprezar
estas frivolas demonstrações e em saber reprimir todos os excessos do
enthusiasmo, que se esvaem e perdem como o fumo.
Bonaparte passou como um cometa; a sua descendencia extinguiu-se e toda
a sua parentela: existe na throno de França um homem que não tem pai nem
mãi, nem alliança, nem façanhas nem grandeza. É um homem que apenas
aspira a fazer com auxilio alheio uma memoria que mereça ser approvada
em uma academia.
Os protestantes urdem e tecem muitos generos de lisonja aos seus heroes;
são arcos e pompas de triumpho, grinaldas, festins, e poemas,
representações, e orchestras, lisonjas e desvanecimento.
Um deputado da convenção nacional disse a um seu amigo e collega, que ia
para Lião em commissão sanguinaria: tu verás em Lião a minha esposa,
abraça-a.
N'este tempo todos os revolucionarios levavam as suas mulheres aos
horrorosos estupros do templo profanado: a mulher que servia de modelo,
e o homem que a gozava, eram escolhidos entre todos os concorrentes sem
attenção ao estado nem á condição dos que eram designados.
Na Italia tributavam em quasi toda as cidades a Bonaparte a honra de o
desposar com a mulher mais formosa; Bonaparte aceitava este tributo da
infamia protestante, gozava e passava para outra cidade, aonde era
recebido com igual torpeza.
Em Milão cahiu a nefasta sorte em Maria Caraca Bonaparte; e como era
filha d'um homem morto pelo exercito francez recusou sujeitar-se á
estranha condição para que a designaram, apesar de ser tão protestante
como seu pai.
Os influentes de Milão que andavam empenhados n'esta impia e baixa
lisonja corromperam todos os parentes da burrinha; de sorte que cedeu de
seu odio politico, e principiou a ser do conquistador.
Se Maria Caraca fosse verdadeira catholica, jámais consentiria em tão
grande infamia e vileza, porque esta especie de tyrannia é mais impia e
mais cruel de que era o tributo das cem virgens para o serralho e para o
harem.
Uma amante ou manceba podem nutrir uma esperança honesta, e chegam ás
vezes a legitimar as suas uniões e prole; estas burrinhas são sempre a
negação da moral, o escarneo do affecto, e o epigramma do amor e da
sympathia. O protestantismo trata todas as mulheres como negras
escravas. Despreza-as para as fazer bem vis; porque a mulher deve ser
semelhante ao homem que a elege, e que a fórma e educa para sua
companheira.
Os milanezes deram a um tio de Maria Caraca a espectativa de um
canonicato, prometteram á sua victima dous mil cruzados de dote, e por
esposo o primeiro cantor da opera de Milão.
Maria Caraca e a sua familia realisaram todas as condições; os
protestantes de Milão cumpriram as suas fielmente: o casamento
verificou-se, o dote sahiu da renda da cidade, que pagou para Bonaparte
ter uma desgraçada por companheira dos seus vilissimos prazeres.
Os que dispunham tão impiamente dos beneficios ecclesiasticos não podiam
ter duvida em defraudar o thesouro do municipio.
Maria Caraca e seu marido seguiram o partido de Bonaparte, e na
restauração dos thronos viram-se na necessidade de emigrar para
Portugal: perderam patria, emprego, e até o sobrenome de Bonaparte de
que usaram por muito tempo.
O marido morreu e deixou um filho e uma filha em Lisboa; o filho exerceu
n'esta cidade por algum tempo com seu pai a profissão de musico: tambem
morreu: eu só conheci a viuva e a filha chamada D. Thereza, as quaes
moraram na rua dos Poyaes de S. Bento.
Quantas vilezas, quantas degradações, e quantas tyrannias envolve o
atroz procedimento de Milão! Não ha impiedade mais provocadora, não ha
infamia mais torpe, nem injuria maior feita ao mesmo tempo á igreja e ao
estado, á mulher e ao esposo, ao amor e ao estado e á santidade do
matrimonio.
Estas estrangeiras eram da escola da infame Bisardeli: conviviam com a
sua amante, que foi muito tempo em Lisboa uma mulher luxuriosa e
depravada, que vendia todo o fumo da perfida nunciatura d'aquelle tempo.
Eu foi conduzido em mil oitocentos e quarenta como deputado para a casa
das referidas Caracas: as lojas maçonicas dispunham do meu destino
traiçoeiramente para dispor de minha vida, e vivi por mais de um anno na
casa dos Poyaes de S. Bento com outros deputados, que serviam as lojas,
e que me vendiam, e entregavam aos seus caprichos: por esta razão ouvi e
aprendi o esboço d'esta negra historia; assim agora ouço e aprendo o seu
complemento e torpissimo enredo.
A inspiração é a minha sabedoria; se em outro tempo soube alguma cousa
agora declaro, que nada sei e que todas as minhas idéas são communicadas
e inspiradas, do alto céo, e no seu piissimo docel.
Eu tinha trinta annos de idade, e julgava que todos os homens eram de
boa fé, e amigos do seu semelhante. Bons e excellentes para a companhia
e convivencia, os traidores são os mais lisonjeiros: eu tive seis
companheiros de casa n'esta época: só um vive, cinco já falleceram.
Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as
maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem
traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de
presumir que um d'estes fosse o veneno.
A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos
os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e
estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora
forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me
surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e
para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam
estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e
matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas.
Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto,
a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue
para sahir para França logo que consummasse o attentado.
Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão
desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou
não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia
porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo
mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava
e não sabia evitar.
Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha
eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só
admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam
as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para
lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava
como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para
me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os
embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e
elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse
para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e
funeral.
Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não
consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de
Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo
se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me
ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias.
Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e
saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação
não tinha igual em todo o mundo e redondeza?
Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado
entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e
tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da
tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças.
Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus
enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel
ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o
espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e
representantes para assistir a esta scena de horror que se representou
na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa
Europa e da America por duas vezes.
Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O
nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial
condescendencia e venalidade.
Um deputado que vivia na mesma casa da viuva Caraca mandou um seu criado
ao meu quarto para me offerecer uma criada da casa em que ambos
viviamos; eu não sabia desviar estes golpes, que o Senhor deixava ao meu
alvedrio para o merecimento, e para que désse a devida preferencia á sua
santa luz e mandamento.
O inimigo occulto era d'uma seita de usurpadores de Deus: a sua traição
vingou por pouco tempo; quando me tentou com alguma pessoa da sua
familia não conseguiu o que desejava; o criado fez-lhe a traição, que
elle me urdiu a mim.
Os inimigos da nossa casa e dynastia recorreram a D. Thereza Caraca, e
fizeram-lhe o mesmo partido, que os milanezes tinham feito á sua mãi
para que me seduzisse e envenenasse.
Prometteram-lhe dinheiro, um marido, e um emprego para este, e
realisaram todas estas promessas, mas eu só bebi meia taça de seu
perfido veneno; na primeira occasião que tive de lucido intervallo
repelli a seductora, e todas as suas seducções, e, como vi que se
obstinava, sahi da casa.
O que é a verdade? esta mulher disse que estava gravida e tentou
attribuir-me o seu ventre, ou isentar-se pelo aborto do seu nefando e
odioso mister de calumniadora; disse-me que ia queixar-se de mim ao
nuncio, ou agente occulto da junta apostolica que por este tempo estava
em Lisboa, em quanto estiveram interrompidas as relações com a côrte de
Roma. Eu zombei da perfidia e do sarcasmo d'esta mulher calumniadora e
embusteira; e procurei livral-a de sua tentativa de aborto, o que
felizmente consegui por dinheiro.
Esta odiosa creatura teve n'este tempo dous amantes: o primeiro era um
deputado, que a seduziu para que me envenenasse, o qual morreu pouco
tempo depois, e logo adoeceu tão gravemente que parecia um espectro, ou
um cadaver ambulante: era um agente dos pedreiros livres.
Havia n'esta casa só duas pessoas da familia, a mãi e a filha; eu tive
dous enlouquecimentos de falso amor; repelli duas tentativas da mesma
perfida natureza e nojenta cavillação.
D. Thereza tocava dous instrumentos e cantava, tinha um amante para
casar que a acompanhava no canto e com o violoncello: eu comprei em
quanto alli estive dous pintasilgos ensinados a tirar agua com o bico,
os quaes foram ambos mortos por um gato, que havia em casa.
A criada tambem teve dous amantes, um era sapateiro coxo, que a
procurava e requestava para casar: ambos realisaram os seus casamentos.
A filha da viuva Caraca tinha na mesma casa um estabelecimento de
capella, e inculcava-se ao respeitavel publico como modista: a mãi tinha
o seu estabelecimento de hospedaria.
Eram dous estabelecimentos: a casa tinha sahida para duas ruas e duas
portas para a rua dos Poyaes de S. Bento: viveram alli commigo cinco
deputados, dous delegados, dous juizes do districto, dous governadores
civis, dous juizes da antiga magistratura, dous Domingos dos quaes um
era o atraiçoado e o enganado por todos os outros: eramos ambos
deputados pelo circulo de Villa Real: os outros eram deputados por
outros circulos.
Os delegados foram Domingos Vieira, e José Manoel Botelho, os juizes
foram o José Maria da Chamusca e o Quesado, os governadores civis foram
o dr. José Maria e João Pedro Pessanha, os juizes antigos foram o mesmo
José Maria e Domingos Vieira, e não preciso dizer quem eram os Domingos,
senão que eu sou já tão diverso do que era, que não pareço o mesmo. Os
cinco e seis deputados formavam as cinco e seis qualidades já referidas.
Quem poderá calcular as lagrimas que tenho chorado para carpir os
peccados e os erros da minha mocidade, e para os emendar com divina
graça e misericordia? está-me parecendo que reunidas faziam o maior lago
dos nossos passeios e jardins.
Actualmente não como carne nem peixe não bebo vinho nem cerveja,
passam-se quinze dias e tres semanas sem que prove doçura, nem chá, nem
café, nem chocolate, como por medida e por peso, e não uso de carne nem
de genero algum de tabaco, não passeio, nem vou aos espectaculos;
prefiro andar a pé e só peço ao Senhor que se compadeça da minha alma.
A burra protestante é bem parecida com a vacca, e com o burro da seita:
eu não conversava com estas em pontos ou artigos da santa fé, o seu
veneno era a maior traição e os seus reconditos apenas me revelaram
parte da sua historia de Milão.
Eu sempre assisti á missa mais catholica de que tinha noticia, e não
suspeitava em ninguem cavillação ou perfidia tão negra e atroz, que
chegasse a ostentar fé falsa da diabolica e tenebrosa consciencia: agora
sei que ha muitas d'estas embrutecidas consciencias, e não duvido que as
duas Caracas fossem d'este hediondo esconjuro.
Os maçons são em geral d'esta sanhuda seita do inferno; os usurpadores
de Portugal pactuam com o demonio, e entregam as almas para poderem
possuir as leis das santas casas do divino Salvador.
Mas estes venenosos monstros apenas gozam a presa: o direito santo e
eterno foge d'elles como foge a cerração quando nasce a aurora que vem
remir o mundo.
Os mesmos inimigos recebem outro engano ou desengano semelhante quando
tentam usurpar o poder da santa igreja para legitimar a sua tyrannia.
A falsa communhão dos protestantes está no estado: não póde legitimar os
actos do poder usurpador e dominador.
O estado catholico está na igreja, e por isso legítima os seus poderes
todas as vezes que recorre para este fim ao poder espiritual do summo
pontifice. A era actual é a perfeição da disciplina.
LIXO
O snr. Joaquim Antonio de Sousa Telles de Mattos, critico erudito e
menos conhecido que merece, publicou, em Evora, um opusculo intitulado:
_A imparcialidade critica do snr. Joaquim de Vasconcellos._ Allude á
_Analyse critica da versão do FAUST_. A obra do critico do snr. visconde
de Castilho é um livro crasso que morreu de tabardões, e jaz no
_carneiro_ das livrarias esperando que o dente roaz da carcôma o
pulverise por modo que as letras portuguezas se desenfezem d'aquellas
escamas de ignorancia e odio.
O snr. Telles de Mattos colligiu algumas necedades graudas que denominou
_vasconcellismos_.
Abre a lista, com a novidade--_declinar_ verbos. Eis a passagem onde se
encontra o lerdo descôco do critico de Castilho: _Nenhum doutorando dos
ultimos cinco annos em Coimbra, estaria no caso de_ declinar _os verbos
auxiliares allemães, sem merecer palmatoada..._ (pag. 26). E acrescenta
o snr. Mattos: «Quando eu vi o _Sejai_ e _Estejai_ julguei que era erro
typographico dos _germanismos_ annunciados; vendo porém _declinar_
verbos, percebi que o snr. Vasconcellos saberá tanto de allemão como
qualquer analphabeto nascido debaixo do paternal carinho de Bismarck.»
Observa que a pag. 57 o snr. Vasconcellos inclue a Suissa na Allemanha;
e acrescenta: «A Suissa pertence á Allemanha na geographia do snr.
Vasconcellos; ella deve ser equiparada á sua grammatica.»
Nota que o snr. Vasconcellos escrevendo: _os manes do Olympo_ (pag. 128)
désse a perceber que os deuses olympicos tem manes. _Manes_ tanto
significam almas dos mortos como deuses infernaes. A mythologia do snr.
Vasconcellos é como a geographia, e não desdiz da grammatica.
Cita, na pag. 208, o imperativo do verbo _ser_, _apud_ Vasconcellos:
«_Sejai_ pois corajoso e apparecei como modêlo.» E a pag. 507: «_Sejai_
tão infames quanto quizerdes.» E a pag. 337: «_Estejai_ dentro ao golpe
da sineta.» _Coup de clochette_--golpe de sineta, segundo Vasconcellos.
Em portuguez, traduz-se _badalada_, ou _toque de sineta_. Desculpem esta
observação os alumnos de instrucção do 3.º anno dos lyceus.
«Desço eu (diz o snr. Vasconcellos a pag. 239) sem cessar de cima para
baixo.» O snr. Telles de Mattos ajunta: «Leitor, agradece a fineza: sem
o pleonasmo, ficavas percebendo com certeza que se desce de baixo para
cima.»