«O marquez de Villa Real, seu filho o duque de Caminha, D. Agostinho

Manoel, o conde de Armamar, e Fernando Telles, foram sentenciados por

crime de lesa-magestade: os quatro primeiros foram degolados, e o quinto

queimado em estatua: a todos se confiscaram os bens, e como só Fernando

Telles tivesse filhos, a estes passaram os morgados, e os dos outros

delinquentes a quem de direito pertenciam.

«Francisco de Lucena foi julgado e justiçado por crime de

lesa-magestade, da mesma fórma o senhor de Regalados, um dos Soares de

Alarcão, os mascarenhas de Montalvão, D. Raymundo, quinto duque de

Aveiro, e outros foram reputados criminosos, sentenciados como taes,

confiscados seus bens; alguns d'estes tinham descendentes, a quem

passaram os morgados, e além d'isso conservaram a mesma estimação, e

lograram as mesmas honras, que teriam se seus ascendentes permanecessem

innocentes. Francisco Maldonado, e Francisco de Mendonça foram julgados

por traidores, e como taes justiçados, e confiscados os seus bens;

nenhum d'estes tinha filhos legitimos; mas Francisco de Mendonça deixou

uma filha bastarda, que conservou a mesma estimação que teria se seu pai

não commettesse o delicto; casou competentemente ao seu nascimento, com

descendencia nobre de quem tomou tambem o appellido. Muitos outros

factos semelhantes se omittem para não abusar da regia paciencia; só se

nota não haver nenhum em contrario de pessoa de certa ordem; e é tambem

de admirar que até quando por algum dos nossos monarchas foi

recommendado ao seu successor que se conservasse inexoravel com os que

deixava profundados na desgraça, nunca tiveram efficacia bastante as

razões politicas d'este conselho, e triumphou contra elles a clemencia e

justiça. D'ahi se seguia manifestar-se mais que nunca n'este reino a

verdade importante de ser a religião o mais solido fundamento das

felicidades e das glorias. Tudo n'este tempo pareceu por Deus abençoado,

e d'este modo se conservou, não sómente a raça respeitavel, com que

viemos a recuperar os nossos fóros nacionaes; mas concorreram tambem

para a sua exaltação muitos descendentes dos proscriptos antigos

tornados pelo mesmo rei afortunado ao estado venturoso.

«Estes exemplos constituem um perfeito costume, porque concorre n'elle a

multiplicidade dos actos, a diuturnidade do tempo e a sciencia de

principe. Se foram de justiça, não é o supplicante menos innocente, nem

menos fiel e obediente ao sceptro do que aquelles em quem se não

executou a lei, para que n'elle se interrompa uma tão dilatada serie nos

ditos exemplos; tanto mais não lhe tendo valido até agora a opinião de

muitos santos padres, de doutos juristas, canonistas e theologos, que

deu occasião ás leis estabelecidas nos reinos mais policiados da Europa,

dos quaes reputando-se os filhos nascidos antes dos crimes de seus paes,

livres de infecção, sómente a do peccado original são preservados de

toda a pena, antes pelo contrario, tendo estado o dito supplicante

expiando por excesso de rigor o crime alheio pelo tempo que se equipára

á morte, por ser já de uma duplicada vida civil, e que pelas violentas

circumstancias da rigorosa prisão em que padeceu, lhe teria acabado a

natural, se a Providencia divina lh'a não tivesse conservado apesar dos

esforços empregados para a brevidade da sua duração,--pena nunca

praticada, porque nem as leis dos imperadores, nem a nossa ordenação,

nem alguma outra impuzeram exorbitante castigo a semelhantes filhos

innocentes.

«Se os mesmos exemplos são de graça, o supplicante prostrado diante do

throno de V. M. a implora, tomando por protectores, a religião e a

piedade d'um principe, que preparado de muito longe pela Providencia,

com dotes proporcionados ao magestoso encargo que lhe destinava, se nos

mostra possuidor em grau sublime de tantas virtudes christãs, que fazem

o mais brilhante ornato da sua corôa.

«D'um principe a quem com antecipadas luzes, sendo evidente que para

beneficio dos que deviam obedecer-lhe seria poderoso o seu exemplo mais

do que a sua real authoridade; que por não ter na terra tribunal que lhe

fosse superior, devia exceder muito em perfeição aos homens ordinarios;

e que em lugar tão eminente poderia o seu beneplacito ser a regra

soberana por onde tudo fosse decidido, passou os instantes da sua

preciosa vida, em um continuo exercicio do dominio das paixões e foi

sempre o juiz mais severo de si mesmo. D'um principe, em fim, que com

estes respeitaveis fundamentos certo de ter estabelecido o mais feliz

imperio nos corações dos seus vassallos, só fará sensivel o peso immenso

da sua real grandeza aos inimigos da igreja e da verdade. Não dará outro

uso ao seu poder, senão para que se execute o que Deus manda; e assim

como alguns, que foram a delicia dos seus povos, fará consistir a sua

maior gloria em livrar da oppressão os desgraçados.

«Debaixo d'estes ditosos auspicios, d'estes augustos intercessores,

espera o supplicante vêr o termo do seu abatimento, a restituição da sua

liberdade, da sua honra, do seu credito e dos bens que o direito do

sangue lhe conferiu pelas vocações de seus ascendentes. Esta graça

humildemente pedida, será para o supplicante um novo vinculo da sua

submissão. E para el-rei nosso senhor um eterno monumento da sua benigna

magnanimidade.»

Esta pungente invocação á caridade da rainha, que esvasiava os repletos

cofres do estado no mosteiro do Coração de Jesus, não valeu ao

desgraçado, sequer, uma esmola do real bolsinho. Braganças!... O marquez

de Gouvêa viveu longos annos da caridade do seu parente conde de Obidos,

e já no fim da vida recebia uma mezada que lhe dava D. João VI. D.

Martinho, se bem me recordo do que li, morreu em Lisboa, em uma humilde

casa, no bairro de Buenos-Ayres, por 1804.

[2] É este o titulo do manuscripto: _Itinerario do ex.mo snr. bispo

conde, restituido ao seu bispado, para o qual partiu de Lisboa no

dia 11 de agosto de 1777._

D. MARIA CARACA BONAPARTE

Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e

benemerita de immorredoura escriptura.

Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da

demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado _A catastrophe_.

Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio,

tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em

que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se

haver perdido no vigor da idade tamanho espirito.

D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE

D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai

morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela

independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da

opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam

volcanisado o seu cerebro até o delirio.

Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade

para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes

da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada.

As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque

seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o

odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a

blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os

bispos e contra as mitras e cadeiras.

Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo

contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a

exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na

metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece.

Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas

provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição

podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava

conferir-lhe todas as attribuições do imperio.

Bonaparte no Egypto era saudado como rei do fogo; Mahomet e todos os

impostores e usurpadores da sua escola recebem a mesma baixa e servil

adulação que as almas mais vis sempre se empenham em prodigalisar ao

vencedor. A sciencia, e a virtude de homem grande, consiste em desprezar

estas frivolas demonstrações e em saber reprimir todos os excessos do

enthusiasmo, que se esvaem e perdem como o fumo.

Bonaparte passou como um cometa; a sua descendencia extinguiu-se e toda

a sua parentela: existe na throno de França um homem que não tem pai nem

mãi, nem alliança, nem façanhas nem grandeza. É um homem que apenas

aspira a fazer com auxilio alheio uma memoria que mereça ser approvada

em uma academia.

Os protestantes urdem e tecem muitos generos de lisonja aos seus heroes;

são arcos e pompas de triumpho, grinaldas, festins, e poemas,

representações, e orchestras, lisonjas e desvanecimento.

Um deputado da convenção nacional disse a um seu amigo e collega, que ia

para Lião em commissão sanguinaria: tu verás em Lião a minha esposa,

abraça-a.

N'este tempo todos os revolucionarios levavam as suas mulheres aos

horrorosos estupros do templo profanado: a mulher que servia de modelo,

e o homem que a gozava, eram escolhidos entre todos os concorrentes sem

attenção ao estado nem á condição dos que eram designados.

Na Italia tributavam em quasi toda as cidades a Bonaparte a honra de o

desposar com a mulher mais formosa; Bonaparte aceitava este tributo da

infamia protestante, gozava e passava para outra cidade, aonde era

recebido com igual torpeza.

Em Milão cahiu a nefasta sorte em Maria Caraca Bonaparte; e como era

filha d'um homem morto pelo exercito francez recusou sujeitar-se á

estranha condição para que a designaram, apesar de ser tão protestante

como seu pai.

Os influentes de Milão que andavam empenhados n'esta impia e baixa

lisonja corromperam todos os parentes da burrinha; de sorte que cedeu de

seu odio politico, e principiou a ser do conquistador.

Se Maria Caraca fosse verdadeira catholica, jámais consentiria em tão

grande infamia e vileza, porque esta especie de tyrannia é mais impia e

mais cruel de que era o tributo das cem virgens para o serralho e para o

harem.

Uma amante ou manceba podem nutrir uma esperança honesta, e chegam ás

vezes a legitimar as suas uniões e prole; estas burrinhas são sempre a

negação da moral, o escarneo do affecto, e o epigramma do amor e da

sympathia. O protestantismo trata todas as mulheres como negras

escravas. Despreza-as para as fazer bem vis; porque a mulher deve ser

semelhante ao homem que a elege, e que a fórma e educa para sua

companheira.

Os milanezes deram a um tio de Maria Caraca a espectativa de um

canonicato, prometteram á sua victima dous mil cruzados de dote, e por

esposo o primeiro cantor da opera de Milão.

Maria Caraca e a sua familia realisaram todas as condições; os

protestantes de Milão cumpriram as suas fielmente: o casamento

verificou-se, o dote sahiu da renda da cidade, que pagou para Bonaparte

ter uma desgraçada por companheira dos seus vilissimos prazeres.

Os que dispunham tão impiamente dos beneficios ecclesiasticos não podiam

ter duvida em defraudar o thesouro do municipio.

Maria Caraca e seu marido seguiram o partido de Bonaparte, e na

restauração dos thronos viram-se na necessidade de emigrar para

Portugal: perderam patria, emprego, e até o sobrenome de Bonaparte de

que usaram por muito tempo.

O marido morreu e deixou um filho e uma filha em Lisboa; o filho exerceu

n'esta cidade por algum tempo com seu pai a profissão de musico: tambem

morreu: eu só conheci a viuva e a filha chamada D. Thereza, as quaes

moraram na rua dos Poyaes de S. Bento.

Quantas vilezas, quantas degradações, e quantas tyrannias envolve o

atroz procedimento de Milão! Não ha impiedade mais provocadora, não ha

infamia mais torpe, nem injuria maior feita ao mesmo tempo á igreja e ao

estado, á mulher e ao esposo, ao amor e ao estado e á santidade do

matrimonio.

Estas estrangeiras eram da escola da infame Bisardeli: conviviam com a

sua amante, que foi muito tempo em Lisboa uma mulher luxuriosa e

depravada, que vendia todo o fumo da perfida nunciatura d'aquelle tempo.

Eu foi conduzido em mil oitocentos e quarenta como deputado para a casa

das referidas Caracas: as lojas maçonicas dispunham do meu destino

traiçoeiramente para dispor de minha vida, e vivi por mais de um anno na

casa dos Poyaes de S. Bento com outros deputados, que serviam as lojas,

e que me vendiam, e entregavam aos seus caprichos: por esta razão ouvi e

aprendi o esboço d'esta negra historia; assim agora ouço e aprendo o seu

complemento e torpissimo enredo.

A inspiração é a minha sabedoria; se em outro tempo soube alguma cousa

agora declaro, que nada sei e que todas as minhas idéas são communicadas

e inspiradas, do alto céo, e no seu piissimo docel.

Eu tinha trinta annos de idade, e julgava que todos os homens eram de

boa fé, e amigos do seu semelhante. Bons e excellentes para a companhia

e convivencia, os traidores são os mais lisonjeiros: eu tive seis

companheiros de casa n'esta época: só um vive, cinco já falleceram.

Os meus inimigos, que são todos os vilissimos protestantes, fizeram as

maiores diligencias para me matar: não houve astucia, nem enredo, nem

traição que não empregassem para conseguir este malevolo fim: é bem de

presumir que um d'estes fosse o veneno.

A infanta e todos os usurpadores da casa de Bragança, o governo e todos

os seus clientes, a maçonaria e todos os seus agentes nacionaes e

estrangeiros, ora armavam contra mim o braço do cruel Mattos Lobo, ora

forjavam ou fingiam revoluções e acclamações nocturnas para me

surprehender no conflicto, ora lançavam sortes para me seguir de noite e

para me matar nos arroios da cidade ou nas encruzilhadas: ora engajavam

estrangeiros e carniceiros por grandes sommas para que me procurassem e

matassem na propria casa, aonde eram recebidos pelas infames Caracas.

Um d'estes era um lanceiro, e carniceiro, que esteve na guerra do Porto,

a quem deram o preço do regicidio, e o bilhete de passagem em um brigue

para sahir para França logo que consummasse o attentado.

Todas estas traições e maquinações eram cumulativas, horrorosas, e tão

desleaes e insidiosas, como as que se urdem ao innocente que não sabe ou

não póde defender-se. Eu estava no caso da mais perfeita ignorancia

porque nem sabia o que era: infelizmente a minha vida era n'este tempo

mui sujeita á fragilidade e a quedas que eu não procurava, antes tentava

e não sabia evitar.

Estes monstros da tyrannia do inferno pediam e repelliam a minha

eleição; porque o seu fim unico exclusivo era a minha morte; só

admittiam a meu favor algumas apparencias ou disfarces com que encobriam

as suas tramas e horrores: eram seducções, tyrannias, convites para

lugares de traição, venenos, e armas occultas. Se viam que eu vingava

como advogado em Villa Real, pediam para eu ser eleito deputado só para

me atraiçoarem em Lisboa; e logo se arrependiam, e punham todos os

embaraços da sua infame escola e odiosa seita á minha eleição e

elevação; se viam que eu não era morto em Lisboa desejavam que eu fosse

para Coimbra aonde punham como ultima mira a cruz de meu martyrio e

funeral.

Como podia livrar-me de tão infernal perseguição? Os monstros não

consentiram mais na minha eleição e ainda me propozeram pelo circulo de

Arganil, onde fui eleito deputado no anno de 1852, mas os infames logo

se arrependeram, e cassaram ou annullaram a eleição na camara, sem me

ouvir, e sem me mostrar o processo das suas infernaes tramoias.

Quem deixaria de eleger-me para todas as legislaturas depois de vêr e

saber que o meu nome era singular e unico, e que a minha representação

não tinha igual em todo o mundo e redondeza?

Quando concordaram na minha eleição para suffraganeo do patriarchado

entregaram a minha vida ao maldito e infernal nuncio, e ao abjecto e

tredo patriarcha e ás suas seitas e partidos para se desonerarem da

tarefa que os infames julgaram e declararam superior ás suas forças.

Estes monstros esgotaram toda a traição, todas as maquinações e os seus

enganos, e não conseguiram o que desejavam: o perfido e abominavel

ministro do anti-papa chegou a convidar todas as seitas para o

espectaculo do meu envenenamento, as quaes enviaram os seus deputados e

representantes para assistir a esta scena de horror que se representou

na presença da diplomacia cruenta das actuaes usurpações da vergonhosa

Europa e da America por duas vezes.

Só Deus omnipotente podia isentar-me de tão imminentes catastrophes. O

nosso fim actual é descrever a burrinha protestante e a sua bestial

condescendencia e venalidade.

Um deputado que vivia na mesma casa da viuva Caraca mandou um seu criado

ao meu quarto para me offerecer uma criada da casa em que ambos

viviamos; eu não sabia desviar estes golpes, que o Senhor deixava ao meu

alvedrio para o merecimento, e para que désse a devida preferencia á sua

santa luz e mandamento.

O inimigo occulto era d'uma seita de usurpadores de Deus: a sua traição

vingou por pouco tempo; quando me tentou com alguma pessoa da sua

familia não conseguiu o que desejava; o criado fez-lhe a traição, que

elle me urdiu a mim.

Os inimigos da nossa casa e dynastia recorreram a D. Thereza Caraca, e

fizeram-lhe o mesmo partido, que os milanezes tinham feito á sua mãi

para que me seduzisse e envenenasse.

Prometteram-lhe dinheiro, um marido, e um emprego para este, e

realisaram todas estas promessas, mas eu só bebi meia taça de seu

perfido veneno; na primeira occasião que tive de lucido intervallo

repelli a seductora, e todas as suas seducções, e, como vi que se

obstinava, sahi da casa.

O que é a verdade? esta mulher disse que estava gravida e tentou

attribuir-me o seu ventre, ou isentar-se pelo aborto do seu nefando e

odioso mister de calumniadora; disse-me que ia queixar-se de mim ao

nuncio, ou agente occulto da junta apostolica que por este tempo estava

em Lisboa, em quanto estiveram interrompidas as relações com a côrte de

Roma. Eu zombei da perfidia e do sarcasmo d'esta mulher calumniadora e

embusteira; e procurei livral-a de sua tentativa de aborto, o que

felizmente consegui por dinheiro.

Esta odiosa creatura teve n'este tempo dous amantes: o primeiro era um

deputado, que a seduziu para que me envenenasse, o qual morreu pouco

tempo depois, e logo adoeceu tão gravemente que parecia um espectro, ou

um cadaver ambulante: era um agente dos pedreiros livres.

Havia n'esta casa só duas pessoas da familia, a mãi e a filha; eu tive

dous enlouquecimentos de falso amor; repelli duas tentativas da mesma

perfida natureza e nojenta cavillação.

D. Thereza tocava dous instrumentos e cantava, tinha um amante para

casar que a acompanhava no canto e com o violoncello: eu comprei em

quanto alli estive dous pintasilgos ensinados a tirar agua com o bico,

os quaes foram ambos mortos por um gato, que havia em casa.

A criada tambem teve dous amantes, um era sapateiro coxo, que a

procurava e requestava para casar: ambos realisaram os seus casamentos.

A filha da viuva Caraca tinha na mesma casa um estabelecimento de

capella, e inculcava-se ao respeitavel publico como modista: a mãi tinha

o seu estabelecimento de hospedaria.

Eram dous estabelecimentos: a casa tinha sahida para duas ruas e duas

portas para a rua dos Poyaes de S. Bento: viveram alli commigo cinco

deputados, dous delegados, dous juizes do districto, dous governadores

civis, dous juizes da antiga magistratura, dous Domingos dos quaes um

era o atraiçoado e o enganado por todos os outros: eramos ambos

deputados pelo circulo de Villa Real: os outros eram deputados por

outros circulos.

Os delegados foram Domingos Vieira, e José Manoel Botelho, os juizes

foram o José Maria da Chamusca e o Quesado, os governadores civis foram

o dr. José Maria e João Pedro Pessanha, os juizes antigos foram o mesmo

José Maria e Domingos Vieira, e não preciso dizer quem eram os Domingos,

senão que eu sou já tão diverso do que era, que não pareço o mesmo. Os

cinco e seis deputados formavam as cinco e seis qualidades já referidas.

Quem poderá calcular as lagrimas que tenho chorado para carpir os

peccados e os erros da minha mocidade, e para os emendar com divina

graça e misericordia? está-me parecendo que reunidas faziam o maior lago

dos nossos passeios e jardins.

Actualmente não como carne nem peixe não bebo vinho nem cerveja,

passam-se quinze dias e tres semanas sem que prove doçura, nem chá, nem

café, nem chocolate, como por medida e por peso, e não uso de carne nem

de genero algum de tabaco, não passeio, nem vou aos espectaculos;

prefiro andar a pé e só peço ao Senhor que se compadeça da minha alma.

A burra protestante é bem parecida com a vacca, e com o burro da seita:

eu não conversava com estas em pontos ou artigos da santa fé, o seu

veneno era a maior traição e os seus reconditos apenas me revelaram

parte da sua historia de Milão.

Eu sempre assisti á missa mais catholica de que tinha noticia, e não

suspeitava em ninguem cavillação ou perfidia tão negra e atroz, que

chegasse a ostentar fé falsa da diabolica e tenebrosa consciencia: agora

sei que ha muitas d'estas embrutecidas consciencias, e não duvido que as

duas Caracas fossem d'este hediondo esconjuro.

Os maçons são em geral d'esta sanhuda seita do inferno; os usurpadores

de Portugal pactuam com o demonio, e entregam as almas para poderem

possuir as leis das santas casas do divino Salvador.

Mas estes venenosos monstros apenas gozam a presa: o direito santo e

eterno foge d'elles como foge a cerração quando nasce a aurora que vem

remir o mundo.

Os mesmos inimigos recebem outro engano ou desengano semelhante quando

tentam usurpar o poder da santa igreja para legitimar a sua tyrannia.

A falsa communhão dos protestantes está no estado: não póde legitimar os

actos do poder usurpador e dominador.

O estado catholico está na igreja, e por isso legítima os seus poderes

todas as vezes que recorre para este fim ao poder espiritual do summo

pontifice. A era actual é a perfeição da disciplina.

LIXO

O snr. Joaquim Antonio de Sousa Telles de Mattos, critico erudito e

menos conhecido que merece, publicou, em Evora, um opusculo intitulado:

_A imparcialidade critica do snr. Joaquim de Vasconcellos._ Allude á

_Analyse critica da versão do FAUST_. A obra do critico do snr. visconde

de Castilho é um livro crasso que morreu de tabardões, e jaz no

_carneiro_ das livrarias esperando que o dente roaz da carcôma o

pulverise por modo que as letras portuguezas se desenfezem d'aquellas

escamas de ignorancia e odio.

O snr. Telles de Mattos colligiu algumas necedades graudas que denominou

_vasconcellismos_.

Abre a lista, com a novidade--_declinar_ verbos. Eis a passagem onde se

encontra o lerdo descôco do critico de Castilho: _Nenhum doutorando dos

ultimos cinco annos em Coimbra, estaria no caso de_ declinar _os verbos

auxiliares allemães, sem merecer palmatoada..._ (pag. 26). E acrescenta

o snr. Mattos: «Quando eu vi o _Sejai_ e _Estejai_ julguei que era erro

typographico dos _germanismos_ annunciados; vendo porém _declinar_

verbos, percebi que o snr. Vasconcellos saberá tanto de allemão como

qualquer analphabeto nascido debaixo do paternal carinho de Bismarck.»

Observa que a pag. 57 o snr. Vasconcellos inclue a Suissa na Allemanha;

e acrescenta: «A Suissa pertence á Allemanha na geographia do snr.

Vasconcellos; ella deve ser equiparada á sua grammatica.»

Nota que o snr. Vasconcellos escrevendo: _os manes do Olympo_ (pag. 128)

désse a perceber que os deuses olympicos tem manes. _Manes_ tanto

significam almas dos mortos como deuses infernaes. A mythologia do snr.

Vasconcellos é como a geographia, e não desdiz da grammatica.

Cita, na pag. 208, o imperativo do verbo _ser_, _apud_ Vasconcellos:

«_Sejai_ pois corajoso e apparecei como modêlo.» E a pag. 507: «_Sejai_

tão infames quanto quizerdes.» E a pag. 337: «_Estejai_ dentro ao golpe

da sineta.» _Coup de clochette_--golpe de sineta, segundo Vasconcellos.

Em portuguez, traduz-se _badalada_, ou _toque de sineta_. Desculpem esta

observação os alumnos de instrucção do 3.º anno dos lyceus.

«Desço eu (diz o snr. Vasconcellos a pag. 239) sem cessar de cima para

baixo.» O snr. Telles de Mattos ajunta: «Leitor, agradece a fineza: sem

o pleonasmo, ficavas percebendo com certeza que se desce de baixo para

cima.»

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12) · 第 2 / 4 段