D. Duarte concedêra que o duque de Bragança podesse nomear j

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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NÃO PÓDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco

PUBLICAÇÃO MENSAL

N.º 8--AGOSTO

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

_96, Largo dos Clerigos, 98_

PORTO EUGENIO CHARDRON

_4, Largo de S. Francisco, 4_

BRAGA

1874

PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

SUMMARIO

_Os salões, pelo exc.mo visconde de Ouguella--Subsidios para a

historia da serenissima casa de Bragança--O paço real da

Ribeira--As Cruas entranhas de D. Maria 1.ª, a Piedosa--D. Maria

Caraca Bonaparte--Lixo--Bibliographia--Pobreza academica--Sobre

Anselmo--Ao Publico_

OS SALÕES

CAPITULO VI

UMA AURORA

Opprimé par des déspotes, qui, á leur tour, étaient menés par les

jésuites, et asservi sous le pouvoir sans frein des prêtres et des

nobles, ce petit peuple menait ainsi, sans aucun doute, pendant la

première moitié du dix-huitième siècle, l'existence la plus

miserable parmi toutes les nations de l'Europe.

GERVINUS.

L'histoire n'est jamais faite, on la refait sans cesse.

VOLTAIRE.

Les hommes embrassent volontiers avec une ardeur violente les rêves

qu'ils se font, mais ils ne veulent point qu'on les leur impose.

ARSÈNE HOUSSAYE.

Ignota obscurae viderunt sidera noctes,

Ardentemque polum flammis, coeloque volantes

Obliquas per inane faces....

LUCANO.

Nos confins do globo, nas regiões arcticas, ao tocarmos as ultimas zonas

habitadas, toma a existencia proporções fabulosas. Expiram, alli, todas

as ousadias, todos os commettimentos, todas as aspirações dos mais

intrepidos navegadores.

É longo o obituario dos homens illustres, que teem perecido,

abandonados, n'estas epopêas ignoradas. Seriam famosas as chronicas,

onde se compendiassem as façanhas, os esforços heroicos, as luctas

incessantes, e a coragem inexcedivel dos martyres, que vão perdendo a

vida em busca d'aquellas solidões polares.

Todas as proezas que a antiguidade nos narra: os doze trabalhos de

Hercules, a entrada no formoso jardim das Hesperides, as excursões em

demanda do vellocino de ouro, o ousado empenho de transpor o labyrintho

de Creta, o maravilhoso e demorado cerco de Troya, a viagem aventurosa

de Ulysses procurando a patria, a retirada heroica de dez mil gregos

pelo interior da Asia, as conquistas de Alexandre, as invasões de

Sesostris, a fundação de Sparta, de Athenas, de Roma, e de

Carthago--finalmente as narrações de Homero, Xenophonte, Herodoto,

Diodoro, Thucydides, Quinto Curcio, Tito Livio, Plutarcho, e Eutropio, e

ainda as creações grandiosas, que remontam aos tempos pre-historicos dos

vedas, do Maha-Bharata, do Ramayana, do Kalidasa, e do Boudha

Sakya-Mouni, todos estes mythos, todas estas epopêas, todas estas

lendas, todas estas luctas titanicas, todas estas épicas aventuras são

debeis esforços, limitadissimos exageros, vagas e triviaes descripções,

em presença dos arrojos de Vasco da Gama, de Pedro Alvares Cabral, de

Christovão Colombo, de Américo Vespucio, de Magalhães, de Franklin, de

Cooper, e de não sei quantos outros navegadores e descobridores

temerarios, que teem avassallado os dous oceanos, indo, alguns d'elles,

povoar, com os seus esqueletos, as regiões remotas dos gelos polares.

Ha um parallelo formidavel e tremendo entre a vida physica e moral da

humanidade. As leis, que regem o espirito e a materia caminham a par.

O alvorecer da liberdade, quando um povo desperta do lethargo da

escravidão, assemelha-se á luz vaga e indecisa, com que a natureza

previdente, e sempre mãi, acode á escuridão das immensas noites

arcticas.

Contemplemos.

Em phases astronomicamente determinadas, o facho de luz, que arrasta

este globo, acariciando-o, e alimentando-o carinhosamente--como em berço

de ouro, e em fachas de purpura--deixa, na solidão e nas trevas, por

longas e frigidissimas épocas, as regiões que se aproximam dos polos.

Esconde-se o astro do dia. Levantam-se tempestades inexcediveis, rangem

nas proprias raizes os arbustos, que uma temperatura, milagrosa para a

vida humana, permitte e consente que sobrevivam a uma lucta constante;

fogem espavoridos os ferozes animaes, que o Creador concedeu áquelles

climas, e o homem, ainda que afeito a esta existencia inexplicavel,

busca em cavernas, cavadas no proprio gelo, um refugio, um abrigo contra

estas tormentas, em que a terra parece agonisar.

E quando a noite vai longa,--longa a ponto que parece

interminavel,--quando a presença d'um ente organisado assusta e apavora,

porque os vultos dão visões d'espectros, n'aquelles cataclysmos e

inversões de todas as normas por que physicamente se governa a

humanidade--do seio d'este cahos, do vacuo de todos estes ruidos, da

solidão infinda de todas estas planuras assomam os lampejos d'uma luz

vaga, indecisa, e bruxuleante--robustecem-se, avivam-se, condensam-se,

animam-se, fulguram, e em duas columnas investem com o horisonte,

aproximam-se do zenith, e desdobram-se n'uma corôa de fogo, que

resplandece, offusca, e afaga na pallidez dos planos em que se desenha,

os montes, pyramides e arcarias de gelo com que as solidificações da

agua teem revestido a terra.

É uma aurora polar.

O phenomeno termina.

As trevas adensam-se, os ventos impetuosos enfurecem-se, o gelo augmenta

de volume, as plantas não receberam calorico que as aviventasse, e a

terra conserva-se fria, inerte e abandonada.

É porque o calor e a luz foram ephemeros, e a natureza continua envolta

no seu sudario de neve, até que o luzeiro vivificador, o centro de toda

a nossa existencia venha expandir os seus raios, as suas frechas de ouro

por sobre o nosso planeta.

A liberdade é como o sol.

Só ella vivifica, só ella alenta, só ella esparge os seus raios de luz

pelas escuridões da intelligencia humana. Só ella rasga os véos

densissimos, que entenebrecem o senso moral dos povos. Só ella exalta

Galileu, Copernico, Luthero, Leibnitz, Calvino, Voltaire, Rousseau,

Beccaria, Filangière, Darwin, Proudhon, Lamennais, Bentham, Comte,

Stuart Mill, Littré, Michelet, Quinet, e toda esta phalange de

apostolos, que evangelisam a palavra de Deus, e pregam a boa nova,

explicando as maravilhas da creação, d'envolta com os hymnos, que

offerecem ao Eterno.

As auroras polares são simulacros de vida--são phenomenos

meteorologicos, que fulgem e desapparecem, sem que a terra estremeça de

contentamento, sem que a natureza acorde do somno lethargico das noites

arcticas, sem que as regiões do gelo dispam o alvo manto, que as

envolve, exhaurindo a luxuriante vida, e os ricos thesouros da sua

vegetação por todos os poros dos seus ferteis e uberrimos torrões.

Quando os povos não estão ainda preparados para as grandes evoluções

sociaes, quando as nações jazem adormecidas, nos pesadelos d'uma lenta e

demorada tyrannia, as aspirações d'um grupo diminuto de homens, o credo

da nova crença, symbolisado n'uma obscura e limitada pleiade, as

esperanças do futuro, formuladas pelos videntes e vates d'uma nova era,

são como a semente perdida de que falla o evangelho--não brota, não

germina, não rebenta, não fecunda, não viceja: fica entalada nas pedras,

ou comem-na as aves do céo.

As evoluções sociaes, sonhadas nos improvisos e imprevidencias dos

homens, que anceiam por precipitar acontecimentos inopportunos ou

prematuros, e que tentam arrastar os tempos, na insensatez com que os

Titans ousaram escalar o Olympo--segundo a maravilhosa lenda da

mythologia grega--são auroras polares, que fulgem, brilham, e se

extinguem, deixando o frigidissimo gelo da descrença no coração dos

povos que imaginaram regenerar.

Assim foi a revolução de 1820.

Na noite de ignorancia, de fanatismo, de escravidão e de miseria, que ia

tão longa, e tão frigida, como nas trevas dos polos, ergueu-se um

luzeiro ephemero, passageiro, e rapido, que atravessou o horisonte

politico da patria, e esvaiu-se e dissipou-se, como um meteoro, deixando

submersa, nas trevas da mais feroz oppressão, a nobilissima Lusitania.

A aurora polar de 1820 dissipou-se.

As trevas de 1828 surgiram e adensaram-se com o nefasto nome de

usurpação.

O vaticinio da emancipação dos povos, o credo dos videntes da boa nova

foram afogados no completo desconhecimento da soberania popular. Ficou o

Lazaro amortalhado, no sepulchro, sem escutar nem entender o verbo

harmonioso da redempção.

Por vezes, no fundo d'um horisonte diaphano e transparente, recorta-se

um ponto imperceptivel, um atomo negro, que só vistas perspicazes

descortinam. Vai o baixel singrando em aguas remansadas, impellem-no

ventos prosperos e adequados a uma facil navegação; e subitamente o

atomo torna-se colosso, o ponto negro transforma-se em tempestade, e os

elementos desencadêam-se, enfurecidos, sobre o mareante, confiado e

seguro na tarde bonançosa e estival dos climas tropicaes.

Assim nasceu a revolução.

As colonias do norte da America, esmagadas pela soberba oppressão da

velha Albion, proclamaram-se independentes. A França educada já nas

luctas dos philosophos e encyclopedistas, affeiçoada ás theorias e

doutrinas de Descartes, Voltaire, Rousseau, D'Alembert, Hobbes e Diderot

auxiliou esta grande lucta de emancipação; e a Europa, viu, com

assombro, o Novo-mundo aceitar a republica como um systema de governo, e

sustentar a democracia como uma verdade inconcussa, que parecia o

complemento da missão do Nazareno.

É que o christianismo recuára diante da escravidão. «Dai a Cesar o que é

de Cesar», dissera o Messias; e a França, como n'um Sinay de luz e de

transformações sociaes, formulára os direitos do homem, e esmagára, sem

remorso, todas as oppressões, e todas as tyrannias.

A França é o capitolio da raça latina.

Nem uma só vez a nobre terra das Gallias deixou de regar com o proprio

sangue um grande principio. E ainda, quando arrastada pela louca ambição

d'um homem desvairado, percorria a Europa, na sofreguidão das

conquistas--ainda assim, cada patrona dos seus legionarios era um fóco

de propaganda, e uma ameaça tremenda para os despotas ungidos pelo

direito divino.

Os excessos da revolução franceza--se os houve--foram a consequencia

logica e fatalmente necessaria de tantos seculos de carnificinas,

d'escravidão, e de infamias. «Os grandes só são grandes, porque nós

estamos de joelhos: levantemo-nos», clamava Seyés ao raiar a aurora da

mais esplendida revolução, que narram os annaes de todos os povos. E o

morticinio dos albigenses, a destruição dos huguenotes, as fogueiras das

inquisições, os encerramentos nas torres, e nas bastilhas, o estupido

orgulho, e os ignobeis e torpes privilegios d'uma aristocracia banal e

dissipadora, os barbaros direitos feudaes, a miseria publica na sua

hediondez, e todas as vergonhas, todos os abusos e todos os vexames dos

governos absolutos foram anathematisados e pulverisados á face dos

grandes principios, que os vultos homericos da assembléa nacional e da

convenção ousaram proclamar.

É d'aqui, e só d'aqui, que data a emancipação da humanidade.

A fé religiosa podéra ser--e foi--um balsamo de consolação. Era um

esteio para as consciencias, era uma valvula de segurança, forjada pelo

clero, pelo sacerdocio, pela theocracia, para obstar ao desencadeamento

de todas as indignações, e apagar, com as adulteradas palavras de

misericordia e resignação, as justas represalias legadas por milhares de

gerações.

As palavras de Christo, no Golgotha: «Perdoai-lhes, meu Pai, porque

elles não sabem o que fazem», ficaram sendo, na amphibologia da sua

applicação, o pára-raios de dezoito seculos de abusos, de ultrajes e

torpezas.

Rebentou a revolução franceza. E os raios d'este Sinay da biblia da

humanidade encheram de luz a palavra justiça, em toda a severa e

inexoravel verdade do vocabulo romano: «_Jus sum cuique tribuendi._»

Os decemviros d'esta era famosa prestavam, pela primeira vez, homenagem

á dignidade de todos os entes racionaes: viam e consideravam todos os

homens irmãos e iguaes.

Como é triste e demorada a perfectibilidade humana! Quantos seculos de

trevas, para luzir no craneo do rei da creação esta simplicissima

verdade: todos os homens são iguaes!

E são.

O genio e o idiotismo formam os dous polos d'esta arca santa, d'este

tabernaculo do pensamento, da vastidão do cerebro, onde a consciencia

moral, quando culta e desenvolvida, desperta sofrega dos seus direitos,

e irrompe-lhe a intuição generosa e espontanea dos seus deveres e

obrigações.

As colonias hespanholas responderam, com enthusiasmo, a este clamor

unisono da America do norte, e por sobre os dous oceanos voou a mensagem

de que o Novo-mundo estremecia de jubilo ao contemplar a liberdade. Foi

isto bastante para que o movimento revolucionario se propagasse na

metropole. E ao passo que os autocratas da Europa forjavam uma alliança

reaccionaria, com o intuito pueril de levantar um dique á torrente

caudal, que trasbordava nas planuras habitadas pela raça latina, a

revolução caminhava triumphante no meio dia do nosso continente, e

aceitava, como modêlo, a constituição hespanhola de 1812.

Era a democracia que levantava o collo, e arremessava o cartel aos

privilegios de dezoito seculos. As centelhas luminosas da liberdade, as

chispas d'este fogo sagrado irrompiam tão espontaneas, e tão vivazes,

que pareciam vulcões abertos pelas forças temerosas da electricidade,

fluidos magneticos, que em correntes subterraneas pretendiam surgir dos

seios da terra, em quanto esta se debatia, agonisante, nas convulsões

d'uma nova transformação.

Em 1820 estremeciam os dous mundos.

A Hespanha, o Brazil, o reino de Napoles, o Piemonte, e os proprios

christãos avassallados na Grecia despertavam ao clamor da emancipação

dos povos. Irradiava o sol da justiça. Dissipavam-se as trevas na

consciencia humana. Desde o Chili até Boukarest coroavam-se as montanhas

de fachos de luz, e como se uma só vontade, um só incentivo, um só

impulso dirigisse as nações, echoava em todos os pontos o sagrado nome

da liberdade. Ouvia-se o ruido das velhas instituições que desabavam. O

clero e a nobreza perdiam o prestigio, a força, o poderio; e a

humanidade, que ouvira absorta a palavra omnipotente da convenção

nacional, estremecia jubilosa e reverente, como a virgem de Nazareth ao

escutar a saudação celestial do anjo mensageiro.

Durou pouco a esperança. Detraz dos hymnos festivaes vinham os crepes

funerarios. Após esta radiante aurora seguiram-se as trevas da reacção,

os carceres, as galés, as deportações, os exilios e os morticinios. A

velha Europa estendeu os pulsos e deixou-se algemar.

O mais hediondo mal da escravidão é o habito torpemente adquirido de ser

escravo.

O maior crime da tyrannia é educar as gerações para a abjecção moral,

para a aniquilação da dignidade individual, e para a ignorancia dos

proprios deveres.

Todavia as evoluções sociaes não dependem da vontade dos homens.

As legitimas penalidades, na terra, imprimem-se implacaveis e cruentas

em quem pretende destruir o que de si é immutavel e eterno. O

desconhecimento completo das leis physicas e moraes da humanidade

arrasta, as mais das vezes, repetidos cataclysmos e sangrentas

catastrophes.

A arca santa do mosaismo é o symbolo immaculado da indestructibilidade

das normas, por que o universo se rege.

Todos os seculos teem uma feição propria, uma formula predominante, por

que se inscrevem na historia. Assim se exprime o seculo de Pericles, o

seculo de Augusto, o seculo dos Medicis, o seculo de Luiz XIV. Detraz de

cada um d'estes epithetos, que são como uma synthese, caracterisada

n'uma epigraphe, transparecem grandes commettimentos, estudos longos e

pacientes, como de benedictinos, luctas heroicas, trabalhos herculeos,

progressos infinitos, que formam a vereda, representada pelos marcos

milliarios da civilisação dos povos. Definem-se, pois, os seculos por um

grande pensamento, e gravam-se com uma nova idéa. E á medida que as

civilisações se multiplicam, as transformações são mais rapidas; e as

evoluções sociaes precipitam-se. É assim que os phenomenos da

electricidade e a força do vapor teem hoje, desde a Oceania até aos

confins do occidente europeu, a humanidade perplexa e surprehendida n'um

contacto constante, e as idéas transmittem-se com a velocidade da luz.

Mas as gerações que se teem ido succedendo, em seculos determinados para

a sua missão--egoistas e imprevidentes, foram legando ao seculo dezenove

a solução de todos os formidaveis problemas com que hoje nos achamos a

braços. Nós--entregues e devotados ás sciencias d'observação, aos

estudos analyticos, á razão critica, á severa e leal escolha da pureza

dos elementos que constituem o nosso credo, e a encyclopedia

fundamentada dos actuaes conhecimentos humanos, encontramo-nos face a

face com a futura solução de todos os problemas religiosos,

scientificos, litterarios e sociaes, que a machiavelica prudencia de

todos os defensores dos rigorosos principios authoritarios vai deixando

accumular.

Queixem-se de si, e só de si os zelosos apostolos da reacção--phariseus

de todas as épocas, e de todas as raças,--quando a democracia implacavel

e inexoravel na sua marcha, arrastada involuntariamente pela sua

velocidade adquirida, achar de subito a formula inteira de todas estas

temerosas soluções.

Mil oitocentos e vinte é apenas uma data.

Echo remoto da revolução franceza, grito agonisante d'uma nação

exhausta, indolente, ignorante, fanatisada e escrava, o povo balbuciou

sem consciencia nem fé a palavra liberdade, e adormeceu de novo, no seio

de theorias que não entendeu, de principios que não comprehendia, para

acordar d'este somno febril e agitado nas tristes e luctuosas

carnificinas do caes do Tojo.

A inviolabilidade da vida humana era uma utopia e um escarneo para uma

geração, que se estorcia convulsa, ainda, no medo e pavor com que a

feriam em face os sombrios e ferozes carceres da inquisição.

A democracia nem era apenas um sonho n'estes devaneios da classe media.

O proletariado, quando muito, seria uma casta de parias, que d'envolta

com o pauperismo merecia os ergastulos e gemonias da preconisada

republica romana.

As republicas gregas e latina não eram comprehendidas pela ausencia

total das sciencias modernas. E se os vocabulos se entendiam nos

lexicons da época, desconhecia-se, pelo menos, a essencia da organisação

e constituição de povos tão diversos. A philologia e a ethnographia eram

como hieroglyphicos para uma sociedade que apenas queria destruir. O

seculo dezoito vivera em parte dos discursos emphaticos de Raynal,

Volney e Rousseau, e das historias fabulosas, escriptas pelos aulicos e

cortezãos de todas as vaidades e pompas mundanas.

A democracia, na rasgada e imponente accepção do verbo supremo, havia de

irromper, mais tarde, n'este luzeiro immenso, que será a redempção da

humanidade.

VISCONDE D'OUGUELLA.

SUBSIDIOS PARA A HISTORIA DA SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA

II

A VENIAGA

Sem preambular com as repetidas accusações (veja Rebello da Silva,

Soriano, Pinheiro Chagas) escriptas contra a cobarde inercia de D. João,

duque de Bragança, que desatravancou ao usurpador castelhano o accesso a

Portugal, vou arrolar com miudas provas as verbas que representam o

valor da honra e do patriotismo do avô de D. João IV.

Possuo um codice que pertenceu ao archivo da casa de Bragança, escripto

em 1687, com estes dizeres na folha de rosto: _Doações do real estado e

casa de Bragança, conforme se vão desbrindo em papeis e documentos

authenticos de que em summa se dá noticia._

Convém saber que os successores do duque D. Fernando, degolado em tempo

de D. João II, nunca poderam obter de D. Manoel, de D. João III, da

rainha regente, de D. Sebastião e do cardeal, parte dos privilegios que

o filho de Affonso V lhes jarretára. A absoluta independencia da corôa,

e o absoluto dominio em Villa-Viçosa, nunca poderam os duques

extorquil-o á condescendencia dos soberanos.

Obteve-o, porém, o avô de D. João IV, em fevereiro de 1581, da velhaca

magnanimidade de Philippe II de Castella, quando foi comprimentar a

Elvas o usurpador, que vinha entrando triumphalmente em Portugal. O

primeiro passo era crear magistrados seus, instaurar tribunaes sem

appellação nem aggravo das sentenças dos seus juizes, e defender o

ingresso de viandantes em seus dominios, quando elles eram suspeitos de

procedencia de lugares impedidos, e até quando o não eram.

A seguinte _doação_ de Philippe II ao duque de Bragança, D. João,

primeiro de nome, está registada no livro V da camara de Villa-Viçosa,

fl. 31, pag. 2.

«Eu el-rei, faço saber aos que este alvará virem que havendo respeito

ao duque de Bragança, meu muito amado e presado sobrinho e a D.

Catharina minha muito presada prima residirem ora em Villa-Viçosa,

e por outros respeitos que a isso me movem; hei por bem e me praz

que a pessoa que o dito duque nomear por guarda-mór da saude da

dita villa tenha a alçada com o dito cargo adiante declarado. Que

entrando alguma pessoa na dita villa, sem licença do dito guarda-mór, e

constando que vem de lugar impedido, o possa _mandar prender, e sendo

peão será condemnado a um anno de degredo para o couto de Castro Marim

com pregão na audiencia e 2$000 reis para os captivos; e, sendo de maior

qualidade, a mesma pena de degredo e pregão e 4$000 reis. E o mesmo nos

que metterem fatos e mercadorias das terras impedidas; e os que vierem

de terras não impedidas, entrando sem licença, presos, e da cadêa

pagarão 2$000 reis._

«E todas estas penas sem appellação nem aggravo, e que as sentenças

sejam dadas em camara com os vereadores. E que não passe pela

chancellaria. Ambrosio de Aguillar o fez em Elvas a 23 de fevereiro de

1581. Roque Vieira o fez escrever. El-rei.»

Em 2 de julho de 1582 concede o mesmo monarcha ao mesmo duque _poder

despender as rendas dos concelhos das suas terras no que lhe aprouver._

Em 2 de maio de 1584 o mesmo Philippe II assigna o seguinte aviso:

«Eu el-rei. Faço saber a vós licenciado Lopo de Abreu Castello Branco

que ora o duque de Bragança (D. Theodosio) meu muito amado e presado

sobrinho, com minha authoridade, envia por juiz de fora da sua villa de

Villa-Viçosa, que eu hei por bem pela confiança que de vós tenho, que

além dos poderes que por minha ordenação são dados aos juizes

ordinarios, vos tenham mais o poder e alçada ao diante declarados:

«_Que nos casos crimes possa mandar açoutar peões de soldada que

estiverem assoldadados, e outros peões que ganharem dinheiro por

braçagem, e escravos, e que possa degredar os ditos peões para os

lugares d'além-mar por dous annos, e para os coutos do reino até tres

annos. Que possa degredar escudeiros e vassallos que não forem de

linhagem, e officiaes mecanicos para os lugares d'além-mar por dous

annos, e para os coutos do reino por tres annos... Que se alguns

fidalgos, cavalleiros e escudeiros de linhagem, e vassallos, fizessem

cousas por que mereçam ser processados, os empraze para que a certo

tempo appareçam._ João da Costa o fez em Lisboa a 2 de maio de 1584.

Rei.»

Seguem mandados confirmando e revalidando doações abolidas ácerca das

rendas das feiras, que os duques de Bragança continuaram a perceber,

como seus avós, antes das reformas de D. João II.

Em 1589, o duque de Bragança D. Theodosio decreta nos seus dominios

isentando os ferradores e mais officiaes mecanicos de sua casa _de todos

os serviços e encargos do concelho, de fintas, de talhas, montes,

pontes, fontes, caminhos, calçadas, etc.; nem vá com presos, nem seja

tutor, nem curador de nenhumas pessoas, nem pousem com elles, nem lhes

tomem suas casas de moradas, nem adegas, nem estrebarias, nem roupas,

nem palha, etc._

N'esta fórma de decreto assigna D. Catharina, por ser ainda menor o

duque.

D. João, segundo de nome, e que depois foi rei, ainda em 1635 impetrou

licença de Philippe IV de Castella para crear doze misteres, especies de

zeladores na cobrança das alcavalas que a serenissima casa exercia sobre

os vassallos.

D. Duarte concedêra que o duque de Bragança podesse nomear juiz, quando

o juiz de nomeação real lhe fosse suspeito. D. Affonso V confirmou. D.

João II aboliu. D. Philippe IV de Hespanha, a requerimento do duque de

Bragança, que depois foi rei, confirmou a lei de D. Duarte.

Por doação de 1587 é permittido ao duque de Bragança não cumprir as

cartas dos corregedores da côrte. No mesmo anno lhe é facultado avocar a

si as causas das suas terras e _sentenciar como lhe parecer_.

Em 1607 é permittido ao duque de Bragança formar chancellaria e _levar

direitos d'ella sobre cartas de seguro em caso de mortes negativas, ou

confessativas de morte, de resistencia a officiaes de justiça, ele, em

provimentos de officios e isenções de cargos_.

Esta concessão derivava do animo bizarro do castelhano que pagava ao

duque de Bragança com o dinheiro dos proprios portuguezes, e do animo

avarento do agraciado que se cevava na pobreza dos seus conterraneos.

Tal graça era tão pesada para os portuguezes quanto vaidosamente inepta

para o duque a do tratamento de _excellencia_ que obteve em 1597, por

lei extravagante de 6 de dezembro, que só aos duques de Bragança e aos

infantes a concedia[1].

Afóra a _excellencia_, «o duque de Bragança--escreve Rebello da

Silva--por ser o mais nobre e poderoso, foi tambem o primeiro que o

soberano exaltou, lançando-lhe elle proprio sobre o peito o collar do

tosão de ouro, e entregando-lhe o estoque de condestavel do reino,

dignidade por elle pedida em vão, como sabemos, ao cardeal-rei e aos

cinco governadores.» (_Hist. de Port. nos seculos XVII e XVIII_).

Na acclamação de Philippe I de Portugal, «o primeiro que jurou foi o

duque de Bragança, o qual depois veio beijar a mão d'el-rei.» (_Obra

cit._)

Esta preeminencia importava menos que a concessão então obtida de

transportar da India uma determinada porção de especiarias isentas de

direitos da alfandega.

Constituiu-se pois a serenissima casa de Bragança o primeiro armazem de

canella e pimenta n'estes reinos; e, como não pagava direitos, a sua

mercadoria era a mais procurada por duas considerações: a barateza do

genero e a qualidade do especieiro.

[1] Por provisão particular de 12 de dezembro de 1605, passada em

Valhadolid foi concedido o mesmo privilegio aos duques de Aveiro, em

attenção ao grande luzimento de sua casa, pois D. Jorge de

Alencastre, nascido em 1481, era filho do rei D. João II e de D.

Anna de Mendonça, que,--por via de regra estatuida--acabou

commendadeira de Santos. Aquelle mosteiro assignalou-se como harem

de odaliscas desbotadas. O referido D. Jorge, mestre das ordens de

S. Thiago e Avis, senhor de Aveiro e mais terras do infantado, foi

creado segundo duque de Coimbra (o 1.º duque de Coimbra fôra seu

bisavô D. Pedro, morto em Alfarrobeira), por D. Manoel em 1500, ou

por seu proprio pai, como diz _Portugal, De Donat. reg._ n.º 410.

O PAÇO REAL DA RIBEIRA

De um manuscripto, que seria optimo livro da topographia de Lisboa, se o

terremoto de 1755 o não suspendesse, aniquilando talvez a mão laboriosa

que o escrevia, extrahimos o capitulo respectivo ao paço da Ribeira, e

edificios convisinhos. É a mais detida descripção que ainda vimos. Os

escriptores, que conheceram Lisboa antes da catastrophe, á semelhança de

João Baptista de Castro (_Mappa de Portugal_) poucos delineamentos

particularisaram dos grandes edificios da Lisboa de D. João V. Iremos

transcrevendo o que nos parecer mais grato aos antiquarios, e ainda aos

que, sem grande affecto a velharias, se comprazem em reconstruir na

imaginativa as feições da sempre formosa Lisboa.

«O palacio real da Ribeira, situado junto das margens do Tejo, em frente

de uma das maiores praças da Europa, chamada _Terreiro do Paço_, é um

soberbo e vastissimo edificio, commodo e magestoso. É obra d'el-rei D.

Manoel, para o qual se mudou dos antigos paços da Alcaçova, e onde,

desde então, ficaram assistindo os reis d'este reino. Fórma este real

edificio dentro em si tres grandes quadras, com dilatadas galerias em

roda, com admiraveis quartos, preciosamente guarnecidos, e muitos

salões, os maiores dos quaes são: a casa chamada de _gala_, a sala dos

_tudescos_, onde costuma estar a guarda allemã de sentinella. Esta sala

é uma das maiores de toda a Europa, porque tem 130 palmos de comprimento

e 76 de largura. A quadra que fica junto da igreja patriarchal, chamada

_pateo da capella_, é toda rodeada de galerias de arcos sobre columnas,

com janellas ao de cima bem rasgadas. Por baixo d'estas arcadas ou

galerias, em toda a circumferencia, ha muitas tendas e lojas onde se

acha tudo que mais precioso ha no mundo, ouro, diamantes e outras pedras

preciosas. Sahindo d'esta quadra por um vasto portico voltado ao sul, se

entra em outra quadra mais comprida que larga, tambem cercada de bellas

galerias, sobre a qual abrem as janellas do quarto das rainhas. Ahi ao

pé ergue-se uma altissima e bem fabricada torre de marmore, com um

magestoso sino de relogio, e dous mais pequenos dos quartos. É obra do

snr. rei D. João V, o _Magnifico_. Tambem ha n'esta segunda quadra

muitas lojas onde se vendem cousas preciosas. Para a parte da _Ribeira

das Naus_, forma este palacio outro grande quarto, feito á moderna, obra

do mesmo monarcha, chamado o _quarto dos infantes_; e, ao cabo d'elle,

abre-se uma formosissima varanda descoberta, gradeada de marmore á

volta, primorosamente lavrado, sobre cujos pilares assentam vasos de

jaspe cheios de murta e flôres.

«Aquella parte d'este soberbo edificio, que olha para o oriente, e

abrange a largura toda do _Terreiro do Paço_, é occupada por uma

espaçosissima galeria, que termina em um magnifico pavilhão chamado o

_Forte_. É obra de Philippe II de Hespanha, dirigida pelo famoso

architecto Philippe Terzo, podendo affirmar-se que não ha outra

semelhante em toda a Europa, como confessam todos os estrangeiros que

vem a Lisboa. D'aqui se descobre toda a barra, e o porto da cidade,

porque fica sobre a praia do rio. É tanta a magestade d'este edificio

que não vi em todo o reino de França, nem nos famosos palacios de Louvre

e Versailles tão justamente encarecidos obra tão sumptuosa; sendo para

sentir que não se chegasse a concluir o risco d'esta elegante fabrica,

pois estava delineado fechar toda a praça do _Terreiro do Paço_ em roda,

com outro pavilhão fronteiro no sitio onde hoje (1754) estão as casas da

alfandega: porém, é sestro já muito antigo ficarem imperfeitas todas as

obras que outros principes começaram.

«Contigua a este lanço, corre uma varanda de arcos que dá serventia para

a sala dos _tudescos_, e pela fachada do sul se communica para outro

quarto, não menos magestoso com suas galerias, eirados e torreões, onde

assistem os infantes, irmãos ou filhos dos reis, e hoje serve de

residencia á rainha-mãi, D. Marianna de Austria. Tem este quarto grandes

e preciosas ante-camaras com tapeçarias e moveis inestimaveis, e

pinturas dos mais insignes authores.

«Sua magestade costuma residir no quarto do _Forte_, que dá sobre o

_Terreiro do Paço_, e é o melhor do palacio, cujas ante-camaras, salas e

gabinetes encerram em si o mais precioso que póde a terra dar; porque as

tapeçarias de ouro, prata, velludo, damasco e outras sedas, quadros de

admiraveis pinturas, e toda a mobilia, dão a conhecer a soberania da

magestade que o occupa. A casa dos _embaixadores_ é a melhor da Europa.

Ha n'este palacio uma notavel bibliotheca, constante de muitas casas de

livros, com manuscriptos os mais raros; e, sem duvida, se estivesse em

ordem como as bibliothecas do vaticano, e de el-rei de França e da

Sorbona, não lhes seria inferior; para o que muito concorreu a curiosa

applicação (!) e magnifica despeza do snr. rei D. João V mandando

comprar fóra consideráveis collecções.

«Para o lado do rio tem este palacio um bello jardim com grande eirado,

com viveiro abundante de todo genero de aves raras, especialmente pombas

e rolas de varias castas. Não se póde dar mais aprazivel espectaculo no

mundo que a vista d'este jardim sobre o mar.

«O snr. rei D. João V acrescentou outro quarto a este palacio: é o que

fica no _largo da Patriarchal_ e corre até ao _theatro da opera_. Consta

este augusto edificio de varios corpos e muitas galerias todas de

apuradissima arte, obra do famoso architecto Frederico, em que os

marmores apostam duração com a eternidade. Dous lanços d'este quarto

abrem para o _largo da Patriarchal_, e em meio de cada um avulta um

portico grandioso, levantado em grossas columnas marmoreas, com capiteis

corinthios, excellentemente folheados. Todo o restante d'este primoroso

edificio é feito de polidissima cantaria, com formosos lavores e

remates, com oculos romanos na cimalha, que lhe dão graça e belleza. O

saguão que vai do _largo da Patriarchal_ e atravessa este quarto para a

_Campainha_, é a melhor peça d'arte d'esta cidade; porque as quatro

columnas de jaspe que tem na frente de duas escadas lateraes, são

perfeitissimas no trabalho dos lavôres.

«Para o lado do _theatro da opera_ fórma este quarto uma quadra pequena

com sumptuosas galerias, para a qual se entra por um grande vestibulo

fronteiro á _Patriarchal_; mas a serventia ou passagem para o _theatro_

é a mais arrogante e magestatica obra de Lisboa. Aqui, os marmores são

de maneira sinzelados, que nem a cêra seria capaz de mais tenues

arabescos. A natureza é vencida pela arte; porque os bustos, as

carrancas, os festões, os relevos, os capiteis, os frisos, as folhagens

são cousa tão prodigiosa, quanto é mais de assombrar a qualidade da

pedra tão rija para impressões tão delicadas. Por cima d'este vestibulo,

ergue-se uma capella magnificentissima feita para uso particular dos

patriarchas, tal e qual os pontifices a tem em Roma. E, posto que ainda

não esteja concluida, é soberbissima pela profusão de jaspes vermelhos,

negros, brancos e outras côres que lhe dão o esmalte.»

* * * * *

Este pallido bosquejo das opulencias do paço da Ribeira era escripto em

1754. No 1.º de novembro do anno seguinte, quem procurasse estas

riquezas com o roteiro do incognito author por guia, encontraria um

entulho, coroado de linguas de fogo, e a espaços lambido pelas vagas do

Tejo. E escrevia o assombrado homem que aquelles marmores estavam alli a

_apostar duração com a eternidade_!

AS CRUAS ENTRANHAS DE D. MARIA I A PIEDOSA

D. Martinho de Mascarenhas, marquez de Gouvêa, e filho do duque de

Aveiro, justiçado em 1759, não tinha culpa no delicto de seu pai. Não

obstante, entrou muito moço nas trevas das masmorras, e lá o retranziram

frio, fomes, sêdes e terrores por espaço de dezoito annos.

Em 1777 sahiu do carcere com os outros presos. E, como não tinha de seu

uma taboa--pois que a opulenta casa de Aveiro havia sido confiscada,

salgada, arrazada, absorvida--foi enviado aos frades de Mafra para lá o

fartarem no seu refeitorio. Os historiadores coevos não houveram noticia

d'esta passagem do carcere para o mosteiro. Todos os outros fidalgos,

exhumados dos ergastulos á voz de D. Maria I, tinham familia que os

consolasse e restaurassem com as cariciosas lagrimas da alegria. D.

Martinho de Mascarenhas não tinha ninguem! ninguem que lhe désse uma

lagrima e um bocado de pão comido em liberdade! Fez como os ultimos

mendigos: foi ao convento de Mafra.

Alli o encontrou o bispo de Coimbra, D. Miguel da Annunciação, quando,

n'aquelle anno de 1777, sahiu tambem da masmorra de Pedrouços, e por lá

passou, caminho da sua diocese; mas tão cortado de oito annos de

escuridade e nudez que já em 30 de agosto de 1779 era sepultado.

Do itinerário do bispo, que tenho de letra de mão, em floreados

caracteres, como brinde feito áquelle prelado, vou extractar as linhas

respectivas ao marquez de Gouvêa:[2] «... Pelas 11 horas e um quarto da

noite chegou a Mafra, aonde passou o dia seguinte recebendo fraternaes

obsequios da sua amada communidade. Ahi se achava o exc.mo D. Martinho

Mascarenhas, marquez que é de Gouvêa, filho primogenito do infeliz duque

de Aveiro. Distinguiu-se muito nos obsequios do exc.mo bispo aquelle bem

instruido, amado e agradavel fidalgo, que soube tirar e trazer da sua

reclusão as mais bellas qualidades de um cavalheiro christão. Deve-se a

Deus a sua indole, e a um bom mestre que teve na sua prisão a educação,

que o faz merecedor de toda a estima e fortuna que conseguiria na boa

conservação de seu pai. Elle se chama desgraçado, e deve á sua desgraça

a occasião de se fazer ainda mais benemerito pelas suas virtudes.»

N'este tempo já era morta a duqueza de Aveiro, no convento do Rato, onde

servia as freiras para ganhar o seu alimento; e, por não poder comprar

sapatos, andava descalça. Este supplicio era assim benigno porque se

provou que ella e seu filho de todo em todo ignoravam os intuitos

regicidas do duque.

O marquez de Gouvêa tinha por si a compaixão dos proprios inimigos de

seu pai. Todos o animavam a pedir á rainha a restituição de alguns dos

bens confiscados; e o maior jurisconsulto d'aquelle tempo, Paschoal José

de Mello, encarregou-se de escrever a _Representação_ a D. Maria I.

Este requerimento é um dos poucos trabalhos ineditos do eminente

escriptor; e a meu vêr, como historia e como supplica eloquente,

benemerito de estampar-se.

A mim me cabe o prazer de o possuir e tiral-o da indigna obscuridade.

É como segue:

«SENHORA.

«A innocencia opprimida, digno objecto da piedade de um principe, a quem

o exemplo de Deus serve de regra, se prostra diante do real throno

implorando a clemencia de vossa magestade, e para mais facilmente a

conseguir offerece esta humilde representação, fundada nos principios da

humanidade e justiça, confirmados com uma longa serie de exemplos.

«O fim das leis consistindo em dar a cada um o que lhe toca, não alcança

o juizo humano livre de illusão. Como póde sem culpa ter lugar algum

castigo, nem como seria conveniente aos interesses de um monarcha justo,

o desvio da imitação de Deus, privando da sua graça os innocentes? O que

poderia haver para alguns de problematico n'este ponto, a lei divina o

decide. Ninguem deve pagar o crime alheio por maior que seja a sua

proximidade com os delinquentes, e esta verdade foi muitas vezes

descoberta sem mais soccorro do que as luzes naturaes: é dito de um

espirito famoso que uma cousa são leis, outra é a justiça verdadeira. E,

se tambem é certo que pouco faria qualquer homem em regular o seu

procedimento pelo que sómente as mesmas leis prescrevem--que pratica de

virtudes se não devera esperar de um soberano para corresponder á

elevação em que Deus o pôz tão distante do resto dos mortaes!? Os de

maior sabedoria dados pela Providencia para a felicidade dos povos: os

merecedores do nome de pai da patria, e em fim os mais felizes no

governo de vastos dominios, persuadidos de que lhes venha de Deus todo o

poder, e que de sua submissão ás leis divinas dependia mais que tudo a

respeitosa obediencia dos que mesmo Deus sujeitou á sua direcção, para

serem tratados como filhos, acharam sempre injurioso o direito rigoroso,

e o não poderam conciliar como dictames mais convenientes á magestade do

throno. Os pretores antigos já foram chamados os moderadores das leis,

pelas frequentes emendas do que n'ellas se permitte aos juizes,

prohibido pela honra e equidade, e entre estas as que geralmente se

acharam mais contrarias á recta razão e á humanidade foram aquellas em

que o castigo passava além do ultimo termo da existencia dos culpados, e

chegava a propagar-se até aos innocentes.

«Devendo ser as penas commensuradas aos crimes, e não havendo nenhuma

proporção entre o delicto e a innocencia juntamente, pareceu estranho

que, onde a calumnia não póde inventar nada para denegrir reputações,

chegassem as armas da justiça. Contra isto parece não ter cabimento

nenhuma casta de pretexto. As qualidades da alma não se podem considerar

hereditarias na fé do livre arbitrio: a boa ordem e o bem publico não

dependem sempre da maior severidade, antes pelo contrario a experiencia

em todo o tempo tem mostrado que a fortuna acompanha a clemencia, e com

ella se mudaram os genios mais ferozes. É com tudo notorio, que em

algumas leis tiveram as paixões particulares maior introducção, do que

uma certa prudencia necessaria para as fazer validas no conceito de um

principe christão. A famosa lei dos imperadores Honorio, e Arcadio, que

impõe tão atrozes penas aos filhos dos criminosos de lesa-magestade, é

derogada pelo direito divino, pelo direito natural e das gentes. Por

este ultimo, porque desde que os homens principiaram a unir-se em

sociedades distinctas, todas as providencias se dirigiram a preservar a

innocencia das irrupções e violencias em que tinha degenerado a

liberdade humana. Pelo direito natural, porque destroe o principio da

rectidão que a natureza inspira a todo o ente racional, e priva a

innocencia do direito que tem a impunidade, e a todos os mais actos de

justiça. E pelo direito divino, porque em repetidos lugares das sagradas

letras é defendida a innocencia com pena eterna. Tambem foi abolida pelo

direito civil, porque os mesmos imperadores, a quem pertence, passados

annos, movidos da penitencia, como dizem graves authores, reduziram

todas as penas por uma nova constituição aos unicos réos dos delictos.

«D'esta lei foi deduzida a nossa ordenação, cujos termos ambiguos e a

necessaria conciliação dos capitulos seguintes mostram, com bastante

clareza, ser a intenção do legislador que se modere: com effeito

immediatamente a imposição das penas como perpetuas as faz transitorias,

declarando não deverem ter a execução se não em quanto os que a ella

sujeita não forem restituidos ao estado do seu antigo esplendor; e além

d'isto a jurisprudencia julga todas as penas exorbitantes em direito

simplesmente comminativas, e não executivas. Estas e outras semelhantes

reflexões, que por brevidade se não expressam, moveram a religião, a

justiça e piedade dos gloriosos reis que occuparam o throno portuguez a

deixar na historia tantos exemplos de rebeldes executados, como de

filhos impunidos; mas conservados, e restituidos á nobreza, honras,

dignidades e bens de substituição; d'estes exemplos se referem os

seguintes, e, por parte do innocente o infeliz marquez de Gouvêa, se

offerecem á real inspecção de vossa magestade:

EXEMPLOS

«João Lourenço da Cunha foi sentenciado por crime de lesa-magestade, e

confiscados os seus bens; porém o morgado de Pombeiro passou a seu filho

Alvaro da Cunha, a quem foi tambem feita a mercê do senhorio da mesma

villa, possuido antes por seu pai. D'este descendem não só os condes de

Pombeiro, mas a maior parte da nobreza da côrte actual; porque tres

filhas suas depois da referida sentença casaram nas mais illustres casas

d'este reino.

«D. Pedro de Castro, senhor do Cadaval, foi sentenciado pelo mesmo

crime, e os seus bens todos confiscados; mas os morgados, e os bens da

corôa passaram a seu filho primogenito D. João; cuja filha herdeira

casou com D. Fernando II, duque de Bragança, de que descendem

innumeraveis casas illustres, nas quaes com especialidade se inclue a de

Cadaval; além d'isto a D. Fernando, filho segundo do dito delinquente,

primogenito da casa de Cascaes, lhe fez depois mercê do Paul chamado do

Governador, de varios senhorios de terras, e da alcaidaria-mór da

Covilhã.

«O conde de Vianna, D. João Affonso Telles de Menezes, commetteu o mesmo

crime, foi morto tumultuariamente pelo povo de Palmella, e foram

confiscados os seus bens; mas el-rei D. João o 1.º deu depois a seu

filho D. Pedro de Menezes o condado de Villa Real e capitania da cidade

de Ceuta, e muitos senhorios de terras: a filha legitima d'este D. Pedro

succedeu na casa de Villa Real, e D. Duarte, seu filho illegitimo,

progenitor de uma casa das mais illustres, conseguiu, como se sabe,

depois de muitas mercês, ser conde de Vianna e alferes-mór do reino.

«D. Gonçalo Telles, conde de Neiva e Faria, alcaide-mór de Coimbra,

senhor de Cantanhede, e de outras muitas terras, foi sentenciado por

crime de lesa-magestade, e confiscados todos os seus bens; mas apesar

disso possuiu a casa seu filho D. Martinho com o senhorio de Cantanhede:

foi depois mordomo-mór da rainha D. Philippa, e é progenitor da illustre

descendencia que ainda se conserva.

«Diogo Lopes Pacheco de que descendem as mais illustres casas, foi

havido e reputado por traidor, sem que a seu filho João Fernandes

Pacheco servisse isso de obstaculo para a conservação da dignidade de

rico-homem, que lograva, a maior que então havia da nobreza.

«Alvaro Vaz de Almada foi sentenciado pelo mesmo crime, e confiscados os

seus bens. Mas os de morgado passaram a seu filho primogenito D. João

d'onde vieram a recahir na casa do conde de Valladares, e a D. Fernando,

filho segundo do dito criminoso, de que descendem por varonia os Almadas

do Rocio, foram dados os bens da corôa, que vagaram pelo delicto de seu

pai.

«Martim Coelho foi sentenciado por crime de lesa-magestade, e seu filho

succedeu nos morgados, e da mesma fórma nos senhorios de terras

possuidas por seu pai. Lopo de Azevedo foi sentenciado pelo mesmo crime;

não tinha morgados, mas os senhorios de terras por elle possuidos

passaram a seu filho.

«O infante D. Pedro foi julgado criminoso de lesa-magestade, porém

el-rei restabeleceu seu filho em todas as honras, e dignidades

antecedentes.

«O snr. D. Diogo, duque de Vizeu, foi morto, e sentenciado pelo mesmo

crime, e confiscados todos os seus bens: não deixou filhos legitimos,

mas um bastardo seu que por essa circumstancia de nascimento, não

succedeu nos morgados, tão longe esteve d'elle prejudicar o crime de seu

pai, que casou na casa de Villa Real, e lhe deram o emprego de

condestavel, occupado algumas vezes pelos senhores infantes. D. Alvaro

de Athayde, filho segundo da casa de Atouguia, e seu filho D. Pedro de

Athayde foram sentenciados por crime de lesa-magestade, cuja sentença

pela ausencia de D. Alvaro teve sómente a execução em D. Pedro que foi

morto, e esquartejado em Setubal: isto não obstante passou toda a casa

herdada por este ultimo de sua mãi a seu filho D. Fernando, o qual

fallecendo sem successão passaram os morgados a quem tocavam; mas os

bens da corôa foram dados a D. Antonio, filho do segundo matrimonio do

sobredito delinquente D. Alvaro, e este D. Antonio foi conde da

Castanheira, vedor da fazenda, e grande privado de el-rei D. João III, e

é por filhos e filhas avô da maior parte da nobreza d'esta côrte.

«Fernando da Silveira, escrivão da puridade de el-rei D. João II, filho

primogenito do barão de Alvito, foi culpado e sentenciado pelo mesmo

crime: fugiu para França aonde teve o atrevimento de escrever injuriosas

cartas a el-rei, foi morto n'este reino por ordem do mesmo soberano, a

quem tinha tão gravemente offendido, sendo o ministro da execução o

conde de Pallas, catalão; mas não obstante tudo isso, seu filho D. João

foi restabelecido, e como tal casou illustremente: foi commendador de

Montalvão, governador de Ceylão, trinchante d'el-rei D. João III, e seu

embaixador a França.

«D. Fernando de Menezes, terceiro filho do conde de Vianna, irmão do

conde de Loulé, foi culpado e justiçado pelo mesmo crime, e confiscados

os seus bens. Não consta que tivesse morgados; mas sabe-se que lhe

sobreviveram seus filhos dos quaes os dous primeiros casaram

illustremente e possuiram os bens da corôa que vagaram pelo delicto de

seu pai. D. Diogo, segundo filho d'este mesmo, deu principio á casa de

D. José de Menezes e o terceiro filho do dito criminoso seguia a vida

ecclesiastica; foi desembargador do paço, cujo emprego n'aquelle tempo

era occupado por fidalgos. O conde de Penamacor foi culpado no mesmo

crime, porém seu filho D. Garcia de Albuquerque foi restabelecido e teve

o lugar de copeiro-mór de el-rei D. João III.

«O conde de Faro, irmão do conde de Monte-Mór foi culpado do mesmo crime

de lesa-magestade, mas seu filho D. Sancho de Noronha foi restabelecido;

foi conde de Odemira, senhor de muitas terras e alcaide-mór de Extremoz.

«Martim de Castro do Rio foi culpado e esquartejado por crime de

lesa-magestade, porém seu filho Jorge Furtado de Mendonça foi

restabelecido, casou illustremente, teve maior estimação do que antes do

delicto tivera seu pai, e d'elle descenderam os viscondes de Barbacena.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 08 (de 12) · 第 1 / 4 段