Pois uma vi que o collo lhe prendia,
Como a dizer: «não falarás mais nada!»
Outra os braços na frente lhe cingia
Com tantas voltas e de tal maneira
Que elle fazer um gesto não podia.
Ah! Pistoia, por que n'uma fogueira
Não ardes tu, se a mais e mais impuros,
Teus filhos vão nessa mortal carreira?
Eu, em todos os circulos escuros
Do inferno, alma não vi tão rebellada,
Nem a que em Thebas resvalou dos muros.
E ele fugiu sem proferir mais nada.
Logo um centauro furioso assoma
A bradar: «Onde, aonde a alma damnada?»
Maremma não terá tamanha somma
De reptis quanta vi que lhe ouriçava
O dorso inteiro desde a humana coma.
Junto á nuca do monstro se elevava
De asas abertas um dragão que enchia
De fogo a quanto alli se approximava.
«Aquelle é Caco,--o Mestre me dizia,--
Que, sob as rochas do Aventino, ousado
Lagos de sangue tanta vez abria.
«Não vae de seus irmãos acompanhado
Porque roubou malicioso o armento
Que alli pascia na campanha ao lado,
«Hercules com a maça e golpes cento,
Sem lhe doer um decimo ao nefando,
Poz remate a tamanho atrevimento.»
Ele falava, e o outro foi andando.
No emtanto embaixo vinham para nós
Trez espiritos que só vimos quando
Atroára este grito: «Quem sois vós?»
Nisto a conversa nossa interrompendo
Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.
Eu não os conheci, mas succedendo,
Como outras vezes succeder é certo,
Que o nome de um estava outro dizendo,
«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que esperto
E attento fosse o Mestre em escutal-o,
Puz sobre a minha boca o dedo aberto.
Leitor, não maravilha que acceital-o
Ora te custe o que vás ter presente,
Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.
Eu contemplava, quando uma serpente
De seis pés temerosa se lhe atira
A um dos trez e o colhe de repente.
Co'os pés do meio o ventre lhe cingira,
Com os da frente os braços lhe peava,
E ambas as faces lhe mordeu com ira.
Os outros dous ás coxas lhe alongava,
E entre ellas insinua a cauda que ia
Tocar-lhes os rins e dura os apertava.
A hera não se enrosca nem se enfia
Pela arvore, como a horrivel féra
Ao peccador os membros envolvia.
Como se fossem derretida cera,
Um só vulto, uma côr iam tomando,
Quaes tinham sido nenhum delles era.
Tal o papel, se o fogo o vae queimando,
Antes de negro estar, e já depois
Que o branco perde, fusco vae ficando.
Os outros dous bradavam: «Ora pois,
Agnel, ai triste, que mudança é essa?
Olha que já não és nem um nem dous!»
Faziam ambas uma só cabeça,
E na unica face um rosto mixto,
Onde eram dous, a apparecer começa.
Dos quatro braços dous restavam, e isto,
Pernas, coxas e o mais ia mudado
N'um tal composto que jamais foi visto.
Todo o primeiro aspecto era acabado;
Dous e nenhum era a cruel figura,
E tal se foi a passo demorado.
Qual camaleão, que variar procura
De sebe ás horas em que o sol esquenta,
E correndo parece que fulgura,
Tal uma curta serpe se apresenta,
Para o ventre dos dous corre accendida,
Livida e côr de um bago de pimenta.
E essa parte por onde foi nutrida
Tenra creança antes que á luz saisse,
N'um delles morde, e cae toda estendida.
O ferido a encarou, mas nada disse;
Firme nos pés, apenas bocejava,
Qual se de febre ou somno alli caisse.
Frente a frente, um ao outro contemplava,
E á chaga de um, e á boca de outro, forte
Fumo saía e no ar se misturava.
Cale agora Lucano a triste morte
De Sabello e Nasidio, e attento esteja
Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.
Cale-se Ovidio e neste quadro veja
Que, se Arethusa em fonte nos ha posto
E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.
Pois duas naturezas rosto a rosto
Não transmudou, com que elas de repente
Trocassem a materia e o ser opposto.
Tal era o accordo entre ambas que a serpente
A cauda em duas caudas fez partidas,
E a alma os pés ajuntáva estreitamente.
Pernas e coxas vi-as tão unidas
Que nem leve sinal dava a juntura
De que tivessem sido divididas.
Imita a cauda bifida a figura
Que alli se perde, e a pele abranda, ao passo
Que a pelle do homem se tornava dura.
Em cada axilla vi entrar um braço,
A tempo que iam esticando á fera
Os dous pés que eram de tamanho escasso.
Os pés de traz a serpe os retorcêra
Até formarem-lhe a encoberta parte,
Que no infeliz em pés se convertêra.
Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte
A côr lhes muda e põe á serpe o vello
Que já da pelle do homem se lhe parte,
Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o
Aquelle torvo olhar com que ambos iam
A trocar entre si o rosto e a vel-o.
Ao que era em pé as carnes lhe fugiam
Para as fontes, e alli do que abundava
Duas orelhas de homem lhe saiam.
E o que de sobra ainda lhe ficava
O nariz lhe compõe e lhe perfaz
E o labio lhe engrossou quanto bastava.
A boca estende o que por terra jaz
E as orelhas recolhe na cabeça,
Bem como o caracol ás pontas faz.
A lingua, que era então de uma só peça,
E prestes a falar, fendida vi-a,
Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.
A alma, que assim tornado em serpe havia,
Pelo valle fugiu assobiando,
E esta lhe ia falando e lhe cuspia.
Logo a recente espadua lhe foi dando
E á outra disse: «Ora com Buoso mudo,
Rasteje, como eu vinha rastejando!»
Assim na cova setima vi tudo
Mudar e transmudar; a novidade
Me absolva o estylo desornado e rudo.
Mas que um tanto perdesse a claridade
Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,
Não fugiram com tanta brevidade,
Nem tão occultos, que eu não conhecesse
Puccio Sciancato, unica alli vinda
Alma que a fórma propria não perdesse;
O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.
A FELICIO DOS SANTOS
Felicio amigo, se eu disser que os annos
Passam correndo ou passam vagarosos,
Segundo são alegres ou penosos,
Tecidos de affeições ou desenganos,
«Philosophia é esta de rançosos!»
Dirás. Mas não ha outra entre os humanos.
Não se contam sorrisos pelos damnos,
Nem das tristezas desabrocham gozos.
Banal, confesso. O precioso e o raro
É, seja o céu nublado ou seja claro,
Tragam os tempos amargura ou gosto,
Não desdizer do mesmo velho amigo,
Ser com os teus o que elles são comtigo,
Ter um só coração, ter um só rosto.
MARIA
Maria, ha no seu gesto airoso e nobre,
Nos olhos meigos e no andar tão brando,
Um não sei quê suave que descobre,
Que lembra um grande passaro marchando.
Quero, ás vezes, pedir-lhe que desdobre
As azas, mas não peço, reparando
Que, desdobradas, podem ir voando
Leval-a ao tecto azul que a terra cobre.
E penso então, e digo então commigo:
«Ao céu, que vê passar todas as gentes
Bastem outros primores de valia.
«Passaro ou moça, fique o olhar amigo,
O nobre gesto e as graças excellentes
Da nossa cara e lepida Maria.»
A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS
Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flôres um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou tem assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mez
Das almas já ressequidas.
Os soes e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
CLODIA
Era Clodia a vergontea illustre e rara
De uma familia antiga. Tez morena,
Como a casca do pecego, deixava
Transparecer o sangue e a juventude.
Era a romana ardente e imperiosa
Que os écos fatigou de Roma inteira
Co'a narração das longas aventuras.
Nunca mais gentil fronte o sol da Italia
Amoroso beijou, nem mais gracioso
Corpo envolveram tunicas de Tyro.
Sombrios, como a morte, os olhos eram.
A vermelha botina em si guardava
Breve, divino pé. Humida boca,
Como a rosa que os zephyros convida,
Os beijos convidava. Era o modelo
Da luxuosa Lamia,--aquella moça
Que o marido esqueceu, e amou sem pejo
O musico Pollião. De mais, fazia
A illustre Clodia trabalhados versos;
A cabeça curvava pensativa
Sobre as tabellas núas; invocava
Do classico Parnaso as musas bellas,
E, se não mente linguaruda fama,
Davam-lhe inspiração vadias musas.
O ideal da matrona austera e fria,
Caseira e nada mais, esse acabava.
Bem hajas tu, patricia desligada
De preconceitos vãos, tu que presides
Ao festim dos rapazes, tu que estendes
Sobre verdes coxins airosas fórmas,
Enquanto o esposo, consultando os dados,
Perde risonho válidos sestereios...
E tu, viuva misera, deixada
Na flôr dos anos, merencoria e triste,
Que seria de ti, se o gozo e o luxo
Não te alegrassem a alma? Cedo esquece
A memoria de um obito. E bem hajas,
Discreto esposo, que morreste a tempo.
Perdes, bem sei, dos teus rivaes sem conta
Os custosos presentes, as ceiatas,
Os jantares opiparos. Comtudo,
Não verás cheia a casa de creanças
Loiras obras de artífices extranhos.
Baias recebe a celebrada moça
Entre festins e jubilos. Faltava
Ao pomposo jardim das lacias flôres
Esta rosa de Pœstum. Chega; é ella,
É ella, a amavel dona. O céu ostenta
A larga face azul, que o sol no occaso
Co'os frouxos raios desmaiado tinge.
Terno e brando abre o mar o espumeo seio;
Molles respiram virações do golpho.
Clodia chega. Tremei, moças amadas;
Ovelhinhas dos placidos idylios,
Roma vos manda esta faminta loba.
Prendei, prendei com vínculos de ferro,
Os voluveis amantes, que os não veja
Esta formosa Páris. Inventai-lhes
Um philtro protector, um philtro ardente,
Que o fogo leve aos corações rendidos,
E aos vossos pés eternamente os prenda;
Clodia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo,
Um requebro affrontar daquelles olhos
Ver-lhe o turgido seio, as mãos, o talhe,
O andar, a voz, ficar marmore frio
Ante as supplices graças? Menor pasmo
Fôra, se ao gladiador, em pleno circo,
A panthera africana os pés lambesse,
Ou se, á cauda de indomito cavallo,
Ovantes hostes arrastassem Cesar.
Coroados de rosas os convivas
Entram. Trajam com graça vestes novas
Tafues de Italia, finos e galhardos
Patricios da republica expirante,
E madamas faceiras. Vem entre elles
Celio, a flôr dos vadios, nobre moço,
E opulento, o que é mais. Ambicioso
Quer triumphar na classica tribuna
E honras aspira até do consulado.
Mais custoso lavor não vestem damas,
Nem aroma melhor do seio exhalam.
Tem na altivez do olhar sincero orgulho,
E certo que o merece. Entre os rapazes
Que á noite correm solitarias ruas,
Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam,
Nenhum como elle, com mais ternas falas,
Galanteou, vencendo, as raparigas.
Entra: pregam-se nelle cobiçosos
Olhos que amor venceu, que amor domina,
Olhos fieis ao férvido Catullo.
O poeta estremece. Brando e frio,
O marido de Clodia os olhos lança
Ao mancebo, e um sorriso complacente
A boca lhe abre. Imparcial na luta,
Vença Catullo ou Celio, ou vençam ambos.
Não se lhe oppõe o dono: o aresto acceita.
Vistes já como as ondas tumultuosas,
Uma após outra, vem morrer á praia,
E mal se rompe o espumeo seio áquella.
Já esta corre e expira? Tal no peito
Da calorosa Lesbia nascem, morrem
As voluveis paixões. Vestal do crime,
Dos amores vigia a chamma eterna,
Não a deixa apagar; prompto lhe lança
Oleo com que a alimente. Enrubescido
De ternura e desejo o rosto volve
Ao mancebo gentil. Baldado empenho!
Indifferente aos magicos encantos,
Celio contempla a moça. Olhar mais frio,
Ninguem deitou jamais a graças tantas.
Ella insiste; ele foge-lhe. Vexada,
A moça inclina languida a cabeça...
Tu nada vês, desapegado esposo,
Mas o amante vê tudo.
Clodia arranca
Uma rosa da fronte, e as folhas deita
Na taça que enche generoso vinho.
«Celio, um brinde aos amores!» diz, e entregalh'a.
O cortejado moço os olhos lança,
Não a Clodia, que a taça lhe offerece,
Mas a outra não menos afamada,
Dama de igual prosapia e eguaes campanhas,
E taça igual lhe acceita. Affronta é esta
Que á moça faz subir o sangue ás faces,
Aquelle sangue antigo, e raro, e illustre,
Que atravessou purissimo e sem mescla
A corrente dos tempos... Uma Clodia!
Tamanha injuria! Ai, não! mais que a vaidade,
Mais que o orgulho de raça, o que te peza,
O que te faz doer, viciosa dama,
É ver que um rival merece o zelo
Deste pimpão de amores e aventuras.
Pega na taça o nescio esposo e bebe,
Com o vinho, a vergonha. Sombra triste,
Sombra de occultas e profundas magoas,
Tolda a fronte ao poeta.
Os mais, alegres,
Vão ruminando a saborosa ceia;
Circúla o dito equivoco e chistoso,
Comentam-se os decretos do senado,
O molho mais da moda, os versos ultimos
De Catullo, os leões mandados de Africa
E as victorias de Cesar. O epigramma
Rasga a pelle ao caudilho triumphante;
Chama-lhe este: «O larapio endividado»,
Aquelle: «Venus calva», outro: «O bithynio...»
Opposição de ceias e jantares,
Que a marcha não impede ao crime e á gloria.
Sem liteira, nem lybicos escravos,
Clodia vae consultar armenio aruspice.
Quer saber se hade Celio amal-a um dia
Ou desprezal-a sempre. O armenio estava
Meditabundo, á luz escassa e incerta
De uma candeia etrusca; aos ombros delle
Decrepita coruja os olhos abre.
«Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala),
Se á tua inspiração é dado agora
Adivinhar as cousas do futuro,
Conta-me...» O resto expõe. Ergue-se o velho
Subito. Os olhos lança cobiçosos
Á fulgente moeda.--«Saber queres
Se te hade amar esse mancebo esquivo?»
--«Sim.»--Cochilava a um canto descuidada
A avezinha de Venus, branca pomba.
Lança mão della o aruspice, e de um golpe
Das entranhas lhe arranca o sangue e a vida.
Olhos fitos no velho a moça aguarda
A sentença da sorte; empallidece
Ou ri, conforme do ancião no rosto
Ocultas impressões vem debuxar-se.
«Bem haja Venus! a victoria é tua!
O coração da victima palpita
Inda que morto já...»
Não eram ditas
Estas palavras, entra um vulto... É elle?
És tu, cioso avante!
A voz lhes falta
Aos dous, contemplam-se ambos, interrogam-se;
Rompe afinal o lugubre silencio...
Quando o vate acabou, tinha nos braços
A namorada moça. Lacrimosa,
Tudo confessa. Tudo lhe perdôa
O desvairado amante. «Nuvem leve
Isto foi; deixa lá memorias tristes,
Erros que te perdoo; amemos, Lesbia;
A vida é nossa; é nossa a juventude.»
«Oh! tu és bom!»--«Não sei; amo e mais nada.
Foge o mal donde amor plantou seus lares.
Amar é ser do céu.» Supplices olhos
Que a dor humedecera e que umedecem
Lagrimas de ternura, os olhos buscam
Do poeta; um sorriso lhes responde,
E um beijo sella esta alliança nova.
Quem jamais construiu solida torre
Sobre a arêa voluvel? Poucos dias
Decorreram; viçosas esperanças
Subito renascidas, folha a folha,
Alastraram a terra. Ingrata e fria,
Lesbia esqueceu Catullo. Outro lhe pede
Premio á recente, abrasadora chamma;
Faz-se agora importuno o que era esquivo.
Victoria é della; o arúspice acertára.
VELHO FRAGMENTO
I
Reinava
Affonso VI. Da corôa em nome
Governava Alvarenga, incorruptivel
No serviço do rei, astuto e manso,
Alcaide-mór e protector das armas;
No mais, amigo deste povo infante,
Em cujo seio placido vivia
Até que uma revolta mysteriosa
Na cadeia o metteu. O douto Mustre
A vara de ouvidor nas mãos sustinha.
II
Que lance ha ahi, nessa comedia humana,
Em que não entrem moças? Descorada,
Como heroina de romance do hoje,
Alva, como as mais alvas deste mundo,
Tal, que disseras lhe negara o sangue
A madre natureza, Margarida
Tinha o suave, delicado aspecto
De uma santa de cêra, antes que a tinta
O matiz beatifico lhe ponha,
Era alta e fina, senhoril e bella,
Delicada e subtil. Nunca mais vivo
Transparecera em rosto de donzella
Vergonhoso pudor, agreste e rude,
Que até de uns simples olhos se offendia
E chegava a corar, se o pensamento
Lhe adivinhava anonymo suspiro
Ou remota ambição de amante ousado.
Era vel-a, ao domingo, caminhando
Á missa, co'os parentes o os escravos
A um de fundo, em grave e compassada
Procissão; era ver-lhe a compostura,
A devoção com que escutava o padre,
E no _agnus-dei_ levava a mão ao peito,
Mão que enchia do fogos e desejos
Dez ou doze amadores respeitosos
De suas graças, varios na figura,
Na posição, na edade e no juizo,
E que alli mesmo, á luz dos bentos cyrios
(Tão de longe vêm já os maus costumes)!
Ousavam inda suspirar por ella.
III
Entre esses figurava o moço Vasco.
Vasco, a flôr dos vadios da cidade,
Namorador dos adros das egrejas,
Taful de cavalhadas, consummado
Nas hippicas façanhas, era o nome
Que mais na baila andava. Moça havia
Que por elle trocara (erro do moça)!
O seu logar no céu; e este peccado,
Inda que todo interior e mudo,
Dous terços lhe custou de penitencia
Que o confessor lhe impoz. Era sabido
Que nas salas da casa do governo,
Certa noite, de magua desmaiaram
Duas damas rivaes, porque o magano
As cartas confundira do namoro.
Estas proezas taes, que o fertil vulgo
Com argumentos de casa encarecia,
E a bem lançada perna, e o luzidio
Dos sapatos, e as sedas e os velludos,
E o franco applauso de uns, e a inveja do outros,
O sceptro lhe doaram dos peraltas.
IV
E, comtudo, era em vão que á ingenua dama
A flôr do esquivo coração pedia;
Inuteis os suspiros lhe brotavam
Do intimo do peito; nem da esperta
Mucama,--natural complice amiga
Desta sorte de crimes,--lhe valiam
Os recados de boca;--nem as longas,
Maviosas lettras em papel bordado,
Atadas co'a symlolica fitinha
Cor de esperança,--e olhares derretidos,
Se a topava á janella,--raro evento,
Que o pae, varão de bolsa e qualidade,
Que repousava das fadigas longas
Havidas no mercado de africanos,
Era um typo de solidas virtudes
E muita experiencia. Poucas vezes
Ia á rua. Nas horas de fastio,
A jogar o gamão, ou recostado,
Com um vizinho, a tasquinar nos outros,
Sem trabalho maior, passava o tempo.
V
Ora, em certo domingo, houve luzida
Festa de cavalhadas e argolhinhas,
Com danças ao ar livre e outros folgares,
Recreios do bom tempo, infancia d'arte,
Que o progresso apagou, e nós trocamos
Por brincos mais da nossa juventude
E melhores de certo; tão ingenuos,
Tão simples, não. Vão longe aquellas festas,
Usos, costumes são que se perderam,
Como se hão perder os nossos de hoje,
Nesso rio caudal que tudo leva
Impetuoso ao vasto mar dos seculos.
VI
Abolada a cidade, quasi tanto
Como nos dias da solemne festa
Da grande acclamação, de que inda fallam
Com saudade os muchachos de outro tempo.
Varões agora do medida e peso,
Todo o povo deixara as casas suas.
Grato ensejo era aquelle! Resoluto
A correr desta vez uma argolinha,
O intrepido mancebo empunha a lança
Dos combates, na fronte um capacete
De longa, verde, fluctuante pluma,
Escancha-se no dorso de um cavallo
E armado vae para a festiva guerra.
Ia a passo o corcel, como ia a passo
Seu pensamento, certo da conquista,
Se ella visse o brilhante cavalleiro
Que, por amor daquelles bellos olhos,
Derrotar promettia na estacada
Um cento de rivaes. Subitamente
Vê apontar a rispida figura
Do rispido negreiro; a esposa o segue,
E logo atraz a suspirada moça,
Que lentamente e placida caminha
Com os olhos no chão. Corpilho a veste
De azul velludo; a manga arregaçada
Ate á doce curva, o braço amostra
Delicioso e nú. A indiana seda
Que a linda mão de moça arregaçava,
Com aquella sagaz indifferença
Que o demo ensina ás mais singelas damas,
A furto lhe mostrou, breve e apertado
No sapatinho fino, o mais gracioso,
O mais galante pé que inda ha nascido
Nestas terras:--tacão alto e forrado
De setim rubro lhe alteava o corpo,
E airoso modo lhe imprimia ao passo.
VII
Ao brioso corcel encurta as redeas
Vasco, e detem-se. A bella ia caminho
E iam com ella seus perdidos olhos,
Quando (visão terrivel)! a figura
Pallida e commovida lhe apparece
Do Freire, que, como elle namorado,
Contempla a dama, a suspirar por ella.
Era um varão distincto o honrado Freire,
Tabellião da terra, não mettido
Nas arengas do bairro. Pouco amante
Dessa gloria que tantas vezes fulge
Quando os mortaes merecedores della
Jazem no eterno pó, não se illustrara
Com actos de bravura ou de grandeza,
Nem cobiçara as distincções do mando.
Confidente supremo dos que á vida
Dizem o ultimo adeus, só lhe importava
Deitar em amplo in-folio as derradeiras
Vontades do homem, repartir co'a penna
Pingue ou magra fazenda, já cercada
De farejantes corvos,--grato emprego
A um coração philosopho, e remedio
Para matar as illusões no peito.
Certo, ver o usurario, que a riqueza
Obteve á custa dos vintens do proximo,
Comprar a eterna paz na eterna vida
Com biocos do posthumas virtudes;
Em torno delle contemplar anciados
Os que, durante longo-aridos annos,
De lisonjas e afagos o cercaram;
Depois alegres uns, sombrios outros,
Conforme foi silencioso ou grato
O abastado defuncto,--emprego é esse
Pouco adequado a jovens e a poetas.
VIII
Joven não era, nem poeta o Freire;
Tinha oito lustros e fallava em prosa.
Mas que és tu; mocidade? e tu, poesia?
Um auto de baptismo? quatro versos?
Ou brancas azas da sensivel pomba
Que arrulha em peito humano? Unico as perde
Quem o lume do amor nos seios d'alma
Apagar-se-lhe sente. A nevoa póde,
Qual turbante mourisco, a cumiada
Das montanhas cingir da nossa terra,
Que muito, se ao redor viceja ainda
Primavera immortal? Um dia, ao vel-a
De tantos requestada a esquiva moça,
Sente o Freire bater-lhe as adormidas
Azas do coração. Que não desdoura,
Antes lhe dá realce e lhe desvinca
A nobre fronte a um homem de justiça,
Como os outros mortaes, morrer de amores;
E amar e ser amado é, neste mundo,
A tarefa melhor da nossa especie,
Tão cheia de outras que não valem nada.
NO ALTO
O poeta chegára ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa extranha,
Uma figura má.
Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
N'um tom medroso e agreste
Pergunta o que será.
Como se perde no ar um som festivo e doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,
Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro estendeu-lhe a mão.
NOTAS
[Footnote 1: Os poetas classicos francezes usavão muito esta fórma a
que chamavão _triolet._ Depois do longo desuso, alguns poetas d'este
seculo resuscitarão o _triolet_, não desmerecendo dos antigos modelos.
Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez
seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e
não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu.]
[Footnote 2: Maximiliano, quando estava em Miramar, costumava retratar
photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato:
«_La marchesa de Miramar._»]
[Footnote 3: Perdoem-me estes versos em francez; e para que de todo em
todo não fique a pagina perdida aqui lhes dou a traducção que fez dos
meus versos, o talentoso poeta maranhense Joaquim Serra:
É um velho paiz, de luz e sombras,
Onde o dia traz pranto, e a noite a scisma;
Um paiz do orações e de blasphemia,
N'elle a crença na duvida se abysma.
Ahi, mal nasce a flôr, o verme a corta,
O mar é um escarcéo, e o sol sombrio;
Se a ventura n'um sonho transparece
A suffoca em seus braços o fastio.
Quando o amor, qual sphynge indecifravel
Ahi vai a bramir, perdido o sizo...
Ás vezes ri alegre, e outras vezes
É um triste soluço esse sorriso...
Vive-se n'esse e paiz com a mágoa e o riso;
Quem d'lle se ausentou treme e maldiz;
Mas ai, eu n'elle passo a mocidade,
Pois é meu coração esse paiz!]
[Footnote 4: Os poetas postos n'esta colecção são todos
contemporaneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith
Walter, distincta viajante que dizem conhecer profundamente a lingua
chineza, e que os traduziu em simples e corrente prosa.]
[Footnote 5: É do Sr. Antonio Feliciano de Castilho a traducção
d'esta odezinha, que deu lugar á composição do meu quadro. Foi
immediatamente á leitura da _Lyrica de Anacreonte_, que eu tive a idéa
de pôr em acção a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente sahida
das mãos do Sr. Castilho que mais parece original quo traducção. A
concha não vale a perola; mas o delicado da perola disfarçará o
grosseiro da concha.]
[Footnote 6: Simão de Vasconcellos não declara o nome da india, cuja
acção refere em sua _Chronica._
Achei que não foi o caso desta tamoya o unico em que tão galhardamente
se manifestou a fidelidade conjugal e christã. O padre Anchieta, na
carta escripta ao padre-mestre Laynez, a 16 de Abril de 1563, menciona o
exemplo de uma india, mulher de um colono, a qual, depois de lh'o
matarem os indios, caiu em poder destes, cujo Principal a quiz
violentar. Ella resistiu e desapareceu. Os indios fizeram correr a voz
de que se matára; Anchieta suppõe que elles mesmos lhe tiraram a vida.
Caso analogo é referido pelo padre João Daniel (_Thesouro descoberto
no Amazonas_, p. 2, cap. III); essa chamava-se Esperança e era da
aldêa de Cabu.]
[Footnote 7: A villa de S. Vicente.]
[Footnote 8: Tinham os indios a religião monetheista que a tradicção
lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Conto de Magalhães em seu
excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado
a palavra _Tupan_ nas tribus que frequentou, o ser admissivel a ideia de
tal deus, no estado rudimentar dos nossos aborigenes.