Calça o pé, melindroso e leve,

Como uma pluma,

De folha e flôr, de sol e neve,

Crystal e espuma;

E mergulha, como Leandro,

A fórma rara

No Pó, no Sena, em Guanabara

E no Scamandro;

Ouve a Tupan e escuta a Momo,

Sem controversia,

E tanto ama o trabalho, como

Adora a inercia;

Ora do fuste, ora da ogiva,

Sair parece;

Ora o Deus do occidente esquece

Pelo deus Siva;

Gosta do estrepito infinito,

Gosta das longas

Solidões em que se ouve o grito

Das arapongas;

E, se ama o lepido besouro,

Que zumbe, zumbe,

E a mariposa que succumbe

Na flamma de ouro,

Vagalumes e borboletas,

Da côr da chamma,

Roxas, brancas, rajadas, pretas,

Não menos ama

Os hippopotamos tranquillos,

E os elephantes,

E mais os bufalos nadantes

E os crocodilos,

Como as girafas e as pantheras,

Onças, condores,

Toda a casta de bestas feras

E voadores.

Se não sabes quem elle seja

Trepa de um salto,

Azul acima, onde mais alto

A aguia negreja;

Onde morre o clamor iniquo

Dos violentos,

Onde não chega o riso obliquo

Dos fraudulentos;

Então, olha de cima posto

Para o oceano,

Verás n'um longo rosto humano

Teu proprio rosto.

E has de rir, não do riso antigo,

Potente e largo,

Riso de eterno moço amigo,

Mas de outro amargo,

Como o riso de um deus enfermo

Que se aborrece

Da divindade, e que apetece

Tambem um termo...

MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna

De pompa, de fulgor, de movimento e lida,

Uma escala de luz, uma escala de vida

De sol á infima luzerna.

Ouço que a natureza,--a natureza externa,--

Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida

Feiticeira que ceva uma hydra de Lerna

Entre as flôres da bella Armida.

E comtudo, se fecho os olhos, e mergulho

Dentro em mim, vejo á luz de outro sol, outro abysmo

Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Róla a vida immortal e o eterno cataclismo,

E, como o outro, guarda em seu ambito enorme,

Um segredo que attrae, que desafia--e dorme.

O CORVO

(EDGAR POE)

Em certo dia, á hora, á hora

Da meia-noite que apavora,

Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De uma velha doutrina, agora morta,

Ia pensando, quando ouvi á porta

Do meu quarto um soar devagarinho,

E disse estas palavras taes:

«É alguem que me bate á porta de mansinho;

«Ha de ser isso e nada mais.»

Ah! bem me lembro! bem me lembro!

Era no glacial Dezembro;

Cada braza do lar sobre o chão reflectia

A sua ultima agonia.

Eu, ancioso pelo sol, buscava

Saccar d'aquelles livros que estudava

Repouso (em vão!) á dôr esmagadora

D'estas saudades immortaes

Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.

E que ninguem chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando

Das cortinas ia acordando

Dentro em meu coração um rumor não sabido,

Nunca por elle padecido.

Enfim, por aplacal-o aqui no peito,

Levantei-me de pronto, e: «Com effeito,

(Disse) é visita amiga e retardada

«Que bate a estas horas taes.

«É visita que pede á minha porta entrada:

«Ha de ser isso e nada mais.»

Minh'alma então sentiu-se forte;

Não mais vacillo e d'esta sorte

Fallo: «Imploro de vós,--ou senhor ou senhora,

«Me desculpeis tanta demora.

«Mas como eu, precisando de descanço,

«Já cochilava, e tão de manso e manso

«Batestes, não fui logo, prestemente,

«Certificar-me que ahi estaes.»

Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,

Sómente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,

Que me amedronta, que me assombra,

E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,

Mas o silencio amplo e calado,

Calado fica; a quietação quieta;

Só tu, palavra unica e dilecta,

Lenora, tu, como um suspiro escasso,

Da minha triste boca saes;

E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;

Foi isso apenas, nada mais.

Entro com alma incendiada.

Logo depois outra pancada

Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:

«Seguramente, há na janella

«Alguma cousa que sussurra. Abramos,

«Eia, fôra o temor, eia, vejamos

«A explicação do caso mysterioso

«D'essas duas pancadas taes.

«Devolvamos a paz ao coração medroso,

«Obra do vento e nada mais.»

Abro a janella, e de repente,

Vejo tumultuosamente

Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.

Não despendeu em cortezias

Um minuto, um instante. Tinha o aspecto

De um lord ou de uma lady. E pronto e recto,

Movendo no ar as suas negras alas,

Acima vôa dos portaes,

Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;

Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,

Naquella rigida postura,

Com o gesto severo,--o triste pensamento

Sorriu-me alli por um momento,

E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas

«Vens, embora a cabeça nua tragas,

«Sem topete, não és ave medrosa,

«Dize os teus nomes senhoriaes;

«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

Vendo que o psssaro entendia

A pergunta que lhe eu fazia,

Fico attonito, embora a resposta que dera

Difficilmente lha entendera.

Na verdade, jamais homem ha visto

Cousa na terra semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

N'um busto, acima dos portaes,

Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

Que este é seu nome: «Nunca mais.»

No emtanto, o corvo solitario

Não teve outro vocabulario,

Como se essa palavra escassa que alli disse

Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

Não chegou a mexer uma só pluma,

Até que eu murmurei: «Perdi outr'ora

Tantos amigos tão leaes!

Perderei tambem este em regressando a aurora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

Estremeço. A resposta ouvida

É tão exacta! é tão cabida!

«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia

«Que ele trouxe da convivencia

«De algum mestre infeliz e acabrunhado

«Que o implacavel destino ha castigado

«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,

«Que dos seus cantos usuaes

«Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga,

«Esse estribilho: «Nunca mais.»

Segunda vez, nesse momento,

Sorriu-me o triste pensamento;

Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;

E mergulhando no velludo

Da poltrona que eu mesmo alli trouxera

Achar procuro a lugubre quimera,

A alma, o sentido, o pavido segredo

Daquelas syllabas fataes,

Entender o que quiz dizer a ave do medo

Grasnando a phrase: «Nunca mais.»

Assim posto, devaneando,

Meditando, conjecturando,

Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,

Sentia o olhar que me abrazava.

Conjecturando fui, tranquillo a gosto,

Com a cabeça no macio encosto

Onde os raios da lampada cahiam,

Onde as tranças angelicaes

De outra cabeça outr'ora alli se desparziam,

E agora não se esparzem mais.

Suppuz então que o ar, mais denso,

Todo se enchia de um incenso,

Obra de seraphins que, pelo chão roçando

Do quarto, estavam meneando

Um ligeiro thuribulo invisivel;

E eu exclamei então: «Um Deus sensivel

«Manda repouso á dor que te devora

«D'estas saudades immortaes.

«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno

«Onde reside o mal eterno,

«Ou simplesmente naufrago escapado

«Venhas do temporal que te ha lançado

«N'esta casa onde o Horror, o Horror profundo

«Tem os seus lares triumphaes,

«Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!

«Por esse céu que além se estende,

«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,

«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a

«No Eden celeste a virgem que ella chora

«Nestes retiros sepulchraes,

«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta, ou o que quer que sejas!

«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!

«Regressa ao temporal, regressa

«Á tua noite, deixa-me commigo.

«Vae-te, não fique no meu casto abrigo

«Pluma que lembre essa mentira tua.

«Tira-me ao peito essas fataes

«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

E o corvo ahi fica; eil-o trepado

No branco marmore lavrado

Da antiga Pallas; ei-lo immutavel, ferrenho.

Parece, ao ver-lhe o duro cenho,

Um demonio sonhando. A luz cahida

Do lampião sobre a ave aborrecida

No chão espraia a triste sombra; e, fóra

D'aquelas linhas funeraes

Que fluctuam no chão, a minha alma que chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Venus Formosa, Venus fulgurava

No azul do céu da tarde que morria,

Quando á janella os braços encostava

Pallida Maria.

Ao ver o noivo pela rua umbrosa,

Os longos olhos avidos enfia,

E fica de repente côr de rosa

Pallida Maria.

Correndo vinha no cavallo baio,

Que ela de longe apenas distinguia,

Correndo vinha o noivo, como um raio...

Pallida Maria!

Trez dias são, trez dias são apenas,

Antes que chegue o suspirado dia,

Em que elles porão termo ás longas penas...

Pallida Maria!

De confusa, naquelle sobressalto,

Que a presença do amado lhe trazia,

Olhos accesos levantou ao alto

Pallida Maria.

E foi subindo, foi subindo acima

No azul do céu da tarde que morria,

A ver se achava uma sonora rima...

Pallida Maria!

Rima de amor, ou rima de ventura,

As mesmas são na escala da harmonia.

Pousa os olhos em Venus que fulgura

Pallida Maria.

E o coração, que de prazer lhe bate,

Acha no astro a fraterna melodia

Que á natureza inteira dá rebate...

Pallida Maria.

Maria pensa: «Tambem tu, decerto,

«Esperas ver, neste final do dia,

«Um noivo amado que cavalga perto,

«Pallida Maria?»

Isto dizendo, subito escutava

Um estrepito, um grito e vozeria,

E logo a frente em ancias inclinava

Pallida Maria.

Era o cavallo, rabido, arrastando

Pelas pedras o noivo que morria;

Maria o viu e desmaiou gritando...

Pallida Maria!

Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,

E a mesma noiva, semi-morta e fria,

Sobre elle as folhas do noivado espalha.

Pallida Maria!

Cruzam-se as mãos, na derradeira prece

Muda que o homem para cima envia,

Antes que desça á terra em que apodrece.

Pallida Maria!

Seis homens tomam do caixão fechado

E vão leval-o á cova que se abria;

Terra e cal e um responso recitado...

Pallida Maria

Quando, trez soes passados, rutilava

A mesma Venus, no morrer do dia,

Tristes olhos ao alto levantava

Pallida Maria.

E murmurou: «Tens a expressão do goivo,

«Tens a mesma roaz melancholia;

«Certamente perdeste o amor e o noivo,

«Pallida Maria?»

Venus, porém, Venus brilhante e bella,

Que nada ouvia, nada respondia,

Deixa rir ou chorar n'uma janela

Pallida Maria.

TO BE OR NOT TO BE

(SHAKESPEARE)

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso

É mais nobre a cerviz curvar aos golpes

Da ultrajosa fortuna, ou já lutando

Extenso mar vencer de acerbos males?

Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas,

Que as angustias extingue e á carne a herança

Da nossa dor eternamente acaba,

Sim, cabe ao homem suspirar por elle.

Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!

Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno,

Quando o lodo mortal despído houvermos,

Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre.

Essa a razão que os luctuosos dias

Alonga do infortunio. Quem do tempo

Soffrer quizera ultrajes e castigos,

Injurias da oppressão, baldões do orgulho,

Do mal prezado amor choradas maguas,

Das leis a inercia, dos mandões a affronta,

E o vão desdem que de rasteiras almas

O paciente merito recebe,

Quem, se na ponta da despida lamina

Lhe acenára o descanço? Quem ao pezo

De uma vida de enfados e miserias

Quereria gemer, se não sentira

Terror de alguma não sabida cousa

Que aguarda o homem para lá da morte,

Esse eterno paiz mysterioso

D'onde um viajor sequer ha regressado?

Este só pensamento enleia o homem;

Este nos leva a supportar as dores

Já sabidas de nós, em vez de abrirmos

Caminho aos males que o futuro esconde,

E a todos acovarda a consciencia.

Assim da reflexão á luz mortiça

A viva côr da decisão desmaia;

E o firme, essencial commettimento,

Que esta ideia abalou, desvia o curso,

Perde-se, até de acção perder o nome.

LINDOYA

Vem, vem das aguas, misera Moema,

Senta-te aqui. As vozes lastimosas

Troca pelas cantigas deleitosas,

Ao pé da doce e pallida Coema.

Vós, sombras de Iguassú e de Iracema,

Trazei nas mãos, trazei no collo as rosas

Que o amor desabrochou e fez viçosas

Nas laudas de um poema e outro poema.

Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta

De Lindoya, que a voz suave e forte

Do vate celebrou, a alegre festa.

Além do amavel, gracioso porte,

Vede o mimo, a ternura que lhe resta.

_Tanto inda é bella no seu rosto a morte!_

SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,

Na rua, ao sol de verão,

Envenenado morria

Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,

De um riso espurio e bufão,

Ventre e pernas sacudia

Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso

Passava, sem se deter,

Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,

Como se lhe désse gozo

Ver padecer.

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, azas de ouro e granada,

Filha da China ou do Indostão,

Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,

Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia

Refulgindo ao clarão do sol

E da lua,--melhor do que refulgiria

Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,

Um poleá lhe perguntou:

«Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,

Dize, quem foi que t'o ensinou?»

Então ella, voando, e revoando, disse:

--«Eu sou a vida, eu sou a flôr

«Das graças, o padrão da eterna meninice,

«E mais a gloria, e mais o amor.»

E elle deixou-se estar a contemplal-a, mudo,

E tranquillo, como um faquir,

Como alguem que ficou deslembrado de tudo,

Sem comparar, nem reflectir.

Entre as azas do insecto, a voltear no espaço,

Uma cousa lhe pareceu

Que surdia, com todo o resplendor de um paço

E viu um rosto, que era o seu.

Era elle, era um rei, o rei de Cachemira,

Que tinha sobre o collo nú

Um immenso collar de opala, e uma saphyra

Tirada do corpo de Vischnu.

Cem mulheres em flôr, cem nayras superfinas,

Aos pés delle, no liso chão,

Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,

E todo o amor que tem lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem ethiopes feios,

Com grandes leques de avestruz,

Refrescam-lhes de manso os aromados seios,

Voluptuosamente nus.

Vinha a gloria depois;--quatorze reis vencidos,

E enfim as páreas triumphaes

De trezentas nações, e os parabens unidos

Das coroas occidentaes.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto

Das mulheres e dos varões,

Como em agua que deixa o fundo descoberto,

Via limpos os corações.

Então elle, estende a mão callosa e tosca,

Affeita a só carpintejar,

Com um gesto pegou na fulgurante mosca,

Curioso de a examinar.

Quiz vel-a, quis saber a causa do mysterio.

E, fechando-a na mão, sorriu

De contente, ao pensar que alli tinha um imperio,

E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece

Que se houve nessa occupação

Miudamente, como um homem que quizesse

Dissecar a sua illusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ella,

Rota, baça, nojenta, vil,

Succumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquella

Visão fantastica e subtil.

Hoje, quando elle ahi vae, de aloé e cardamomo

Na cabeça, com ar taful,

Dizem que ensandeceu, e que não sabe como

Perdeu a sua mosca azul.

ANTONIO JOSE

(21 DE OUTUBRO DE 1739)

Antonio, a sapiencia da Escriptura

Clama que ha para a humana creatura

Tempo de rir e tempo de chorar,

Como ha um sol no ocaso, e outro na aurora.

Tu, sangue de Ephraim e de Issacar,

Pois que já riste, chora.

SPINOZA

Gosto de ver-te, grave e solitario,

Sob o fumo de esqualida candeia,

Nas mãos a ferramenta de operario,

E na cabeça a coruscante ideia.

E emquanto o pensamento delineia

Uma philosophia, o pão diario

A tua mão a labutar grangeia

E achas na independencia o teu salario.

Sôem cá fora agitações e lutas,

Sibille o bafo asperrimo do inverno,

Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sobrio, tranquillo, desvellado e terno,

A lei commum, e morres, e transmutas

O suado labor no premio eterno.

GONÇALVES CRESPO

Esta musa da patria, esta saudosa

Niobe dolorida,

Esquece acaso a vida,

Mas não esquece a morte gloriosa.

E pallida, e chorosa,

Ao Tejo vôa, onde no chão caida

Jaz aquella evadida

Lyra da nossa America viçosa.

Com ella torna, e, dividindo os ares,

Trepido, molle, doce movimento

Sente nas frouxas cordas singulares.

Não é a aza do vento,

Mas a sombra do filho, no momento

De entrar perpetuamente os patrios lares.

ALENCAR

Hão de annos volver,--não como as neves

De alheios climas, de geladas cores;

Hão de os annos volver, mas como as flôres,

Sobre o teu nome, vividos e leves...

Tu, cearense musa, que os amores

Meigos e tristes, rusticos e breves,

Da indiana escreveste,--ora os escreves

No volume dos patrios esplendores.

E ao tornar este sol, que te ha levado,

Já não acha a tristeza. Extincto é o dia

Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacavel e pausado,

Que o homem consumiu na terra fria,

Não consumiu o engenho, a flôr, o encanto...

CAMÕES

I

Tu quem és? Sou o seculo que passa.

Quem somos nós? A multidão fremente.

Que cantamos? A gloria resplendente.

De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou elle? A vossa mesma raça.

De que modo? Na lyra alta e potente.

A quem amou? A sua forte gente.

Que lhe deram? Penuria, ermo, desgraça.

Nobremente soffreu? Como homem forte.

Esta immensa oblação?... É-lhe devida.

Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A gloria appetecida.

Nós, que o cantamos?... Volvereis á morte.

Elle, que é morto?... Vive a eterna vida.

II

Quando, transposta a lugubre morada

Dos castigos, ascende o florentino

Á região onde o clarão divino

Enche de intensa luz a alma nublada,

A saudosa Beatriz, a antiga amada,

A mão lhe estende e guia o peregrino,

E aquelle olhar ethereo e cristallino

Rompe agora da palpebra sagrada.

Tu, que tambem o Purgatorio andaste,

Tu, que rompeste os circulos do Inferno,

Camões, se o teu amor fugir deixaste,

Ora o tens, como um guia alto e superno

Que a Natercia da vida que choraste

Chama-se Gloria e tem o amor eterno.

III

Quando, torcendo a chave mysteriosa

Que os cancellos fechava do Oriente,

O Gama abriu a nova terra ardente

Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma visão resplandecente

Lhe amostrou no futuro a sonorosa

Tuba, que cantaria a acção famosa

Aos ouvidos da própria e extranha gente.

E disse: «Se já n'outra, antiga edade,

«Troya bastou aos homens, ora quero

«Mostrar que é mais humana a humanidade.

«Pois não serás heroe de um canto fero,

«Mas vencerás o tempo e a immensidade

«Na voz de outro moderno e brando Homero.»

IV

Um dia, junto á foz de brando e amigo

Rio de extranhas gentes habitado,

Pelos mares asperrimos levado,

Salvaste o livro que viveu comtigo.

E esse que foi ás ondas arrancado,

Já livre agora do mortal perigo,

Serve de arca immortal, de eterno abrigo,

Não só a ti, mas ao teu berço amado.

Assim, um homem só, naquelle dia,

Naquelle escasso ponto do universo,

Lingua, historia, nação, armas, poesia,

Salva das frias mãos do tempo adverso.

E tudo aquillo agora o desafia.

E tão sublime preço cabe em verso.

1802-1885

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida,

Victor Hugo escreveu numa pagina forte

Estes nomes que vão galgando a eterna morte,

Isaias, a voz de bronze, alma sahida

Da coxa de David; Eschylo que a Orestes

E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes

Deu a nota immortal que abala e persuade,

E transmitte o terror, como excita a piedade;

Homero, que cantou a colera potente

De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas

Para gloria maior da sua amada gente,

E com elle Virgilio e as graças virgilianas;

Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro

Dos tyrannos, e o velho e grave florentino,

Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro,

Baixa humano ao inferno e regressa divino;

Logo após Calderon, e logo após Cervantes;

Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;

E, para coroar esses nomes vibrantes,

Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte,

Pega a Historia da penna e na pagina forte,

Para continuar a serie interrompida,

Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.

JOSÉ DE ANCHIETA

Esse que as vestes asperas cingia,

E a viva flôr da ardente juventude

Dentro do peito a todos escondia;

Que em paginas de areia vasta e rude

Os versos escrevia e encomendava

Á mente, como esforço de virtude;

Esse nos rios de Babel achava,

Jerusalem, os cantos primitivos,

E novamente aos ares os cantava.

Não procedia então como os captivos

De Syão, consumidos de saudade,

Velados de tristeza, e pensativos.

Os cantos de outro clima e de outra edade

Ensinava sorrindo ás novas gentes,

Pela lingua do amor e da piedade.

E iam caindo os versos excellentes

No abençoado chão, e iam caindo

Do mesmo modo as mysticas sementes.

Nas florestas os passaros, ouvindo

O nome de Jesus e os seus louvores,

Iam cantando o mesmo canto lindo.

Eram as notas como alheias flôres

Que verdejam no meio de verduras

De diversas origens e primores.

Anchieta, soltando as vozes puras,

Achas outra Syão neste hemispherio,

E a mesma fé e egual amor apuras.

Certo, ferindo as cordas do psalterio,

Unicamente contas divulgal-a

A palavra christã e o seu mysterio.

Trepar não cuidas a luzente escala

Que os heroes cabe e leva á clara esphera

Onde eterna se faz a humana fala.

Onde os tempos não são esta chimera

Que apenas brilha e logo se esvaece,

Como folhas de escassa primavera.

Onde nada se perde nem se esquece,

E no dorso dos seculos trazido

O nome de Anchieta resplandece

Ao vivo nome do Brasil unido.

SONETO DE NATAL

Um homem,--era aquella noite amiga,

Noite christã, berço do Nazareno,--

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lepida cantiga,

Quiz transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua edade antiga,

Naquella mesma velha noite amiga,

Noite christã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A penna não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

«Mudaria o Natal ou mudei eu?»

OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

(LA FONTAINE)

Mal que espalha o terror e que a ira celeste

Inventou para castigar

Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste,

Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia,

Veio entre os animaes lavrar;

E, se nem tudo succumbia,

Certo é que tudo adoecia.

Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,

Catava mais nenhum sustento.

Não havia manjar que o appetite abrisse,

Raposa ou lobo que saisse

Contra a presa innocente e mansa,

Rola que á rola não fugisse,

E onde amor falta, adeus, folgança!

O leão convocou uma assembléa e disse:

«Sócios meus, certamente este infortunio veio

A castigar-nos de peccados.

Que o mais culpado entre os culpados

Morra por applacar a colera divina.

Para a commum saúde esse é, talvez, o meio.

Em casos taes é de uso haver sacrificados;

Assim a historia nol-o ensina.

Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia,

Pesquizemos a consciencia.

Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão,

Devorei muita carneirada.

Em que é que me offendera? em nada.

E tive mesmo occasião

De comer egualmente o guarda da manada.

Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto.

Mas, assim como me accusei,

Bom é que cada um se accuse, de tal sorte

Que (devemos querel-o, e é de todo ponto

Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.»

«--Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei

Bom demais; é provar melindre exagerado.

Pois então devorar carneiros,

Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?

Não. Vós fizestes-lhes, senhor,

Em os comer, muito favor.

E no que toca aos pegureiros,

Toda a calamidade era bem merecida,

Pois são daquellas gentes taes

Que imaginaram ter posição mais subida

Que a de nós outros animaes.»

Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso.

Ninguem do tigre nem do urso,

Ninguem de outras iguaes senhorias do matto,

Inda entre os actos mais damninhos,

Ousava esmerilhar um acto;

E até os ultimos rafeiros,

Todos os bichos resingueiros,

Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.

Eis chega o burro:«--Tenho ideia que no prado

De um convento, indo eu a passar, e picado

Da occasião, da fome e do capim viçoso,

E póde ser que do tinhoso,

Um bocadinho lambisquei

Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.»

Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!»

Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade

Que era força immolar esse bicho nefando,

Empesteado autor de tal calamidade;

E o pecadilho foi julgado

Um attentado.

Pois comer erva alheia! ó crime abominando!

Era visto que só a morte

Poderia purgar um peccado tão duro.

E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte

Aulicos te farão detestavel ou puro.

DANTE

(PURGATORIO, canto XXV)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo

As mãos em figas, deste modo brada:

«Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

Poesias Completas · 第 8 / 10 段